Tucano intensifica acusações contra o governador e Camilo Santana, recorre a comparações frágeis e deixa propostas em segundo plano, enquanto petista defende resultados da gestão e explora a aliança do adversário com o bolsonarismo
Da Redação
Ciro Gomes (ex-PDS, ex-PMDB, ex-PSDB, ex-PPS, ex-PSB, ex-PROS, ex-PDT e agor PSDB) chegou mais preparado para o segundo confronto eleitoral com Elmano de Freitas (PT), mas voltou a dedicar uma parcela significativa de seu tempo aos ataques pessoais e às acusações sem comprovação apresentada durante o programa. No primeiro debate entre candidatos ao Governo do Ceará realizado no Cariri, o tucano demonstrou domínio de alguns dados, expôs problemas reais enfrentados pelo estado e cobrou respostas do governador. Em diferentes momentos, porém, substituiu o detalhamento de suas propostas por insultos, ironias e comparações entre períodos históricos que pouco ajudam o eleitor a avaliar os projetos em disputa.
O encontro foi promovido pelo Grupo de Comunicação O POVO nesta quinta-feira (27), com transmissão pelas rádios O POVO CBN e O POVO CBN Cariri, pela TV O POVO, pelo canal do jornal no YouTube e por uma rede de 17 emissoras do interior. O formato concedeu amplo espaço para perguntas diretas entre os candidatos, além de uma rodada conduzida por jornalistas do grupo.
Ciro abriu o debate questionando uma declaração anterior de Elmano sobre a existência de territórios controlados por organizações criminosas. “Você tem coragem de fazer essa mesma afirmação diante de todos os cearenses?”, perguntou. O tucano mencionou homicídios, famílias expulsas de suas casas e a baixa taxa de esclarecimento dos crimes para responsabilizar a atual gestão pelo avanço das facções.
Elmano reconheceu que o Ceará enfrenta a presença de organizações criminosas, situou o problema no cenário nacional e enumerou medidas adotadas pelo governo. “Nós estamos intensificando uma nova política de segurança pública, contratando 5.700 profissionais de segurança, distribuindo viaturas com blindagem para a Polícia Militar”, afirmou. O governador também citou a expansão da Polícia Civil e a ampliação do contingente destinado à inteligência.
O petista rebateu Ciro a partir de sua própria trajetória administrativa. “Como governador, por que não derrotou a facção? Como consultor da segurança, por que não derrotou a facção? E por que, como deputado federal, não ajudou a fazer uma lei para derrotar as facções no Brasil e no Ceará?”, questionou.
Ciro respondeu que as organizações criminosas teriam se instalado de maneira estruturada no estado entre 2015 e 2016, segundo uma tese de doutorado da Universidade Federal do Ceará. A resposta foi mais organizada do que a apresentada no debate anterior, quando o candidato pareceu surpreendido pela tentativa de Elmano de relacionar a origem das facções ao período em que ele governou o Ceará.
Isso não impediu o tucano de transformar o assunto em uma sequência de ataques. Ciro acusou Elmano de “fraqueza”, “incompetência” e “conivência” com organizações criminosas, sem apresentar provas dessa última afirmação. Mais adiante, chamou o governador de “pintinho calçudo diante das facções”. A expressão foi repetida ao longo da noite e ajudou a produzir cortes para as redes sociais, mas não acrescentou conteúdo à discussão sobre segurança pública.
Elmano explorou a aliança de Ciro com Capitão Wagner, candidato ao Senado ligado ao campo bolsonarista e associado politicamente ao motim policial de 2020. “Agora o candidato a senador dele, bolsonarista, Capitão Wagner, é o capitão do motim”, afirmou o governador, lembrando que Cid Gomes, irmão de Ciro, foi baleado durante a paralisação em Sobral.
Ciro não apresentou uma explicação consistente para a composição com Wagner. A ausência foi relevante porque o tucano construiu parte de sua trajetória recente em oposição ao bolsonarismo e ao próprio Capitão Wagner. Ao não enfrentar a contradição, deixou que Elmano apresentasse a atual coligação como resultado de uma aproximação entre antigos adversários, reunidos principalmente para derrotar o PT.
Ataques ocupam espaço das propostas para a saúde
Na discussão sobre a interiorização da saúde, Elmano destacou os hospitais regionais construídos durante os governos de Cid Gomes e Camilo Santana, além das unidades em implantação no Cariri, em Iguatu, Crateús e Baturité. O governador também defendeu a descentralização do tratamento contra o câncer.
“Você prefere, você de Iguatu, que seu familiar seja atendido em Iguatu ou venha a Barbalha para fazer a sessão de quimioterapia?”, perguntou Elmano. Segundo ele, o governo pretende ampliar a oferta de radioterapia e os contratos com hospitais filantrópicos do interior.
Ciro respondeu com acusações de “roubalheira” e clientelismo na administração das unidades, mas não apresentou documentos que permitissem ao público avaliar as denúncias. “A roubalheira é do primeiro ao quinto”, declarou ao criticar a gestão do Hospital Regional do Cariri. Em outra passagem, afirmou que “a incompetência e a ladroeira são a marca generalizada” do governo.
A repetição de acusações sem demonstração comprometeu a crítica que Ciro poderia formular sobre problemas concretos da saúde regional. O candidato citou a ausência de determinados serviços, a necessidade de pacientes viajarem para Fortaleza e o descumprimento do prazo legal para o início do tratamento contra o câncer. Esses pontos poderiam sustentar um questionamento consistente sobre a capacidade de atendimento da rede, mas acabaram diluídos em ofensas e insinuações.
Elmano reagiu lembrando que uma denúncia anterior feita por Ciro contra o Hospital Regional do Cariri foi arquivada pelo Ministério Público. “Você só quer agredir, mas pode ter certeza de que encontrou um candidato a governador com toda a coragem, sem perder o controle, de lhe enfrentar e lhe derrotar nas urnas”, afirmou.
O tucano prometeu zerar a fila de procedimentos e reorganizar o atendimento regional, mas não detalhou prazos, fontes de recursos ou mecanismos de contratação. “A minha proposta é resolver esse problema, qualificando o hospital do câncer verdadeiramente, sem precisar construir prédio”, declarou. A afirmação indicou uma preferência pela contratação e qualificação da estrutura existente, porém permaneceu genérica.
Na pauta das famílias atípicas, Ciro apresentou uma iniciativa mais objetiva. O candidato prometeu realizar um mutirão para garantir laudos e ampliar o atendimento a crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista, síndrome de Down e outras condições.
“O mutirão vai ser iniciado imediatamente, se eu tiver a honra de tomar posse como governador”, afirmou. Ciro disse que aproximadamente 150 mil famílias aguardam diagnóstico ou atendimento especializado, embora esse número não tenha sido verificado durante o programa.
Elmano respondeu que o estado já desenvolve políticas em colaboração com os municípios e citou o centro especializado de reabilitação do consórcio de saúde do Crato. O governador admitiu que a estrutura precisa ser ampliada: “Nós temos plena concordância, mas é para fazer, não é para ficar com fala”.
Comparações sobre emprego exigem cautela
Elmano utilizou a geração de empregos formais como um dos principais resultados de sua administração. “Eu tenho muito orgulho de ser esse governador que mais criou emprego de carteira assinada na história do Ceará: 185 mil”, afirmou. Segundo ele, mais de 20 mil postos foram abertos no Cariri.
O governador também apresentou investimentos públicos, logística, qualificação profissional e energia renovável como elementos de uma política de desenvolvimento para o interior. Citou a Ferrovia Transnordestina, o polo de processamento de dados e a expansão de empresas no Crato e em Juazeiro do Norte.
Ciro questionou a qualidade dos empregos e afirmou que o Ceará caiu da 15ª para a 25ª posição nacional em renda familiar. “Entre os que trabalham formalmente, o Ceará tem o terceiro pior salário do Brasil”, declarou. O tucano também alertou para a informalidade e para a perda de participação da indústria.
A crítica à renda e à qualidade das vagas merecia uma resposta mais precisa do governador. A quantidade de empregos formais, isoladamente, não informa se houve melhoria salarial, estabilidade ou redução das desigualdades entre Fortaleza e o interior. Elmano contestou Ciro, mas não esclareceu essas dimensões.
Ao mesmo tempo, o governador comparou os 185 mil empregos de sua gestão aos 40 mil que teriam sido criados durante o governo Ciro, no começo da década de 1990. A comparação desconsidera mudanças demográficas, econômicas e trabalhistas ocorridas ao longo de mais de 30 anos. Ciro identificou o anacronismo, mas também recorreu repetidamente ao desempenho de seu próprio governo para sustentar que possui experiência administrativa superior.
O tucano criticou o centro de processamento de dados anunciado para o Ceará e afirmou que o empreendimento empregará somente 300 pessoas. Também ironizou os projetos de hidrogênio verde: “Passou três anos enganando a população do Ceará com negócio de hidrogênio verde. Fura meu olho com uma molécula de hidrogênio. Não tem”.
A ironia simplificou uma discussão que exigia maior cuidado. Grandes centros de processamento podem gerar poucos empregos diretos depois de construídos, mas seus impactos precisam ser avaliados a partir do investimento, da demanda energética, do uso de água, da arrecadação e da relação com a infraestrutura tecnológica. Ciro apontou corretamente a necessidade de examinar os benefícios concretos, porém preferiu a frase de efeito a uma análise completa do projeto.
Reforma tributária revela problema sem solução clara
A reforma tributária colocou os candidatos em posições opostas. Ciro afirmou que o fim dos incentivos baseados na cobrança do imposto na origem reduzirá a capacidade de atração de empresas para o Ceará. Segundo ele, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional não será suficiente para compensar os benefícios fiscais atualmente concedidos.
“Se nós tomarmos R$ 6 bilhões, vamos ter que escolher quem vai morrer, porque o Ceará hoje dá R$ 6 bilhões de incentivos fiscais”, afirmou o candidato. Apesar de apontar um problema relevante para os estados nordestinos, Ciro não explicou como pretende substituir o modelo anterior caso seja eleito.
Elmano defendeu a mudança ao argumentar que a cobrança no destino ampliará a receita dos estados consumidores. “Isso aumenta o recurso dos estados do Nordeste. Isso aumenta o recurso das prefeituras para fazer mais saúde, para fazer mais educação”, declarou.
O governador também afirmou que já discute com o setor produtivo uma política de transição. Ainda assim, não apresentou estimativas sobre quanto o Ceará deverá receber do fundo regional nem demonstrou se esses recursos compensarão a redução gradual dos incentivos atuais. Nesse tema, os dois candidatos identificaram aspectos diferentes da reforma, mas nenhum ofereceu uma resposta completa.
Bebeto do Choró entra no confronto
Ciro elevou novamente o tom ao questionar a situação de Bebeto do Choró, investigado pela Polícia Federal e considerado foragido. O tucano perguntou por que o ex-prefeito ainda não havia sido preso e por que permanecia filiado ao PSB, partido presidido no Ceará por Eudoro Santana, pai de Camilo Santana.
“Esse cara está mandado prender pela Justiça há quase dois anos. Sabia que ele é filiado ao PSB?”, questionou Ciro. O candidato acusou Bebeto de ligação com facções e afirmou que ele teria financiado campanhas de 34 prefeitos aliados de Elmano, sem apresentar documentação durante o programa.
Elmano respondeu que a investigação tramita na Justiça Federal e está sob responsabilidade da Polícia Federal. “Esta ação é da Justiça Federal, competência da Polícia Federal, e você sabe”, afirmou. O governador também lembrou que Bebeto apoiou Roberto Cláudio na eleição de 2022, quando o candidato hoje investigado ainda circulava no grupo político do qual Ciro participava.
A resposta esclareceu que o governador não possui competência para ordenar a prisão em um caso federal. Elmano, contudo, não explicou por que o PSB ainda mantém Bebeto em seus quadros nem se defende a abertura de um processo de expulsão. Esse era o ponto político mais consistente da cobrança de Ciro e permaneceu sem resposta.
Camilo vira alvo preferencial
Camilo Santana foi citado repetidamente por Ciro, mesmo sem participar do debate. O tucano acusou o ministro de exercer controle sobre o governo de Elmano, questionou a execução de obras iniciadas durante sua gestão e afirmou que o antigo aliado teria se “vendido por um cargo”.
O ataque mais evidente ocorreu quando Ciro ironizou o cabelo de Camilo. “A única inveja que eu tenho do Camilo é esse pedaço de rabo de guaxinim que ele botou na testa dele. E eu sou careca”, disse.
A tentativa de humor desviou a discussão sobre pobreza que estava em andamento e introduziu um comentário sobre a aparência do ministro sem qualquer relevância para o eleitor. A fala também expôs uma fragilidade da estratégia de Ciro: ao concentrar ataques em Camilo, o tucano permite que Elmano se apresente como defensor de um aliado com forte votação e elevada aprovação no Cariri.
“Pare dessa inveja de Camilo. Isso não faz bem para você”, respondeu Elmano. Em seguida, atribuiu ao ministro a implantação de hospitais, estradas e outras obras na região.
Ciro também chamou Elmano de “serviçal” e apresentou Camilo como “patrão” e “dono” do governador. A estratégia busca retirar autonomia política do candidato petista, mas perde força quando assume caráter pessoal. Para demonstrar dependência administrativa, seria necessário apontar decisões, nomeações ou estruturas concretas de influência, não recorrer a adjetivos.
Elmano explora campo nacional e sustenta defesa
Elmano manteve uma postura mais controlada durante a maior parte do debate, embora também tenha recorrido a provocações e comparações questionáveis. O governador chamou Ciro de “velho coronel”, acusou o adversário de agir por inveja e repetiu que seus dados eram falsos ou equivocados.
Ainda assim, o petista demonstrou conhecimento sobre programas, obras e números de sua administração. Suas respostas sobre saúde, emprego e educação foram, em geral, acompanhadas por exemplos concretos, mesmo quando faltou contextualizar os resultados ou responder diretamente às críticas.
O governador também explorou de maneira insistente a ligação de Ciro com o bolsonarismo. “Temos duas candidaturas com dois projetos nacionais, uma ao lado do bolsonarismo e outra ao lado de Lula”, declarou após o debate.
Nas considerações finais, Elmano voltou a associar sua candidatura ao Presidente Lula e apresentou a cooperação com o Governo Federal como condição para a continuidade dos investimentos. Citou a Transnordestina, o Cinturão das Águas, os hospitais e a expansão das escolas de tempo integral.
Ciro tentou se apresentar como candidato independente. “Eu não tenho muletas”, declarou. Também afirmou que buscará recursos federais qualquer que seja o Presidente eleito. Sua coligação, porém, reúne forças que passaram os últimos anos em campos adversários e cuja convergência ainda exige explicações políticas.
Ciro melhora desempenho, mas repete antigos excessos
Ciro teve um desempenho mais preparado do que no primeiro debate. Antecipou ataques, levou referências para contestar Elmano e conseguiu pautar temas sensíveis, como segurança, renda, atendimento oncológico e dificuldades enfrentadas pelas famílias atípicas. Seu diagnóstico sobre a necessidade de examinar a qualidade dos empregos e a capacidade real dos serviços públicos merece atenção.
O candidato, contudo, reduziu o alcance de suas próprias críticas ao repetir acusações sem provas apresentadas no debate e recorrer a insultos. Expressões como “pintinho calçudo”, “serviçal”, “demagogo mentiroso” e “pedaço de rabo de guaxinim” podem produzir circulação nas redes sociais, mas não esclarecem como seu eventual governo enfrentaria os problemas apontados.
Elmano saiu do encontro sem responder satisfatoriamente a questões sobre renda, concentração dos empregos, permanência de Bebeto do Choró no PSB e capacidade efetiva dos serviços de saúde no interior. Ainda assim, resistiu à tentativa de Ciro de dominar o debate pela experiência e sustentou a defesa do governo com informações sobre programas em andamento.
O primeiro debate realizado no Cariri permitiu identificar uma diferença importante entre as estratégias. Elmano pretende transformar a eleição em uma escolha entre continuidade administrativa, parceria com o Presidente Lula e ampliação dos investimentos. Ciro procura converter a insatisfação com a segurança, a saúde e a renda em rejeição ao grupo governista. Para isso, porém, precisará apresentar mais respostas e depender menos de ataques pessoais.
O Grupo de Comunicação O POVO realizará outro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará em 23 de setembro, em Fortaleza. No dia seguinte, promoverá um encontro entre os concorrentes ao Senado.

