Da Redação
Presidente da ApexBrasil defende investimentos de mão dupla entre Brasil e Índia e projeta salto histórico nas relações econômicas, com foco em inovação, energia e indústria estratégica.
O governo brasileiro intensificou sua ofensiva econômica internacional ao colocar a Índia no centro de sua estratégia de expansão comercial e industrial. Durante o Fórum Empresarial Brasil-Índia, realizado em Nova Délhi, o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, afirmou que o país trabalha para inaugurar uma “nova e histórica fase” na relação bilateral, baseada em investimentos de mão dupla e cooperação estratégica entre as duas maiores democracias do Sul Global.
A ambição apresentada é clara e de grande escala. Segundo Viana, a meta é elevar a corrente de comércio entre os dois países dos atuais cerca de US$ 15 bilhões para até US$ 100 bilhões no médio e longo prazo, um salto que colocaria a Índia entre os principais parceiros econômicos do Brasil.
O diagnóstico por trás dessa estratégia parte de um entendimento compartilhado dentro do governo Lula: a relação Brasil-Índia é hoje aquela com maior potencial de crescimento entre as grandes parcerias internacionais do país. Isso se deve à complementaridade econômica entre as duas nações. De um lado, o Brasil é um grande fornecedor de alimentos, energia e recursos naturais; de outro, a Índia desponta como potência industrial, tecnológica e farmacêutica em rápida expansão.
Ao contrário de modelos tradicionais de inserção internacional baseados apenas em exportação de commodities, o governo brasileiro busca construir uma relação mais equilibrada e estruturante. Jorge Viana enfatizou que a parceria deve ser de “mão dupla”, com empresas indianas investindo no Brasil, mas também com companhias brasileiras ampliando sua presença no mercado indiano.
Esse movimento já começa a ganhar forma concreta. Durante o fórum, foram mencionadas perspectivas de investimentos relevantes de empresas brasileiras na Índia, incluindo aportes da Vale, estimados em cerca de US$ 500 milhões, e planos da Embraer para expandir sua atuação no país asiático com investimentos de centenas de milhões de dólares.
Ao mesmo tempo, o Brasil busca atrair capital indiano para setores estratégicos da economia nacional, consolidando uma lógica de integração produtiva. A proposta não se limita ao comércio de bens, mas inclui cooperação em áreas-chave como biocombustíveis, segurança alimentar, inovação tecnológica e exploração de minerais críticos — insumos essenciais para a nova economia digital e energética global.
Essa agenda ocorre em um momento de forte crescimento das relações econômicas entre os dois países. Em 2025, o comércio bilateral já havia atingido cerca de US$ 15 bilhões, com crescimento expressivo em relação aos anos anteriores, indicando que a meta de expansão não parte de um cenário estagnado, mas de uma base já em aceleração.
A estratégia brasileira também está diretamente ligada ao fortalecimento do eixo Sul-Sul e à atuação conjunta em fóruns multilaterais como o BRICS. Brasil e Índia compartilham interesses comuns em temas como desenvolvimento sustentável, reforma da governança global e ampliação do protagonismo das economias emergentes. Nesse sentido, a intensificação da parceria econômica não é apenas comercial, mas geopolítica.
Outro elemento central dessa aproximação é a institucionalização da presença brasileira na Índia. A abertura de um escritório da ApexBrasil em Nova Délhi — o primeiro da agência no país — simboliza o compromisso de longo prazo com o mercado indiano e a intenção de ampliar o suporte às empresas brasileiras interessadas em exportar e investir na região.
Além disso, estudos da Apex identificaram centenas de oportunidades concretas de exportação para o Brasil em áreas como energia, máquinas, alimentos, tecnologia e saúde, evidenciando o potencial ainda pouco explorado da relação bilateral.
No plano estratégico mais amplo, a aposta do governo Lula na Índia reflete uma reorientação da política externa e econômica brasileira. Em um mundo marcado por disputas entre grandes potências e reorganização das cadeias globais de valor, o Brasil busca diversificar seus parceiros e reduzir dependências históricas de mercados tradicionais.
A Índia, com sua população de mais de 1,4 bilhão de pessoas, crescimento econômico acelerado e crescente protagonismo tecnológico, surge como parceiro ideal nesse reposicionamento. A aproximação entre os dois países representa, portanto, mais do que uma expansão comercial: trata-se de uma tentativa de construir um novo eixo de desenvolvimento baseado na cooperação entre economias emergentes.
Se a meta de US$ 100 bilhões ainda parece distante, ela funciona como um horizonte estratégico capaz de orientar políticas públicas, investimentos e decisões empresariais. Mais do que o número em si, o que está em jogo é a transformação qualitativa da relação Brasil-Índia — de uma parceria promissora para uma aliança econômica estruturante no cenário global.


