Da Redação
Líbano tenta sobreviver aos efeitos acumulados da crise financeira iniciada em 2019 e de sucessivos conflitos; destruição de moradias, terras agrícolas e infraestrutura amplia pobreza enquanto impasse entre Israel e Hezbollah ameaça uma reconstrução que o país não consegue financiar
A guerra não termina quando as bombas deixam de cair. No Líbano, ela permanece dentro das casas destruídas, nas plantações abandonadas, nos empregos que desapareceram, nos preços dos alimentos e no orçamento de famílias que já atravessavam uma das mais graves crises econômicas de sua história antes da nova escalada militar. Uma reportagem publicada pela RT neste domingo (16) mostra essa dimensão menos visível do conflito: a luta cotidiana de libaneses para sobreviver em uma economia que acumula sete anos de colapso financeiro e agora precisa absorver novamente os custos da destruição provocada pela guerra.
O problema não nasceu com os atuais confrontos. O sistema financeiro libanês entrou em colapso em 2019, destruindo poupanças, derrubando a moeda e provocando uma profunda perda de renda. No ano seguinte, a explosão no porto de Beirute matou mais de 200 pessoas e atingiu uma infraestrutura fundamental para a economia do país. Antes que o Líbano conseguisse se recuperar dessas crises, os confrontos entre Israel e Hezbollah iniciados após outubro de 2023 abriram outro ciclo de destruição.
A escalada de 2026 tornou a situação ainda mais grave. Em maio, o ministro das Finanças libanês, Yassine Jaber, estimava que a guerra poderia provocar uma contração de pelo menos 7% da economia neste ano e produzir prejuízos de até US$ 20 bilhões. A capacidade fiscal do Estado está pressionada, a ajuda internacional diminuiu e até as remessas enviadas pela diáspora — historicamente uma das principais redes de proteção financeira das famílias libanesas — enfrentam riscos.
Essa combinação transforma cada ataque numa perda que vai muito além do alvo atingido. Uma casa destruída representa uma família que precisa encontrar abrigo e dinheiro para reconstruir. Uma lavoura atingida elimina a renda de um agricultor e reduz a oferta de alimentos. Uma estrada danificada aumenta custos logísticos. Um comércio fechado destrói empregos. Uma região considerada insegura perde turistas, investimentos e circulação econômica.
No sul do país, onde a agricultura constitui uma importante fonte de renda, o impacto é especialmente severo. Dados do Ministério da Agricultura libanês citados na reportagem indicavam que aproximadamente 56 mil hectares de terras agrícolas haviam sido danificados pelos ataques israelenses até o início de maio. Nas áreas agrícolas diretamente atingidas pelo conflito no sul, a parcela afetada correspondia a aproximadamente 22%.
O resultado chega rapidamente às famílias. Segundo a reportagem, o preço da gasolina subiu cerca de 25% em fevereiro, enquanto alimentos e aluguéis haviam aumentado aproximadamente 20% no último ano. Mais de um terço da população já vive abaixo da linha da pobreza, de acordo com estimativas do Banco Mundial mencionadas pela RT.
A guerra, portanto, atinge uma sociedade que praticamente não possui reservas econômicas para suportá-la.
Essa é uma diferença fundamental em relação a países capazes de mobilizar grandes volumes de recursos públicos depois de uma guerra. O Estado libanês enfrenta enormes dificuldades fiscais, seu sistema bancário permanece marcado pelo colapso iniciado em 2019 e a reconstrução necessária já alcança uma dimensão incompatível com os recursos atualmente disponíveis.
Depois do cessar-fogo de junho, centenas de milhares de libaneses começaram a retornar às regiões atingidas. Muitos encontraram bairros inteiros destruídos. Segundo estimativas do governo citadas pela Reuters, quase 90 mil unidades habitacionais foram total ou parcialmente destruídas somente no conflito mais recente. A reconstrução exigirá bilhões de dólares que Beirute atualmente não possui.
É nesse ponto que a guerra militar se transforma em uma guerra econômica de longa duração.
Mesmo quando uma família consegue regressar, retornar não significa reconstruir a vida. É preciso reparar a residência, recuperar a terra, substituir equipamentos, restabelecer água e eletricidade, reabrir empresas e recriar empregos. Quando milhares de famílias precisam fazer isso simultaneamente em um país financeiramente exaurido, a recuperação pode levar anos.
A situação se tornou ainda mais instável neste fim de semana. Ataques israelenses no sul do Líbano mataram pelo menos 11 pessoas no sábado (15), incluindo civis, segundo autoridades libanesas. Israel afirmou ter atacado infraestrutura e integrantes do Hezbollah após um ataque do grupo que deixou soldados israelenses feridos. As novas mortes ocorreram cerca de dois meses depois do cessar-fogo negociado em junho e reacenderam o temor de uma nova escalada.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, condenou os ataques e acusou Israel de colocar em risco os esforços para estabilizar o país. Hezbollah, por sua vez, prometeu responder. Esse ciclo de ataque, retaliação e nova ameaça de escalada representa justamente aquilo que uma economia em ruínas menos consegue suportar.
Um cessar-fogo preso a um impasse político
Por trás da instabilidade existe uma disputa ainda sem solução sobre o sul do Líbano.
Israel condiciona sua retirada das áreas que ocupa ao desarmamento do Hezbollah. O grupo libanês rejeita discutir seu desarmamento enquanto tropas israelenses permanecerem no território. O acordo mediado pelos Estados Unidos procura vincular os dois processos: retirada gradual israelense, desarmamento das forças não estatais e transferência do controle territorial para o Exército libanês.
Na prática, cada lado exige que o outro avance primeiro.
O resultado é um impasse no qual a população civil permanece aprisionada.
Israel argumenta que não pode retirar suas forças sem garantias de que o Hezbollah não reconstruirá capacidade militar próxima à fronteira. O Hezbollah sustenta que entregar suas armas enquanto território libanês permanece ocupado significaria abrir mão de sua capacidade de resistência antes do fim da presença israelense. O governo libanês, no meio desse confronto, tenta recuperar a autoridade estatal sobre todo o território sem desencadear uma crise interna.
A discussão sobre um mecanismo internacional para verificar o desarmamento demonstra a complexidade das negociações. Reino Unido, Itália, Suíça e Indonésia chegaram a ser mencionados como possíveis participantes de uma estrutura de verificação, embora uma autoridade libanesa tenha posteriormente negado que Beirute já tivesse concordado com uma lista definitiva de países.
Enquanto diplomatas negociam fórmulas de segurança, entretanto, a população precisa pagar o custo diário da incerteza.
E esse custo não está limitado aos setores tradicionalmente associados à guerra.
Uma reportagem da Reuters publicada na sexta-feira (14) mostrou que até a indústria criativa libanesa, historicamente conectada aos mercados ricos do Golfo, está sendo sufocada. Profissionais de publicidade, design e moda relatam cancelamento de projetos, atraso nos pagamentos e forte redução de receitas. Alguns freelancers perderam até 60% de sua renda, enquanto organizações educacionais e culturais lutam para continuar funcionando.
Isso demonstra como a destruição econômica se propaga.
Uma guerra regional reduz investimentos nos países do Golfo. Empresas desses países cortam projetos. Profissionais libaneses perdem contratos. Famílias reduzem consumo. Comércios vendem menos. O governo arrecada menos. A economia enfraquecida possui ainda menos recursos para reconstruir aquilo que a própria guerra destruiu.
É um círculo difícil de romper.
O sul paga um preço desproporcional
Para as comunidades do sul do Líbano, a questão é ainda mais dramática porque terra e moradia possuem uma dimensão que não pode ser medida apenas em dólares.
Muitas famílias vivem há gerações nas mesmas cidades e aldeias. Algumas já foram deslocadas em guerras anteriores, reconstruíram suas casas e voltaram a perdê-las nos conflitos recentes. Depois do cessar-fogo, moradores regressaram mesmo a localidades profundamente destruídas porque permanecer longe significaria também abandonar terra, comunidade e fonte de renda.
A agricultura torna essa ligação ainda mais profunda. Uma plantação destruída não é substituída imediatamente quando a guerra termina. Dependendo da cultura, são necessários anos para recuperar árvores, solos, sistemas de irrigação e produtividade. Minas, munições não detonadas e danos ambientais podem prolongar a impossibilidade de utilização das terras.
Por isso, a destruição agrícola possui consequências que ultrapassam a renda do produtor. Ela afeta segurança alimentar, preços, importações e a própria capacidade de comunidades rurais permanecerem em seus territórios.
A dimensão humana também precisa ser compreendida dentro dos números do deslocamento. Durante a escalada deste ano, mais de um milhão de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. Quando o cessar-fogo permitiu o início do retorno, muitas descobriram que não existia mais uma residência para a qual voltar.
Essa realidade ajuda a explicar por que reconstrução e paz são inseparáveis.
Um cessar-fogo que apenas interrompa temporariamente os ataques, mas não permita reconstruir casas, recuperar empregos e devolver segurança econômica às comunidades, dificilmente produzirá estabilidade duradoura.
O Líbano corre o risco de perder outra geração
Existe ainda uma consequência menos visível: a saída permanente de trabalhadores qualificados.
O Líbano possui uma diáspora enorme e historicamente exporta profissionais altamente formados para Europa, América do Norte, África e países do Golfo. As remessas desses emigrantes sustentam milhões de pessoas dentro do país. Mas quando médicos, engenheiros, professores, designers, empresários e jovens graduados concluem que não existe perspectiva de estabilidade, a emigração deixa de ser temporária e transforma-se numa perda estrutural de capital humano.
A economia entra então em outro círculo vicioso: quanto mais profissionais saem, menor a capacidade de reconstrução; quanto menor a capacidade de reconstrução, maior o incentivo para que outros também partam.
É por isso que reduzir a crise libanesa exclusivamente ao confronto entre Israel e Hezbollah significa enxergar apenas uma parte do problema.
Existe uma sociedade inteira tentando permanecer viva entre disputas geopolíticas que ultrapassam suas fronteiras. O confronto Israel-Hezbollah está conectado à rivalidade entre Israel e Irã, à estratégia norte-americana no Oriente Médio e à reorganização regional produzida pelos conflitos dos últimos anos. O território libanês acaba funcionando repetidamente como espaço no qual parte dessas contradições se materializa.
O preço, porém, é pago em libras libanesas, empregos perdidos, casas destruídas e vidas interrompidas.
A dimensão econômica talvez seja justamente aquela que continuará presente quando as manchetes sobre bombardeios desaparecerem.
Um edifício pode ser destruído em segundos. Uma plantação pode ser incendiada em minutos. Uma família pode abandonar sua casa numa tarde.
Reconstruir tudo isso exige anos.
E o Líbano entra nessa reconstrução depois de uma crise bancária, da explosão do porto de Beirute, de sucessivas guerras e com um Estado que não dispõe dos bilhões necessários para recuperar o país.
Por isso, o drama libanês não pode ser medido apenas pelo número de ataques realizados ou de foguetes disparados. Ele precisa ser medido também pelo número de famílias que não conseguem pagar aluguel, agricultores que perderam suas terras, jovens que abandonam o país e crianças que crescem numa sociedade atravessada sucessivamente pela crise econômica, pelo deslocamento e pela guerra.
Sem uma solução política que permita simultaneamente preservar a soberania libanesa, proteger a segurança da população dos dois lados da fronteira e reconstruir economicamente as regiões devastadas, cada novo cessar-fogo continuará carregando dentro de si a possibilidade da próxima guerra.
E, para milhões de libaneses, sobreviver à paz já está se tornando quase tão difícil quanto sobreviver ao conflito.






