Em entrevista ao Democracia no Ar, a jornalista Carolina Bataier detalha o dossiê Farras, que identificou R$ 3,08 bilhões em contratos públicos para apenas 40 artistas e revelou conexões entre produtoras, empresas de apostas, agronegócio e agentes políticos
Da Redação
A indústria dos grandes shows financiados com recursos públicos movimentou pelo menos R$ 3,08 bilhões entre janeiro de 2024 e março de 2026. O dinheiro foi destinado a apenas 40 artistas e bandas contratados por prefeituras e governos estaduais em todo o país. Os números fazem parte do dossiê Farras, produzido pelo Observatório De Olho nos Ruralistas, tema da entrevista concedida pela jornalista Carolina Bataier ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular.
Durante a conversa com a apresentadora Sara Goes e a professora Sandra Helena, Carolina explicou que o levantamento não questiona a realização de festas populares nem o financiamento público da cultura. O foco da investigação é outro: a concentração de recursos em um pequeno grupo de artistas e produtoras, a inflação acelerada dos cachês e as relações estabelecidas entre esse mercado, empresas de apostas, políticos e setores do agronegócio.
“Não estamos criticando o fato de haver festas públicas ou de elas serem pagas com dinheiro público. O que estamos questionando é o acúmulo desses cachês nas mãos de poucos artistas.”
O relatório foi lançado em julho e resulta de uma investigação conduzida ao longo de seis meses por Alceu Luís Castilho, Bernardo Fialho, Bruno Bassi e Carolina Bataier. Ao todo, a equipe analisou mais de 20 mil contratos públicos firmados em todo o Brasil, cruzando informações obtidas no Portal Nacional de Contratações Públicas, tribunais de contas, ministérios públicos estaduais e portais de transparência municipais. Cerca de 40% dos contratos sequer estavam disponíveis na principal base federal, exigindo uma busca manual em milhares de documentos.
Uma investigação que começou com Zezé Di Camargo
Segundo Carolina, a pesquisa nasceu depois que Zezé Di Camargo anunciou o rompimento com o SBT por causa da visita do presidente Lula à emissora. Na ocasião, reportagens apontavam que o cantor havia recebido cerca de R$ 20 milhões em contratos públicos.
A equipe decidiu aprofundar a investigação.
“Fomos conferir quanto ele realmente recebia. Descobrimos que aqueles R$ 20 milhões eram apenas uma parte. O valor identificado chegou a R$ 73 milhões.”
O caso revelou uma realidade muito maior.
Ao ampliar a análise para outros artistas, os pesquisadores encontraram um universo de contratos que ultrapassava R$ 5 bilhões para cem bandas e cantores apenas entre 2024 e março de 2026. Desse total, R$ 3,08 bilhões ficaram concentrados em quarenta artistas que receberam, individualmente, mais de R$ 50 milhões no período.
Cinco produtoras concentram quase metade do dinheiro
Outro aspecto destacado durante a entrevista foi o papel das produtoras.
Embora os artistas apareçam como protagonistas, Carolina afirmou que o dinheiro se concentra ainda mais nas empresas responsáveis por administrar suas carreiras.
Cinco produtoras nordestinas responderam por R$ 2,42 bilhões em contratos públicos, o equivalente a quase metade do volume movimentado pelos cem artistas mais contratados. Apenas Camarote Shows e Vybbe, ligadas respectivamente a Wesley Safadão e Xand Avião, administram diversos nomes presentes entre os mais contratados do país.
“Os artistas estão longe de ser o último elo da cadeia. Existe toda uma estrutura empresarial por trás desses contratos.”
O relatório mostra que oito dos dez artistas mais contratados pertencem justamente a essas grandes produtoras.
Os cachês cresceram muito acima da inflação
Um dos pontos que mais chamou atenção durante a entrevista foi a velocidade com que alguns cachês cresceram.
Natanzinho Lima, líder do ranking nacional, passou de um cachê médio de aproximadamente R$ 160 mil para quase R$ 800 mil em apenas dois anos, um aumento superior a 400%.
Pablo registrou crescimento de aproximadamente 203%.
Rei Vaqueiro teve alta próxima de 148%.
Seu Desejo e Toque Dez também mais que dobraram seus valores médios.
“A inflação desses cachês é muito expressiva.”
Carolina citou o caso de Rei Vaqueiro em Tamboril, no Ceará. Em cerca de um ano, o cantor realizou três apresentações financiadas com recursos públicos na cidade. A cada novo contrato, o cachê aumentou R$ 50 mil.
O Nordeste lidera os contratos
Ao contrário da percepção comum de que o sertanejo domina esse mercado, Carolina explicou que os dados revelam outro cenário.
O Nordeste concentra 78% dos shows realizados pelos quarenta artistas mais contratados e responde por R$ 2,22 bilhões dos contratos analisados.
Nesse universo, ritmos como piseiro, forró romântico, brega e arrocha têm participação superior à do sertanejo em valores movimentados. Natanzinho Lima aparece como o principal representante desse fenômeno.
A pesquisa identificou ainda que o sertanejo mantém ampla predominância apenas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Bets passaram a fazer parte do espetáculo
Um dos capítulos mais debatidos durante a entrevista trata da presença das empresas de apostas.
Segundo o levantamento, os dez artistas que mais realizaram shows públicos fazem publicidade para plataformas de apostas. Sete deles são classificados pelas próprias empresas como “embaixadores” das marcas.
Carolina afirmou que as bets deixaram de ser apenas patrocinadoras e passaram a integrar o próprio espetáculo.
Há artistas que chegam aos shows usando chapéus com logotipos das plataformas, promovem sorteios durante as apresentações e aparecem em eventos públicos cercados pela identidade visual das empresas.
O relatório também aponta que municípios que receberam shows associados às bets registraram maior volume de apostas do que localidades sem esse tipo de evento, com base em dados obtidos junto ao Ministério da Fazenda.
“Nós estamos em um momento em que não dá mais para ignorar os impactos das bets sobre a saúde financeira e emocional da população.”
Municípios em emergência continuam bancando grandes shows
Outro dado apresentado durante a entrevista diz respeito à situação financeira e administrativa dos municípios contratantes.
Dos 2.006 municípios que realizaram shows públicos desde 2024, 1.069 haviam decretado situação de emergência e outros 13 estavam em estado de calamidade pública. Ao todo, 53% das cidades analisadas enfrentavam algum tipo de situação excepcional quando contrataram artistas do grupo investigado.
O relatório questiona se esses gastos representam prioridade diante das necessidades locais.
Política também aparece no mapa dos contratos
Carolina destacou que a investigação cruzou os contratos com informações sobre prefeitos, governadores e partidos políticos.
Segundo ela, administrações comandadas por PSD, União Brasil e PP lideram as contratações dos artistas que integram o levantamento. O estudo também identificou relações de proximidade entre artistas, empresários, parlamentares e gestores públicos, embora não afirme que essas relações constituam irregularidades.
Durante a entrevista, Carolina citou exemplos de artistas recebidos por governadores em aeroportos, encontros privados entre empresários do setor e políticos e apresentações contratadas pouco tempo depois desses contatos.
Agronegócio e vaquejadas fazem parte do circuito
Outro aspecto explorado pela jornalista foi a ligação entre parte dos artistas e o agronegócio.
Embora nem todos sejam sertanejos, muitos passaram a investir em fazendas, cavalos de alto valor, parques de vaquejada e outras atividades relacionadas ao setor rural.
O relatório conclui que os rodeios, as exposições agropecuárias e as vaquejadas formam um circuito econômico integrado ao mercado dos grandes shows públicos. Em contraste, eventos ligados à agricultura familiar recebem investimentos muito menores.
“Descobrimos uma caixa-preta”
Ao final da entrevista, Carolina resumiu o resultado da investigação.
“Descobrimos uma caixa-preta.”
Segundo ela, o objetivo do trabalho não é atacar artistas nem condenar as festas populares, mas ampliar o debate sobre transparência, critérios de contratação e distribuição dos recursos destinados à cultura.
O dossiê Farras sustenta que compreender a indústria dos shows públicos exige olhar para muito além dos palcos. Produtoras, empresas de apostas, relações políticas e interesses econômicos formam uma rede que movimenta bilhões de reais e influencia diretamente a organização desse mercado.
Assista à íntegra da entrevista no canal da TV Atitude Popular:
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