Mônica Martins analisa as restrições impostas ao Fórum Social Mundial em Benim e destaca propostas para fortalecer as lutas feministas e a comunicação popular
Da Redação
Realizado em agosto na cidade de Cotonou, em Benim, o 17º Fórum Social Mundial enfrentou restrições governamentais antes de reunir movimentos sociais e organizações populares em torno da defesa dos recursos naturais, da soberania dos países e dos direitos sociais. Delegações foram impedidas de entrar no território beninense, caravanas encontraram barreiras nas fronteiras e o acesso ao campus da Universidade de Abomey-Calavi, previsto como principal sede do encontro, chegou a ser bloqueado.
Os acontecimentos e os resultados do Fórum foram analisados pela professora e doutora em Sociologia Mônica Martins durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, nesta terça-feira, 25 de agosto. Em conversa com o cientista político, radialista e mestre em Políticas Públicas Luiz Regadas, ela explicou a trajetória do encontro e afirmou que a edição realizada na África deverá modificar a organização dos próximos fóruns.
“O Fórum de Benim foi uma grande contribuição para as lutas populares do mundo inteiro. Eu acredito que os fóruns que virão daqui para a frente não serão mais os mesmos”, declarou.
Criado em Porto Alegre, em janeiro de 2001, o Fórum Social Mundial surgiu como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça. Enquanto o encontro europeu reúne representantes de grandes empresas, instituições financeiras e governos, o Fórum Social Mundial abriu espaço para movimentos populares, sindicatos, organizações feministas, ambientalistas, pesquisadores e defensores dos direitos humanos.
Mônica participou das três primeiras edições, realizadas em Porto Alegre, entre 2001 e 2003. Segundo ela, o orçamento participativo desenvolvido no Rio Grande do Sul foi uma das experiências políticas que influenciaram a criação do Fórum, ao demonstrar possibilidades de participação direta da população nas decisões sobre os recursos públicos.
“A ideia inicial era fazer um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, realizado com grandes empresários capitalistas e imperialistas em Davos. O Fórum Social Mundial nasce como uma alternativa e como um espaço de discussão sobre o que fazer com os recursos públicos e com o dinheiro da população”, explicou.
De Porto Alegre a Mumbai
A socióloga recordou que as primeiras edições tiveram presença predominantemente latino-americana, apesar da participação de organizações de outros continentes. Uma mudança significativa ocorreu em 2004, quando o encontro foi realizado em Mumbai, na Índia, reunindo cerca de 100 mil participantes.
Na avaliação de Mônica, a edição indiana ampliou a diversidade social, cultural e política do Fórum. Centenas de organizações locais participaram da preparação das atividades, levando ao encontro questões relacionadas às castas, à pobreza, às desigualdades de gênero, às minorias sexuais, às pessoas com deficiência e às populações que perdiam o acesso à terra, à água e às florestas.
O deslocamento para a Ásia alterou a composição do evento e permitiu maior presença de organizações africanas e asiáticas. A questão econômica permaneceu no centro das discussões, mas passou a ser abordada em relação direta com a sobrevivência de comunidades ameaçadas pela fome, pela expropriação dos territórios e pela destruição dos recursos naturais.
“O Fórum de Mumbai apresentou uma multiplicidade enorme de problemas. A questão já não era apenas econômica. Era a sobrevivência de populações que estavam perdendo o acesso à terra, à água e às florestas”, afirmou.
Restrições em Cotonou
A edição de 2026 estava prevista para ocorrer entre os dias 4 e 8 de agosto, com atividades organizadas em 15 eixos temáticos. A abertura, porém, foi comprometida pelas decisões do governo de Benim. A marcha inaugural foi cancelada, o acesso à universidade foi bloqueado e participantes estrangeiros foram impedidos de permanecer no país.
Segundo Mônica, a preparação havia mobilizado durante cerca de um ano organizações populares de diferentes regiões da África. Caravanas partiram de países da África Ocidental e Central em direção a Cotonou, levando representantes de movimentos ligados à defesa da água, da terra e das florestas.
Mesmo com o planejamento realizado em diálogo com autoridades locais, o governo decidiu restringir as atividades às vésperas da abertura. Para a professora, o episódio demonstrou como o fechamento de espaços democráticos pode ser acompanhado pela tentativa de criminalizar movimentos sociais.
“O que ficou muito claro nesse Fórum é que existe uma combinação entre o fechamento dos espaços democráticos e a criminalização das entidades populares. Para justificar a proibição do acesso à universidade e às ruas de Cotonou, tenta-se apresentar as organizações como terroristas ou antidemocráticas”, afirmou.
Delegações provenientes de países como Bélgica, França e Holanda estiveram entre as afetadas pelas restrições, de acordo com o relato da entrevistada. Algumas pessoas foram obrigadas a retornar aos países de origem, enquanto outras organizações suspenderam atividades presenciais ou procuraram transferi-las para o ambiente virtual.
Pressão internacional permite realização do encontro
A reação das organizações participantes começou ainda no dia 4 de agosto. Mais de uma centena de entidades passou a pressionar o governo de Benim para que o evento fosse autorizado. A mobilização internacional surtiu efeito e o Fórum iniciou suas atividades presenciais no dia 6, dois dias depois da data inicialmente prevista.
O atraso provocou perdas financeiras e políticas. Delegações já haviam sido deportadas, parte da programação precisou ser reorganizada e participantes que acompanhariam as discussões remotamente se dispersaram diante das incertezas.
Apesar desses prejuízos, Mônica considera que a resistência dos movimentos impediu o cancelamento integral do encontro. Para ela, a capacidade de reação também demonstrou a utilidade de uma articulação internacional construída ao longo dos 25 anos do Fórum Social Mundial.
“Houve uma mobilização mundial e uma resistência de quem estava em Benim e de quem estava fora. Mais de 100 entidades começaram a pressionar o governo. A resistência valeu a pena e o Fórum aconteceu”, destacou.
Recursos naturais e lutas populares
As discussões realizadas em Cotonou foram organizadas em torno da relação entre recursos naturais e lutas populares. Os debates abordaram a soberania sobre a terra, a água e as florestas, além das consequências das mudanças climáticas, da dívida dos países em desenvolvimento e da fragilização dos sistemas públicos de saúde.
A escolha de Benim também conferiu ao encontro um significado histórico. O território integrou o antigo Reino do Daomé e ocupa um lugar importante na memória do tráfico transatlântico de africanos escravizados. Porto-Novo, atual capital do país, e outras cidades da região mantêm vínculos culturais e familiares com o Brasil.
Mônica destacou a existência das comunidades conhecidas como agudás, formadas por descendentes de africanos escravizados no Brasil que retornaram à África. Para a professora, esses laços tornavam ainda mais necessária uma participação expressiva de organizações brasileiras na edição.
A presença do Brasil, entretanto, foi considerada reduzida pela entrevistada. Na avaliação de Mônica, o país não correspondeu ao papel desempenhado na criação e nas primeiras edições do Fórum, nem à intensidade de suas relações históricas com Benim.
“O Brasil não cumpriu o seu papel de organizador dos primeiros fóruns e realmente participou pouco. Nós temos uma relação histórica muito grande com Benim”, lamentou.
A dívida como instrumento de dependência
A crise da dívida dos países em desenvolvimento foi um dos assuntos discutidos no encontro. Mônica explicou que o pagamento de juros e compromissos financeiros retira recursos que poderiam ser aplicados em políticas públicas de saúde, educação, habitação e segurança.
Quando não conseguem financiar seus programas com recursos próprios, muitos países recorrem a empréstimos concedidos por instituições multilaterais, bancos internacionais ou outros governos. A dívida cresce, os juros se acumulam e os credores passam a exigir reformas fiscais, privatizações e cortes nos serviços públicos.
“A dívida faz uma sangria nos recursos que os países teriam para usar em políticas públicas. Ao capitalismo não interessa uma política pública voltada para as maiores necessidades da população. O interesse está na privatização desses recursos”, avaliou.
A professora ressaltou que o endividamento não pode ser compreendido apenas como uma operação financeira. As condições vinculadas aos empréstimos interferem nas decisões dos governos e podem favorecer a transferência de terras, petróleo, empresas públicas e outros ativos nacionais para grupos estrangeiros.
Ela citou a experiência da Grécia como um caso emblemático. Mesmo após a eleição de um governo de esquerda, o país sofreu forte pressão da União Europeia e de seus credores para cumprir programas de austeridade. A experiência demonstrou, segundo Mônica, os limites enfrentados por governos eleitos quando decisões centrais sobre orçamento e investimentos permanecem subordinadas aos interesses financeiros.
Em relação ao Brasil, a entrevistada defendeu um debate específico sobre a composição e os beneficiários da dívida pública. Ela ressaltou que o tema é complexo e não foi aprofundado no Fórum de Cotonou devido à pequena participação brasileira.
Vila das Mulheres
Entre as iniciativas destacadas pela professora está a criação da Vila das Mulheres, um espaço destinado ao encontro de militantes e organizações feministas. A proposta permitiu a realização de debates, a troca de experiências e a construção de alianças entre participantes de diferentes países.
Mônica considera que a experiência deverá ser mantida nas próximas edições do Fórum Social Mundial. O crescimento da violência contra as mulheres e a atuação de grupos políticos que questionam direitos femininos aumentam a necessidade de uma articulação internacional permanente.
“A Vila das Mulheres foi uma iniciativa inovadora, um espaço para trocas, construção de alianças e debates dedicado às militantes e às organizações feministas”, afirmou.
A professora relacionou a iniciativa ao avanço de discursos de extrema direita que procuram restringir a participação política feminina, relativizar a violência de gênero e devolver exclusivamente às famílias responsabilidades que também pertencem ao Estado, como a garantia da educação.
Para Mônica, opiniões abertamente contrárias aos direitos das mulheres passaram a circular com maior frequência nas redes sociais e em programas de comunicação. Esse ambiente amplia a importância de espaços nos quais organizações feministas possam formular respostas conjuntas e compartilhar formas de atuação.
Comunicação como campo de disputa
A comunicação apareceu como uma das principais preocupações do Fórum de Benim. Mônica destacou que movimentos sociais produzem conhecimentos sobre suas comunidades, seus territórios e suas experiências de organização, mas frequentemente não dispõem de meios para compartilhar esse material com públicos de outros países.
Uma das propostas debatidas foi a criação de uma rede internacional de comunicação alternativa, apoiada por tecnologias capazes de preservar e transmitir o patrimônio coletivo das lutas sociais. A rede permitiria conectar veículos comunitários, comunicadores populares, organizações sindicais e movimentos que hoje atuam de maneira dispersa.
“A comunicação hoje é um território de luta. Existe uma guerra midiática e a gente precisa travar essa batalha dentro dos meios de comunicação”, declarou.
Segundo a socióloga, essa rede não deveria limitar-se à divulgação de atividades institucionais. Seu papel seria disputar interpretações sobre a realidade e enfrentar valores políticos disseminados por setores conservadores em filmes, programas de televisão, emissoras de rádio, plataformas digitais e outras formas de expressão cultural.
Mônica chamou atenção para a maneira como a comunicação influencia a percepção que trabalhadores e populações empobrecidas desenvolvem sobre poder, segurança e ascensão social. Uma pessoa pode ser convencida de que a proximidade com indivíduos ricos melhorará sua própria condição, mesmo quando as políticas defendidas por esses grupos reduzem direitos sociais e investimentos públicos.
“Os movimentos sociais produzem conhecimento e saberes, mas esses conhecimentos não são comunicados e repartidos mundialmente. A rede deveria transmitir esse patrimônio coletivo e possibilitar que conseguíssemos transformar o imaginário político construído pela direita”, explicou.
Próximo Fórum deverá ocorrer na América Latina
Uma das decisões anunciadas ao final da edição foi a realização do próximo Fórum Social Mundial na América Latina. O país-sede ainda não foi escolhido, mas a definição reconhece a importância política da região diante das disputas eleitorais e das pressões externas sobre seus governos.
Mônica avaliou que a América Latina atravessa uma ofensiva de setores conservadores e uma intensificação das interferências dos Estados Unidos. Ela mencionou os processos políticos de países como El Salvador, Colômbia e Argentina, além das eleições brasileiras de outubro.
“O próximo Fórum Social Mundial será na América Latina. Ainda não se sabe em qual país, mas será aqui”, informou.
Na avaliação da professora, a experiência em Benim modificou a percepção do Conselho Internacional responsável pelo Fórum. As dificuldades enfrentadas em Cotonou demonstraram que o direito de reunião e organização não pode ser considerado garantido, mesmo quando há preparação prévia e diálogo com autoridades públicas.
“Eu acho que o olhar dos participantes e do comitê internacional mudou em Benim. Eles acordaram para uma realidade muito mais dura que estamos enfrentando”, disse.
Eleição brasileira e soberania
No encerramento da entrevista, Luiz Regadas perguntou à professora sobre a eleição brasileira marcada para 4 de outubro. Mônica afirmou que o resultado terá consequências para toda a América Latina e defendeu a participação eleitoral como instrumento de preservação da soberania nacional.
Para ela, o Brasil ocupa uma posição estratégica devido à extensão territorial, à importância econômica e à capacidade de interlocução internacional. Uma vitória de forças comprometidas com os direitos sociais pode funcionar como obstáculo ao avanço conservador na região.
“Eu aconselho todo mundo a pensar com muito carinho e muito cuidado que tipo de Brasil nós queremos. Queremos um Brasil livre, soberano, com casa, comida, moradia, saúde, educação e segurança para todos, ou queremos voltar a ser uma colônia das grandes potências?”, questionou.
Mônica considera que a eleição colocará em disputa projetos distintos de desenvolvimento e de inserção internacional. A escolha dos eleitores, segundo ela, deverá levar em conta a preservação das políticas públicas, a defesa dos recursos naturais e a capacidade do país de tomar decisões sem submissão a interesses externos.
“Eu acho que isso é o que está em jogo na eleição de 4 de outubro”, concluiu.
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