Da Redação
Grupo ampliado já concentra mais de 40% do PIB mundial medido por paridade de poder de compra, reúne quase metade da população do planeta e transforma seu crescente peso produtivo em instrumento de disputa pela reforma da governança internacional; avanço não significa o desaparecimento da supremacia financeira ocidental, mas revela que a distribuição da produção mundial já não corresponde à distribuição do poder construída no século XX.
A economia mundial atravessa uma transformação histórica que já não pode ser compreendida apenas pelos mapas tradicionais que dividiam o planeta entre um centro desenvolvido, concentrado na América do Norte, Europa Ocidental e Japão, e uma imensa periferia fornecedora de matérias-primas, energia e mão de obra barata. O crescimento das economias asiáticas, a ascensão da China como potência industrial, o aumento do peso da Índia, a reorganização econômica de partes da Eurásia e a emergência de novos centros de produção no chamado Sul Global produziram, ao longo das últimas décadas, uma mudança material na distribuição da riqueza mundial. Os BRICS são hoje a expressão política mais visível desse processo. O agrupamento, que começou reunindo Brasil, Rússia, Índia, China e posteriormente África do Sul, expandiu-se e passou a representar uma parcela da economia mundial que supera a do G7 quando a comparação é realizada pela paridade de poder de compra, a PPC. Não se trata de uma curiosidade estatística. Por trás desses números existe uma alteração concreta na geografia da produção mundial e, sobretudo, uma contradição cada vez maior entre os lugares onde a riqueza é produzida e aqueles onde continuam concentrados os principais instrumentos financeiros, monetários e institucionais de poder.
O debate voltou à tona com a análise do pesquisador Sarang Shidore, diretor do Programa Sul Global do Quincy Institute for Responsible Statecraft, repercutida pelo Brasil 247 a partir da agência russa Tass. Shidore chama atenção para uma característica frequentemente negligenciada nas avaliações ocidentais sobre o agrupamento: embora os BRICS apresentem divergências políticas, econômicas e estratégicas importantes, conseguiram construir em menos de duas décadas uma articulação transcontinental de grande dimensão sem estar subordinada ao núcleo tradicional das potências ocidentais. Esse é um aspecto fundamental para compreender o significado político do bloco. Não é necessário imaginar os BRICS como uma espécie de OTAN econômica, tampouco como uma aliança ideológica homogênea, para reconhecer que sua própria existência modifica o sistema internacional. Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e os demais países integrados ao processo de ampliação possuem interesses nacionais diferentes e, em alguns casos, contraditórios. O elemento que os aproxima não é uma identidade política uniforme, mas a percepção comum de que a distribuição do poder nas instituições internacionais deixou de corresponder ao peso econômico, populacional e político adquirido pelo mundo não ocidental.
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa transformação. Durante a presidência brasileira dos BRICS, dados oficiais apresentados pelo próprio agrupamento indicavam que seus 11 membros plenos representavam mais de 40% do Produto Interno Bruto mundial medido por paridade de poder de compra, aproximadamente 48,5% da população do planeta e cerca de 36% da superfície terrestre. Em outras contabilizações oficiais, os integrantes apareciam ainda como responsáveis por parcela próxima de 40% da economia mundial e por aproximadamente um quarto do comércio internacional. Esses números são impressionantes porque revelam uma inversão histórica. Durante a maior parte do período posterior à Revolução Industrial, uma parcela relativamente pequena da população mundial, localizada sobretudo nas potências europeias, nos Estados Unidos e posteriormente no Japão, concentrava uma fração extraordinariamente elevada da produção global. Hoje, quase metade da humanidade está reunida numa articulação internacional cujas economias, quando comparadas pelo volume real de bens e serviços que produzem e pelo poder de compra existente em seus próprios mercados, já possuem peso superior ao das sete grandes economias industrializadas reunidas no G7.
É necessário, entretanto, estabelecer uma distinção fundamental para que a dimensão política do acontecimento não seja transformada em exagero propagandístico. Os BRICS superaram o G7 quando o PIB é calculado por paridade de poder de compra; eles ainda não superaram o G7 em PIB nominal. A diferença é decisiva. A PPC procura corrigir as enormes diferenças de preços existentes entre os países e calcular quanto os bens e serviços produzidos por uma economia efetivamente representam em termos de capacidade econômica interna. Um dólar convertido para a moeda de uma economia emergente, por exemplo, pode adquirir uma quantidade muito maior de bens e serviços do que o mesmo dólar compraria nos Estados Unidos. Por isso, a PPC é particularmente útil para comparar o tamanho material das economias. Já o PIB nominal converte a produção nacional utilizando as taxas de câmbio vigentes nos mercados internacionais e continua sendo extremamente relevante para avaliar poder financeiro, capacidade de adquirir ativos no exterior, influência sobre mercados internacionais e peso monetário global.
É justamente quando os dois indicadores são observados simultaneamente que aparece uma das características mais importantes da transformação atual. Os BRICS avançaram mais rapidamente no terreno da produção do que no terreno das finanças. O G7 continua significativamente maior quando a economia é calculada em dólares correntes. Os Estados Unidos continuam possuindo o maior e mais sofisticado mercado financeiro do planeta; o dólar permanece como principal moeda de reserva internacional; Wall Street continua ocupando posição central na circulação global de capitais; empresas norte-americanas, europeias e japonesas dominam áreas fundamentais de tecnologia, propriedade intelectual, finanças, seguros, indústria farmacêutica, semicondutores, sistemas operacionais, infraestrutura digital e equipamentos de alta complexidade. Portanto, afirmar que os BRICS já são economicamente maiores do que o G7 sem explicar qual indicador está sendo utilizado seria incorreto. Mas ignorar a ultrapassagem pela PPC seria cometer o erro inverso: desprezar uma mudança material extraordinária na economia mundial.
A diferença entre essas duas medidas revela, na realidade, o coração da disputa geopolítica contemporânea. A produção mundial está se desconcentrando mais rapidamente do que o poder financeiro mundial. Países emergentes fabricam uma parcela crescente dos bens consumidos no planeta, controlam mercados gigantescos, concentram recursos energéticos, minerais estratégicos, terras agricultáveis, capacidade industrial e população, mas boa parte das estruturas que organizam o financiamento, os pagamentos internacionais, o crédito, as reservas monetárias e as instituições multilaterais continua profundamente vinculada à arquitetura construída sob liderança dos Estados Unidos e de seus aliados depois da Segunda Guerra Mundial. É precisamente dessa diferença entre peso econômico material e poder institucional que nasce boa parte da pressão pela reforma da ordem internacional.
A China é, evidentemente, a força econômica mais poderosa dentro dessa transformação. Sua industrialização nas últimas quatro décadas modificou numa escala extraordinária a divisão internacional do trabalho. Mas reduzir a ascensão dos BRICS simplesmente à China também seria equivocado. A Índia tornou-se uma das economias de crescimento mais acelerado entre as grandes potências e possui uma população superior a 1,4 bilhão de habitantes. Indonésia representa um dos maiores mercados do Sudeste Asiático. Brasil permanece entre os grandes produtores mundiais de alimentos, energia e recursos minerais e possui uma base industrial que, apesar de décadas de desindustrialização relativa, continua sendo uma das mais diversificadas do Sul Global. Rússia mantém enorme capacidade energética, mineral, científica, militar e nuclear. Países do Oriente Médio incorporados ao agrupamento acrescentam reservas financeiras, petróleo, gás e posição geográfica estratégica. África e América Latina introduzem recursos naturais, mercados e uma dimensão geopolítica indispensável à ambição de construir uma articulação efetivamente global.
Essa expansão alterou qualitativamente os BRICS. O agrupamento deixou de ser apenas uma coordenação entre cinco grandes economias emergentes e passou a funcionar como uma plataforma política que atravessa América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. Isso não elimina suas divergências. Índia e China mantêm disputas territoriais e uma competição estratégica profunda; Rússia e China possuem interesses convergentes em muitos campos, mas não são países politicamente indistinguíveis; Brasil procura preservar relações simultaneamente com Estados Unidos, União Europeia, China e demais parceiros; países produtores de petróleo possuem prioridades distintas das grandes economias importadoras de energia. Essa heterogeneidade impede que os BRICS funcionem como bloco disciplinado sob comando de uma única potência. Paradoxalmente, porém, pode ser justamente uma das razões de sua atração para o Sul Global: a participação no agrupamento não exige, pelo menos até agora, alinhamento automático em política externa ou submissão a uma estrutura militar integrada.
O crescimento econômico do grupo começou também a produzir instituições próprias. O exemplo mais concreto é o Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, criado em 2015 pelos países fundadores dos BRICS para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. A instituição, atualmente presidida pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, possui importância que ultrapassa o volume dos recursos que já conseguiu mobilizar. O NDB não rivaliza em escala com o Banco Mundial, tampouco substitui o Fundo Monetário Internacional ou as gigantescas estruturas financeiras ocidentais. Seu significado está em demonstrar que países emergentes podem construir, capitalizar e administrar uma instituição multilateral de financiamento sem que o poder decisório esteja automaticamente concentrado em Washington, Bruxelas ou nas demais capitais do G7. Essa experiência representa uma das primeiras tentativas concretas de transformar o crescimento econômico do Sul Global em infraestrutura institucional própria.
É justamente nesse terreno que a próxima etapa dos BRICS será decidida. Um agrupamento pode reunir metade da população mundial e uma parcela gigantesca da produção global, mas isso não significa automaticamente possuir poder equivalente sobre o sistema internacional. Poder econômico também depende de moeda, crédito, tecnologia, infraestrutura logística, sistemas de pagamentos, propriedade intelectual, cadeias produtivas, energia, comunicações, capacidade científica e instituições capazes de transformar recursos nacionais em influência internacional. É por essa razão que a discussão sobre maior utilização das moedas nacionais no comércio entre os integrantes dos BRICS adquiriu tanta importância. O objetivo mais realista, no curto e médio prazo, não é imaginar o desaparecimento do dólar ou a criação imediata de uma moeda única capaz de substituí-lo, mas reduzir vulnerabilidades produzidas pela dependência exclusiva de sistemas financeiros controlados por uma única jurisdição.
Essa questão ganhou enorme relevância depois que sanções econômicas passaram a ocupar posição central nas disputas geopolíticas. O controle norte-americano sobre partes fundamentais do sistema financeiro mundial concede aos Estados Unidos uma capacidade de projeção de poder que ultrapassa muito suas fronteiras territoriais. Empresas e bancos de países que não participam formalmente de determinadas sanções podem alterar seu comportamento simplesmente porque precisam preservar acesso ao mercado norte-americano, ao dólar ou às instituições financeiras que operam sob jurisdição dos Estados Unidos. Rússia, Irã e outros países submetidos a sanções experimentaram diretamente essa realidade. China, Índia, Brasil e demais grandes economias emergentes observam o precedente. Daí o interesse crescente por mecanismos de pagamentos em moedas nacionais, bancos multilaterais alternativos e estruturas capazes de reduzir a exposição a decisões unilaterais tomadas fora de seus territórios.
Isso não significa que esteja em andamento uma substituição rápida do dólar. A moeda norte-americana continua ocupando posição extraordinariamente dominante nas reservas internacionais e nos mercados financeiros, e nenhuma moeda dos BRICS dispõe atualmente da combinação de liquidez, confiança institucional, abertura financeira e profundidade de mercado necessária para reproduzir integralmente o papel do dólar. A própria China mantém controles relevantes sobre sua conta de capital. Portanto, a chamada “desdolarização” deve ser analisada como processo gradual de diversificação, e não como colapso iminente do sistema monetário existente. O fenômeno importante é outro: pela primeira vez em décadas, um conjunto significativo de países possui simultaneamente motivação política, dimensão econômica e capacidade tecnológica para experimentar circuitos financeiros que diminuam sua dependência de uma única moeda internacional.
Para o Brasil, essa transformação abre oportunidades enormes, mas também contém riscos que não podem ser ignorados. O interesse brasileiro não deveria ser trocar uma relação de dependência com o centro capitalista ocidental por uma nova relação periférica com a China ou qualquer outra potência. Multipolaridade só interessa verdadeiramente ao país se ampliar sua capacidade de decisão soberana. Isso significa utilizar a competição entre diferentes centros de poder para obter financiamento, tecnologia, investimentos e acesso a mercados capazes de fortalecer a estrutura produtiva brasileira. Se o Brasil permanecer fundamentalmente como exportador de soja, minério de ferro, petróleo e outras commodities, mesmo que o destino dessas mercadorias deixe de ser prioritariamente o Norte Global e passe a ser a Ásia, a estrutura essencial da dependência continuará existindo.
Esse problema torna-se ainda mais importante diante da corrida mundial por minerais críticos, terras raras, energia, inteligência artificial, semicondutores e infraestrutura digital. O Brasil possui reservas minerais extraordinárias, enorme biodiversidade, água, petróleo, potencial energético, capacidade agrícola e um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas. A questão estratégica não é simplesmente vender esses recursos para o parceiro que oferecer o maior preço imediato, mas construir cadeias produtivas dentro do país, desenvolver tecnologia, processar minerais, produzir equipamentos, ampliar a indústria e utilizar a riqueza natural como instrumento de desenvolvimento nacional. Uma ordem multipolar oferece mais compradores e mais fontes potenciais de investimento. Ela não garante, sozinha, que o Brasil deixe de ocupar uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho.
Essa é uma das razões pelas quais a ascensão dos BRICS precisa ser compreendida de maneira mais profunda do que uma simples competição estatística com o G7. O que está em disputa não é uma corrida esportiva para descobrir qual agrupamento possui o maior PIB. O fenômeno histórico é a erosão gradual da coincidência entre poder econômico mundial e poder político ocidental. Durante muito tempo, as maiores economias, os principais bancos, as moedas internacionais dominantes, as maiores empresas industriais e as instituições que formulavam as regras do comércio e das finanças estavam concentrados aproximadamente no mesmo espaço geopolítico. Essa correspondência começou a desaparecer. Hoje, uma parcela crescente da produção material está localizada fora desse núcleo, enquanto grande parte da infraestrutura financeira e institucional permanece nele.
É exatamente dessa defasagem que surgem os conflitos sobre reforma do Fundo Monetário Internacional, representação no Banco Mundial, composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas, regras da Organização Mundial do Comércio, sanções extraterritoriais, moedas internacionais e governança das novas tecnologias. Países que aumentaram dramaticamente sua participação na economia mundial passaram a reivindicar participação equivalente na definição das regras. As potências estabelecidas, por sua vez, não possuem incentivo automático para abrir mão dos instrumentos que acumularam ao longo de décadas. A transição para uma ordem multipolar, portanto, não será necessariamente pacífica ou linear. Ela ocorre simultaneamente a guerras comerciais, conflitos militares, protecionismo industrial, corrida tecnológica, disputa por semicondutores, rearmamento e reorganização das cadeias globais de produção.
Os BRICS estão inseridos exatamente nessa transformação. Seu sucesso futuro dependerá menos de declarações políticas grandiosas e mais da capacidade de transformar escala econômica em instituições duradouras. O Novo Banco de Desenvolvimento é um começo. A expansão do comércio entre os membros, a utilização crescente de moedas nacionais, os investimentos em infraestrutura, os corredores logísticos, a cooperação energética e tecnológica e a construção de mecanismos financeiros independentes determinarão se o agrupamento permanecerá como fórum diplomático de enorme peso simbólico ou se conseguirá participar efetivamente da reorganização da arquitetura econômica internacional.
Há ainda uma dimensão social que não pode desaparecer atrás dos grandes números. Os BRICS podem superar o G7 em PIB por PPC e, simultaneamente, apresentar renda média por habitante muito inferior à das economias desenvolvidas. A desigualdade interna continua gigantesca em vários de seus integrantes. China e Índia possuem dimensões econômicas colossais, mas seus níveis médios de renda permanecem distantes dos Estados Unidos. Brasil convive com enorme concentração de riqueza. África do Sul apresenta uma das estruturas de desigualdade mais severas do mundo. Portanto, aumentar a participação do Sul Global na produção mundial não significa automaticamente melhorar a distribuição da riqueza dentro de suas próprias sociedades. Uma multipolaridade constituída apenas pela ascensão de novas elites econômicas e novos grandes conglomerados empresariais poderia redistribuir poder entre Estados sem alterar substancialmente as condições de vida de suas populações.
Esse é talvez o maior desafio político do processo. Para os trabalhadores do Sul Global, a pergunta não pode ser apenas se Pequim, Nova Délhi, Brasília ou Moscou terão mais influência do que Washington, Londres ou Bruxelas. A questão precisa ser se a nova distribuição internacional de poder permitirá industrialização, empregos qualificados, melhores salários, soberania tecnológica, serviços públicos, infraestrutura e redução das desigualdades. Sem essa dimensão, a multipolaridade corre o risco de tornar-se apenas uma redistribuição geográfica do comando do capitalismo mundial.
Ainda assim, seria um erro histórico minimizar aquilo que já mudou. Os BRICS reúnem hoje uma massa demográfica, produtiva, energética e territorial que simplesmente não existia organizada politicamente dessa maneira algumas décadas atrás. A ultrapassagem do G7 pelo critério da paridade de poder de compra não anuncia o fim das potências ocidentais e muito menos o desaparecimento dos Estados Unidos como principal potência financeira e militar do sistema internacional. Ela revela algo mais preciso e talvez mais profundo: o mundo que produziu a arquitetura internacional do pós-guerra já não possui a mesma distribuição econômica que existia quando essa arquitetura foi construída.
É dessa contradição que nasce a pressão pela mudança. A produção se deslocou. Os mercados se deslocaram. A população economicamente ativa se deslocou. Cadeias industriais se deslocaram. Recursos estratégicos adquiriram novo valor. Mas o comando de muitas instituições continua refletindo uma correlação de forças anterior. Quanto maior se tornar essa distância entre a economia real do século XXI e as estruturas de poder herdadas do século XX, maior será a tensão sobre a ordem internacional.
Para o Brasil, existe uma oportunidade histórica dentro dessa transformação. O país pode utilizar os BRICS para diversificar relações econômicas, fortalecer o Novo Banco de Desenvolvimento, ampliar o financiamento de infraestrutura, defender reformas das instituições multilaterais, desenvolver mecanismos financeiros menos vulneráveis a pressões externas e construir parcerias tecnológicas com diferentes centros de poder. Mas a estratégia brasileira somente será soberana se mantiver liberdade para negociar também com Estados Unidos, União Europeia e outras potências. A multipolaridade interessa ao Brasil justamente porque aumenta opções. Transformá-la em um novo alinhamento automático destruiria parte de sua principal vantagem.
O dado mais importante, portanto, não é simplesmente que “os BRICS ficaram maiores que o G7”. Essa formulação é insuficiente para uma transformação muito mais complexa. O que está acontecendo é uma separação progressiva entre dois mapas do mundo: o mapa da produção e o mapa do poder. No primeiro, o Sul Global avançou extraordinariamente e os BRICS já ocupam posição central. No segundo, o G7 ainda conserva instrumentos financeiros, tecnológicos, monetários e institucionais gigantescos.
A grande disputa das próximas décadas será justamente saber se esses dois mapas voltarão a coincidir — agora numa estrutura mais distribuída — ou se a crescente concentração da produção fora do Ocidente coexistirá durante muito tempo com a permanência do comando financeiro dentro dele.
É nesse espaço histórico que os BRICS estão crescendo. E é por isso que sua ascensão não deve ser tratada nem como propaganda sobre o “fim do Ocidente”, nem como uma articulação irrelevante de países heterogêneos. Ela é a manifestação política de uma transformação material que já ocorreu em grande medida na economia mundial.
O centro de gravidade da produção está mudando. A questão agora é saber quando — e até onde — o poder mundial acompanhará esse movimento.






