Verificações publicadas após o confronto na TV Globo examinam afirmações sobre obras públicas, economia, programas sociais e apostas esportivas
O último debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Globo na sexta-feira (23), teve declarações de Lula e Flávio Bolsonaro submetidas à verificação de dados públicos e registros históricos. As checagens publicadas pelo jornal O POVO e pela agência Aos Fatos identificaram informações corretas, números desatualizados e afirmações que, apresentadas sem contexto, podem levar a interpretações equivocadas.
Entre os assuntos discutidos estavam a quantidade de obras públicas paralisadas, os investimentos no agronegócio, o volume das exportações brasileiras, a dívida pública e a origem da legislação que permitiu a expansão das apostas esportivas no país.
Obras paralisadas: Flávio utiliza número antigo
Ao criticar a gestão federal, Flávio Bolsonaro afirmou que o governo de Jair Bolsonaro recebeu o país com aproximadamente 14 mil obras paralisadas e encerrou o mandato, em 2022, com cerca de 8,6 mil nessa situação. Os números correspondem a registros do Tribunal de Contas da União (TCU).
O senador também mencionou a existência de 11,5 mil obras paralisadas como dado mais recente. A informação, contudo, corresponde a abril de 2025. No levantamento com data-base de abril de 2026, o TCU registrava aproximadamente 4,2 mil obras federais paralisadas, equivalentes a 18,8% do total considerado naquele recorte.
A checagem também examinou a declaração de Lula de que havia recebido cerca de 6 mil obras paradas. Segundo o Aos Fatos, o TCU registrava 8.603 obras paralisadas em abril de 2023. A comparação exige atenção às datas e às bases utilizadas, porque o número absoluto de obras e o total de projetos considerados variaram entre os levantamentos.
Exportações atingem recorde, segundo dados oficiais
Lula afirmou que o Brasil nunca havia exportado tanto. A declaração foi confirmada pelas informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços: em 2025, as exportações brasileiras alcançaram US$ 348,28 bilhões, o maior valor nominal da série histórica utilizada na checagem, iniciada em 1997.
O presidente também afirmou que seu governo ampliou os investimentos destinados ao agronegócio em comparação com a gestão de Jair Bolsonaro. A verificação publicada pelo O POVO considerou correta a declaração, com base nos valores anunciados para o setor nas duas administrações.
A comparação entre períodos, entretanto, deve considerar os valores nominais, a inflação e as diferenças entre recursos anunciados, crédito disponibilizado e desembolsos efetivamente realizados. Esses indicadores não são equivalentes.
Os R$ 400 bilhões citados por Flávio
Flávio Bolsonaro acusou Lula de gastar R$ 400 bilhões em medidas para tentar garantir a reeleição. A checagem do O POVO classificou o valor como exagerado.
De acordo com dados da Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado Federal, as medidas mencionadas na discussão mobilizavam R$ 298,4 bilhões em 2026. O conjunto incluía iniciativas de crédito e renúncias fiscais, além de mudanças em benefícios e programas econômicos.
O montante, porém, não significa que todo o valor tenha sido efetivamente desembolsado. Também não comprova, por si só, que as medidas tenham sido adotadas com finalidade eleitoral. Para estabelecer essa relação, seria necessário examinar cada iniciativa, seu calendário e seus fundamentos.
A origem das apostas esportivas
A discussão sobre as apostas esportivas e os jogos conhecidos como bets também produziu acusações recíprocas. Flávio chamou Lula de responsável pela expansão desse mercado, enquanto o presidente atribuiu a liberação das apostas ao governo Bolsonaro.
A legislação que autorizou as apostas de quota fixa foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada em dezembro de 2018, durante o governo Michel Temer. A Lei nº 13.756 estabeleceu o marco legal inicial dessa modalidade e previu sua regulamentação posterior.
O prazo para regulamentação alcançava 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. A implementação das regras, a regulamentação do mercado e a entrada em vigor de novas exigências ocorreram em etapas diferentes. Por isso, atribuir todo o processo a um único governo omite parte da cronologia legal.
Dívida pública ultrapassa R$ 11 trilhões
Flávio afirmou que a dívida pública chegava a R$ 11 trilhões em 2026. A informação foi confirmada pelos dados do Banco Central: a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
O indicador abrange as obrigações do governo geral, incluindo governo federal, governos estaduais e municipais e o INSS, conforme a metodologia do Banco Central. A dívida bruta é diferente de outros indicadores fiscais, como a dívida líquida, e sua evolução precisa ser examinada em relação ao tamanho da economia, às receitas públicas e aos custos de financiamento.
O valor, isoladamente, não explica as causas do endividamento nem permite atribuir toda a variação a uma única medida de governo.
Fome e insegurança alimentar
Ao falar sobre o combate à fome, Lula afirmou que havia eliminado o problema em seu governo anterior e mencionou a situação encontrada em 2023, quando voltou à Presidência.
A checagem do O POVO apontou imprecisão na declaração. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, em 2023 havia 21,1 milhões de domicílios brasileiros com algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a 27,6% do total.
A pesquisa também indicou que o menor percentual da série considerada foi registrado em 2013, quando 22,6% dos domicílios apresentavam algum grau de insegurança alimentar. Os dados não sustentam a afirmação de que a fome havia sido completamente eliminada.
É necessário distinguir a insegurança alimentar em seus diferentes níveis da situação mais grave, caracterizada pela falta de acesso regular a alimentos e pela experiência da fome. Os indicadores medem fenômenos relacionados, mas não idênticos.
O voto de Flávio contra a licença-maternidade
Lula voltou a questionar Flávio sobre o voto contrário à ampliação da licença-maternidade de servidoras estaduais do Rio de Janeiro, em 2009. Segundo a checagem, o senador foi o único deputado estadual a votar contra a proposta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Durante o debate, Flávio reconheceu o voto e afirmou que, à época, acreditava que a ampliação do período de afastamento poderia dificultar a contratação de mulheres. Disse também que hoje votaria de maneira diferente, considerando sua experiência como pai.
O registro da votação permite verificar a declaração de Lula. A justificativa apresentada posteriormente pelo senador é uma manifestação sobre as razões que atribuiu à sua decisão naquele momento.
Constituição de 1988 e a posição do PT
Flávio também mencionou que Lula votou contra a Constituição de 1988. A informação é verdadeira, mas exige contextualização histórica.
Na votação final do texto constitucional, o PT orientou seus parlamentares a votar contra a proposta aprovada. O partido defendia alterações no documento e havia utilizado a possibilidade de rejeição como instrumento de pressão durante as negociações.
O texto final foi aprovado por 474 votos favoráveis, 15 contrários e três abstenções. Após a derrota de sua posição, o PT aceitou a Constituição e assinou o documento. A referência ao voto de Lula sem essa contextualização deixa de fora a disputa política e legislativa que marcou a elaboração da Carta.
O vídeo de Bolsonaro sobre pacientes com Covid-19
Ao defender o pai, Flávio contestou a interpretação de que Jair Bolsonaro teria debochado de pessoas que sofriam com falta de ar durante a pandemia. A checagem do O POVO considerou que a declaração exigia contexto.
Em vídeo de 2020, Jair Bolsonaro reproduziu sons de sufocamento ao comentar a orientação de procurar atendimento hospitalar quando surgisse falta de ar. Na mesma fala, defendeu o chamado tratamento precoce e criticou a conduta recomendada pelo então ministro da Saúde, Henrique Mandetta.
O registro permite examinar o conteúdo original da declaração, em vez de considerar apenas a explicação apresentada anos depois. A interpretação do episódio precisa levar em conta as palavras utilizadas pelo então presidente e o contexto da crise sanitária.
Segurança pública e os dados sobre violência
Flávio afirmou que os estados mais violentos do Brasil estão no Nordeste. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que sete unidades federativas nordestinas aparecem entre as dez com maiores taxas de mortes violentas intencionais. Entretanto, o primeiro lugar nesse ranking é ocupado pelo Amapá, na Região Norte.
O indicador reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. A posição de cada estado depende do indicador utilizado e do período analisado. A presença de sete estados nordestinos entre os dez primeiros não significa que toda a região apresente uma situação uniforme.

