Após dias de cobranças nas redes sociais, João Gomes publicou um pronunciamento no Instagram em que defende a educação pública, a segurança, a saúde, as cotas, a valorização do trabalho e a democracia. Sem citar Lula ou Flávio Bolsonaro, o cantor apresentou suas convicções sobre o país e pediu respeito às diferenças e à liberdade de expressão.
“Estou com um nó na garganta, mas não arrancaram a minha cabeça. Com uma dor no peito, mas não levaram meu coração. Eu não mereço sofrer. Eu não mereço adoecer porque o mundo está doente”, escreveu.
O artista explicou que decidiu falar após refletir sobre as cobranças recebidas. “Me questionaram pra quem eu estava a favor. Eu pensei, me calei, mas agora posso falar depois de tanto conversar comigo mesmo”, declarou.
Educação, cotas e oportunidades
João Gomes destacou a importância dos professores em sua formação e defendeu melhores salários para os profissionais da educação. Também pediu respeito às políticas de cotas e relatou que recebeu uma bolsa para morar na escola, diante das dificuldades enfrentadas em seu bairro. Contou ainda que foi roubado no caminho das aulas, mas não desistiu de estudar.
Ao falar sobre desigualdade, lembrou de um amigo chamado Ítalo, que não conseguia participar de um campeonato escolar porque precisava trabalhar depois das aulas para ajudar a mãe.
“Todo trabalho é digno de respeito e todo auxílio aos que precisam seja respeitado também”, escreveu, relacionando sua defesa da educação e da proteção social às dificuldades vividas por jovens de famílias trabalhadoras.
O cantor também defendeu a segurança pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a pesquisa científica, além de melhores condições para que profissionais se capacitem e cuidem da população.
Saúde mental e consequências dos ataques
A saúde mental recebeu destaque no pronunciamento. João Gomes pediu que o sofrimento psicológico seja tratado com seriedade e relatou uma experiência pessoal de busca por ajuda profissional.
“Nossa geração hoje é tão ansiosa que a saúde mental seja levada a sério e que não seja motivo de desdém. A gente chora, pede socorro”, escreveu.
A declaração ocorre após sua esposa, Ary Mirelle, afirmar publicamente que o cantor enfrenta depressão, recebe acompanhamento profissional e utiliza medicamentos antidepressivos. Ela também relatou ameaças contra a família, incluindo os filhos do casal, e disse que as hostilidades relacionadas à exposição política anterior deixaram marcas emocionais.
Em 2022, João Gomes ganhou destaque após puxar um coro contra Jair Bolsonaro durante o Rock in Rio. A repercussão do episódio voltou ao debate com as atuais cobranças para que o artista declare sua preferência eleitoral.
“Eu sou a favor sim da democracia”
Na parte final do texto, João Gomes defendeu o direito de falar e ser ouvido, o respeito a quem não consegue ou não deseja se manifestar e a liberdade de amar sem precisar se justificar.
“Eu sou a favor sim da democracia!”, afirmou. O cantor lembrou que o direito ao voto foi conquistado por meio de muitas lutas e pediu que os brasileiros escolham seus representantes pensando nas crianças e no futuro do país.
A declaração expressa sua defesa da democracia e de direitos sociais, mas não representa um anúncio de apoio a Lula ou a Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Pressão política e ataques a nordestinos
A cobrança sobre João Gomes também ocorre em um ambiente marcado por ataques contra artistas e eleitores nordestinos durante períodos eleitorais. Um levantamento do InternetLab analisou cerca de 150 mil publicações no X, antigo Twitter, relacionadas ao Nordeste e aos nordestinos após o primeiro turno de 2022 e identificou ofensas regionais e a circulação de alegações de fraude eleitoral.
O histórico ajuda a contextualizar o debate, mas não significa que toda crítica ao cantor seja xenofóbica. É necessário distinguir questionamentos sobre sua participação política de ataques que recorrem à origem regional e a estereótipos para desqualificá-lo.
A polêmica também cresceu após circular uma captura de tela que supostamente mostraria João Gomes curtindo uma publicação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A interação atribuída ao cantor foi usada por críticos como sinal de possível aproximação com a direita, mas não comprova, isoladamente, apoio a Nikolas ou preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro.
Com a publicação, João Gomes apresentou suas posições sobre educação, saúde, segurança, trabalho e democracia. A escolha de candidato, contudo, permanece sem ser anunciada.
