Da Redação
AfD vence pela segunda vez em duas semanas no território da antiga Alemanha Oriental, enquanto a CDU de Friedrich Merz sofre derrota histórica e fica fora do Parlamento de Mecklenburg-Vorpommern. Dados mostram que emprego e renda convergiram desde 1990, mas a riqueza média das famílias orientais ainda equivale a apenas 49% da registrada no Oeste. O resultado alimenta a interpretação de uma “revolta do Leste”, mas pesquisas indicam que desigualdade econômica, desconfiança nas instituições, imigração, identidade e consumo de mídia alternativa se combinam na explicação do fenômeno.
Trinta e seis anos depois da reunificação da Alemanha, o mapa eleitoral voltou a revelar uma fronteira que desapareceu oficialmente em 3 de outubro de 1990, mas nunca deixou completamente de existir na economia, na propriedade, na memória política e na percepção de milhões de alemães.
No domingo, 20 de setembro, a Alternativa para a Alemanha, AfD, terminou em primeiro lugar na eleição estadual de Mecklenburg-Vorpommern, no território da antiga República Democrática Alemã. O partido recebeu 38,2% dos votos, mais que o dobro dos 16,7% obtidos em 2021. O SPD da primeira-ministra Manuela Schwesig ficou logo atrás, com 35,5%. Die Linke alcançou 6,5% e os Verdes, 5,7%.
O resultado mais devastador, porém, pertenceu à CDU do chanceler Friedrich Merz.
Com 4,9%, o partido que governou a Alemanha durante grande parte de sua história do pós-guerra não alcançou a cláusula de 5% necessária para permanecer no Parlamento estadual. É a primeira vez na história da República Federal que a CDU fica fora de um legislativo estadual.
Merz não tentou suavizar o resultado. Chamou-o de “desastre”, mas afirmou que permanecerá como chanceler e presidente da CDU e tentará prosseguir com sua agenda de reformas econômicas, previdenciárias e de saúde. Até esta segunda-feira não havia movimento formal dentro do partido para afastá-lo.
A derrota seria grave isoladamente. O problema para o sistema político alemão é que ela não está isolada.
Duas semanas antes, a AfD havia conquistado 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, seu maior resultado em uma eleição estadual. Agora venceu também Mecklenburg-Vorpommern. Em Berlim, no mesmo domingo, a AfD chegou a 16,3%, praticamente duplicando sua votação anterior.
O mapa produzido pelas três eleições é muito mais complexo, entretanto, do que uma simples “guinada da Alemanha para a direita”.
Na própria Berlim ocorreu o movimento contrário.
Die Linke terminou em primeiro lugar com 25,7%, contra 18,8% da CDU, 16,3% da AfD, 14,3% dos Verdes e apenas 12,1% do SPD. A esquerda mais que dobrou sua votação em relação a 2023, impulsionada por uma campanha fortemente concentrada no preço dos aluguéis e na crise habitacional.
O que as urnas mostram com maior clareza é o enfraquecimento simultâneo dos partidos que durante décadas organizaram o centro político alemão.
CDU e SPD, as duas grandes máquinas da República Federal, governam juntas em Berlim sob Merz. Ambas perderam terreno nas eleições deste mês. Reuters descreveu os resultados como mais um sinal da erosão do centro político e do enfraquecimento da autoridade do chanceler.
É dentro desse cenário que surgiu uma interpretação mais ambiciosa sobre o que está acontecendo no Leste.
Um artigo de opinião publicado pela RT nesta segunda-feira, assinado pelo historiador Tarik Cyril Amar, apresenta as eleições como uma espécie de “vingança do Leste” e sustenta que a Alemanha estaria finalmente assistindo ao “fim da Alemanha Ocidental”. É uma interpretação política do autor, não uma constatação objetiva dos resultados eleitorais.
A provocação, entretanto, toca numa questão histórica real.
A reunificação alemã acabou com a RDA.
Mas até que ponto acabou com a Alemanha Ocidental?
A reunificação política foi muito mais rápida que a econômica
Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de 1989, duas sociedades construídas durante quatro décadas em sistemas econômicos, políticos e militares opostos precisaram ser reunidas em menos de um ano.
A República Federal da Alemanha estava integrada à economia capitalista ocidental, à Comunidade Europeia e à Otan.
A República Democrática Alemã pertencia ao sistema econômico socialista do Comecon e ao Pacto de Varsóvia.
Em 3 de outubro de 1990, os cinco estados orientais ingressaram na República Federal.
Juridicamente, portanto, não nasceu um terceiro Estado inteiramente novo construído conjuntamente por alemães orientais e ocidentais. A estrutura constitucional e institucional da Alemanha Ocidental foi estendida aos territórios da antiga RDA.
É esse processo que sustenta parte da interpretação da “vingança do Leste”.
Segundo o artigo publicado pela RT, a oportunidade de construir uma nova ordem comum teria sido substituída pela absorção do Leste pelas estruturas políticas, econômicas e culturais ocidentais. O autor interpreta a ascensão eleitoral da AfD como uma reação tardia de uma população que durante décadas teria sido tratada como cidadania de segunda classe.
Essa conclusão é discutível.
Mas a desigualdade material que lhe serve de ponto de partida pode ser medida.
E os números mostram uma Alemanha simultaneamente muito mais unificada do que em 1990 e ainda profundamente desigual.
Em 1991, trabalhadores em tempo integral nos estados orientais recebiam em média € 924 mensais, enquanto os trabalhadores do Oeste recebiam € 1.987 — mais que o dobro.
Em 2024, a distância havia diminuído radicalmente. A remuneração média mensal chegou a € 3.973 no Leste e € 4.810 no Oeste.
Mesmo depois de mais de três décadas de convergência, portanto, os salários ocidentais continuavam aproximadamente um quinto acima dos orientais.
Na produtividade ocorreu transformação semelhante.
Pesquisa do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, DIW, calcula que, em 1991, a produtividade média dos novos estados orientais equivalia a aproximadamente metade da média nacional. Hoje está próxima de 90%. O estudo observa ainda que parte crescente da diferença já pode ser explicada pela estrutura urbana: o Oeste possui mais grandes aglomerações econômicas, enquanto o Leste concentra regiões rurais.
Emprego também convergiu fortemente.
O enorme desemprego que acompanhou a desindustrialização oriental depois da reunificação praticamente deixou de constituir a antiga divisão estrutural entre as duas partes do país. A participação feminina no mercado de trabalho também se aproximou.
Se a história terminasse aí, seria difícil explicar por que a divisão política permanece tão visível.
O problema aparece quando se observa não apenas quanto os alemães recebem, mas quanto possuem.
O patrimônio das famílias do Leste ainda equivale à metade do Oeste
A diferença mais impressionante da Alemanha reunificada está na riqueza acumulada.
Dados referentes a 2023 mostram patrimônio líquido médio de aproximadamente € 125,5 mil por família no Leste, incluindo Berlim, contra € 257,1 mil no Oeste.
O patrimônio oriental corresponde, portanto, a apenas 49% do patrimônio médio ocidental.
A diferença é importante porque riqueza e renda não são a mesma coisa.
Dois trabalhadores podem receber salários relativamente próximos, mas viver em condições econômicas muito diferentes caso um tenha herdado casa, terreno, empresa ou patrimônio financeiro e o outro não.
Três décadas são suficientes para aproximar salários.
São muito menos eficientes para eliminar desigualdades patrimoniais acumuladas entre gerações.
A própria transformação da economia oriental depois de 1990 ajuda a explicar parte dessa diferença. Empresas estatais foram privatizadas ou fechadas, setores industriais desapareceram, milhões de pessoas migraram para o Oeste e grande parte das sedes das maiores corporações alemãs permaneceu nos antigos estados ocidentais.
O Leste também perdeu uma parcela importante de sua população economicamente ativa.
Reuters observa que migração para o Oeste, baixa natalidade e envelhecimento reduziram a força de trabalho oriental. Empresas localizadas no Leste investem atualmente cerca de 25% menos por trabalhador que as ocidentais, outro fator que limita a capacidade de convergência.
Essas diferenças não significam que o Leste tenha permanecido economicamente congelado desde a RDA.
A infraestrutura foi modernizada, cidades foram reconstruídas, produtividade cresceu, desemprego caiu e novas indústrias se instalaram na região. O próprio governo alemão reconhece os avanços, ao mesmo tempo em que admite a permanência de diferenças estruturais.
A contradição é justamente essa.
A Alemanha Oriental tornou-se muito mais rica desde 1990.
Mas continua mais pobre que a Alemanha Ocidental.
E uma parcela da população interpreta essa distância não apenas como diferença econômica, mas como falta de reconhecimento político.
A AfD encontrou no Leste algo que não criou
Reduzir o crescimento da AfD simplesmente à pobreza, entretanto, seria um erro.
Uma pesquisa acadêmica publicada em maio por pesquisadores da Freie Universität Berlin tentou separar diferentes explicações para a diferença eleitoral entre Leste e Oeste.
Utilizando dados representativos coletados no final de 2024, o estudo encontrou entre os alemães orientais menor renda, maior percepção de privação relativa, maior desconfiança nas instituições estatais, maior utilização de mídias políticas alternativas e presença mais forte de atitudes populistas e nativistas.
Mas o resultado mais interessante é justamente o que não explica sozinho a diferença.
Quando os pesquisadores analisaram simultaneamente os diferentes fatores, desigualdades socioeconômicas e variáveis psicológicas não foram suficientes para explicar a distância eleitoral entre Leste e Oeste.
Os fatores que mais contribuíram estatisticamente foram desconfiança política, consumo de mídias alternativas e atitudes populistas/nativistas. Os próprios autores alertam que o desenho transversal do estudo não permite estabelecer causalidade definitiva.
A conclusão ajuda a evitar duas simplificações opostas.
A primeira seria dizer que milhões de eleitores orientais votam na AfD simplesmente porque são economicamente abandonados.
A segunda seria tratar o voto como se não tivesse nenhuma relação com a história econômica e institucional da reunificação.
As duas dimensões convivem.
A AfD utiliza deliberadamente uma identidade política oriental. Slogans como “Der Osten steht auf” — “O Leste se levanta” — e “Wende 2.0” procuram relacionar o partido à memória da transformação de 1989-1990 e apresentar o atual sistema político como uma nova estrutura contra a qual seria necessária outra ruptura.
Isso não transforma a AfD num partido regional.
Ela foi fundada em 2013 no Oeste e busca votos em todo o país. Mas sua capacidade de converter ressentimentos orientais em identidade eleitoral tornou-se uma de suas principais vantagens políticas.
O resultado de Mecklenburg-Vorpommern mostra o tamanho dessa transformação.
Em 2021, a AfD possuía 16,7%.
Agora tem 38,2%.
A CDU possuía 13,3%.
Agora tem 4,9% e nenhum deputado estadual.
Não é necessário aceitar a expressão “vingança do Leste” para reconhecer que algo estrutural ocorreu.
Rússia é outra fronteira entre as duas Alemanhas
Há ainda uma diferença particularmente importante para a política externa alemã.
A população dos estados orientais tende a apresentar posições diferentes sobre a Rússia e a guerra na Ucrânia.
Mecklenburg-Vorpommern possui uma história econômica especialmente ligada à União Soviética e posteriormente à Rússia. Estaleiros, comércio e projetos energéticos construíram relações que sobreviveram ao desaparecimento da RDA.
Reportagem do Financial Times publicada antes da eleição encontrou justamente essa combinação de memória, interesses econômicos e rejeição à atual política externa alemã. Parte dos eleitores orientais demonstra menor percepção da Rússia como ameaça e maior resistência à confrontação adotada pelo governo federal. A AfD explora politicamente essa diferença e defende mudança na política de Berlim em relação a Moscou.
Isso não significa que antigos vínculos com a Rússia expliquem todos os votos na AfD.
Tampouco significa que os habitantes do Leste possuam posição uniforme sobre Vladimir Putin ou a guerra.
Mas cria uma divisão relevante justamente quando o governo Merz aumenta gastos militares, apoia a Ucrânia e coloca segurança europeia no centro de sua política externa.
As tensões internacionais, portanto, atravessam uma divisão doméstica anterior a elas.
O “muro” político continua de pé
Existe ainda um paradoxo decisivo.
A AfD pode vencer eleições e continuar fora do governo.
CDU, SPD, Verdes e Die Linke mantêm diferentes formas de rejeição à formação de coalizões com o partido. Essa política ficou conhecida como Brandmauer, a “barreira corta-fogo”.
Em Mecklenburg-Vorpommern, a AfD conquistou 32 dos 71 assentos. A maioria absoluta exige 36.
SPD, Die Linke e Verdes somam exatamente os deputados necessários para construir uma maioria sem o partido vencedor.
A AfD critica esse isolamento e argumenta que excluir o partido das coalizões desconsidera a vontade de seus eleitores.
Os demais partidos respondem que resultados eleitorais garantem representação parlamentar, mas não obrigam outras legendas a formar coalizão, e apontam divergências fundamentais com posições da AfD sobre imigração, União Europeia, Rússia e outras matérias.
O debate tende a se intensificar conforme a votação do partido cresce.
Quando uma legenda possui 10% ou 15%, isolá-la é aritmeticamente relativamente simples.
Quando chega a 38% ou 44%, a formação de qualquer governo alternativo exige coalizões cada vez mais amplas entre partidos que normalmente competiriam entre si.
É esse problema que começa a pressionar o sistema partidário alemão.
A chamada “vingança do Leste”, portanto, não consiste apenas no crescimento da AfD.
Consiste também em obrigar os partidos que construíram a Alemanha pós-1990 a reorganizar alianças para governar territórios onde perderam grande parte de sua antiga base social.
Mas Berlim mostrou que a revolta contra o centro pode ir também para a esquerda
O resultado da capital impede qualquer explicação linear sobre o futuro político alemão.
Enquanto Mecklenburg-Vorpommern colocou a AfD em primeiro lugar, Berlim entregou a vitória a Die Linke.
Os números oficiais são expressivos: a esquerda passou de 12,2% para 25,7%; a CDU caiu 9,5 pontos e terminou em 18,8%; a AfD cresceu 7,2 pontos e chegou a 16,3%; os Verdes recuaram para 14,3%; e o SPD registrou apenas 12,1%.
A campanha berlinense teve outro centro material: moradia.
A candidata Elif Eralp defendeu avançar na proposta de transferir grandes estoques habitacionais privados para controle público, retomando o referendo de 2021 em que 58% dos participantes apoiaram a socialização de grandes empresas imobiliárias. O mecanismo, seus custos e sua implementação continuam politicamente disputados.
A mesma Alemanha que produziu uma vitória de 38,2% para a AfD no Nordeste produziu, no mesmo dia, uma vitória de 25,7% para Die Linke em sua capital.
Há uma mensagem comum, mas ela não é ideologicamente uniforme.
O eleitorado está se afastando dos antigos polos centrais.
Reuters observa que AfD e Die Linke foram os grandes beneficiários das eleições enquanto CDU e SPD, justamente os partidos que formam o governo federal, perderam espaço.
É por isso que a crise de Merz é maior que uma derrota regional.
O chanceler chegou ao poder em maio de 2025 prometendo recuperar a economia e reduzir a força da AfD. Agora vê seu partido eliminado de um Parlamento estadual pela primeira vez na história enquanto a AfD acumula vitórias no antigo Leste.
A economia alemã também atravessa uma transformação difícil. O próprio governo reconheceu no início deste ano que o país vinha de dois anos de recessão seguidos por um ano de estagnação. Berlim projetava crescimento de 1% em 2026, mas identificava preços elevados de energia, custos trabalhistas, concorrência chinesa e deterioração das exportações como obstáculos estruturais.
Esses problemas são nacionais.
Mas chegam a uma região oriental que carrega sua própria experiência de desindustrialização, migração populacional e perda de centros empresariais.
É nesse ponto que a provocação da “vingança do Leste” encontra seu limite e, simultaneamente, sua utilidade.
Tomada literalmente, ela simplifica demais a Alemanha contemporânea. Não existe um único eleitor oriental, a AfD não representa toda a antiga RDA, e fatores econômicos não explicam isoladamente o crescimento da direita radical. O próprio resultado de 35,5% obtido pelo SPD em Mecklenburg-Vorpommern demonstra a existência de um eleitorado oriental profundamente dividido.
Mas a expressão aponta para uma questão que os resultados tornam difícil ignorar.
A reunificação eliminou a fronteira estatal em 1990.
Não eliminou imediatamente as diferenças de propriedade, riqueza, estrutura empresarial, memória histórica, relação com instituições e percepção de reconhecimento entre os dois lados.
Trinta e seis anos depois, o salário oriental se aproximou fortemente do ocidental. O desemprego convergiu. A produtividade avançou para perto da média nacional.
O patrimônio familiar, porém, continua aproximadamente pela metade.
E justamente nos territórios onde essa história foi vivida de maneira mais intensa, o sistema partidário construído pela antiga Alemanha Ocidental está sofrendo algumas de suas derrotas mais profundas.
Não é necessário concluir, como faz o artigo publicado pela RT, que chegou “o fim da Alemanha Ocidental”. Essa é uma interpretação política do autor, e os resultados disponíveis não demonstram por si mesmos uma transformação dessa magnitude.
O que as urnas permitem afirmar é mais concreto.
A promessa de que a divisão alemã terminaria simplesmente com a passagem do tempo não se confirmou integralmente.
O Muro desapareceu da paisagem de Berlim há quase quatro décadas.
Nas eleições de 2026, sua antiga geografia continua aparecendo no mapa político do país.






