Da Redação
A mobilização de milhões de pessoas nas cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, em Teerã, tornou-se um fato político de grande impacto no Oriente Médio. Morto em 28 de fevereiro durante um ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel, o antigo líder supremo iraniano passou a ser homenageado em uma série de cerimônias públicas que começaram em 3 de julho e devem se estender até o dia 9, com atos em Teerã, Qom, Najaf, Karbala e sepultamento previsto em Mashhad. A escala da participação popular, registrada por imagens aéreas e pela imprensa internacional, transformou o funeral em uma demonstração de força interna do sistema político iraniano.
O funeral ocorre em um contexto de enorme tensão regional. Khamenei governou a República Islâmica por mais de três décadas e foi uma das figuras centrais da política do Oriente Médio contemporâneo. Sua morte, em meio à guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, não encerrou a crise. Ao contrário, abriu uma nova etapa de disputa sobre sucessão, legitimidade interna, capacidade de resistência do Estado iraniano e futuro da correlação de forças na região. A presença massiva nas ruas é lida pelo governo de Teerã como sinal de unidade nacional diante da agressão externa. Já setores da oposição iraniana no exílio classificam as cerimônias como propaganda estatal, afirmando que a mobilização não traduz a totalidade da sociedade iraniana.
O ponto central, porém, é que a mobilização desmonta uma expectativa recorrente em parte das análises ocidentais e israelenses: a ideia de que um ataque de decapitação contra a liderança iraniana produziria desorganização imediata, colapso político ou ruptura popular contra o regime. O que se viu em Teerã foi o contrário. Mesmo com contradições internas, crise econômica, repressão política e disputas sucessórias, o Estado iraniano conseguiu transformar o luto em ato de afirmação nacional e religiosa.
Para Israel e Estados Unidos, esse é o dado estratégico mais delicado. A morte de Khamenei não eliminou a capacidade iraniana de mobilização. Também não produziu, até aqui, o efeito político esperado por setores que apostavam em enfraquecimento rápido da República Islâmica. Em vez disso, o funeral permitiu ao governo iraniano reorganizar sua narrativa em torno de três eixos: martírio, resistência e soberania.
A cerimônia também possui forte dimensão simbólica xiita. No Irã, funerais de lideranças políticas e religiosas costumam funcionar como atos de recomposição coletiva. O luto não é apenas privado. Torna-se rito público, manifestação política e reafirmação de pertencimento. Essa tradição foi decisiva na Revolução Islâmica de 1979 e voltou a aparecer em momentos como o funeral do general Qassem Soleimani, assassinado pelos Estados Unidos em 2020. Agora, a morte de Khamenei é enquadrada pelo Estado iraniano como continuidade dessa memória de enfrentamento ao Ocidente e a Israel.
A imprensa internacional destaca também que o funeral ocorre em meio à disputa sobre o Estreito de Hormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo. Segundo o Guardian, Teerã vem tentando reafirmar controle sobre a região ao mesmo tempo em que potências ocidentais buscam garantir rotas alternativas e ampliar presença naval. Isso mostra que o funeral não é apenas cerimônia religiosa. É parte de uma disputa geopolítica concreta envolvendo energia, rotas marítimas, sanções, presença militar e equilíbrio regional.
A ausência pública de Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder e apontado como sucessor, também alimenta incertezas. Reportagens indicam que ele teria sido ferido no mesmo ataque e permanece afastado das aparições oficiais. A liderança iraniana tenta transmitir imagem de continuidade institucional, mas a sucessão ainda é observada com atenção por governos estrangeiros, serviços de inteligência e aliados regionais.
Ainda assim, a mensagem enviada pelas ruas de Teerã é clara: o Irã não saiu politicamente paralisado da morte de Khamenei. A mobilização popular, mesmo organizada pelo Estado e marcada por forte controle político, revela que a República Islâmica conserva capacidade de convocação, estrutura logística, redes religiosas, presença territorial e densidade simbólica suficientes para responder a um choque dessa magnitude.
Esse é o elemento que mais preocupa analistas israelenses e pró-Israel. A estratégia de pressão máxima, assassinatos seletivos, sanções e ataques militares parte da premissa de que o Estado iraniano pode ser fragilizado por golpes sucessivos contra suas lideranças e infraestruturas. O funeral sugere que essa aposta é mais incerta do que parecia. Em vez de produzir apenas medo, a agressão externa pode reforçar identidades nacionais e religiosas, especialmente quando é percebida pela população como violação da soberania do país.
Isso não significa que o Irã esteja unido sem fissuras. A sociedade iraniana é complexa, atravessada por divisões geracionais, econômicas, culturais e políticas. Há oposição real ao regime, críticas internas profundas e setores que rejeitam a estrutura teocrática. Mas a análise estratégica precisa distinguir contestação interna de colapso político. Um país pode ter insatisfação social significativa e, ao mesmo tempo, reagir de forma nacionalista diante de ataques externos.
É justamente essa contradição que o funeral de Khamenei expõe. A mobilização não apaga os problemas do Irã, mas mostra que a tentativa de reduzir a República Islâmica a um regime isolado, sem base social e à beira da implosão, é uma leitura simplificada. Para milhões de iranianos, a morte de Khamenei não aparece apenas como perda de um líder religioso. Aparece como episódio de uma guerra mais ampla contra a soberania do país.
A consequência regional pode ser profunda. O Irã segue como peça central do chamado eixo de resistência, com influência sobre grupos e aliados no Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e Palestina. A forma como Teerã reorganizará sua liderança após Khamenei terá impacto direto sobre a segurança de Israel, a presença militar dos Estados Unidos no Golfo, as negociações nucleares, o preço do petróleo e a estabilidade das rotas energéticas.
O funeral, portanto, deve ser lido como um sinal. Não apenas de luto, mas de capacidade de mobilização. Não apenas de homenagem, mas de disputa estratégica. A imagem de milhões nas ruas de Teerã indica que, mesmo após a morte de seu líder mais importante, o Irã continua sendo um ator central, organizado e perigoso para seus adversários.
Para Washington e Tel Aviv, a pergunta que fica é incômoda: se nem o assassinato de Khamenei foi capaz de quebrar a espinha política do Irã, que tipo de pressão seria capaz de fazê-lo sem incendiar ainda mais o Oriente Médio?
