Da Redação
Levantamento sobre discursos de Flávio Bolsonaro na Alerj aponta foco quase exclusivo em pautas policiais e defesa da ditadura militar, enquanto saúde e educação tiveram participação residual em sua atuação parlamentar.
A trajetória parlamentar de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro voltou ao centro do debate político após a divulgação de um levantamento que analisou seus discursos durante os quatro mandatos como deputado estadual na Alerj. Segundo os dados publicados pela Folha de S.Paulo e repercutidos pelo Brasil 247, a atuação do hoje senador foi marcada quase exclusivamente por temas ligados à segurança pública, defesa de corporações policiais e pautas associadas à extrema direita, enquanto áreas como saúde e educação tiveram presença mínima em sua atividade parlamentar.
O levantamento analisou 12.115 discursos realizados por deputados estaduais fluminenses entre 2003 e 2018. No caso de Flávio Bolsonaro, foram examinados 214 pronunciamentos feitos ao longo de 16 anos de mandato. O resultado mostra que cerca de 68% de suas falas tiveram como foco principal temas relacionados à segurança pública. Isso significa que praticamente sete em cada dez discursos do parlamentar foram direcionados à defesa de policiais militares, bombeiros, agentes penitenciários e pautas punitivistas.
O dado chama atenção porque o percentual é muito superior à média da própria Alerj no mesmo período. Entre os 163 deputados estaduais analisados pela pesquisa, a segurança pública apareceu como tema central em apenas 17% dos discursos. No caso de Flávio Bolsonaro, a concentração temática foi quase quatro vezes maior.
A pesquisa revela ainda que saúde e educação ocuparam espaço extremamente reduzido na atuação parlamentar do senador. Segundo o levantamento, saúde apareceu como tema principal em apenas três discursos ao longo dos quatro mandatos consecutivos exercidos na Assembleia Legislativa. Já educação foi dominante em apenas quatro pronunciamentos.
A discrepância ajuda a explicar uma das principais características do bolsonarismo desde sua formação política inicial no Rio de Janeiro: a centralidade quase absoluta das pautas ligadas à segurança pública, militarização e endurecimento penal como eixo organizador do discurso político da família Bolsonaro.
Durante seus mandatos estaduais, Flávio Bolsonaro concentrou grande parte da atuação na defesa de reajustes salariais para policiais militares, aposentadorias especiais, ampliação de efetivos e benefícios para corporações de segurança. Em um dos discursos citados pela pesquisa, realizado em abril de 2005, o então deputado defendia reajustes que poderiam elevar em até 187% os soldos da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que áreas tradicionalmente associadas às demandas sociais da população brasileira praticamente desapareceram da atuação do parlamentar. Em um estado historicamente marcado por crises hospitalares, violência urbana, colapso fiscal e precarização da educação pública, saúde e educação tiveram presença residual na agenda política de Flávio Bolsonaro.
O levantamento também aponta forte alinhamento ideológico do senador com a defesa da ditadura militar brasileira instaurada após o golpe de 1964. Segundo a análise, Flávio realizou diversos pronunciamentos exaltando as Forças Armadas e defendendo homenagens a figuras ligadas ao regime militar, incluindo o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador durante a ditadura.
A defesa recorrente da ditadura militar e do aparato repressivo aparece como elemento constante na trajetória política do bolsonarismo. Desde os anos 1990, Jair Bolsonaro e seus filhos construíram parte importante de sua identidade política associando-se à exaltação do regime militar, ao revisionismo histórico sobre a repressão política e à defesa de soluções autoritárias para questões sociais e de segurança pública.
Especialistas em ciência política observam que essa lógica ajudou a consolidar um modelo de atuação parlamentar fortemente baseado na construção de inimigos permanentes, no discurso de endurecimento penal e na associação entre violência urbana e expansão do aparato repressivo do Estado.
O próprio histórico político de Flávio Bolsonaro na Alerj foi marcado por homenagens a policiais posteriormente investigados ou denunciados por ligação com organizações criminosas. Reportagens anteriores mostraram que integrantes do clã Bolsonaro concederam moções e medalhas a policiais posteriormente associados a milícias e grupos de extermínio no Rio de Janeiro.
A divulgação do levantamento ocorre em um momento particularmente importante da política brasileira. Com Jair Bolsonaro preso e inelegível, setores da extrema direita passaram a trabalhar a construção da imagem de Flávio Bolsonaro como possível herdeiro político do bolsonarismo para 2026. Pesquisas recentes já mostram crescimento gradual de seu nome em cenários eleitorais nacionais.
Por isso, a análise de sua trajetória parlamentar ganha peso estratégico dentro do debate público. O estudo ajuda a observar quais temas efetivamente marcaram sua atuação legislativa ao longo de quase duas décadas de vida política.
O contraste entre a centralidade dada à segurança pública e o espaço reduzido destinado à saúde e educação também dialoga diretamente com críticas feitas ao governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. A condução da crise sanitária foi amplamente questionada por entidades científicas, pesquisadores e organismos internacionais devido ao negacionismo, aos ataques às vacinas e à desorganização das políticas públicas de saúde.
Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo consolidou uma forma de atuação política baseada muito mais em guerra cultural, segurança pública e mobilização ideológica do que na formulação de políticas estruturais para áreas sociais. O levantamento sobre Flávio Bolsonaro ajuda justamente a ilustrar como esse padrão já estava presente desde sua atuação como deputado estadual no Rio de Janeiro.
A pesquisa também desmonta parcialmente a tentativa recente de construção de uma imagem mais moderada do senador. Nos últimos meses, aliados políticos e setores da mídia conservadora passaram a apresentar Flávio como uma versão menos radical do pai. Mas os discursos registrados ao longo de seus mandatos mostram alinhamento consistente com pautas autoritárias, defesa do regime militar e foco quase exclusivo em agendas policiais e punitivistas.
Em um cenário no qual o Brasil volta a discutir democracia, autoritarismo, papel das instituições e memória da ditadura militar, o levantamento sobre a atuação parlamentar de Flávio Bolsonaro acaba funcionando também como documento histórico sobre a formação política do bolsonarismo contemporâneo.
Mais do que simples estatísticas legislativas, os dados ajudam a revelar quais prioridades efetivamente estruturaram uma das principais lideranças da extrema direita brasileira nas últimas duas décadas.