Da Redação
Declaração de assessor ligado a Donald Trump expõe cinismo político da extrema-direita global, que trata aliados como descartáveis quando deixam de ser úteis eleitoralmente.
A extrema-direita internacional voltou a mostrar, sem pudor, como funciona sua lógica interna de alianças ao comentar a relação entre o entorno de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Em declaração pública que repercutiu fortemente no Brasil, um assessor próximo ao ex-presidente norte-americano afirmou que Trump teria “abandonado Bolsonaro” porque “não gosta de perdedores”. A frase, curta e direta, sintetiza com brutal honestidade o que muitos analistas já apontavam há anos: não há lealdade, ideologia ou solidariedade duradoura nesse campo político, apenas cálculo, oportunismo e utilitarismo eleitoral.
A fala escancara o caráter descartável das alianças construídas pela extrema-direita global ao longo da última década. Bolsonaro, que durante anos se apresentou como parceiro estratégico de Trump, copiando discursos, gestos, inimigos imaginários e até slogans, passa agora à condição de estorvo político. Não por seus ataques à democracia, não por seu histórico autoritário, nem por seu papel em tentativas de ruptura institucional, mas por algo muito mais imperdoável nesse universo: ter perdido a eleição.
O cinismo da declaração não está apenas no conteúdo, mas na naturalidade com que ele é expresso. Ao dizer que Trump “não gosta de perdedores”, o assessor confirma que a régua moral do trumpismo não é ideológica, ética ou programática, mas estritamente baseada em vitória e poder. Enquanto Bolsonaro parecia capaz de se manter no jogo, foi tratado como aliado. Uma vez derrotado, tornou-se descartável. Simples assim.
A ironia é que Bolsonaro construiu sua imagem política exatamente como o “vencedor contra o sistema”, o “mito imbatível”, o homem que jamais aceitaria a derrota. Ao perder e insistir em questionar o resultado eleitoral, acabou se enquadrando naquilo que a extrema-direita mais despreza: alguém incapaz de transformar radicalização em poder efetivo. Para Trump e seu entorno, não basta atacar instituições; é preciso vencer. Quem fracassa nesse ponto deixa de ser útil.
A declaração também ajuda a compreender o isolamento internacional crescente do bolsonarismo. Durante anos, Bolsonaro apostou todas as suas fichas em um alinhamento automático com Trump, rompendo tradições diplomáticas brasileiras, hostilizando parceiros históricos e adotando uma política externa submissa e ideológica. O retorno esperado — proteção, apoio internacional e respaldo político — nunca veio de forma concreta. Agora, o próprio núcleo trumpista deixa claro que o vínculo era circunstancial e descartável.
Do ponto de vista estratégico, a fala revela algo ainda mais profundo: a extrema-direita opera como uma franquia global baseada em performance eleitoral, não em solidariedade ideológica. Trump não vê Bolsonaro como companheiro de causa, mas como um ativo político que perdeu valor. A relação é mercantil. Ganha quem entrega poder. Perde quem deixa de entregar resultados.
A ironia final é que Bolsonaro e seu entorno passaram anos acusando adversários de “trair aliados”, “virar as costas” e “abandonar amigos”. Agora, experimentam na prática o funcionamento real do campo político ao qual decidiram se submeter. Não há amigos, apenas vencedores temporários. Quando o ciclo vira, o silêncio substitui o apoio, e a humilhação pública substitui a retórica de irmandade.
No Brasil, a declaração caiu como um balde de água fria até mesmo entre setores mais radicais do bolsonarismo, que ainda alimentavam a fantasia de um resgate internacional ou de uma articulação liderada por Trump. A frase do assessor funciona como um epitáfio simbólico dessa ilusão: o trumpismo segue em frente, e Bolsonaro fica para trás, carregando sozinho o peso de sua derrota e de seus erros políticos.
Para além da ironia, o episódio serve como alerta. Movimentos autoritários globais se conectam enquanto são úteis uns aos outros. Quando deixam de ser, são descartados sem cerimônia. A frase “não gosto de perdedores” não é apenas uma grosseria política; é a tradução crua da lógica que rege esse campo. Vencer é tudo. O resto é irrelevante.






