Da redação
Em Nova Délhi, presidente brasileiro propõe cooperação estratégica entre países do Sul Global como alternativa à escalada de tensões entre Estados Unidos e China.
Durante agenda oficial em Nova Délhi, na Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o fortalecimento da parceria entre Brasil e Índia como caminho estratégico para evitar uma nova Guerra Fria no cenário internacional. A posição foi apresentada em meio à crescente polarização entre Estados Unidos e China, que vem reorganizando a economia global, as cadeias produtivas e os fluxos de poder tecnológico e financeiro.
Em entrevista concedida à imprensa indiana, Lula foi direto ao ponto ao afirmar que o mundo não precisa repetir a lógica bipolar do século XX. Segundo o presidente, “não queremos uma nova Guerra Fria entre China e Estados Unidos”, defendendo que as relações internacionais devem se basear no respeito à soberania dos países e na cooperação econômica.
A proposta brasileira parte de um entendimento mais amplo sobre o papel das potências emergentes no sistema internacional. Para Lula, países como Brasil e Índia — duas das maiores democracias do mundo e protagonistas do Sul Global — têm responsabilidade histórica na construção de uma ordem multipolar mais equilibrada, capaz de reduzir tensões e evitar conflitos sistêmicos.
Nesse contexto, a parceria Brasil-Índia ganha centralidade não apenas econômica, mas geopolítica. A aproximação entre os dois países é vista como uma alternativa concreta à lógica de blocos rígidos, típica de períodos de Guerra Fria, e como uma aposta em um modelo baseado em interdependência, comércio e cooperação tecnológica. O objetivo, segundo o governo brasileiro, é ampliar o diálogo entre nações emergentes e fortalecer mecanismos multilaterais que reduzam a probabilidade de confrontos entre grandes potências.
A fala de Lula também está inserida no ambiente da Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial, onde o presidente reforçou a necessidade de governança global das tecnologias emergentes. Para ele, a disputa por controle de dados, algoritmos e infraestrutura digital não pode se transformar em mais um eixo de conflito entre potências, sob risco de aprofundar desigualdades e fragmentar ainda mais o sistema internacional.
Ao defender que a inteligência artificial não deve ter “um ou dois donos”, Lula conecta o debate tecnológico à geopolítica, apontando que a concentração de poder digital nas mãos de poucos países ou corporações pode gerar uma nova forma de dominação global.
A estratégia brasileira, portanto, articula dois níveis complementares. No plano econômico, busca ampliar o comércio e os investimentos com a Índia, diversificando parceiros e reduzindo dependências históricas. No plano político, tenta consolidar um eixo de cooperação Sul-Sul capaz de atuar como força moderadora em um cenário internacional cada vez mais tensionado.
Essa abordagem dialoga diretamente com o papel do BRICS, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e que vem se consolidando como um espaço de articulação das economias emergentes. O grupo tem defendido reformas na governança global e maior participação dos países do Sul nas decisões internacionais, além de promover cooperação em áreas como tecnologia, comércio e financiamento ao desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a defesa de Lula por evitar uma nova Guerra Fria também responde a eventos recentes que ampliaram a percepção de instabilidade global. Tensões comerciais, disputas tecnológicas, sanções econômicas e intervenções internacionais têm alimentado um ambiente de crescente rivalidade entre grandes potências, com impactos diretos sobre países periféricos e emergentes.
Nesse cenário, a aposta brasileira é clara: construir pontes em vez de blocos, fortalecer o multilateralismo em vez de alianças exclusivas e ampliar a cooperação entre países do Sul Global como forma de equilibrar o sistema internacional.
Mais do que uma declaração diplomática, a posição de Lula revela uma estratégia de inserção global. Ao defender a parceria com a Índia como instrumento para evitar uma nova Guerra Fria, o Brasil sinaliza que pretende atuar como mediador e articulador de uma ordem multipolar — na qual o desenvolvimento, a soberania e a cooperação substituam a lógica de confronto que marcou o século passado.


