Historiadora analisa a participação dos grandes grupos de comunicação nas crises políticas brasileiras e critica a cobertura eleitoral dispensada ao Presidente Lula
Da Redação
A professora e historiadora Marcília Gama afirmou que os grandes grupos privados de comunicação atuaram como agentes políticos em momentos decisivos da República brasileira. Segundo ela, veículos de alcance nacional participaram da desestabilização de governos, promoveram lideranças alinhadas aos interesses das classes proprietárias e influenciaram a maneira como parcelas da sociedade interpretaram golpes, processos eleitorais e crises institucionais.
A análise foi apresentada no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, conduzido por Luiz Regadas. Doutora em História e especialista em Arquivologia, Marcília examinou a atuação dos veículos de comunicação desde a crise que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, até a cobertura das eleições presidenciais de 2026.
Para a professora, os principais jornais, emissoras de rádio e redes de televisão não se limitaram a relatar os acontecimentos. Em diferentes períodos, esses veículos selecionaram informações, estabeleceram prioridades e construíram interpretações favoráveis a determinados interesses econômicos.
Marcília citou a campanha conduzida por Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas como um dos primeiros exemplos do poder exercido pela imprensa durante a República. Por meio do jornal Tribuna da Imprensa e de sua atuação política, Lacerda transformou denúncias contra o governo em uma pressão diária sobre Vargas.
A crise atingiu seu ponto mais grave em agosto de 1954, quando Vargas se suicidou no Palácio do Catete. Para Marcília, aquele episódio mostrou como a repetição de acusações pode desgastar um governo e influenciar a percepção pública antes mesmo da conclusão das apurações.
A mesma forma de atuação apareceu, segundo ela, nas campanhas contra a posse de Juscelino Kubitschek e contra João Goulart. Após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, setores políticos e militares tentaram impedir que Goulart, então vice-presidente, assumisse o governo conforme determinava a Constituição.
A participação da imprensa no golpe de 1964
Marcília Gama afirmou que a atuação dos principais grupos de comunicação foi decisiva para criar o ambiente político que antecedeu a derrubada de João Goulart, em 1964. Jornais e emissoras apresentaram as reformas propostas pelo governo como uma ameaça comunista e ajudaram a legitimar a intervenção militar.
“O papel da imprensa foi fundamental na desestabilização de governos democraticamente eleitos e também na condução do país para os interesses do capital liberal.”
A professora ressaltou que o apoio ao golpe não ocorreu apenas por afinidade ideológica. Os proprietários dos principais veículos mantinham relações com grupos econômicos nacionais e estrangeiros interessados nas políticas adotadas pelo Brasil.
Segundo Marcília, o alinhamento com os Estados Unidos ganhou força depois da Segunda Guerra Mundial, quando o governo norte-americano ampliou sua influência política e econômica sobre a América Latina. Nesse contexto, setores da imprensa brasileira passaram a defender um modelo de país subordinado ao capital internacional e contrário às reformas sociais propostas pelo governo João Goulart.
“A construção do golpe civil-militar de 1964 teve uma colaboração direta e permanente dessa imprensa alinhada ao conservadorismo e à grande propriedade.”
Marcília também recordou que a TV Globo começou a operar em 1965, já durante a ditadura. A emissora cresceu sob um regime que restringiu concorrentes, perseguiu jornalistas, censurou conteúdos e distribuiu concessões públicas de rádio e televisão de acordo com seus interesses políticos.
Para a historiadora, a concentração dos meios de comunicação permitiu que poucas famílias determinassem quais fatos receberiam visibilidade e quais interpretações seriam apresentadas diariamente a milhões de brasileiros.
O comunismo como inimigo permanente
A professora identificou na campanha contra o comunismo um recurso recorrente na atuação dos grupos conservadores. O Partido Comunista Brasileiro foi fundado em 1922, no mesmo ano da Semana de Arte Moderna, e passou a ser tratado por parte dos jornais como uma ameaça às classes proprietárias.
Marcília explicou que o anticomunismo foi usado para atingir movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda e intelectuais que defendiam mudanças na distribuição de renda ou na propriedade da terra. Ideias distintas eram reunidas sob uma mesma acusação, ainda que não tivessem relação direta com o comunismo.
“O comunismo passa a ser o alvo principal de todo discurso e de todas as ideias consideradas perigosas por irem contra os interesses das classes proprietárias.”
Na avaliação da historiadora, esse método continua presente. Propostas de valorização salarial, tributação das grandes fortunas ou ampliação dos serviços públicos ainda são apresentadas por setores conservadores como ameaças à liberdade, mesmo quando fazem parte de programas sociais-democratas aplicados em diversos países.
Da eleição de 1989 à perseguição contra Lula
Marcília também analisou a cobertura da eleição presidencial de 1989, a primeira realizada por voto direto após a ditadura. Naquele ano, Fernando Collor disputou o segundo turno contra Lula e recebeu tratamento favorável de veículos com grande audiência.
A edição do último debate presidencial exibida pela TV Globo tornou-se um dos casos mais conhecidos de intervenção da televisão em uma disputa eleitoral. A versão transmitida no Jornal Nacional destacou os melhores momentos de Collor e os trechos mais desfavoráveis a Lula.
Poucos anos depois, parte dos mesmos veículos participou da mobilização pelo impeachment de Collor, aprovado em 1992 após denúncias de corrupção. Para Marcília, os dois episódios mostram que os conglomerados de comunicação podem apoiar ou abandonar lideranças conforme seus interesses econômicos e políticos.
A professora afirmou que as campanhas contra Lula prosseguiram depois de sua vitória em 2002. Durante os governos petistas, denúncias receberam cobertura permanente, enquanto políticas sociais, investimentos públicos e projetos de integração nacional eram tratados de forma secundária ou enquadrados sob uma perspectiva negativa.
Impeachment de Dilma foi preparado pela cobertura jornalística
Ao abordar a deposição da presidenta Dilma Rousseff, Marcília afirmou que os grandes veículos deram visibilidade permanente às manifestações contra o governo e transformaram problemas administrativos em uma crise de governabilidade.
Para a historiadora, a cobertura não apenas acompanhou o processo de impeachment. Ela ajudou a criar as condições políticas para que uma presidenta eleita com mais de 54 milhões de votos fosse afastada sem ter cometido crime de responsabilidade.
“Essa mídia oligopolizada usou o jornalismo como aparelho ideológico de articulação da classe dominante.”
Marcília lembrou que as chamadas pedaladas fiscais foram apresentadas como fundamento jurídico do afastamento. Depois do impeachment, operações semelhantes passaram a ser autorizadas pela legislação, o que reforçou, segundo ela, a avaliação de que o argumento foi usado para justificar uma decisão política previamente construída.
A professora relacionou a deposição de Dilma aos interesses econômicos envolvidos na exploração do petróleo e na condução da Petrobras. Antes do impeachment, o governo discutia a destinação dos recursos dos royalties do pré-sal para a educação e a saúde.
“O debate na época de Dilma era como aplicar os royalties do petróleo na educação e na saúde. Isso foi subtraído dos brasileiros por essa campanha feita pela imprensa.”
A historiadora também criticou os efeitos da Operação Lava Jato sobre as grandes empresas brasileiras de engenharia. Em vez de responsabilizar dirigentes e preservar empregos e contratos, a operação contribuiu para paralisar companhias que atuavam no Brasil e em outros países.
Com a interrupção de obras e a eliminação de postos de trabalho, a crise econômica passou a ser atribuída exclusivamente ao governo petista. Marcília considera que essa sequência ajudou a consolidar a interpretação de que a esquerda não sabia administrar o país.
Moro foi apresentado como autoridade acima de qualquer suspeita
Ao discutir a Lava Jato, Marcília afirmou que o então juiz Sérgio Moro recebeu um tratamento favorável dos principais veículos nacionais. Sua atuação era apresentada como uma luta individual contra a corrupção, enquanto ilegalidades e interesses políticos presentes na operação recebiam menos atenção.
“A imprensa construiu um falso herói como Sérgio Moro e colocou ele na vitrine, como se fosse o dono de toda a verdade.”
A professora incluiu o ex-procurador Deltan Dallagnol no mesmo processo de construção de personagens. Para ela, Moro e Dallagnol foram promovidos como símbolos de moralidade antes que a atuação de ambos fosse confrontada por decisões judiciais e pela divulgação das mensagens da força-tarefa.
Marcília ressaltou que o problema não está na investigação de casos de corrupção, mas na transformação de agentes públicos em lideranças políticas protegidas do escrutínio aplicado aos demais integrantes do sistema de Justiça.
Cobertura das eleições de 2026
Na avaliação de Marcília, as entrevistas realizadas durante a campanha presidencial de 2026 mostram que o tratamento desigual permanece. Ela criticou a sabatina do Presidente Lula no Jornal Nacional, conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos.
A historiadora considerou que grande parte da entrevista foi dedicada à crise do Banco Master e às suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As propostas para um novo mandato ficaram em segundo plano.
“Foi um massacre horrível. Não falaram de plano de governo nem dos temas importantes que o país precisa ouvir.”
Marcília rejeitou a interpretação de que a emissora tenha submetido todos os candidatos ao mesmo grau de cobrança. Segundo ela, assuntos relacionados a Flávio Bolsonaro e a outros integrantes de sua família não foram explorados com a mesma insistência.
A professora mencionou as relações com integrantes de milícias, a política do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia e as articulações em favor das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. Na avaliação dela, esses temas deveriam ocupar um espaço equivalente ao destinado às suspeitas envolvendo pessoas próximas de Lula.
“A postura da Rede Globo em relação aos outros candidatos é completamente diferente da postura adotada com Lula.”
Marcília afirmou que a ênfase em Lulinha busca atingir o Presidente por meio de acusações contra seu filho. Para ela, esse tipo de cobertura permite associar o candidato a suspeitas que ainda não produziram uma responsabilização judicial contra ele.
Jovem Pan e o discurso conservador
A historiadora fez críticas específicas à Jovem Pan, que descreveu como uma emissora comprometida com o discurso conservador. Ela contou que costuma ouvir a programação para acompanhar os argumentos apresentados e observar sua circulação em espaços cotidianos, como viagens por aplicativos de transporte.
“A Jovem Pan faz um desserviço à população brasileira. Eles colocam pessoas alinhadas com esse conservadorismo e apresentam aquela verdade como se fosse universal, absoluta e irrefutável.”
Para Marcília, a repetição diária de uma mesma interpretação produz um ambiente no qual opiniões políticas são recebidas como fatos. O ouvinte nem sempre consegue distinguir informação jornalística, comentário partidário e propaganda.
A professora observou que a audiência precisa comparar fontes e buscar veículos que apresentem informações omitidas pelos grandes conglomerados. Nesse sentido, citou a TV Atitude Popular e a TV 247 como espaços que permitem o debate de pautas menos presentes nas emissoras comerciais.
A concentração dos meios de comunicação
Ao responder a uma pergunta sobre quem controla a informação no Brasil, Marcília destacou o papel das grandes fortunas, dos grupos empresariais e das oligarquias políticas que mantêm influência regional há várias gerações.
Esses interesses, segundo ela, aparecem na defesa de políticas favoráveis ao mercado financeiro, aos grandes proprietários de terra e ao capital internacional. A concentração das concessões de rádio e televisão amplia essa influência porque limita a pluralidade de vozes com capacidade de alcançar grandes audiências.
“São os grandes capitais que determinam a estabilidade do mercado financeiro e transformam o mercado em termômetro para avaliar o governo.”
A historiadora também relacionou o poder dessas elites à ausência de uma reforma agrária capaz de distribuir terras e reduzir a desigualdade no campo. Segundo ela, os mesmos grupos que historicamente controlaram a propriedade rural mantiveram influência sobre o Congresso e sobre os meios de comunicação.
Escala 6 por 1 e direitos trabalhistas
Na parte final da entrevista, Marcília analisou a disputa em torno da escala de trabalho de seis dias por um de descanso. Ela criticou a mobilização de Flávio Bolsonaro contra a redução da jornada e afirmou que a resistência à mudança atende aos interesses dos grandes empregadores.
“A escala 6 por 1 faz parte de um interesse de colocar a massa de trabalhadores de joelhos, porque quem produz e quem trabalha somos nós.”
A professora comparou a discussão atual à demora no reconhecimento dos direitos dos trabalhadores rurais. O Estatuto do Trabalhador Rural, aprovado em 1963, estendeu ao campo garantias que já existiam para trabalhadores urbanos, mas enfrentou resistência de grandes proprietários.
Para Marcília, o argumento de que a redução da jornada destruiria empresas repete uma prática antiga de apresentar direitos sociais como ameaças à economia. Ela avalia que parte dos veículos de comunicação reproduz a perspectiva empresarial sem dedicar o mesmo espaço às condições enfrentadas por quem trabalha seis dias consecutivos.
Registros falsos durante a ditadura
Marcília também tratou do papel da imprensa durante os 21 anos da ditadura militar. Segundo ela, jornais publicaram versões oficiais falsas sobre a morte de opositores políticos, apresentando execuções e mortes sob tortura como resultados de tiroteios ou tentativas de fuga.
“Durante os 21 anos do golpe de 1964, a imprensa civil ajudou a plantar informações falsas. Pessoas foram mortas e eles informavam que tinha ocorrido um tiroteio. Era mentira.”
A formação da historiadora em Arquivologia foi usada para destacar a importância dos documentos na reconstrução desses acontecimentos. Registros produzidos por órgãos da repressão, depoimentos de familiares e investigações posteriores permitiram contestar versões divulgadas na época.
Para Marcília, a desinformação atual utiliza ferramentas novas, mas conserva um método conhecido: introduzir dúvidas, repetir acusações e apresentar interesses particulares como se representassem o interesse nacional.
“Lula é uma lenda viva”
Apesar das críticas ao Congresso e à cobertura das emissoras comerciais, Marcília demonstrou confiança na reeleição do Presidente Lula. Ela afirmou que o governo enfrenta resistência de setores políticos interessados em impedir mudanças na distribuição de renda e na relação do Brasil com as potências internacionais.
“Lula é uma lenda viva e, pela quarta vez, eu tenho certeza de que ele será eleito.”
A professora pediu que os eleitores observem quem controla os veículos, quais interesses aparecem nas reportagens e quais assuntos desaparecem da cobertura. Para ela, desconfiar não significa rejeitar toda informação, mas buscar documentos, comparar versões e avaliar as provas apresentadas.
“As pessoas têm que ficar atentas, buscar informação e não se permitir convencer. Criar a dúvida é o primeiro passo para construir uma nova imagem de um governo.”
Marcília concluiu que o Brasil reúne recursos naturais, capacidade produtiva e condições para ampliar sua autonomia. A disputa política, segundo ela, envolve definir se essas riquezas serão usadas para melhorar as condições de vida da população brasileira ou permanecerão subordinadas aos interesses de grandes grupos econômicos.
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