Eleitor cearense estuda mais, mas jovens se afastam dos partidos

Escolaridade avançou de forma expressiva no Ceará, enquanto filiação partidária entre brasileiros de 16 a 34 anos caiu 54% desde 2010

Da Redação

O eleitorado que chegará às urnas em 2026 é mais escolarizado do que o registrado no início dos anos 2000. No Ceará, o ensino médio tornou-se, pela primeira vez, o nível de escolaridade predominante entre os eleitores. Ao mesmo tempo, outra transformação chama atenção: os jovens acompanham a política, participam de mobilizações e se informam pelas redes, mas estão cada vez mais distantes das estruturas partidárias tradicionais.

Os dois movimentos não são necessariamente contraditórios. Eles apontam para uma mudança mais ampla na relação da sociedade com a política. O eleitor tem maior acesso à educação e à informação, mas demonstra menos disposição para assumir vínculos formais com partidos que, em muitos casos, ainda funcionam com estruturas burocráticas, pouca renovação interna e dificuldades para dialogar com as novas gerações.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral analisados pela Central de Dados do O POVO+ mostram que o perfil educacional dos eleitores cearenses mudou profundamente nas últimas duas décadas. Em 2002, 80,5% do eleitorado do estado estava concentrado nas categorias que iam do analfabetismo ao ensino fundamental completo. Em 2026, essa parcela caiu para 40,8%.

No caminho inverso, a participação dos eleitores com ensino médio passou de 16,9% para 45,9%. Com isso, esse grupo superou pela primeira vez o conjunto formado pelos níveis mais baixos de escolaridade e tornou-se predominante no eleitorado cearense.

Mais ensino médio e menos analfabetismo

A transformação é ainda mais evidente quando são comparados os extremos da escolaridade.

Em 2002, 12,86% dos eleitores cearenses eram analfabetos, enquanto apenas 1,57% possuíam ensino superior completo. Em 2026, os analfabetos representam 6,49% do eleitorado, e os diplomados no ensino superior chegaram a 8,39%.

Em números absolutos, o Ceará passou de aproximadamente 75 mil eleitores com graduação concluída para 587 mil em pouco mais de duas décadas. O crescimento representa uma multiplicação de quase oito vezes.

Fortaleza avançou mais rapidamente. Na capital, os eleitores com ensino médio representam 49% do total, enquanto os níveis que vão até o ensino fundamental reúnem 27,5%. A cidade possui atualmente cerca de 283 mil eleitores com diploma universitário, contra 24 mil analfabetos.

O crescimento da escolaridade modifica não apenas a composição estatística do eleitorado, mas também suas expectativas. Um eleitor com maior acesso à educação tende a buscar mais informações sobre o histórico dos candidatos, suas alianças, propostas e atuação em cargos anteriores.

Isso não significa que a escolarização, isoladamente, determine o voto ou elimine a influência da desinformação. Mostra, contudo, que o debate político ocorre diante de uma população diferente daquela encontrada nas urnas há duas décadas.

Jovens abandonam as filiações

Enquanto a escolaridade avança, os partidos perdem espaço entre as novas gerações.

Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília, elaborado a partir de dados do TSE, mostra que a filiação partidária entre pessoas de 16 a 34 anos caiu 54% entre 2010 e 2026. Nesse período, as legendas perderam quase 1,5 milhão de jovens filiados.

A retração continuou mesmo com a proximidade das eleições de 2026. Entre junho de 2022 e junho deste ano, os 15 maiores partidos analisados perderam 419 mil filiados nessa faixa etária.

União Brasil, Cidadania, PSD, PP, PV, PSB, Republicanos, MDB, PDT, PT e PSDB registraram redução. PL, Novo, PSOL e Rede foram as exceções e conseguiram ampliar suas bases juvenis.

Segundo a análise apresentada no levantamento, as siglas que cresceram entre os jovens foram aquelas que construíram identidades ideológicas mais definidas e desenvolveram formas mais eficientes de comunicação digital.

Interesse pela política não desapareceu

A queda das filiações não significa necessariamente que a juventude tenha abandonado a política.

Os jovens continuam participando de manifestações, campanhas temáticas, coletivos, movimentos sociais e debates realizados nas redes. O que está em crise é a forma tradicional de participação oferecida pelos partidos.

A estrutura partidária ainda é percebida por muitos como fechada, hierarquizada e distante das questões concretas enfrentadas pela juventude. Emprego, renda, acesso à moradia, financiamento dos estudos e insegurança diante das transformações provocadas pela inteligência artificial aparecem entre as preocupações que nem sempre encontram respostas nas agendas partidárias.

O cientista político Murilo Medeiros compara parte dessas organizações a estruturas analógicas tentando dialogar com uma geração que vive integralmente no ambiente digital. O problema não está apenas na linguagem usada nas redes, mas na reduzida democracia interna, na baixa renovação das lideranças e na dificuldade de permitir que os jovens participem efetivamente das decisões.

Polarização transforma partido em rótulo

Outro fator apontado para explicar o afastamento é a polarização afetiva.

Para parte dos jovens ouvidos no levantamento, a filiação deixou de ser vista apenas como adesão a um programa político e passou a funcionar como um rótulo. Ao declarar vínculo com determinada legenda, o filiado seria imediatamente identificado com todas as posições, decisões e lideranças daquele partido.

A percepção é de que as siglas passaram a funcionar como torcidas, nas quais críticas internas são tratadas como traição e o diálogo com adversários se torna cada vez mais difícil.

Essa rejeição não atinge apenas um campo ideológico. Há desconfiança em relação à política tradicional tanto entre jovens de esquerda quanto de direita. Em muitos casos, cresce uma postura antissistema, marcada pela convicção de que as instituições partidárias não representam as demandas da sociedade.

O risco é que a rejeição aos partidos não produza formas mais democráticas de participação, mas abra espaço para lideranças personalistas, discursos simplificadores e projetos que tratam as próprias instituições como obstáculos.

Mais escolarização não garante maior participação

Os dois levantamentos apresentam um desafio importante para as eleições de 2026.

O Ceará tem hoje um eleitorado mais escolarizado, com maior presença do ensino médio e do ensino superior. O acesso à educação ampliou-se e reduziu o peso histórico do analfabetismo na composição das urnas. Entretanto, no conjunto do país, as novas gerações estão menos presentes nos espaços que organizam candidaturas, constroem programas e definem as escolhas apresentadas aos eleitores.

A democracia não se sustenta apenas com o comparecimento no dia da eleição. Ela depende da participação contínua na definição das prioridades públicas e na renovação das lideranças.

Os dados indicam que os jovens não precisam ser convencidos de que a política interfere em suas vidas. Os partidos é que precisam demonstrar que ainda são espaços nos quais essa geração pode participar, discordar, disputar ideias e construir decisões reais.