Ausente das cinco sessões de discussão da PEC, senador votou remotamente a favor da redução da jornada após meses de críticas à proposta; candidato à Presidência admite que poderá rever o texto se eleito
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, votou a favor do fim da escala 6×1 nesta quarta-feira (14), mas passou longe das discussões que antecederam a votação no Senado. Enquanto a proposta que prevê a redução da jornada de trabalho avançava no Congresso, o parlamentar cumpria compromissos de campanha em Porto Alegre (RS) e registrou seu voto de forma remota. A ausência nas sessões de debate e a mudança de posição foram noticiadas pela CNN Brasil e pelo g1.
A conduta expõe uma contradição na postura do candidato do PL: diante de uma pauta com amplo apoio popular, Flávio decidiu apoiar a proposta na votação, embora tenha mantido críticas ao texto e sinalizado a possibilidade de alterá-lo caso chegue à Presidência. O episódio levanta uma questão sobre sua disposição de assumir publicamente as consequências de suas posições em um tema que afeta diretamente as condições de trabalho de milhões de brasileiros.
Segundo reportagem do InfoMoney publicada em 14 de outubro, Flávio não registrou presença em nenhuma das cinco sessões destinadas à discussão da PEC. O parlamentar participou da votação, realizada em formato semipresencial, que permitia aos senadores votar à distância. O Senado aprovou a proposta por 75 votos favoráveis e apenas um contrário, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
Voto favorável depois de meses de críticas
A mudança de posição ocorreu em meio à disputa eleitoral. Nos dias anteriores à votação, a oposição articulava estratégias para adiar a análise da proposta ou modificar o texto, de modo a evitar que a aprovação ocorresse antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro.
A CNN Brasil informou que setores da direita passaram a avaliar o custo eleitoral de uma eventual rejeição à PEC. A preocupação era que um voto contrário ao fim da escala 6×1 colocasse os parlamentares em posição desfavorável diante de trabalhadores que defendem a ampliação do descanso semanal.
Flávio anunciou que votaria a favor na terça-feira (13), depois de visitar o pai, Jair Bolsonaro. Ao justificar a decisão, afirmou que seu voto seguiria a vontade da maioria dos trabalhadores, embora tenha manifestado preferência por um modelo de jornada mais flexível.
“Então o Flávio Bolsonaro vai votar a favor do fim da 6×1 e quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, declarou o senador, segundo a CNN Brasil, ao argumentar que os empresários precisariam de compensação pelos custos decorrentes da redução da jornada.
A declaração revela que o apoio do candidato à PEC veio acompanhado de ressalvas sobre a forma de implementação da medida. Em vez de defender integralmente o texto aprovado, Flávio procurou transferir ao governo a responsabilidade pelos possíveis custos econômicos da mudança.
A ausência que também é política
A ausência nas sessões de discussão merece atenção porque o debate legislativo é o espaço em que os parlamentares apresentam argumentos, questionam os impactos de uma proposta e respondem às posições dos colegas. No caso de Flávio, a falta de participação nas cinco sessões contrasta com a relevância eleitoral do tema e com a visibilidade que o candidato busca para suas propostas de governo.
O senador tinha a possibilidade de participar remotamente das atividades. Ainda assim, segundo as informações publicadas pela imprensa, cumpriu agenda de campanha no Rio Grande do Sul e deixou para registrar sua posição na votação.
É nesse contexto que a crítica à sua conduta ganha dimensão política. O candidato que pretende comandar o país precisa explicar de que maneira pretende conciliar sua defesa de uma jornada mais flexível com a demanda por redução do tempo de trabalho e ampliação do descanso. O voto favorável, isoladamente, não esclarece como ele pretende conduzir a política trabalhista caso seja eleito.
A questão também envolve a possibilidade de revisão da PEC. Reportagem da CNN Brasil informou que Flávio sinalizou a empresários que poderia modificar pontos da proposta caso assumisse o Palácio do Planalto. A posição abre uma diferença entre o voto dado no Senado e o compromisso político que o candidato apresenta a setores empresariais.
O que está em jogo para os trabalhadores
A PEC aprovada pelo Senado prevê a redução gradual da jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além da garantia de dois dias de descanso remunerado por semana. A escala 6×1, em que o trabalhador cumpre seis dias de atividade para ter um dia de folga, está entre os modelos que a mudança busca superar.
A proposta foi aprovada em dois turnos por 75 votos favoráveis e um contrário. O resultado reuniu parlamentares de diferentes partidos e mostrou que o apoio à medida ultrapassou as divisões tradicionais entre governo e oposição.
O Presidente Lula transformou a redução da jornada em uma das pautas de sua campanha à reeleição. Para o governo, a aprovação representa um avanço na agenda de direitos trabalhistas. Para a campanha de Flávio, a necessidade de apoiar a proposta sem abandonar as críticas ao texto impõe o desafio de explicar como pretende conduzir a questão caso vença a disputa presidencial.
A decisão do senador de votar a favor, portanto, não encerra o debate sobre sua posição. Ao contrário, torna mais importante esclarecer se o apoio à redução da jornada será mantido em um eventual governo ou se a proposta será modificada para atender às demandas empresariais que o próprio candidato mencionou.
O episódio permite uma crítica política à postura de Flávio Bolsonaro: ele apoiou a PEC na hora decisiva, mas não participou das cinco sessões de discussão e admite rever o texto caso seja eleito. Para os trabalhadores que esperam mudanças concretas na jornada, a questão central permanece: qual compromisso o candidato assume com a redução do tempo de trabalho e com a preservação dos direitos previstos na proposta aprovada pelo Senado?
Flávio Bolsonaro usa tragédia das enchentes para atacar Lula e fazer campanha no Rio Grande do Sul
Em visita ao bairro Sarandi, em Porto Alegre, senador acusa governo federal de abandonar os gaúchos e promete retomar obras de drenagem, recuperação ferroviária e apoio a agricultores caso seja eleito presidente
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, esteve no bairro Sarandi, em Porto Alegre, nesta quarta-feira (14), e acusou o governo do Presidente Lula de abandonar a população atingida pelas enchentes de 2024. Acompanhado de lideranças políticas e do prefeito Sebastião Melo (MDB), o parlamentar transformou a visita a uma das áreas afetadas pela tragédia climática em um ato de campanha, com promessas de obras e ataques ao governo federal.
“Ele fugiu da sua responsabilidade de presidente da República. Eu aqui, pelo contrário, eu vim me comprometer”, afirmou Flávio durante o discurso. O senador também acusou Lula de ter explorado a dor dos gaúchos para obter votos e prometeu retornar ao bairro como presidente para inaugurar obras de recuperação. As declarações foram registradas em vídeo publicado no YouTube, sob o título “Flávio Bolsonaro faz comício em Porto Alegre e diz que Lula abandonou RS após enchentes”.
A visita ocorreu em meio à reta final da campanha presidencial. Ao lado de aliados, Flávio apresentou compromissos para o Rio Grande do Sul e procurou associar sua candidatura à promessa de uma presença mais efetiva do governo federal na reconstrução das áreas atingidas pelas cheias. Durante o ato, porém, não apresentou um cronograma detalhado, estimativas de custos ou fontes de financiamento para as intervenções anunciadas.
Promessas para o Sarandi e para a economia gaúcha
Entre as medidas citadas pelo senador estão a retomada de obras de contenção de enchentes, o financiamento a agricultores que perderam terras e a recuperação da malha ferroviária. Flávio também mencionou a possibilidade de avançar na licitação de uma bomba de drenagem destinada a reduzir os alagamentos na região mais baixa do bairro Sarandi.
“Eu tô vindo aqui me comprometer com as autoridades e perante o Brasil de retomar todas as obras de contenção para que evitem essas enchentes”, declarou.
O candidato incluiu a infraestrutura ferroviária entre as prioridades que pretende adotar. Segundo ele, a conexão entre o Centro-Oeste e os três estados da Região Sul seria importante para o transporte de grãos e para reduzir custos da atividade agropecuária.
Flávio também prometeu apoio aos produtores rurais afetados pelas enchentes e afirmou que pretende oferecer suporte à Prefeitura de Porto Alegre para proteger o bairro de novos episódios de inundação. As propostas foram apresentadas como compromissos de um eventual governo, sem detalhamento sobre a situação atual de cada obra mencionada ou sobre as medidas administrativas necessárias para executá-las.
Acusações contra Lula sem apresentação de balanço das obras
Ao longo do discurso, Flávio repetiu que o governo federal teria abandonado os moradores do Sarandi e acusado o Presidente Lula de não cumprir promessas feitas durante visitas ao estado.
“Lula veio aqui prometeu um monte de coisa, não fez nada”, afirmou o senador.
A declaração foi acompanhada de críticas à atuação federal durante a reconstrução do Rio Grande do Sul. O candidato disse que o presidente teria virado as costas para os gaúchos e afirmou que pretende governar com atenção especial às áreas afetadas pelas enchentes.
As acusações, contudo, não foram acompanhadas, durante a fala, de um levantamento de recursos federais destinados ao estado, de uma relação das obras concluídas ou pendentes nem de dados sobre a execução dos compromissos assumidos após a tragédia de 2024. Para avaliar a afirmação de que o governo federal não teria feito nada, é necessário confrontar o discurso eleitoral com os registros oficiais de repasses, investimentos, contratos e intervenções realizadas.
A reconstrução após as enchentes envolve responsabilidades distribuídas entre União, governo estadual e prefeituras. A situação de cada obra depende de seu estágio de execução, das competências administrativas e dos recursos disponíveis. A crítica de Flávio, portanto, exige verificação documental para que a população possa distinguir os problemas que permanecem sem solução das ações que já foram executadas.
O palanque e a exploração eleitoral da tragédia
O evento no Sarandi reuniu o prefeito Sebastião Melo e aliados da campanha de Flávio, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, além de outras lideranças políticas citadas durante a apresentação. O tom do encontro foi de mobilização eleitoral, com referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro e pedidos de apoio ao candidato.
O senador afirmou que pretende voltar ao bairro, caso seja eleito, para acompanhar a entrega das obras prometidas. Também criticou o que chamou de uso político da tragédia pelo atual governo, embora sua própria visita tenha sido marcada por declarações sobre a disputa presidencial e por promessas para um eventual mandato.
“Não vou ficar subindo em palanque para tirar foto bonita”, disse Flávio, ao criticar a atuação de Lula. A frase foi pronunciada em um ato de campanha, no qual o próprio senador pediu apoio político e afirmou que faltavam poucos dias para encerrar o governo petista.
A contradição entre a crítica ao uso eleitoral da tragédia e a realização de um comício em uma área atingida pelas enchentes é um dos pontos centrais do episódio. A visita pode servir para cobrar respostas sobre a reconstrução, mas também exige que as promessas apresentadas sejam examinadas à luz de medidas concretas e de responsabilidades institucionais.
“Faltam poucos dias para mudar a história do Brasil”
No encerramento, Flávio intensificou o discurso eleitoral. Disse que faltavam 11 dias para a eleição e prometeu um governo voltado ao combate à criminalidade, à proteção das mulheres e das crianças e ao enfrentamento da corrupção. Também confirmou que participaria de um debate na TV Bandeirantes e afirmou que pretendia confrontar Lula publicamente.
“Eu vou no debate da Band, porque eu vou mostrar o Brasil e esfregar os crimes que Lula cometeu na cara dele, rede nacional”, declarou.
A fala reforça o caráter eleitoral da visita ao Sarandi. Embora o senador tenha apresentado propostas relacionadas à prevenção de enchentes e à recuperação econômica, o discurso foi integrado a uma ofensiva contra o governo federal e a um apelo para encerrar a gestão do Presidente Lula.
Para os moradores que perderam casas e bens nas enchentes de 2024, o que importa é saber quais intervenções serão realizadas, em que prazo e com quais recursos. As promessas de Flávio Bolsonaro ainda precisam ser traduzidas em um plano verificável, com responsabilidades definidas e garantias de execução.
A tragédia climática deixou marcas profundas no Rio Grande do Sul e tornou indispensável a continuidade das políticas de reconstrução e prevenção. O uso eleitoral desse sofrimento, seja por governistas ou oposicionistas, não substitui a obrigação de apresentar dados, esclarecer o andamento das obras e responder às comunidades que continuam expostas aos riscos de novas inundações.

