Em debate sobre a presença negra na fotografia, Rennan Peixe e Fran Silva analisam o poder das imagens, os estereótipos raciais e a disputa pelo direito de narrar a própria vida
Da Redação
“A imagem do negro feliz sempre existiu. Ela só foi silenciada pelos meios de comunicação.” A afirmação do fotógrafo e pesquisador Rennan Peixe sintetizou o debate promovido pelo programa Vozes pela Democracia sobre a representação da população negra na fotografia e nas demais artes visuais.
Exibida pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, com produção da Atitude Popular, a conversa foi apresentada por Sousa Jr. e teve como convidados Rennan Peixe e a fotógrafa documental Fran Silva. A edição foi realizada em referência ao Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto, e partiu de uma questão central: quem observa, quem é fotografado e quem possui condições de narrar a própria história?
Ao longo do programa, os convidados analisaram como as imagens ajudaram a consolidar estereótipos raciais no Brasil e discutiram a presença de fotógrafos negros como parte de uma disputa pela reconstrução da memória. Para ambos, a fotografia não é somente o registro de uma realidade existente. Ela expressa escolhas, perspectivas e relações de poder.
“A história de quem está contando essa foto por trás diz muito sobre o respeito, sobre o que se quer contar e sobre o protagonismo que se quer trazer”, afirmou Fran Silva.
A fotografia como disputa de narrativa
Fotógrafa documental com atuação nas áreas política, cultural e editorial, Fran contou que seu ingresso na profissão ocorreu a partir de uma inquietação com a maneira como pessoas negras e moradores das periferias apareciam nas coberturas jornalísticas.
Antes de trabalhar profissionalmente com a câmera, ela já participava dos movimentos negro e feminista em Recife. Nesse período, observava como parte dos programas policiais e do jornalismo sensacionalista associava as periferias quase exclusivamente à violência.
“Eu me incomodava muito de ver como as fotografias e a mídia policialesca e sensacionalista retratavam as pessoas, trazendo, através dos territórios e das periferias, essa estigmatização da violência e do preconceito”, relatou.
Essa representação, segundo a fotógrafa, ignorava a vida cotidiana, as manifestações culturais e as relações construídas nesses espaços. A experiência pessoal dentro dos territórios mostrava uma realidade muito mais ampla do que aquela selecionada pelos meios de comunicação.
“Eu, sendo de periferia, sabia que dentro das nossas periferias e dos nossos territórios não existia só violência. Muito pelo contrário, existia cultura, existia vida”, declarou.
Fran encontrou na fotografia uma forma de intervir nessa produção de sentidos. Seu trabalho passou a registrar movimentos sociais, manifestações políticas, festivais, artistas e atividades culturais a partir da convivência com as pessoas fotografadas.
“Se fotografia é contar histórias, eu sabia que retratar nossas vidas, nossas culturas e nossas potências também tinha muito a ver com quem estava fotografando”, explicou.
Quem está atrás da câmera
Uma das principais reflexões da entrevista envolveu a identidade de quem produz a imagem. Fran observou que fotógrafos posicionados diante da mesma cena podem realizar registros bastante diferentes. Essa distinção não decorre apenas do domínio técnico da luz, do enquadramento ou da velocidade do obturador.
A formação social, a trajetória e a relação de quem fotografa com as pessoas retratadas também determinam o que será percebido, valorizado ou excluído da imagem.
“Às vezes, estamos em um ato de um movimento social e existem fotógrafos brancos vendo a mesma cena que eu. Essa foto sempre sai de outra maneira. Não estou falando apenas tecnicamente. É também sobre o que a gente enxerga, e o que a gente enxerga diz muito sobre nós”, afirmou.
Para Fran, sua experiência como mulher negra interfere diretamente no cuidado adotado durante o trabalho. Essa proximidade permite recusar abordagens que transformam sofrimento e vulnerabilidade em espetáculo, além de favorecer imagens nas quais as pessoas aparecem como participantes ativas de suas comunidades.
“Eu vou ter essa sensibilidade e esse respeito com quem estou fotografando. É outro olhar, que não traz a pessoa apenas para o lugar do sensacionalismo, mas também para o protagonismo”, explicou.
A fotógrafa relacionou essa perspectiva ao conceito de lugar de fala desenvolvido por Djamila Ribeiro. Não se trata, segundo ela, de estabelecer quem pode ou não produzir determinada imagem, mas de reconhecer que toda narrativa parte de uma posição social e de uma experiência concreta.
O custo para entrar na profissão
Fran também falou sobre as barreiras econômicas enfrentadas por fotógrafos negros e periféricos. Os preços das câmeras, lentes, computadores e programas de edição limitam o acesso à profissão e ajudam a definir quem terá condições de produzir e divulgar imagens.
Há cerca de dez anos, quando começou a trabalhar na área, ela utilizou o dinheiro recebido na rescisão de um emprego para comprar sua primeira câmera. Mesmo com o equipamento, ainda dependia de outras pessoas para realizar a edição.
“Eu comprei a câmera, mas não tinha computador para editar as fotos. Tinha que procurar um amigo. Os equipamentos são muito caros”, recordou.
A dificuldade econômica não se encerra com a aquisição de uma câmera. Fotógrafos iniciantes precisam lidar com custos de manutenção, deslocamento, armazenamento, formação e acesso aos ambientes profissionais. Em um mercado já marcado por desigualdades raciais, essas despesas funcionam como obstáculos adicionais à entrada e à permanência de profissionais negros.
Imagens que limitam o direito de desejar
Pesquisador, educador e fotógrafo, Rennan Peixe analisou como as representações visuais influenciam aquilo que uma pessoa imagina ser possível para a própria vida. Mestrando em Artes da Cena e professor do curso superior de Produção Multimídia do Instituto Federal de Pernambuco, ele pesquisa as relações entre cinema, fotografia, educação, arte e cultura.
Rennan argumentou que a população negra sempre produziu momentos de alegria, celebração e convivência. Essas experiências, contudo, foram pouco registradas ou difundidas pelos meios de comunicação com maior alcance.
“A imagem do negro feliz sempre existiu. Ela só foi silenciada pelos meios de comunicação. Sempre existiram festas nos terreiros e momentos de negros felizes, mas a imagem difundida na história da arte e na fotografia colocava esse corpo negro em uma condição de subalternidade”, afirmou.
Durante décadas, novelas, filmes, anúncios publicitários e produções jornalísticas reservaram a atores e personagens negros papéis associados ao trabalho doméstico, à pobreza, à criminalidade ou à comicidade. Médicos, empresários, pesquisadores e protagonistas românticos apareciam majoritariamente como pessoas brancas.
“Se eu não vi esses personagens, como poderia desejar ser essas pessoas?”, questionou Rennan.
Para o fotógrafo, o desejo depende também das referências disponíveis. Quando uma criança encontra pessoas semelhantes a ela ocupando apenas funções subalternizadas, as imagens podem contribuir para limitar suas expectativas profissionais e sociais.
“Se as imagens que constituem essa sociedade me dizem que eu vou ser sempre o subalterno, esse pode ser o caminho que eu assuma se não me rebelar”, afirmou.
A possibilidade de ruptura está relacionada ao acesso a uma educação crítica e à circulação de outras representações. Quando pessoas negras aparecem em posições diversas e complexas, abre-se espaço para que crianças e jovens reconheçam novos caminhos possíveis.
A popularização dos equipamentos
Rennan apontou a digitalização e a disseminação dos celulares com câmera como mudanças importantes na produção de imagens. Embora equipamentos profissionais permaneçam caros, novas tecnologias permitiram que mais pessoas registrassem suas famílias, comunidades, festas e mobilizações políticas.
A ampliação do acesso fez surgir narrativas que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos. Imagens produzidas dentro das comunidades passaram a circular nas redes sociais, em exposições independentes e em projetos de comunicação popular.
“Ter pessoas como eu, como Fran e como outros fotógrafos é possibilitar uma reconstrução desse imaginário que perdurou durante muito tempo na nossa sociedade”, disse.
O acesso ao equipamento, entretanto, não resolve todas as desigualdades. Rennan chamou atenção para os espaços que legitimam e remuneram a produção artística. Museus, galerias, editais e instituições culturais ainda reproduzem restrições que dificultam a entrada de artistas negros.
“Quem ocupa essas galerias e esses espaços? Quem ganha dinheiro da cultura produzindo uma arte sobre aqueles que não estão nesses lugares de legitimação?”, indagou.
A pergunta aponta uma contradição frequente no mercado artístico. Pessoas negras e manifestações culturais periféricas são transformadas em temas de exposições, mas os fotógrafos, curadores e gestores beneficiados por esses trabalhos nem sempre pertencem às comunidades representadas.
“A fotografia é um ato político”
Para Rennan, nenhuma fotografia é completamente neutra. O ato de selecionar uma cena, decidir o enquadramento e definir o momento do registro já envolve escolhas. A imagem produzida resulta daquilo que o fotógrafo aprendeu, viveu e considera relevante.
“Se eu hoje não fosse uma pessoa letrada racialmente, com certeza o meu trabalho fotográfico seria totalmente outro”, afirmou.
Ele defendeu que o fotógrafo reconheça sua participação na construção da imagem. Em vez de se apresentar como observador externo e imparcial, o profissional precisa compreender que leva suas referências para o processo.
“Eu busco trazer o eu para dentro do processo, entendendo que sou agente dessa fotografia e que essa imagem pode ser um instrumento de mediação e transformação social”, explicou.
Ao registrar pessoas negras em situações que historicamente foram excluídas das representações predominantes, a fotografia interfere na memória coletiva. A imagem passa a documentar experiências que antes permaneciam restritas aos álbuns familiares ou às lembranças orais.
O papel dos meios de comunicação
Os convidados também discutiram a influência dos meios de comunicação sobre a percepção social da população negra. Rennan contou que uma senhora elogiou seus cabelos dreadlocks ao relacioná-los aos de um personagem de novela.
O episódio, aparentemente cotidiano, mostrou como a presença reiterada de determinados corpos na televisão pode modificar a maneira como eles são reconhecidos.
“Quando existe uma recorrência de imagens nos meios de comunicação, a sociedade vai entender que nossa imagem é normal e não vai associá-la a uma única fonte”, analisou.
Essa normalização, contudo, depende de representações que não reduzam pessoas negras a um estereótipo. A presença de um personagem negro não garante, por si só, diversidade. É necessário observar quais funções ele desempenha, quanto tempo permanece em cena e se possui conflitos e desejos próprios.
Rennan reconheceu avanços na televisão, no cinema, na publicidade e nas plataformas digitais, mas afirmou que a disputa permanece. Os algoritmos das redes sociais também interferem no alcance das imagens e podem reproduzir preconceitos presentes na sociedade.
Comunicação popular e democratização da mídia
Fran relacionou os avanços na representação negra ao trabalho realizado há décadas pelos movimentos sociais. Para ela, as mudanças não foram concessões espontâneas das empresas de comunicação, mas resultados de pressão política e organização coletiva.
“Os poucos e importantes avanços que tivemos são graças à luta pela democratização da mídia”, afirmou.
A fotógrafa destacou a atuação dos meios independentes, sobretudo daqueles criados por profissionais negros e vinculados às periferias. Como exemplo, citou o coletivo Fofitas, núcleo de mulheres negras comunicadoras do Nordeste do qual participou.
Essas iniciativas não abordam as comunidades como territórios desconhecidos a serem visitados ocasionalmente. Seus integrantes pertencem a esses espaços, conhecem suas relações e permanecem neles após a conclusão de uma reportagem ou projeto.
“A gente não usa essa narrativa de ir para o território porque faz parte do território. Tudo que aprende também deixa no território”, explicou Fran.
Ela definiu esse trabalho como uma continuidade entre gerações. Além de fotografar, muitos profissionais negros atuam como educadores populares e compartilham o conhecimento adquirido com jovens interessados em comunicação e arte.
“A maioria de nós não é apenas fotógrafa ou fotógrafo. Somos também educadores populares. Trabalhamos nessa ideia de passar o bastão para que os que vierem depois possam dar continuidade”, disse.
Memória, denúncia e defesa
Para Fran, a fotografia pode cumprir simultaneamente funções de denúncia, defesa e preservação da memória. Uma imagem registra violações de direitos, mas também documenta afetos, celebrações e formas de organização que correm o risco de desaparecer dos registros oficiais.
A câmera, em seu trabalho, tornou-se uma ferramenta para contar histórias a partir da perspectiva das próprias pessoas envolvidas. Esse compromisso orienta os registros de manifestações políticas, atividades culturais e mobilizações dos movimentos sociais.
“Trazer essas pessoas a partir de outro olhar e disputar essas narrativas é trazer também memórias, histórias e ancestralidades”, afirmou.
Rennan acrescentou que fotógrafos negros estão reconstruindo uma história visual fragmentada por séculos de exclusão. O objetivo não é substituir uma representação simplificadora por outra, mas ampliar as possibilidades de existência apresentadas ao público.
A fotografia pode mostrar dor e violência quando esses elementos fazem parte da história registrada. O problema surge quando são as únicas imagens permitidas a uma parcela da sociedade. Ao produzir retratos de trabalho, estudo, lazer, criação artística e organização política, fotógrafos negros contestam esse confinamento visual.
O debate no Vozes pela Democracia mostrou que a democratização da imagem depende tanto da presença diante da câmera quanto do acesso aos meios de produção e circulação. Quem fotografa também decide o que será lembrado, quais experiências receberão visibilidade e como determinadas pessoas serão apresentadas às gerações futuras.
Referências
Lugar de fala | Djamila Ribeiro | 2017
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