Filósofo Romero Venâncio analisa o avanço da extrema direita religiosa, o papel das plataformas digitais e os impactos da guerra cultural sobre a democracia brasileira
A relação entre religião, política, plataformas digitais e guerra cultural esteve no centro do debate promovido pelo programa Trilhas da Soberania, realizado na quarta-feira, 13 de maio de 2026, numa parceria entre o canal Código Aberto, a Rede Lawfare Nunca Mais e a Atitude Popular. O encontro teve como convidado o filósofo e pesquisador Romero Venâncio, referência nos estudos sobre extrema direita católica e redes digitais.
Apresentado por Heitor Aragon, com comentários de Ludmila Cindra e Reynaldo Aragon, o programa discutiu como setores religiosos conservadores passaram a utilizar as redes digitais como instrumentos de mobilização política, disputa cultural e formação ideológica.
Ao longo da conversa, Romero Venâncio sustentou que a extrema direita compreendeu antes da esquerda o potencial político das plataformas digitais. Segundo ele, a leitura equivocada de parte dos movimentos progressistas após 2013 permitiu que grupos conservadores ocupassem de forma sistemática os espaços digitais.
“A esquerda contrapôs rua e rede digital. Dizia: ‘saiam das redes e venham para as ruas’. A extrema direita ficou nas redes digitais e veio para as ruas.”
Professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe desde 1998, Romero possui formação em Teologia, Filosofia e Sociologia, além de uma longa trajetória de pesquisa sobre religião e cultura política contemporânea. Nos últimos anos, passou a concentrar seus estudos na atuação da extrema direita católica nas redes digitais.
Durante o programa, o pesquisador argumentou que o fenômeno não pode ser reduzido apenas ao campo religioso. Para ele, trata-se de uma reorganização mais ampla da disputa ideológica contemporânea, envolvendo plataformas digitais, monetização de conteúdo, influência algorítmica e produção de subjetividade política.
“Essas redes digitais não são apenas espaços de informação. São espaços de monetização, de formação política e de modulação da subjetividade.”
Romero destacou que a direita católica brasileira se estruturou rapidamente no ambiente digital após 2013, criando canais, editoras, plataformas de financiamento e influenciadores religiosos capazes de alcançar milhões de pessoas. Entre os exemplos citados por ele estão figuras como o padre Paulo Ricardo, o Centro Dom Bosco e o frei Gilson.
Segundo o pesquisador, o avanço dessas estruturas não ocorreu de forma improvisada. Ele apontou o papel de Olavo de Carvalho como articulador intelectual desse processo, especialmente ao aproximar conservadorismo religioso, guerra cultural e comunicação digital.
“Olavo de Carvalho foi um ponto comum entre a extrema direita católica e estruturas como o Brasil Paralelo. Ele percebeu cedo o potencial dessas redes.”
O debate também abordou a influência internacional desse novo conservadorismo religioso. Romero relacionou o crescimento da extrema direita brasileira à atuação de setores ultraconservadores dos Estados Unidos ligados ao fundamentalismo cristão, ao tecnolibertarianismo e ao uso político das plataformas digitais.
Foram citados nomes como Steve Bannon e Peter Thiel, apontados como formuladores de uma nova articulação entre tecnologia, religião e poder político global.
Para Reynaldo Aragon, a extrema direita percebeu antes da esquerda que as tecnologias digitais poderiam ser utilizadas como instrumentos permanentes de guerra cultural.
“Eles pegaram Gramsci e colocaram no século XXI. Entenderam que os algoritmos e as plataformas eram ferramentas de disputa ideológica.”
Outro eixo importante da conversa foi o fundamentalismo religioso e seus impactos sobre direitos humanos, democracia e relações sociais. Romero explicou que o fundamentalismo bíblico moderno nasce nos Estados Unidos como reação à teologia liberal e às transformações sociais trazidas pela modernidade.
Segundo ele, a leitura literal da Bíblia permitiu a consolidação de uma visão política marcada pelo patriarcalismo, pela intolerância e pela construção de inimigos internos.
“O fundamentalismo bíblico é um esteio ideológico para o feminicídio. Não estou dizendo que todo fundamentalista é feminicida. Estou dizendo que essa visão ajuda a fundamentar essa lógica.”
Ludmila Cindra relacionou o crescimento desse discurso às eleições de 2018 e ao fortalecimento de narrativas religiosas conservadoras no Brasil. Ela afirmou que setores da extrema direita passaram a utilizar símbolos religiosos para estimular discriminação contra mulheres, população LGBTQIA+ e movimentos sociais.
A pesquisadora também chamou atenção para a necessidade de reconstrução de vínculos humanos e comunitários como forma de enfrentamento da radicalização política.
“Existem muitas pessoas boas que adoeceram dentro dessas narrativas.”
Ao comentar o cenário internacional, Reynaldo Aragon destacou ainda o crescimento do chamado “sionismo cristão” e de setores religiosos alinhados à extrema direita global. Para ele, há uma transformação profunda na própria experiência religiosa contemporânea, cada vez mais mediada por algoritmos, aplicativos e sistemas de recomendação.
Romero Venâncio concordou que o fenômeno exige novas formas de análise e afirmou que as plataformas digitais se tornaram espaços centrais da disputa política contemporânea.
“A experiência religiosa entrou nas redes digitais pela direita. A esquerda religiosa chegou muito tarde.”
Apesar do diagnóstico crítico, o pesquisador evitou uma visão fatalista sobre as tecnologias digitais. Segundo ele, as redes também podem servir como espaços de diálogo, encontro e circulação de pensamento crítico.
“Essas redes não são apenas lugares de perdição. Elas também são espaços de reencontro, comunicação e construção coletiva.”
Ao final do programa, Romero defendeu maior articulação entre movimentos progressistas, pesquisadores, organizações populares e produtores de conteúdo independente diante do avanço da extrema direita digital.
“Essa discussão não deveria ser privilégio de três pessoas num canal. Isso deveria ser um projeto político, sindical e social da esquerda.”
O programa encerrou com um chamado à construção de redes de comunicação popular capazes de enfrentar a desinformação, a manipulação religiosa e a captura algorítmica da política contemporânea.
Referências
- A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne
- A violência e o Sagrado, de René Girard
- Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho
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