Da Redação
Chanceler afirma que política externa brasileira será definida pelos interesses nacionais, defende negociação em lugar de sanções e aposta na diversificação de mercados para reduzir vulnerabilidades em meio à disputa entre Washington e Pequim.
O Brasil não pretende aceitar uma escolha imposta entre Estados Unidos e China. Em meio ao aumento das pressões comerciais e geopolíticas sobre a América Latina, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o governo Lula preservará suas relações com as duas potências e buscará, simultaneamente, ampliar a presença brasileira em novos mercados. A declaração foi dada ao jornal argentino Clarín e publicada neste domingo (9).
A posição expressa pelo chanceler toca em uma das questões centrais da política externa brasileira neste momento: como preservar autonomia diante da disputa cada vez mais aberta entre Washington e Pequim.
Vieira respondeu diretamente a uma pergunta sobre as pressões norte-americanas destinadas a limitar a presença econômica chinesa na América Latina. O chanceler lembrou a importância das relações brasileiras com os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do país, mas deixou claro que isso não significa reduzir os vínculos construídos com a China.
A mensagem política é relevante. Em vez de aderir automaticamente a um dos polos da disputa entre as grandes potências, o Itamaraty procura preservar espaço de manobra para negociar simultaneamente com diferentes centros de poder.
Essa orientação ganha importância porque China e Estados Unidos ocupam posições distintas e estratégicas para a economia brasileira. Pequim possui enorme peso no comércio exterior do Brasil, especialmente nas exportações de commodities, enquanto os Estados Unidos mantêm relações importantes em investimentos, indústria, tecnologia, serviços e comércio.
Transformar essa relação triangular em uma escolha binária significaria restringir deliberadamente as opções econômicas e diplomáticas brasileiras.
A estratégia apresentada por Vieira vai na direção contrária: diversificar.
O chanceler afirmou que Lula pretende expandir as relações comerciais brasileiras em várias regiões, mencionando o crescimento das trocas com o Sudeste Asiático e a manutenção dos vínculos econômicos com países europeus. A ideia é preservar mercados consolidados e, ao mesmo tempo, abrir novas alternativas para produtos, empresas e investimentos brasileiros.
Para um país com as dimensões econômicas, territoriais e demográficas do Brasil, diversificação comercial é também instrumento de soberania. Quanto maior a dependência de um único mercado, sistema financeiro, fornecedor tecnológico ou parceiro estratégico, maior a capacidade desse ator de transformar uma relação econômica em instrumento de pressão política.
O movimento brasileiro ocorre justamente quando Washington amplia sua disputa estratégica com a China e busca limitar a influência chinesa na América Latina. A América do Sul adquiriu importância especial nesse tabuleiro por reunir alimentos, petróleo, minerais críticos, lítio, cobre, biodiversidade, água, capacidade energética e mercados importantes.
É nesse ambiente que a defesa da autonomia brasileira deixa de ser uma formulação abstrata da diplomacia e passa a envolver decisões concretas sobre comércio, infraestrutura, energia, investimentos e tecnologia.
Vieira também rejeitou explicitamente a utilização de sanções e pressões econômicas como instrumento diplomático. Para o ministro, a negociação produz resultados mais consistentes do que medidas punitivas.
A declaração ganha peso adicional diante do atual contencioso comercial com Washington. Segundo Vieira, as tarifas norte-americanas estão provocando dificuldades não apenas para o Brasil, mas também para Argentina e outros países latino-americanos. O chanceler chegou a relacionar uma possível mudança dessa política ao resultado das eleições legislativas dos Estados Unidos, argumentando que uma derrota do governo no Congresso poderia produzir reflexos sobre a orientação tarifária de Washington.
Há uma questão estrutural por trás desse conflito. Tarifas, sanções, restrições tecnológicas, acesso ao sistema financeiro e controle de cadeias produtivas tornaram-se instrumentos cada vez mais importantes na disputa internacional. A fronteira entre política comercial e política de poder tornou-se mais estreita.
Para países do Sul Global, isso aumenta a importância de possuir alternativas.
A aproximação com China, BRICS e outras economias emergentes pode ampliar essas alternativas, mas também precisa ser conduzida com atenção aos interesses produtivos brasileiros. Não basta trocar um centro de dependência por outro. O desafio estratégico consiste em utilizar relações com diferentes parceiros para aumentar industrialização, transferência tecnológica, infraestrutura, empregos qualificados e capacidade nacional de decisão.
Essa lógica ajuda a explicar por que o governo brasileiro procura manter abertas simultaneamente as portas de Washington e Pequim.
A política não significa equidistância automática entre Estados Unidos e China, muito menos neutralidade diante de todas as questões internacionais. Significa que decisões brasileiras devem ser tomadas caso a caso segundo os interesses do país, e não como consequência automática das prioridades estratégicas de uma potência estrangeira.
Essa tradição possui raízes profundas na diplomacia brasileira. Em diferentes momentos históricos, Brasília procurou ampliar sua autonomia justamente multiplicando parceiros e recusando alinhamentos automáticos. Em um sistema internacional que caminha para uma configuração mais multipolar, essa margem de manobra torna-se ainda mais valiosa.
A estratégia também possui consequências para a América Latina. Se Brasil, Argentina e demais países da região forem obrigados a organizar suas relações econômicas segundo a disputa entre Washington e Pequim, o continente corre o risco de novamente funcionar como espaço de competição entre grandes potências, em vez de atuar como sujeito de seus próprios interesses.
Por isso, integração regional, diversificação comercial e cooperação Sul-Sul ganham dimensão estratégica. Quanto maior a capacidade latino-americana de negociar conjuntamente, desenvolver infraestrutura própria e diversificar relações internacionais, menor tende a ser sua vulnerabilidade às pressões externas.
A posição apresentada por Mauro Vieira pode ser resumida em três movimentos: preservar as relações econômicas com Estados Unidos e China, ampliar mercados em outras regiões e rejeitar a utilização de sanções e coerção como substitutos da negociação diplomática.
Em um mundo atravessado pela disputa entre grandes potências, a questão para o Brasil não deveria ser escolher quem obedecer. O desafio é construir poder econômico, tecnológico e diplomático suficiente para continuar escolhendo seus próprios caminhos.
É nesse ponto que a política externa se conecta diretamente à soberania nacional: manter relações com Washington, aprofundar relações com Pequim e abrir novos mercados não são objetivos contraditórios quando o centro da estratégia permanece sendo o interesse brasileiro.

