Da Redação
Moradores de Khirbet al-Tawil relatam que sua principal linha de abastecimento foi cortada há cerca de quatro meses e meio e que tentativas de reparo foram impedidas. O episódio não aparece isolado: dados recentes da ONU documentam ataques recorrentes contra caixas-d’água, cisternas, tubulações e nascentes palestinas. Em uma Cisjordânia submetida à expansão dos assentamentos, a disputa pela água tornou-se também uma disputa pela permanência sobre a terra.
Na Cisjordânia ocupada, expulsar uma comunidade não exige necessariamente demolir todas as suas casas. Pode bastar tornar impossível continuar vivendo nelas. É essa a acusação feita por palestinos de Khirbet al-Tawil, comunidade rural onde moradores afirmam que colonos israelenses cortaram a principal linha de abastecimento de água há aproximadamente quatro meses e meio, impediram seu reparo e passaram a pressionar também as fontes que ainda restavam disponíveis. A reportagem divulgada pela RT nesta quinta-feira, 10 de setembro, descreve famílias chegando ao final de um verão particularmente difícil com poços em níveis perigosamente baixos e algumas propriedades já sem água suficiente.
A denúncia seria grave mesmo se estivesse restrita a uma única localidade. O problema é que informações independentes reunidas pelas Nações Unidas mostram que Khirbet al-Tawil faz parte de um fenômeno muito mais amplo. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, o OCHA, aproximadamente 160 estruturas de água, saneamento e higiene foram danificadas, destruídas ou tomadas em ataques de colonos na Cisjordânia somente entre janeiro e julho de 2026. Mais da metade eram reservatórios de água. Redes de distribuição, conexões domésticas e outras instalações também foram atingidas. A ONU registrou ainda uma mudança qualitativa: os ataques passaram cada vez mais a atingir estruturas compartilhadas capazes de abastecer comunidades inteiras, e não apenas propriedades individuais.
Nas últimas semanas, esse padrão continuou. Em seu relatório humanitário de 4 de setembro, o OCHA documentou ataques contra sistemas de água em diferentes pontos da Cisjordânia. Em Al Mughayyir, colonos atacaram pela segunda vez em agosto o principal ponto de abastecimento da localidade, interrompendo por pelo menos três dias o fornecimento destinado a cerca de 3.300 habitantes. Quatro reservatórios foram destruídos. A ONU também registrou esvaziamento de cisternas, destruição de conexões e ataques reiterados contra tubulações em Tall al-Khashabeh, East Tayba Bedouins e Turmus’ayya.
O que aconteceu nesta semana em Burqa, a noroeste de Nablus, ajuda a compreender o mecanismo. Autoridades locais disseram que colonos tomaram a nascente de Delbi, retiraram tubulações utilizadas pela população palestina e construíram uma área de lazer com piscina no local. Segundo o vice-presidente do conselho da aldeia, alguns bairros passaram a receber água encanada somente uma vez a cada 15 ou 20 dias. A mesma incursão foi acompanhada por ataques contra moradores e veículos palestinos. O relato foi distribuído pela Anadolu e disponibilizado pela Reuters Connect, que ressalva não ter verificado independentemente todas as afirmações contidas no material.
Há relatos semelhantes no vale do Jordão. Na comunidade de Ras al-Ahmar, 47 famílias palestinas estão há mais de um mês enfrentando severa restrição de água depois que obras militares israelenses atingiram as tubulações que abasteciam a região e bloquearam acessos utilizados pela comunidade. São famílias que dependem fundamentalmente da criação de animais e possuem, juntas, aproximadamente 15 mil ovelhas e cabras. Sem água, o problema rapidamente deixa de ser apenas doméstico: os rebanhos não sobrevivem, a atividade econômica desaparece e permanecer sobre a terra se torna materialmente inviável.
É essa relação entre água, território e deslocamento que transforma a situação numa questão muito maior do que vandalismo contra infraestrutura. Em comunidades rurais e beduínas, destruir um reservatório, impedir o acesso a uma nascente ou romper uma tubulação pode produzir o mesmo resultado estratégico que uma ordem formal de expulsão: famílias acabam deixando o território porque já não conseguem sustentar pessoas, animais e agricultura.
Os números da ONU ajudam a dimensionar essa transformação. Entre janeiro de 2023 e 31 de agosto de 2026, 130 comunidades palestinas sofreram deslocamento total ou parcial em decorrência de ataques de colonos e das restrições de acesso associadas a eles. Quarenta e oito foram completamente deslocadas. Mais de 6.400 palestinos deixaram essas comunidades nesse período, incluindo mais de 3.100 crianças. Somente em 2026, mais de 2.500 pessoas foram deslocadas nesse contexto. O OCHA observa que ataques de colonos e restrições relacionadas passaram neste ano a constituir o principal vetor de deslocamento registrado nessas comunidades.
Isso não significa que cada interrupção de água possa automaticamente ser classificada como parte de uma operação centralmente coordenada pelo governo israelense. Essa conclusão exigiria provas específicas sobre comando e intenção em cada episódio. Mas o conjunto documental permite afirmar algo importante: há um padrão verificável de ataques de colonos contra recursos hídricos palestinos ocorrendo simultaneamente à expansão dos assentamentos, às demolições, às restrições de circulação e ao deslocamento crescente da população palestina.
A situação torna-se ainda mais grave porque muitos desses episódios acontecem na chamada Área C, que representa aproximadamente 60% da Cisjordânia e permanece sob controle administrativo e militar israelense. Para comunidades palestinas, construir legalmente casas e infraestrutura nessa área é extremamente difícil em razão do sistema de autorizações. Ao mesmo tempo, assentamentos israelenses e postos avançados continuaram se expandindo ao longo dos últimos anos. A maior parte da comunidade internacional considera os assentamentos israelenses nos territórios ocupados desde 1967 ilegais segundo o direito internacional; Israel contesta essa interpretação e sustenta que o status definitivo desses territórios deve ser resolvido por negociação.
A água adquire nesse ambiente uma dimensão política extraordinária. Não se trata apenas de quem possui uma torneira ou um poço. Em uma economia rural, controlar água significa controlar a capacidade de cultivar, criar animais e permanecer fisicamente no território. Uma família que perde acesso à água pode resistir durante dias ou semanas transportando reservatórios. Pode comprar água a preços mais altos. Pode deslocar animais. Mas existe um limite material. Quando esse limite é ultrapassado, a saída deixa de parecer uma decisão voluntária.
É precisamente isso que moradores de Khirbet al-Tawil dizem estar acontecendo. Um agricultor entrevistado pela RT afirmou que algumas pessoas já ficaram sem água e que moradores precisam transportar suprimentos durante a noite, temendo apreensão de seus veículos. Ativistas israelenses passaram a permanecer na região para tentar proteger a comunidade. Segundo a reportagem, durante uma disputa sobre o acesso a um poço, militares israelenses declararam a área zona militar fechada. Um dos ativistas, identificado como coronel reformado das Forças de Defesa de Israel, afirmou ter contestado a determinação e sido detido; posteriormente, segundo seu relato, o processo contra ele foi descartado. Para esse ativista, o elemento mais grave não seria simplesmente a atuação dos colonos, mas a maneira como forças estatais respondem às ações deles.
Essa acusação precisa ser analisada dentro de um contexto maior. A violência dos colonos tornou-se tão difícil de ignorar que, no último fim de semana, até o embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, tradicionalmente identificado com posições fortemente favoráveis a Israel e aos assentamentos, utilizou uma linguagem excepcionalmente dura. Visitando Turmus Ayya, ele classificou ataques que envolvem incêndio de propriedades, invasões e destruição de bens palestinos como atos de terrorismo e afirmou que seus responsáveis deveriam ser tratados como terroristas.
A pressão internacional levou Benjamin Netanyahu a ordenar a remoção de alguns postos avançados não autorizados na Cisjordânia. Mas a medida contém uma contradição importante: o governo israelense também concedeu reconhecimento retroativo a vários desses postos ao longo dos últimos anos. Segundo dados da organização israelense Peace Now citados pela Reuters, existem atualmente aproximadamente 146 assentamentos reconhecidos e cerca de 340 postos avançados não autorizados espalhados pela Cisjordânia.
A violência também permanece elevada. Nesta semana, dois palestinos morreram em episódios diferentes relacionados a confrontos envolvendo colonos e forças israelenses. Em Hajja, moradores disseram que colonos armados entraram na aldeia e que, durante a confrontação subsequente, forças israelenses abriram fogo; um palestino de 19 anos morreu. Em outro episódio próximo a Qusra, um palestino esfaqueou e feriu gravemente um colono israelense antes de ser morto por militares. Os acontecimentos demonstram como a combinação de assentamentos, postos avançados, incursões de colonos e presença militar está produzindo um ambiente cada vez mais explosivo.
A disputa pela água precisa ser compreendida dentro desse processo territorial. Uma nascente tomada altera a fronteira prática entre comunidades. Uma tubulação destruída reduz a capacidade de uma aldeia permanecer. Uma estrada bloqueada dificulta a chegada de caminhões-pipa. Um rebanho sem água precisa ser vendido ou deslocado. Uma família que perde sua fonte de renda acaba deixando a região. Quando isso acontece repetidamente em dezenas de comunidades, pequenas alterações locais começam a modificar o mapa demográfico.
É por isso que o caso de Khirbet al-Tawil merece atenção muito além da pequena comunidade atingida. Ele mostra como uma disputa territorial pode acontecer abaixo do limiar das grandes operações militares que normalmente ocupam o noticiário internacional. Não são necessariamente tanques avançando ou cidades sendo bombardeadas. São poços, cisternas, estradas, pastagens, oliveiras e encanamentos. O território muda não apenas quando alguém desenha uma nova fronteira, mas quando as condições materiais de permanência de uma população são progressivamente destruídas.
O fenômeno já começou a provocar respostas internacionais mais duras. Reino Unido, França e Canadá avançaram recentemente em medidas contra o comércio relacionado aos assentamentos israelenses na Cisjordânia, enquanto outros governos discutem restrições semelhantes. O governo britânico justificou sua decisão pelo crescimento dos assentamentos e da violência contra palestinos. A Austrália, embora tenha decidido não aderir por enquanto a uma proibição comercial abrangente, enfrenta pressão interna para adotar medidas concretas contra os assentamentos.
Para uma leitura a partir do Sul Global, existe ainda uma dimensão histórica impossível de ignorar. A disputa pela Palestina sempre foi também uma disputa pelo território produtivo: terra cultivável, estradas, fronteiras, circulação e recursos naturais. A água talvez seja o elemento mais material dessa relação. Quem controla uma fonte controla muito mais do que um recurso econômico. Controla a possibilidade de uma comunidade continuar existindo naquele lugar.
Isso não elimina a necessidade de precisão. Nem todo problema de abastecimento na Cisjordânia resulta de ataques de colonos; a região também sofre com seca, infraestrutura deficiente, crescimento populacional e um sistema hídrico profundamente desigual e politicamente disputado. Tampouco é possível atribuir automaticamente ao Estado israelense responsabilidade direta por toda ação cometida por indivíduos ou grupos de colonos sem investigar cada caso.
Mas os dados das Nações Unidas tornam impossível tratar os ataques contra a infraestrutura hídrica como episódios excepcionais. Reservatórios foram destruídos, redes foram vandalizadas, conexões foram rompidas e fontes utilizadas por comunidades inteiras foram atacadas repetidamente ao longo de 2026.
E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas humanitária.
Quando uma população precisa lutar para conservar o acesso à própria água enquanto assentamentos avançam sobre o território ao seu redor, o que está em disputa não é somente quem beberá amanhã. Está em disputa quem conseguirá permanecer naquela terra daqui a cinco, dez ou vinte anos.
Na Cisjordânia de 2026, a água tornou-se uma das fronteiras silenciosas da ocupação. E talvez seja exatamente por ser silenciosa que essa fronteira consiga avançar sem produzir as imagens espetaculares de uma guerra convencional: não é preciso destruir uma aldeia inteira de uma vez quando se pode, progressivamente, retirar dela aquilo sem o qual nenhuma comunidade consegue continuar vivendo.

