Da Redação
A pressão direta de Donald Trump sobre as eleições de Honduras desencadeia uma crise diplomática e provoca forte reação do governo, que denuncia ingerência estrangeira e mobiliza setores sociais para defender a soberania nacional.
No dia 29 de novembro de 2025, a política hondurenha vive seu momento mais tenso desde o golpe de 2009. A poucos dias das eleições presidenciais, o país se tornou alvo de ataques diretos de Donald Trump, que tenta influenciar o pleito a favor de forças conservadoras alinhadas à sua agenda geopolítica. A interferência desencadeou forte reação do governo hondurenho, que denuncia tentativa de golpe midiático, ingerência estrangeira e pressão geopolítica para reconstruir o domínio histórico dos Estados Unidos na América Central.
A intervenção de Trump começou de forma explícita: o ex-presidente dos EUA declarou apoio público ao candidato de direita Nasry Asfura, apresentando-o como “opção para libertar Honduras do comunismo”. Ao mesmo tempo, tentou reabilitar politicamente o ex-presidente Juan Orlando Hernández — condenado nos EUA por narcotráfico — ao afirmar que pretende conceder perdão a ele assim que retornar à Casa Branca em janeiro de 2026. O gesto foi interpretado como tentativa de restaurar a velha elite conservadora hondurenha, historicamente alinhada a Washington.
O governo de Xiomara Castro reagiu de forma contundente. O Chancelaria hondurenha qualificou a fala de Trump como “intervenção inaceitável na soberania nacional” e alertou que a influência externa visa favorecer grupos associados à corrupção, ao narcotráfico e ao desmonte institucional vivido pelo país na década anterior. A declaração institucional foi seguida por manifestações populares em Tegucigalpa e San Pedro Sula, com milhares de pessoas denunciando um possível retorno da política de “intervenção imperial”. Cartazes com frases como “Honduras não é colônia” e “Trump fora das nossas eleições” se multiplicaram nas ruas.
A ofensiva americana não se limitou às declarações. Setores diplomáticos e militares dos EUA fizeram pressões veladas sobre o governo hondurenho, sugerindo cortes de cooperação, suspensão de programas de ajuda e até revisão de acordos bilaterais caso o processo eleitoral “não seja confiável”. Para analistas políticos centro-americanos, trata-se de uma tática clássica de coerção: criar instabilidade, desacreditar o processo eleitoral e fortalecer candidatos da elite conservadora com discurso de ordem e alinhamento internacional.
O histórico da política hondurenha amplia o clima de tensão. O país ainda carrega as feridas do golpe de 2009, apoiado por setores conservadores ligados a Washington, que interrompeu o governo de Manuel Zelaya. Além disso, Honduras foi por décadas ponto estratégico para operações militares dos EUA, com a base de Soto Cano servindo de plataforma para missões de vigilância, treinamento e influência política. Para o governo atual, é inaceitável que esse modelo volte a determinar o destino do país.
Do lado interno, a interferência de Trump provocou efeito inverso ao pretendido por Washington: setores populares e independentes, que estavam distantes do governo de Xiomara Castro, passaram a denunciar a ingerência estrangeira e a defender que Honduras decida seu futuro sem tutela externa. Grupos de camponeses, sindicatos, organizações de mulheres e movimentos urbanos organizaram assembleias e vigílias, afirmando que “a soberania não está em disputa eleitoral, mas em disputa geopolítica”.
Na elite hondurenha conservadora, porém, as falas de Trump foram celebradas. Líderes empresariais, setores religiosos e remanescentes do Partido Nacional viram nas declarações do ex-presidente dos EUA uma oportunidade para reorganizar forças e tentar voltar ao poder após anos de desgaste provocado por escândalos de corrupção associados ao narcotráfico. O discurso anticomunista, da mesma forma, tenta reativar velhas linhas de polarização da Guerra Fria, agora revestidas de guerra cultural e retórica de segurança.
A interferência externa também acendeu alertas na América Latina. Diversos analistas apontam que o movimento de Trump em Honduras faz parte de uma estratégia maior: reocupação geopolítica dos EUA na região, combate a governos de esquerda e fortalecimento de elites conservadoras alinhadas à sua política externa. Honduras, por sua fragilidade institucional e por sua localização estratégica, seria o alvo mais vulnerável dessa tática.
A presidente Xiomara Castro convocou reunião ampliada do Conselho Nacional de Defesa para discutir a situação e anunciou que denunciará a interferência nos organismos internacionais. O governo avalia que a pressão americana tenta criar ambiente de desconfiança, preparando terreno para contestação dos resultados caso o candidato conservador não vença. “Não permitiremos que Honduras seja usada como laboratório de desestabilização para a América Latina”, afirmou um comunicado oficial divulgado na noite anterior.
O clima eleitoral, já tenso, se tornou explosivo. A disputa deixou de ser apenas entre candidatos e projetos internos e passou a representar um embate entre soberania nacional e influência externa. As próximas 48 horas podem definir se Honduras reafirmará sua autonomia ou se entrará num ciclo de instabilidade prolongada. Para muitos hondurenhos, a interferência de Trump não é apenas um ataque político — é uma tentativa de reviver um passado de submissão que o país tenta superar há mais de uma década.
Com eleições marcadas para o final do mês, Honduras tornou-se epicentro da disputa entre o velho modelo de controle externo e a nova busca latino-americana por autonomia. E a reação do governo e da população deixa claro que, desta vez, a resistência é mais forte, mais consciente e mais politizada do que em qualquer outro momento recente da história do país.


