Em ascensão nas pesquisas, Augusto Cury transforma sua autoridade terapêutica em capital eleitoral e desafia o campo democrático a enfrentá-lo sem alimentar sua narrativa de perseguição.
Por Reynaldo Aragon
Augusto Cury promete tratar no indivíduo as feridas produzidas pela sociedade e oferece conciliação, gestão emocional e empreendedorismo como cura para uma crise econômica, social e política. Enfrentá-lo exige repolitizar o sofrimento, disputar suas causas materiais e compreender um princípio decisivo da psicologia social: diante de um outsider, o ataque sem método pode ampliar sua mensagem, provocar solidariedade e converter o adversário em sua mais poderosa peça de campanha.
O crescimento que a esquerda pode ajudar a produzir
Augusto Cury deixou de ser uma curiosidade eleitoral. Na pesquisa Nexus/BTG divulgada em 31 de agosto, alcançou 11% das intenções de voto estimuladas e 8% na espontânea. A AtlasIntel também identificou seu avanço, embora em magnitude diferente. Pesquisas com metodologias distintas não devem ser mecanicamente somadas, mas sua convergência registra um fato político: Cury rompeu a barreira da irrelevância e passou a disputar atenção, expectativas e descontentamentos que ainda não haviam encontrado representação estável.
Os próprios números impedem conclusões apressadas. Entre seus eleitores no levantamento Nexus, 59% afirmam estar decididos, enquanto 39% admitem mudar de voto. Num eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, 46% escolheriam Flávio, 23% migrariam para Lula e 29% votariam em branco ou nulo. A amostra interna exige cautela estatística, mas revela uma inclinação nítida: Cury pode funcionar como reservatório eleitoral da direita. Isso não comprova acordo, candidatura auxiliar ou transferência automática. Mostra um contingente parcialmente móvel, atravessado pelo antipetismo, pela rejeição à polarização e pela procura de uma linguagem emocional para dores concretas.
O erro mais perigoso seria tratar esse eleitorado como um bloco fascista consolidado e transformar Cury, por meio de ataques incessantes, no adversário central da eleição. Curiosidade não é identidade política, mas pode tornar-se uma quando o eleitor percebe sua escolha como perseguida ou humilhada. O crescimento de Cury começa antes de Cury, numa sociedade materialmente ferida e subjetivamente exausta. A esquerda não pode oferecer-lhe aquilo que ele ainda não conquistou sozinho: centralidade absoluta, aparência de perseguição e uma comunidade organizada em torno da defesa de seu nome.
O terapeuta da nação
Cury não entra nessa disputa dizendo apenas que possui propostas melhores. Ele oferece algo mais poderoso: uma explicação moral e emocional para o próprio conflito político. O Brasil aparece em seu discurso como uma sociedade adoecida pela polarização, aprisionada em bolhas, incapaz de dialogar e intoxicada por radicalismos. A política deixa então de ser apresentada prioritariamente como disputa entre interesses, classes, projetos de desenvolvimento e concepções de Estado para aparecer como manifestação de uma espécie de descontrole coletivo. Seu próprio programa descreve a polarização como uma dinâmica emocional que contaminou famílias, escolas, universidades e igrejas e contrapõe a ela “maturidade emocional” e “inteligência política”.
É nesse deslocamento que sua candidatura ganha densidade. Cury não precisa se apresentar como líder autoritário nem como chefe providencial. A posição simbólica é mais sofisticada: ele se coloca como aquele que compreendeu a doença enquanto os demais permanecem presos a ela. O escritor, o psiquiatra e o educador emocional convergem na figura do candidato capaz de observar de fora uma sociedade que teria perdido a capacidade de pensar com equilíbrio. Não é apenas uma identidade profissional convertida em capital eleitoral. É uma arquitetura narrativa: se o problema fundamental do país é a incapacidade de administrar emoções, aquele que reivindica autoridade sobre o funcionamento da mente passa a ocupar, quase naturalmente, o lugar de intérprete da nação.
Pode-se chamar esse mecanismo de despolarização terapêutica. Conflitos historicamente produzidos passam a ser reorganizados numa gramática de equilíbrio, pacificação e amadurecimento. O próprio programa condensa essa operação ao afirmar que seu coração incorpora valores sociais associados à esquerda enquanto sua mente reconhece pilares econômicos e institucionais atribuídos à direita. A fórmula parece dissolver antagonismos pela inteligência: responsabilidade fiscal e liberdade econômica convivem com preocupação social; meritocracia, produtividade e empreendedorismo aparecem ao lado de proteção aos vulneráveis e saúde mental. Cury oferece menos uma superação demonstrada dessas contradições do que uma posição acima delas: quem continua escolhendo lados corre o risco de parecer emocionalmente prisioneiro de uma guerra que ele diz ter transcendido.
É também aí que sua aparência de equidistância começa a encontrar limites concretos. O candidato transformou o empreendedorismo em eixo estruturante de seu programa, propõe milhares de clubes destinados à formação de empreendedores e defende reformas institucionais profundas. Publicamente, afirmou que gostaria de ter Tarcísio de Freitas como primeiro-ministro num eventual sistema semipresidencialista; fez acenos a Pablo Marçal e agradeceu elogios de Silas Malafaia. Nada disso prova subordinação ao bolsonarismo nem autoriza inventar um pacto que não está documentado. Mas também impede que sua candidatura seja analisada como um objeto politicamente neutro, situado a igual distância de todos os campos.
O ponto mais importante está justamente na forma, e não no rótulo. Há nessa construção uma política tutelar: primeiro a sociedade é descrita como emocionalmente desorganizada; depois surge uma autoridade que reivindica capacidade singular para interpretar suas paixões, reconciliar seus antagonismos e conduzi-la à maturidade. O conflito social é rebaixado a ruído psicológico e a política reaparece como pedagogia administrada de cima para baixo. Classificar Cury simplesmente como fascista pouparia o trabalho de demonstrar o que realmente importa. Mais rigoroso é reconhecer uma direita terapêutica, empreendedorista e tutelar, suficientemente elástica para absorver demandas sociais, suficientemente antipolarização para parecer exterior à direita tradicional e suficientemente compatível com partes de seu programa e de seu ecossistema para abrir pontes com ela.
Essa é a força da operação: Cury não pede ao eleitor que se reconheça como de direita. Pede que se reconheça como alguém cansado de todos aqueles que ainda insistem em dizer que a política tem lados.
A cura que apaga a causa
O sofrimento sobre o qual Cury constrói sua candidatura é real. O problema está no destino político que ele dá a esse sofrimento. Ansiedade, exaustão, endividamento, precariedade, medo do desemprego, jornadas destrutivas e ausência de futuro não nascem espontaneamente dentro da cabeça das pessoas. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece pobreza, desigualdade, violência, insegurança econômica e condições de trabalho entre os determinantes sociais e estruturais da saúde mental. Ambientes marcados por sobrecarga, pouco controle sobre o trabalho, remuneração inadequada e insegurança ocupacional adoecem. A subjetividade não paira acima da vida material. Ela é atravessada por ela.
É precisamente nessa passagem entre estrutura e indivíduo que a política de Cury se torna mais perigosa. Seu discurso captura uma ferida produzida socialmente e a devolve ao sujeito como problema de administração de si. A exploração vira desequilíbrio. A insegurança vira medo a ser gerenciado. O esgotamento vira incapacidade de governar as próprias emoções. A ameaça do desemprego encontra sua saída exemplar no empreendedorismo. Se o trabalho desaparece, forme-se para criar o próprio trabalho. Se a sociedade não oferece segurança, aprenda a produzir individualmente sua segurança. Se o mundo é hostil, torne-se emocionalmente competente para suportá-lo. A estrutura que produz a angústia permanece quase intacta, enquanto o indivíduo recebe a responsabilidade de tornar-se suficientemente forte para sobreviver dentro dela.
Isso não é uma dedução abstrata. Cury propõe espalhar pelo país 10 mil clubes de empreendedorismo, inclusive em escolas, universidades e igrejas, criar mecanismos de crédito e financiar milhões de microempreendedores. Ao mesmo tempo, transforma sua própria teoria de gestão da mente em ativo político. Há aí uma contradição particularmente grave. Cinco psiquiatras ouvidos pela Folha, ligados a instituições como USP e Uerj, afirmaram não conhecer validação científica para a chamada Teoria da Inteligência Multifocal, criada por Cury e central em sua trajetória pública. Uma linguagem apresentada durante décadas sob a autoridade simbólica da psiquiatria atravessa agora a fronteira da autoajuda e ingressa diretamente numa disputa pelo poder de Estado.
É preciso chamar o mecanismo pelo nome: despolitização do sofrimento. Não porque Cury ignore absolutamente políticas públicas. Esse seria um argumento frágil e facilmente desmontável. O problema está em outro lugar. Sua narrativa desloca o centro de gravidade da transformação. A questão deixa de ser prioritariamente quem controla riqueza, trabalho, tempo, crédito, tecnologia e poder e passa a ser como cada sujeito administra emoções, desenvolve competências, empreende, se adapta e atravessa a adversidade. A literatura crítica sobre saúde mental chama atenção justamente para processos de responsabilização nos quais problemas produzidos por relações econômicas e institucionais são devolvidos às pessoas, famílias e comunidades como tarefas individuais de adaptação.
Essa operação não é politicamente inocente. Uma sociedade de trabalhadores vai sendo substituída, no imaginário, por uma coleção de indivíduos em permanente gerenciamento de si. O desempregado deixa de aparecer como resultado de determinada organização econômica e reaparece como empreendedor potencial. O exausto torna-se alguém que precisa aprender resiliência. O endividado precisa reorganizar comportamentos. O angustiado precisa dominar a própria mente. A violência da estrutura é preservada enquanto suas consequências são privatizadas dentro do indivíduo.
É aqui também que aparecem os traços mais inquietantes daquela política tutelar examinada anteriormente. Se a sociedade está emocionalmente enferma, se os antagonismos são sintomas de radicalização e se milhões de indivíduos não conseguem governar adequadamente a própria mente, abre-se espaço para aquele que reivindica saber interpretá-los, educá-los e conduzi-los. O conflito deixa de ser elemento legítimo da democracia e começa a adquirir aparência de patologia. O cidadão deixa de ser sujeito de interesses contraditórios e passa a ser objeto de uma pedagogia de pacificação. É nesse terreno que uma política aparentemente delicada pode adquirir uma estrutura profundamente autoritária. Ela não precisa mandar calar o conflito. Basta ensinar o conflito a sentir vergonha de existir.
Por isso seria um erro tratar a cultura da autoajuda presente nessa candidatura como extravagância inofensiva. O que está em jogo é a possibilidade de converter sofrimento coletivo em disciplina individual, antagonismo social em desequilíbrio emocional e política em administração psicológica da população. É uma gramática perfeitamente capaz de conviver com empreendedorismo radical, autoridade tutelar e setores da extrema direita justamente porque esvazia aquilo que poderia organizar resistência contra eles: consciência de interesses, identidade coletiva e conflito social legítimo.
O trabalhador exausto não precisa ser ensinado a suportar melhor aquilo que o exaure. O jovem sem perspectiva não precisa ser convencido de que sua liberdade começa quando consegue fabricar sozinho o emprego que lhe foi negado. Uma sociedade desigual não se torna justa porque seus habitantes aprenderam a respirar diante da desigualdade. Quando a política transforma a capacidade de suportar a ferida em projeto de emancipação, ela não cura o sofrimento. Ensina o ferido a conviver com quem produz a ferida.
A psicologia da armadilha
É aqui que Cury pode encontrar na própria esquerda um aliado involuntário. Uma candidatura construída sobre a promessa de pacificar uma sociedade supostamente intoxicada pela agressividade precisa de uma coisa para tornar sua narrativa crível: adversários que se comportem exatamente como os personagens que ela denuncia. Quanto mais a reação assume a forma de enxame, insulto, ridicularização e fúria moral, mais fácil se torna para o candidato apresentar o ataque não como consequência de suas posições políticas, mas como confirmação de seu diagnóstico sobre o país.
A psicologia chama de reatância a resistência produzida quando alguém percebe sua liberdade de escolha ameaçada. Metanálises recentes mostram que linguagens coercitivas e controladoras aumentam raiva, pensamentos contrários à mensagem e resistência à persuasão. Isso não significa que o eleitor automaticamente faça o oposto daquilo que lhe dizem. Significa algo mais importante: quando a tentativa de convencimento é percebida como imposição, o debate deixa de ser apenas sobre o candidato e passa a envolver a defesa da própria autonomia. Quem pretendia retirar um voto pode acabar oferecendo ao eleitor uma razão emocional para defendê-lo.
Com Cury, o risco é agravado pela posição de outsider que ele fabrica para si. O ataque indiscriminado pode permitir que uma candidatura com patrimônio, relações políticas, programa, interesses e alianças concretas se apresente como vítima solitária de um sistema apavorado com sua ascensão. A literatura contemporânea sobre populismo mostra como narrativas de vitimização podem produzir solidariedade, organizar identidades e transformar críticas externas em evidência interna de perseguição. O atacado deixa de precisar responder integralmente ao conteúdo da crítica porque pode deslocar a discussão para a violência de quem o critica.
Há ainda a economia brutal da atenção. Repetir o nome do adversário, compartilhar cada provocação, reagir a cada vídeo e transformar cada frase numa emergência política aumenta sua presença no ambiente informacional. Mas é preciso precisão: a ciência não autoriza afirmar que exposição produz voto automaticamente. Experimentos recentes encontraram limites importantes para a hipótese da mera exposição eleitoral. Familiaridade ajuda a tornar um nome cognitivamente disponível, mas não existe uma lei segundo a qual aparecer mais significa inevitavelmente crescer. O perigo está na combinação entre atenção, conflito e identidade. Quando milhões de interações passam a comunicar que determinado personagem é o centro da batalha, uma candidatura ainda em formação recebe gratuitamente aquilo que qualquer operação política procura produzir: relevância.
A própria literatura sobre campanhas negativas deveria servir de advertência. Décadas de estudos não demonstram que atacar seja, por si só, uma máquina confiável de conquistar votos. Há evidências de efeito reverso sobre quem ataca e, em disputas com três candidatos, experimentos encontraram situações nas quais a negatividade entre dois competidores beneficiou justamente o terceiro. Ataques pessoais também podem deteriorar a avaliação do atacante.
O problema, portanto, não é combater Cury. O problema é combatê-lo dentro do roteiro escrito por ele. Ridicularizar seus leitores, tratar seus eleitores como idiotas, transformar toda pessoa atraída por sua linguagem em fascista e responder compulsivamente a cada estímulo seria entregar à candidatura a matéria-prima de que ela necessita para consolidar uma comunidade defensiva.
A armadilha psicológica é esta: tentar desmascarar o terapeuta da nação comportando-se como a sociedade emocionalmente descontrolada que ele diz ter vindo curar.
Como enfrentá-lo sem fazê-lo crescer
Se o diagnóstico anterior estiver correto, enfrentar Cury exige algo mais difícil do que atacá-lo. Exige recusar o terreno em que ele é mais forte. Sua candidatura deseja transformar a eleição numa disputa entre serenidade e descontrole, maturidade e radicalismo, pacificação e conflito. Aceitar esse enquadramento significa começar perdendo. O confronto precisa acontecer em outro lugar: nas consequências materiais de seu programa, na consistência científica de suas afirmações, nas relações políticas que estabelece, na origem de seus recursos, nas alianças que constrói e, sobretudo, na concepção de sociedade escondida atrás da linguagem aparentemente desideologizada da saúde emocional.
Isso exige separar escrutínio de espetáculo. Nem cada vídeo merece resposta, nem cada frase merece manchete, nem cada provocação precisa ser carregada gratuitamente até milhões de pessoas que jamais a teriam encontrado. Uma candidatura que cresce pela atenção não deve receber atenção automática. Mas silêncio tampouco é estratégia. Quando houver afirmação falsa, contradição relevante ou fato de interesse público, a resposta precisa existir e precisa ser documental. A literatura contemporânea sobre desinformação derruba a crença confortável de que corrigir falsidades necessariamente as fortalece. Estudos experimentais mostram que correções e advertências podem reduzir crença e disposição para compartilhar informações falsas, inclusive entre pessoas desconfiadas de verificadores. O problema não é corrigir. É transformar a correção num espetáculo que reproduz mais intensamente a mentira do que a verdade que deveria substituí-la.
O mesmo princípio vale para a crítica política. Cury não deve ser combatido pela quantidade de indignação que consegue provocar, mas pela qualidade das perguntas que não consegue evitar. O que exatamente significa transformar empreendedorismo em política nacional diante de uma sociedade de trabalhadores precarizados? Qual é a evidência científica que sustenta os conceitos psicológicos apresentados ao público com autoridade médica? Quem ganha e quem perde com suas propostas econômicas? Que concepção de Estado emerge quando conflito social é tratado como enfermidade emocional? Como uma candidatura que proclama superar os polos se relaciona concretamente com personagens, ideias e estruturas de poder situados à direita? Essas perguntas retiram Cury do território confortável da personalidade e o devolvem ao território da política.
Há outra fronteira que não pode ser ultrapassada. Atacar quem lê Cury é trabalhar para Cury. Milhões de brasileiros chegaram à autoajuda, ao empreendedorismo e às linguagens de gestão emocional procurando instrumentos para sobreviver a uma sociedade que lhes oferece insegurança, solidão e pouco controle sobre o próprio destino. Desprezar essas pessoas significa confundir o mecanismo ideológico com aqueles sobre os quais ele opera. O sujeito que trabalha doze horas por dia e ainda procura aprender a administrar a ansiedade não é o inimigo. O objeto da crítica é uma política capaz de converter justamente essa necessidade legítima em argumento para manter ocultas as relações que produzem a ansiedade.
Também seria suicida transformar acusações frágeis em munição. Não existem evidências suficientes, até aqui, para afirmar pacto secreto, rede decisiva de robôs ou fraude responsável pelo crescimento eleitoral. Inventar certeza onde há apenas hipótese produziria duas derrotas de uma vez: destruiria credibilidade e entregaria ao candidato a prova perfeita para sua narrativa de perseguição. O caminho é mais duro porque exige investigação. Financiamento, impulsionamento, patrimônio, relações empresariais, circulação coordenada de conteúdo, eventuais contratos com influenciadores, uso de inteligência artificial e conexões políticas precisam ser examinados com método. Quando houver prova, publica-se a prova. Antes disso, suspeita continua sendo suspeita.
A resposta mais forte, portanto, não consiste em disputar quem grita mais alto. Consiste em desmontar a fantasia da neutralidade. Cury precisa ser obrigado pelo debate público a abandonar a confortável posição de terapeuta acima da política e responder como aquilo que decidiu ser: candidato à Presidência da República. Isso significa colocar diante dele escolhas concretas, interesses contraditórios, orçamento, trabalho, capital, direitos, distribuição de riqueza, poder das corporações, sistema financeiro, política externa, democracia e Estado. Toda vez que uma contradição material for dissolvida numa fórmula sobre equilíbrio emocional, a pergunta deve recolocá-la no chão.
Porque existe uma diferença brutal entre pacificar uma sociedade e despolitizá-la. Democracia não é ausência de conflito. Democracia é a construção de instituições capazes de permitir que interesses reais entrem em conflito sem que o adversário precise ser eliminado. Quando alguém apresenta o próprio antagonismo social como doença, o gesto aparentemente conciliador pode esconder uma operação muito mais profunda: retirar legitimidade de quem ainda precisa lutar.
Cury não deve receber o privilégio de permanecer acima da política. O enfrentamento democrático começa quando o terapeuta é retirado do púlpito e colocado diante das consequências concretas do projeto de poder que pretende governar o país.
Repolitizar o sofrimento
O crescimento de Cury revela uma sociedade que já não encontra facilmente palavras coletivas para nomear aquilo que sente. A dor permanece, mas sua causa se fragmenta. O medo vira ansiedade. A precariedade vira insegurança pessoal. A exploração vira dificuldade de adaptação. O conflito vira intolerância. E, quando a linguagem política recua, aparece alguém disposto a reorganizar essas feridas como problemas de gestão emocional.
É exatamente aí que o campo democrático não pode falhar.
A resposta não é ridicularizar quem procura alívio, nem desprezar quem lê autoajuda, empreende para sobreviver ou deseja paz depois de anos de brutalização política. A resposta é mais difícil e mais profunda: devolver causalidade ao sofrimento. Mostrar que saúde mental também depende de trabalho, renda, tempo, moradia, direitos, proteção social, vínculos e futuro. Mostrar que angústias individuais podem ter raízes coletivas e que nem toda ferida pode ser tratada dentro do indivíduo que a carrega.
Também é preciso defender algo que a retórica da pacificação frequentemente tenta tornar suspeito: o conflito. Democracias não adoecem porque existem interesses contraditórios. Adoecem quando alguns interesses adquirem poder suficiente para se apresentar como naturais e convencer os demais de que resistir a eles é sinal de desequilíbrio.
É por isso que a disputa em torno de Cury ultrapassa seu nome. O que está sendo oferecido ao país é uma forma de interpretar a crise. De um lado, a promessa de administrar emocionalmente seus sintomas. Do outro, a obrigação democrática de investigar suas causas, identificar interesses, organizar solidariedades e transformar aquilo que parece destino.
Augusto Cury promete ensinar uma sociedade ferida a suportar melhor as próprias feridas. A tarefa da democracia é impedir que o sofrimento seja transformado em disciplina e devolver às feridas aquilo que todo projeto de poder prefere esconder: suas causas, seus responsáveis e a força coletiva capaz de fazê-las desaparecer.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>

