Da Redação
Promotores afirmam haver evidências suficientes para avaliar acusações contra assessores do primeiro-ministro por supostos contatos com interesses do Catar; investigação envolve dinheiro, influência política, informações sigilosas e chega ao núcleo de poder do governo israelense.
A crise política em torno do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (12). A procuradora-geral israelense, Gali Baharav-Miara, deverá decidir se apresentará acusações contra dois assessores próximos do premiê no chamado Qatargate, investigação sobre a suposta atuação de integrantes do círculo de Netanyahu em benefício dos interesses do Catar dentro de Israel.
Os principais nomes agora sob avaliação são Jonatan Urich, assessor de comunicação de Netanyahu, e Eli Feldstein, ex-porta-voz do gabinete do primeiro-ministro. Segundo informações atribuídas a fontes do Ministério da Justiça israelense, haveria evidências suficientes para sustentar acusações relacionadas a contatos com um ator estrangeiro. A decisão formal, porém, ainda cabe à procuradora-geral, e os investigados não podem ser tratados como culpados antes da conclusão dos procedimentos judiciais.
O caso é especialmente explosivo porque o Catar não é um ator periférico na guerra de Gaza. Doha mantém relações com o Hamas e, ao mesmo tempo, desempenhou papel central como mediador nas negociações envolvendo cessar-fogo e libertação dos reféns israelenses. A suspeita de que integrantes próximos ao chefe do governo israelense possam ter trabalhado para promover interesses catarianos atinge, portanto, diretamente o coração da política de segurança nacional de Israel.
O escândalo começou a ganhar dimensão pública em 2025, quando uma investigação da televisão israelense Channel 12 apontou que pessoas muito próximas de Netanyahu teriam sido remuneradas para promover interesses do Catar nos meios políticos, de segurança e de comunicação de Israel. Entre os nomes associados ao caso apareceram Yisrael Einhorn, Ofer Golan, Jonatan Urich e Eli Feldstein.
Urich e Feldstein foram detidos e interrogados durante a investigação. Einhorn, que vive na Sérvia, não retornou a Israel para ser interrogado no país, enquanto Golan deixou neste ano sua função como porta-voz e assessor de longa data de Netanyahu.
A apuração ganhou contornos ainda mais graves nos últimos dias. Reportagens da imprensa israelense afirmaram que Urich, Feldstein e Einhorn são suspeitos de terem repassado ao Catar informações classificadas relacionadas ao Egito, supostamente para alimentar uma campanha destinada a prejudicar a imagem do governo egípcio. Urich e Einhorn negaram as acusações divulgadas pela imprensa.
Se comprovada, essa dimensão do caso transformaria uma controvérsia sobre lobby e comunicação política em uma questão diretamente relacionada à segurança do Estado israelense.
O Egito, assim como o Catar, desempenha papel fundamental nas negociações envolvendo Gaza. Cairo controla a fronteira egípcia com o território palestino e historicamente participa das negociações entre Israel e organizações palestinas. Uma eventual operação para favorecer Doha politicamente às custas do Egito teria, portanto, implicações que ultrapassariam uma simples campanha de relações públicas.
A investigação também se cruza com outro escândalo envolvendo o gabinete de Netanyahu. Em junho, Jonatan Urich foi acusado formalmente em um processo separado relacionado ao vazamento de documentos secretos da inteligência militar israelense para o jornal alemão Bild.
Segundo a acusação, material produzido pela inteligência militar teria sido repassado à imprensa em setembro de 2024. A suspeita é de que a divulgação buscasse fortalecer publicamente a versão defendida por Netanyahu de que o Hamas, e não o governo israelense, seria o principal responsável pelo impasse nas negociações para libertação dos reféns mantidos em Gaza.
Esse aspecto torna o caso politicamente ainda mais sensível. Naquele período, Netanyahu enfrentava forte pressão interna de familiares dos reféns e de setores da sociedade israelense, que acusavam seu governo de não fazer concessões suficientes para alcançar um acordo.
A investigação procura esclarecer se informações produzidas pelos próprios órgãos de segurança foram utilizadas seletivamente numa batalha política e comunicacional destinada a proteger o primeiro-ministro.
O Qatargate abre, dessa forma, uma discussão que ultrapassa possíveis delitos individuais. No centro da investigação está a fronteira entre Estado, governo, comunicação política e interesses estrangeiros durante uma guerra.
Também existe uma disputa institucional importante em torno da própria investigação. Mossad e Shin Bet ainda não haviam concluído suas avaliações sobre o caso, segundo as informações divulgadas nesta quarta-feira. Ao mesmo tempo, o atual diretor do Mossad, Roman Gofman, entrou indiretamente na controvérsia. Antes de assumir a agência de inteligência em junho, ele serviu como secretário militar de Netanyahu e manteve relações profissionais próximas com integrantes do círculo investigado. Autoridades do Ministério da Justiça discutem, segundo a imprensa, se essa proximidade cria conflito de interesses suficiente para impedi-lo de participar da avaliação institucional do caso pelo Mossad.
Nada disso demonstra envolvimento criminal de Netanyahu no Qatargate. A investigação atualmente noticiada concentra-se principalmente em seus assessores e nas relações que eles teriam mantido com interesses catarianos.
Mas politicamente é impossível separar completamente o escândalo do primeiro-ministro.
Os investigados não eram funcionários distantes da administração. Faziam parte de seu ambiente político e comunicacional. E as ações sob investigação teriam ocorrido justamente em temas relacionados à guerra, aos reféns, à relação com países mediadores e à construção da narrativa pública do governo.
O novo episódio também chega quando Netanyahu já enfrenta outras frentes judiciais. O primeiro-ministro responde há anos a processos por corrupção dentro de Israel e permanece no centro de uma intensa disputa política sobre o funcionamento das instituições do país. Separadamente, o Tribunal Penal Internacional expediu em novembro de 2024 mandado de prisão contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant no processo relacionado à guerra em Gaza.
São processos diferentes, conduzidos por instituições diferentes e baseados em acusações distintas. Misturá-los juridicamente seria incorreto. Politicamente, entretanto, a acumulação de investigações aumenta a pressão sobre um governo que atravessa um dos períodos mais turbulentos da história recente de Israel.
O Qatargate também expõe uma contradição particularmente incômoda para Netanyahu. Seu governo construiu grande parte de sua legitimidade política sobre a promessa de garantir a segurança de Israel e enfrentar ameaças externas. Agora, autoridades israelenses investigam se pessoas instaladas em seu próprio núcleo de poder mantiveram relações inadequadas com interesses de um governo estrangeiro enquanto participavam da formulação e da comunicação de decisões relacionadas à segurança nacional.
A gravidade dessa contradição dependerá das provas que chegarem aos tribunais.
Até agora, existem investigações, suspeitas e acusações formais em processos específicos, mas não uma sentença que permita tratar todo o Qatargate como fato definitivamente comprovado. Essa distinção é indispensável.
Ainda assim, o avanço da Procuradoria mostra que o caso deixou de ser apenas uma denúncia produzida pela imprensa israelense. Se Gali Baharav-Miara decidir apresentar novas acusações contra Urich e Feldstein, a crise entrará em outra fase e levará aos tribunais uma pergunta politicamente devastadora para Netanyahu: até que ponto interesses estrangeiros conseguiram penetrar no círculo mais próximo do primeiro-ministro de Israel durante uma guerra?
