Últimos militares americanos deixam suas bases depois de uma ocupação iniciada em 2003 sob a justificativa de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas; Washington derrubou Saddam Hussein, perdeu 4,5 mil soldados e deixa um Iraque onde a influência iraniana se tornou muito maior
Da Redação
Vinte e três anos depois de tanques americanos atravessarem a fronteira do Kuwait em direção a Bagdá, os últimos militares dos Estados Unidos deixaram suas bases no Iraque. A retirada encerra um dos capítulos mais longos, sangrentos e contraditórios da política externa americana contemporânea. Washington entrou no país em 2003 prometendo eliminar armas de destruição em massa, derrubar Saddam Hussein e construir uma nova ordem política no coração do Oriente Médio. As armas não foram encontradas. Saddam foi derrubado. O Estado iraquiano foi desmontado, o país atravessou anos de guerra sectária, a Al-Qaeda encontrou espaço para crescer, o Estado Islâmico conquistou cidades inteiras e o Irã, principal adversário regional dos Estados Unidos, ampliou extraordinariamente sua influência sobre Bagdá.
É essa contradição que transforma a retirada numa questão muito maior do que o deslocamento dos últimos soldados.
Os Estados Unidos conquistaram militarmente o Iraque em poucas semanas. Permaneceram envolvidos no país durante mais de duas décadas. Gastaram enormes recursos, perderam aproximadamente 4.500 militares e construíram uma extensa arquitetura política e de segurança. Ainda assim, saem de um Iraque no qual grupos e partidos próximos de Teerã possuem influência que seria difícil imaginar antes da invasão.
As últimas forças americanas deixaram principalmente instalações na região curda, incluindo a base de Erbil. O encerramento da missão havia sido negociado entre Washington e Bagdá em 2024, durante o governo Joe Biden, e foi executado agora pela administração Donald Trump. O Pentágono anunciou o fim formal da Operação Inherent Resolve no território iraquiano, embora os Estados Unidos devam continuar fornecendo treinamento específico e informações de inteligência às forças locais.
Nas ruas, a saída produziu cenas que sintetizam a ambiguidade deixada pela ocupação. Militares iraquianos desfilaram em Bagdá e na cidade sagrada xiita de Najaf. Parte da população comemorou. Grupos armados alinhados ao Irã trataram a retirada como vitória histórica. Outros iraquianos receberam a notícia com preocupação, temendo que a ausência das forças internacionais abra espaço para o fortalecimento de milícias ou para uma reorganização das células remanescentes do Estado Islâmico.
O Iraque que os americanos deixam não é, portanto, um país pacificado.
Mas tampouco é o país que encontraram em 2003.
E grande parte dessa transformação foi produzida pela própria invasão.
A guerra começou com armas que não existiam
Em março de 2003, o governo George W. Bush lançou a invasão sustentando que Saddam Hussein mantinha programas de armas de destruição em massa e representava uma ameaça internacional. O argumento foi decisivo para construir apoio político nos Estados Unidos e justificar uma guerra realizada sem autorização específica do Conselho de Segurança das Nações Unidas para a invasão.
As forças americanas e britânicas rapidamente destruíram a capacidade militar convencional iraquiana. Bagdá caiu. Saddam fugiu, foi posteriormente capturado, julgado pelas novas autoridades iraquianas e executado.
O problema apareceu depois.
As armas de destruição em massa utilizadas para justificar a guerra não foram encontradas.
Aquilo que havia sido apresentado como ameaça iminente revelou-se sustentado por avaliações de inteligência profundamente equivocadas e por afirmações governamentais que não resistiram às investigações posteriores.
Mas quando isso ficou claro, o Iraque já havia sido ocupado e o antigo Estado estava sendo desmontado.
Uma das decisões mais importantes tomadas pela administração americana foi dissolver o Exército iraquiano e afastar grande número de integrantes do antigo Partido Baath das estruturas estatais. Centenas de milhares de homens treinados e armados perderam emprego e posição social praticamente de uma vez.
A decisão é hoje reconhecida inclusive por Donald Trump como um dos erros fundamentais da ocupação. Nesta semana, ao comentar a retirada, Trump voltou ao episódio e argumentou que Washington demitiu soldados, generais e policiais iraquianos e deixou o país sem parte significativa de sua estrutura de segurança. Ele relacionou essa decisão às condições que posteriormente permitiram o surgimento e a expansão do Estado Islâmico.
O resultado imediato da ocupação foi um vazio institucional.
O resultado seguinte foi preenchê-lo com guerra.
Insurgentes começaram a atacar tropas americanas. Organizações jihadistas ganharam terreno. Tensões entre sunitas e xiitas foram transformadas numa guerra sectária devastadora. Atentados, execuções, sequestros e operações militares passaram a fazer parte da vida cotidiana.
A invasão que deveria reorganizar o Oriente Médio segundo os interesses americanos começou a produzir forças que Washington não conseguia controlar.
O Estado Islâmico nasceu das ruínas
Uma das consequências mais dramáticas dessa decomposição apareceu anos depois.
A Al-Qaeda no Iraque encontrou espaço dentro da insurgência que se seguiu à invasão. Depois de sucessivas transformações, cisões e reorganizações, parte desse universo jihadista deu origem ao Estado Islâmico.
Em 2014, três anos depois da primeira grande retirada americana, o grupo conquistou Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, e enormes extensões territoriais entre Iraque e Síria. O Exército iraquiano, construído, treinado e equipado durante anos com apoio dos Estados Unidos, desmoronou em diversas regiões diante do avanço jihadista.
Washington voltou.
Os militares americanos que haviam deixado o país em 2011 retornaram para combater uma organização cuja ascensão estava profundamente ligada ao colapso institucional produzido pela guerra iniciada onze anos antes.
Essa segunda intervenção conseguiu resultados militares importantes. O território controlado pelo Estado Islâmico foi progressivamente retomado por uma coalizão que reuniu forças iraquianas, curdas, americanos e grupos paramilitares, incluindo organizações xiitas apoiadas pelo Irã.
E foi justamente nesse processo que apareceu outra das grandes ironias estratégicas da guerra.
Estados Unidos e Irã, embora adversários, passaram a combater simultaneamente o mesmo inimigo dentro do Iraque.
As forças americanas atacavam posições jihadistas pelo ar e forneciam inteligência. Milícias xiitas apoiadas por Teerã combatiam o Estado Islâmico no terreno. A ameaça comum não transformou Washington e Teerã em aliados, mas demonstrou até que ponto a ordem regional havia se tornado diferente daquela imaginada pelos planejadores da invasão de 2003.
Quando Saddam governava o Iraque, seu regime funcionava como contrapeso ao Irã.
Quando os Estados Unidos derrubaram Saddam, destruíram esse contrapeso.
O grande beneficiário estratégico foi o Irã
Esse talvez seja o paradoxo mais profundo de toda a guerra.
Washington considerava a República Islâmica do Irã um dos principais adversários dos Estados Unidos no Oriente Médio. George W. Bush havia incluído Teerã no chamado “eixo do mal”. Ao invadir o Iraque, porém, os Estados Unidos eliminaram um dos maiores inimigos históricos dos iranianos.
Saddam Hussein havia travado contra o Irã uma guerra de oito anos durante a década de 1980.
Sua derrubada permitiu que partidos xiitas iraquianos historicamente próximos de Teerã chegassem ao centro do novo sistema político.
Ao longo das duas décadas seguintes, o Irã desenvolveu uma extensa rede de influência no Iraque envolvendo partidos, grupos armados, lideranças religiosas, relações comerciais e estruturas de segurança.
Hoje, Teerã possui uma presença política no país incomparavelmente maior do que aquela existente antes da invasão americana.
A retirada dos Estados Unidos foi justamente por isso celebrada pelo chamado eixo da resistência.
Um comandante da Resistência Islâmica no Iraque classificou a saída como uma vitória histórica dos grupos iraquianos e uma derrota do projeto americano. A linguagem é obviamente política e representa a posição dessas organizações, mas existe um fato estratégico por trás dela: a presença militar americana terminou enquanto as forças políticas próximas ao Irã continuam profundamente inseridas na estrutura iraquiana.
A retirada ocorre ainda num momento extraordinariamente delicado.
Estados Unidos e Israel estão em guerra com o Irã.
O conflito entrou no oitavo mês e transformou novamente o Golfo num dos centros da instabilidade mundial. Nesse cenário, Washington abandona suas últimas bases dentro de um país vizinho ao território iraniano e no qual Teerã construiu influência durante décadas.
Isso explica por que a saída possui significado muito maior agora do que teria em outro momento.
Uma guerra paga em vidas iraquianas
Os números americanos são conhecidos porque foram extensamente registrados. Aproximadamente 4.500 militares dos Estados Unidos morreram no Iraque desde a invasão.
O custo iraquiano foi incomparavelmente maior.
Estimativas conservadoras apontam mais de 200 mil civis mortos na violência desencadeada depois de 2003. Dependendo da metodologia utilizada e da inclusão de mortes indiretas relacionadas à destruição do sistema de saúde, infraestrutura e condições sociais, diferentes estudos apresentam números ainda maiores.
Milhões de pessoas foram deslocadas em diferentes momentos.
Bairros inteiros foram transformados.
Comunidades que haviam convivido durante gerações passaram por processos de segregação territorial durante a guerra sectária.
O Estado iraquiano precisou ser reconstruído enquanto combatia simultaneamente insurgentes, jihadistas e disputas internas.
Essa dimensão humana é indispensável porque a discussão sobre vitória ou derrota costuma ser apresentada apenas pela perspectiva das grandes potências.
Para Washington, a pergunta é se os objetivos estratégicos foram alcançados.
Para milhões de iraquianos, a guerra foi uma experiência material de ocupação, violência, destruição, deslocamento e transformação social.
É por isso que as comemorações pela retirada coexistem com o medo.
Um morador de Bagdá ouvido pela Reuters disse que a partida americana fazia com que se sentisse renascido aos 70 anos. Outro iraquiano alertou que a população não deveria comemorar cedo demais, lembrando o risco de novos vazios de segurança.
As duas posições revelam a herança contraditória deixada pela guerra.
Washington venceu a invasão e perdeu o projeto
É possível separar duas questões.
Militarmente, os Estados Unidos derrotaram o governo de Saddam Hussein com enorme facilidade.
Politicamente, o resultado foi muito diferente.
A invasão não produziu a ordem regional imaginada pelos seus arquitetos. Não eliminou o jihadismo. Não reduziu a influência iraniana. Não transformou o Iraque numa plataforma estável de poder americano no Oriente Médio.
Em diferentes momentos, produziu exatamente o contrário.
O jihadismo ganhou uma base territorial sem precedentes.
O Irã ampliou sua influência.
Os Estados Unidos tiveram de retornar depois da primeira retirada.
E, 23 anos depois do início da guerra, os últimos militares americanos partem enquanto organizações alinhadas a Teerã celebram sua saída.
Isso não significa que tudo o que aconteceu no Iraque possa ser atribuído aos Estados Unidos. A sociedade iraquiana possui divisões internas, interesses próprios, elites políticas, movimentos religiosos e atores armados que tomaram decisões independentes. Países vizinhos também intervieram extensamente na política iraquiana.
Mas seria igualmente impossível compreender o Iraque contemporâneo sem a ruptura provocada em 2003.
A invasão destruiu a ordem anterior.
O problema americano foi descobrir que destruir uma ordem é muito mais simples do que controlar aquilo que nasce depois dela.
Vinte e três anos depois, a última coluna saiu
A imagem final da guerra não é a mesma de março de 2003.
Naquela época, câmeras transmitiam colunas blindadas americanas avançando pelo deserto. A administração Bush falava numa transformação histórica do Oriente Médio. A queda da estátua de Saddam Hussein em Bagdá foi apresentada ao mundo como símbolo de uma nova era.
Vinte e três anos depois, não houve uma cena equivalente para marcar o fim.
Os últimos militares deixaram suas bases.
As forças iraquianas assumiram a responsabilidade pela segurança.
Washington promete continuar oferecendo inteligência e treinamento.
Bagdá tenta equilibrar relações com Estados Unidos e Irã.
E Teerã comemora.
O primeiro-ministro iraquiano, Ali Faleh al-Zaidi, afirmou que o encerramento da missão internacional não representa o fim da luta contra o terrorismo, mas a passagem para uma etapa na qual o próprio Iraque assume integralmente a responsabilidade por sua segurança.
Essa talvez seja a imagem mais reveladora do desfecho.
Depois de 23 anos, milhares de mortos, centenas de milhares de vítimas iraquianas, duas grandes fases de intervenção militar e uma reconstrução política inteira, os Estados Unidos finalmente deixam o país que invadiram para transformá-lo.
O Iraque sobreviveu.
Mas não se transformou no país que Washington imaginou.
E o Oriente Médio que emerge dessa guerra tampouco é aquele que os estrategistas americanos projetaram quando decidiram derrubar Saddam Hussein.
O poder iraniano que Washington pretendia conter cresceu dentro do espaço aberto pela própria invasão. O jihadismo que os Estados Unidos pretendiam combater encontrou nas ruínas iraquianas condições para produzir o Estado Islâmico. E a presença militar criada para reorganizar a região termina agora justamente quando Washington enfrenta diretamente o Irã.
A maior potência militar do mundo conseguiu conquistar Bagdá em semanas.
Precisou de mais de duas décadas para sair.

