Analista afirma que os riscos ultrapassam a especulação financeira e envolvem controle da inovação, concentração de renda, dependência informacional e redução do poder dos Estados diante das big techs
Da Redação
A inteligência artificial pode estar no centro de uma bolha financeira alimentada por investimentos bilionários, crédito e promessas de rentabilidade ainda não comprovadas. Para Luís Mauro Filho, porém, limitar o debate à possibilidade de uma crise nos mercados impede a compreensão de transformações mais profundas na economia, na circulação de informações e no comportamento social.
A análise foi apresentada na segunda edição do programa Código do Poder, transmitido pelo Código Aberto e retransmitido pela Rádio e TV Atitude Popular, TV Travessia, Canal Satélite de Ideias e Pensando o Brasil e o Mundo. O debate reuniu Luís Mauro Filho, o jornalista e pesquisador Rey Aragon e o jornalista e advogado Luís Delcides.
“A gente tem outras bolhas acontecendo aqui”, afirmou Luís Mauro ao defender que a discussão ultrapasse o financiamento de chips e centros de processamento. Para ele, a inteligência artificial também rompe modelos anteriores de pesquisa, modifica o consumo de informação e interfere na maneira como as pessoas percebem a realidade.
O programa discutiu ainda os impactos da automação sobre o trabalho, a disputa por minerais estratégicos, os recursos naturais exigidos pelos data centers e o risco de um eventual colapso financeiro entregar a infraestrutura tecnológica a um grupo ainda menor de empresas.
Tecnologia antiga em uma escala inédita
Luís Mauro contestou a impressão de que a inteligência artificial teria surgido recentemente como uma tecnologia inteiramente nova. Sistemas baseados em modelos computacionais são pesquisados e utilizados há décadas. A mudança atual está na escala alcançada pelas ferramentas generativas e na possibilidade de acesso direto por milhões de usuários.
“A inteligência artificial não é exatamente inovadora no sentido daquilo que propõe. O que parece é que ela chegou a um nível de desenvolvimento e de escalabilidade para o público que muda a forma como consumimos informação e nos relacionamos com a internet”, afirmou.
Antes da popularização do ChatGPT, DeepSeek, Gemini e outras ferramentas, algoritmos já eram utilizados em mecanismos de busca, sistemas financeiros, publicidade digital, reconhecimento facial, recomendações de conteúdo e monitoramento de usuários. A inteligência artificial generativa tornou essa presença mais perceptível ao permitir que qualquer pessoa produzisse textos, imagens e respostas por meio de comandos.
Para Luís Mauro, a disponibilidade das ferramentas não deve ser confundida com uma ruptura surgida sem antecedentes. A atual fase resulta de décadas de pesquisa, investimentos públicos e privados e expansão da infraestrutura computacional.
Esse processo também alterou a dinâmica das buscas. Em vez de consultar diferentes páginas e organizar as informações encontradas, o usuário pode receber uma resposta sintetizada em poucos segundos. A mudança afeta o modelo econômico de empresas que dominaram a pesquisa na internet e redefine os caminhos pelos quais o conhecimento chega ao público.
A narrativa de salvação tecnológica
Luís Mauro chamou atenção para a maneira como a inteligência artificial é apresentada pelos grandes meios de comunicação e pelas empresas do setor, especialmente no Ocidente. O discurso frequentemente atribui às ferramentas uma capacidade quase ilimitada de solucionar problemas econômicos e sociais.
“A narrativa aparece como uma coisa que vem para salvar ou mudar absolutamente o paradigma da sociedade. Normalmente, quando isso é apresentado dessa maneira, não se confirma”, avaliou.
Ele ponderou que reconhecer o exagero das promessas não significa considerar a tecnologia uma fraude. A inteligência artificial já realiza tarefas relevantes e modifica setores produtivos. O problema surge quando suas possibilidades são apresentadas sem considerar os interesses econômicos, as limitações e as consequências sociais.
Para o analista, a discussão precisa permanecer entre dois extremos. Um deles consiste em acreditar que a inteligência artificial resolverá todos os problemas. O outro é esperar que a tecnologia desapareça ou que seu fracasso devolva a sociedade a uma situação anterior.
A questão central passa por identificar quais relações econômicas são modificadas, quem controla a inovação e como os benefícios serão distribuídos. A inteligência artificial pode ampliar capacidades científicas e produtivas, mas também pode reforçar desigualdades já existentes.
Uma bolha que não é apenas financeira
Rey Aragon explicou que a possível bolha financeira está na distância entre o investimento realizado e a receita que a inteligência artificial consegue produzir. Os modelos precisam de chips, servidores, data centers e energia. Como a infraestrutura exige valores muito elevados, as empresas recorrem ao crédito e acumulam dívidas.
A utilidade da tecnologia não garante que o fluxo de caixa será suficiente para remunerar todo o capital mobilizado. Uma tecnologia real pode se tornar objeto de especulação quando as expectativas crescem mais rapidamente do que sua capacidade de gerar retorno.
“A bolha não está necessariamente na existência da tecnologia, mas na especulação construída ao redor dela. São avaliações extraordinárias, investimentos gigantescos, endividamento crescente e promessas de retorno que podem não se confirmar”, explicou Rey.
Luís Mauro ampliou essa interpretação ao falar em diferentes bolhas. Além do mercado financeiro, a inteligência artificial afeta a concorrência, os modelos de circulação de informações e os hábitos dos usuários.
“Quando se procura informação sobre a bolha da inteligência artificial, aparece principalmente o caso financeiro. Mas existem outras bolhas que mudam a concorrência e superam modelos estabelecidos de busca e consumo de informação”, afirmou.
Ferramentas capazes de produzir respostas diretas desafiam mecanismos tradicionais de pesquisa, portais e plataformas digitais. A concentração pode aumentar caso poucas empresas passem a controlar ao mesmo tempo os modelos, as fontes utilizadas, a infraestrutura e os canais de distribuição.
Quem controla a inovação controla o resultado
Uma das principais contribuições de Luís Mauro ao debate foi sua análise sobre a relação entre inovação e concentração de capital. Ele recuperou o conceito de destruição criativa, utilizado para descrever processos nos quais novos produtos e empresas substituem estruturas anteriores.
Em tese, a inovação permitiria a reorganização do mercado e o surgimento de novos agentes. O problema aparece quando a transformação é planejada pelas mesmas empresas que já controlam o financiamento e os meios de produção.
“Quando essa destruição é calculada e planejada pelos detentores dos meios de produção, ela quebra todo o sistema e todo o jogo”, afirmou.
Nesse cenário, o capital não é redistribuído em favor de quem desenvolveu uma solução mais eficiente. Ele permanece nas mãos dos grupos capazes de decidir quais inovações receberão investimentos, quais empresas terão acesso aos chips e quais projetos conseguirão utilizar grandes centros de processamento.
“O jogo passa a ficar apenas nas mãos de quem controla a inovação. O resultado é uma retenção maior do capital por quem produz e por quem financia essa produção, como fundos de investimento e bancos”, explicou.
A consequência seria o aumento da desigualdade entre as classes e entre os países. Empresas de inteligência artificial precisam de uma infraestrutura de custo elevado, mas podem funcionar com um número proporcionalmente menor de trabalhadores.
Luís Mauro comparou essa estrutura com o modelo industrial do século XX. Montadoras dependiam de grandes contingentes de operários em cidades como São Bernardo do Campo e Betim. As empresas tecnológicas mais valiosas da atualidade concentram patrimônio e capacidade produtiva com equipes menores.
“Vamos ter uma concentração de renda cada vez maior nas mãos de menos pessoas, inclusive porque essas empresas dependem de menos força de trabalho em termos numéricos”, alertou.
A contradição entre o neoliberalismo e as big techs
Luís Mauro também questionou a promessa neoliberal de que a diminuição do Estado e a ampliação do poder das empresas produziriam mercados mais eficientes e equilibrados.
Para ele, a experiência com as big techs demonstra o movimento contrário. Empresas que controlam plataformas, publicidade, dados e infraestrutura digital acumulam poder suficiente para dificultar a própria regulamentação.
“Essa relação com as big techs é muito pouco condizente com o ideal neoliberal de que um Estado menor e mais poder para as empresas produziriam um mundo melhor regulado e mais otimizado”, afirmou.
O analista observou que a possibilidade de as corporações se tornarem maiores do que a capacidade regulatória dos Estados já aparece como preocupação em produções culturais e debates públicos nos Estados Unidos.
A inteligência artificial amplia o problema porque depende de recursos concentrados. Poucas empresas possuem capital para adquirir processadores em grande quantidade, treinar modelos complexos e manter centros de processamento em diferentes países.
O poder não está somente no aplicativo utilizado pelo usuário. Ele se encontra também na propriedade dos servidores, dos bancos de dados, dos modelos e dos componentes físicos necessários ao funcionamento do sistema.
A nuvem possui peso, endereço e proprietário
O programa questionou a imagem abstrata da “nuvem”. Rey destacou que os serviços digitais dependem de uma base material composta por chips, servidores, energia, água, minerais e trabalho humano.
“Essa ideia de nuvem é uma ideia fofa para algo extremamente material. A nuvem não está no céu. Ela ocupa terra, consome recursos e depende de infraestrutura física”, afirmou.
Luís Mauro relatou que percebeu essa materialidade ao montar um servidor doméstico para armazenar documentos, filmes e outros arquivos sem depender dos serviços pagos de empresas como o Google.
“É de fato um computador onde você coloca as suas coisas e ao qual pode ter acesso remoto. Você apenas paga uma empresa para fazer isso por você. É muito menos etéreo do que a narrativa sugere”, explicou.
A experiência ajuda a mostrar que os arquivos digitais permanecem em equipamentos instalados em algum território. Esses computadores precisam funcionar continuamente, ser refrigerados e protegidos. Quanto maior o serviço, maior a demanda por eletricidade, água e terrenos.
A localização dos centros de processamento se transforma, assim, em uma decisão econômica e política. Um país pode fornecer recursos naturais e incentivos públicos, enquanto a propriedade da tecnologia e os lucros permanecem no exterior.
Minerais estratégicos exigem regulamentação
Luís Mauro relacionou a expansão da inteligência artificial à exploração de minerais essenciais para a indústria eletrônica. Ele citou negociações envolvendo áreas de mineração em Goiás e chamou atenção para a presença de empresas estrangeiras na cadeia das terras raras.
Na avaliação do analista, a instalação de data centers e a extração de minerais não podem avançar sem uma política nacional capaz de definir contrapartidas e proteger os interesses brasileiros.
“Essas duas pontas, tanto a implementação dos data centers quanto a exploração da matéria-prima que o Brasil possui em abundância, terão que passar por uma regulamentação”, defendeu.
Ele acrescentou que um novo governo do Presidente Lula precisará enfrentar pressões econômicas e geopolíticas para impedir que o país se limite ao fornecimento de recursos.
A soberania tecnológica depende da capacidade de produzir conhecimento, formar pesquisadores e desenvolver empresas nacionais. Sem essas condições, o Brasil pode exportar matérias-primas e oferecer água e energia sem participar das etapas mais rentáveis da cadeia.
Rey complementou a análise ao afirmar que interesses estadunidenses já atuam sobre a extração e a comercialização dos minerais críticos. Para ele, discutir apenas a propriedade formal das reservas é insuficiente quando empresas estrangeiras controlam outras etapas da produção.
Trabalho automatizado e renda concentrada
Os participantes também discutiram os efeitos sobre o trabalho. Luís Delcides manifestou preocupação com profissões como tradução, dublagem, jornalismo e advocacia.
“É preciso fazer um uso racional da inteligência artificial, não um uso dependente”, afirmou.
O advogado relatou casos de profissionais que utilizam sistemas automáticos para produzir petições inteiras sem conferir os argumentos e as referências apresentados. Ele defendeu que as ferramentas sirvam como apoio à pesquisa e à revisão, preservando a responsabilidade humana pela redação.
Rey destacou que o aumento da produtividade não resulta automaticamente em redução da jornada ou melhoria salarial. Quando a tecnologia está sob controle exclusivo das empresas, a economia obtida pode se transformar em demissões.
“A inteligência artificial pode libertar trabalhadores de tarefas repetitivas. Mas, sob o controle das empresas, o aumento da produtividade é convertido em desemprego”, afirmou.
Além dos profissionais substituídos, existe uma força de trabalho pouco visível dedicada a classificar dados, moderar conteúdos e corrigir sistemas. Essas atividades são frequentemente realizadas por pessoas com baixa remuneração em países periféricos.
Renda mínima pode ampliar a liberdade ou a dependência
Luís Mauro analisou ainda a disputa política em torno da renda mínima universal. A proposta aparece tanto em programas progressistas quanto em formulações defendidas por bilionários da tecnologia, mas os resultados podem ser opostos.
Uma renda garantida pelo Estado pode oferecer segurança a trabalhadores afetados pela automação. Já uma renda distribuída por empresas por meio de ativos digitais pode transferir às corporações o poder de definir como os recursos serão utilizados.
Luís Mauro mencionou propostas atribuídas a Elon Musk nas quais os cidadãos receberiam tokens conversíveis em produtos, em vez de dinheiro público.
“Isso seria gerido por quem possui grande parte do capital mundial e representaria um novo passo na dependência entre as classes”, analisou.
Sem uma moeda pública e sem mediação estatal, as empresas poderiam estabelecer as condições de acesso aos produtos e modificar unilateralmente as regras. O mecanismo reduziria a autonomia dos beneficiários e ampliaria o controle corporativo.
“A moeda e seu lastro passariam a ser definidos pelas grandes empresas. Seria um dinheiro totalmente neoliberalizado, com ausência do Estado na questão do trabalho”, afirmou.
Uma relação cada vez mais dependente
Luís Mauro também discutiu como as ferramentas alteram o comportamento. A facilidade das respostas reduz o tempo de pesquisa, mas pode fazer com que usuários deixem de consultar fontes, comparar interpretações e elaborar as próprias perguntas.
O problema já ultrapassa os estudos e o trabalho. Pessoas recorrem aos sistemas para avaliar suas qualidades, interpretar relacionamentos e tomar decisões pessoais.
Para o analista, essa dependência não pode ser tratada apenas como escolha individual. As plataformas possuem interesse em manter os usuários dentro de seus serviços e acumular informações sobre hábitos, sentimentos e preferências.
A inteligência artificial não entrega uma resposta neutra. Ela organiza o conteúdo a partir dos dados disponíveis, das regras definidas pela empresa e dos objetivos comerciais da plataforma.
Rey chamou esse processo de “metaintermediação”. O conceito descreve um ambiente no qual os algoritmos não determinam diretamente cada decisão, mas organizam as condições em que as pessoas percebem as opções disponíveis.
“O sistema oferece um ambiente no qual você acredita possuir autonomia, mas esse ambiente foi previamente organizado pelo algoritmo”, explicou.
O risco de uma crítica apocalíptica
Embora tenha feito críticas à concentração econômica, Luís Mauro rejeitou a expectativa de que a solução esteja na destruição da tecnologia. Ele relacionou essa postura à oposição formulada por Umberto Eco entre visões apocalípticas e integradas da cultura.
Segundo ele, parte da esquerda reage à inteligência artificial com ressentimento porque se percebe em posição subordinada dentro de um sistema tecnológico controlado por empresas estrangeiras.
“A gente quer destruir como se a salvação estivesse numa volta a um mundo natural que também é uma idealização”, observou.
Essa postura pode afastar setores progressistas da disputa concreta sobre infraestrutura e propriedade. Enquanto grupos políticos discutem se a tecnologia deveria existir, as corporações acumulam dados, compram processadores e expandem centros de processamento.
Luís Mauro defendeu que o Brasil observe experiências estrangeiras, inclusive a chinesa, sem reproduzi-las automaticamente. A resposta precisa considerar as capacidades nacionais, as instituições existentes e as condições políticas do país.
“A questão é saber o que podemos fazer com as nossas condições e contradições. Precisamos começar a pensar de forma bastante prática”, afirmou.
Crise pode eliminar as alternativas
Ao tratar da possível explosão da bolha, Rey recuperou experiências anteriores. Na crise das empresas ponto com, entre 2000 e 2002, muitas companhias desapareceram, mas cabos, servidores e redes continuaram existindo. A infraestrutura foi incorporada por empresas maiores.
Em 2008, instituições financeiras frágeis quebraram ou foram compradas, enquanto grandes bancos ampliaram sua participação no mercado.
O mesmo processo pode ocorrer com a inteligência artificial. Startups, empresas nacionais e projetos públicos perderiam financiamento antes das corporações mais capitalizadas. Os grupos dominantes poderiam adquirir centros de processamento, patentes e bancos de dados por valores menores.
“Quando uma bolha estoura, o poder não desaparece. Ele muda de mãos e geralmente fica mais concentrado”, afirmou Rey.
Essa análise se aproxima da advertência de Luís Mauro sobre o controle da inovação. Uma crise não garante a democratização tecnológica. Ela pode retirar do mercado as alternativas e fortalecer as empresas que controlam o financiamento.
“A tecnologia sobreviverá. Quem pode desaparecer são as alternativas”, resumiu Rey.
A disputa é pelo uso social da técnica
Ao final, os participantes defenderam que o debate não seja reduzido à oposição entre aceitar ou rejeitar a inteligência artificial. As decisões relevantes envolvem propriedade, financiamento, regulamentação e distribuição dos ganhos de produtividade.
“A técnica tem que servir à sociedade”, afirmou Rey.
Luís Mauro colocou como desafio a construção de respostas de curto prazo. O Brasil precisará decidir como proteger seus minerais, quais condições impor aos data centers e que infraestrutura pública deve desenvolver.
Também precisará determinar se a automação será utilizada para reduzir o tempo de trabalho ou apenas para eliminar empregos. A renda produzida pela inteligência artificial pode financiar direitos sociais ou permanecer concentrada nas empresas proprietárias dos modelos.
A bolha financeira é apenas uma parte dessa disputa. Como apontou Luís Mauro, existem outras bolhas relacionadas à concentração, à promessa de salvação tecnológica e à sensação de liberdade criada por sistemas controlados por poucas corporações.
A pergunta não se limita a saber se os investimentos serão rentáveis. Também envolve quem terá poder para decidir o que a inteligência artificial fará, quais necessidades atenderá e quem receberá os benefícios de sua produtividade.
Referências
- Comunismo de luxo totalmente automatizado, Aaron Bastani, 2019
- Conversações, Gilles Deleuze, 1990
- Introdução à filosofia da arte, Benedito Nunes, 1966
- Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1980
- Apocalípticos e integrados, Umberto Eco, 1964
- Sociedade do cansaço, Byung-Chul Han, 2010
- A luta contra o fascismo, Jorge Folena, 2026
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