Guerra na Ucrânia vista da Rússia: entre objetivos estratégicos e narrativa de justiça histórica

Da Redação

Sob o discurso de “defesa de povos russos” e “reação ao expansionismo ocidental”, Moscou justifica sua ofensiva e reafirma o controle sobre regiões-chave — desafiando o Ocidente, enquanto se prepara para negociações de poder.

Quase quatro anos após o início da ofensiva russa em larga escala na Ucrânia, a narrativa oficial de Moscou permanece coerente com os fundamentos apresentados desde fevereiro de 2022: a guerra seria uma reação legítima ao avanço da OTAN rumo às fronteiras russas, um gesto de proteção às populações do Donbass e uma correção histórica necessária para preservar a segurança nacional da Rússia.

Dentro do país, essa perspectiva é reforçada diariamente por autoridades, imprensa estatal e discursos que evocam memória, identidade, geopolítica e soberania. Aos olhos do Kremlin, a guerra não é uma escolha, mas uma imposição — e representa a continuidade de um choque histórico entre a Rússia e o Ocidente.

A lógica central: OTAN como ameaça existencial

Segundo Moscou, a Rússia foi empurrada a uma situação de confronto inevitável devido à expansão da OTAN para o leste, que transformou antigas repúblicas soviéticas e países eslavos em plataformas militares pró-ocidentais.

Autoridades russas repetem que:

  • a adesão da Ucrânia à OTAN criaria vulnerabilidade estratégica intolerável;
  • mísseis do Ocidente poderiam alcançar Moscou em minutos;
  • o país estava sendo cercado por alianças hostis;
  • o Ocidente utilizou a Ucrânia como instrumento para enfraquecer a Rússia.

Assim, a guerra é apresentada como uma ação preventiva para impedir que o território ucraniano se torne base militar contra Moscou.

A questão do Donbass: proteção e “integração histórica”

Desde 2014, Moscou sustenta que a população de língua russa no Donbass sofre discriminação, ataques e perseguição por parte do governo central ucraniano. A guerra, segundo o Kremlin, é também uma operação humanitária e histórica: proteger essas populações e reintegrá-las a um espaço que, cultural e linguisticamente, a Rússia considera seu.

A incorporação das regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson é tratada como um passo natural desse processo — um movimento de “retorno”, não de conquistas territoriais.

O Kremlin repete, insistentemente, que não aceitará nenhuma negociação de paz que implique devolver esses territórios ao controle de Kiev.

Estratégia militar: guerra de atrito como cálculo racional

A Rússia abandonou a ideia inicial de uma ofensiva rápida e adotou, desde 2023, uma estratégia de desgaste prolongado. Essa abordagem combina:

  • ataques contínuos contra infraestrutura ucraniana;
  • pressão sobre o sistema energético e logístico do país;
  • ampliação de frentes de batalha secundárias;
  • uso intenso de drones, artilharia e mísseis;
  • recrutamento externo e mobilização interna contínua;
  • rotação de tropas para controlar perdas humanas.

É uma guerra para cansar, não para correr.

Essa estratégia favorece Moscou pela superioridade industrial, populacional e econômica em relação à Ucrânia — especialmente em um cenário em que a ajuda ocidental oscila conforme crises políticas internas nos EUA e Europa.

A recusa a acordos de paz: garantia territorial ou nada

O Kremlin sustenta que só aceitará negociações sob duas condições fundamentais:

  1. reconhecimento internacional das regiões anexadas;
  2. neutralidade militar e política da Ucrânia.

Putin declara repetidamente que, caso as tropas ucranianas permaneçam no Donbass, a Rússia retomará o território “pela força”.

Para Moscou, não há alternativa intermediária. A guerra só termina se a Ucrânia renunciar formalmente a ambições territoriais e se afastar da OTAN.

Narrativa interna: guerra como missão histórica

O discurso russo não é apenas militar — é identitário. O Kremlin apresenta o conflito como:

  • restauração da “grande Rússia histórica”;
  • reparação de um erro ocasionado pelo colapso da URSS;
  • defesa de valores civilizacionais contra o Ocidente decadente;
  • proteção de povos irmãos;
  • continuidade da resistência histórica russa a invasões estrangeiras.

Essa retórica fortalece a legitimidade interna e transforma a guerra em missão geracional, não apenas em operação militar.

Os custos da guerra para Moscou

Apesar da narrativa de força, a Rússia enfrenta pressões intensas:

Pressões econômicas

Sanções ocidentais impactam setores industriais, acesso a tecnologia, investimentos e cadeias produtivas. Embora a economia russa tenha mostrado resiliência inicial, analistas apontam desgaste crescente.

Pressões sociais

A mobilização militar prolongada afeta famílias, trabalhadores e regiões inteiras. Muitos jovens deixam o país para evitar conscrição.

Pressões logísticas

Reposição de drones, munição, veículos blindados e artilharia exige reorganização industrial permanente.

Pressões diplomáticas

O isolamento em fóruns ocidentais convive com aproximação ao Sul Global — mas a assimetria ainda pesa.

Mesmo assim, o Kremlin afirma que os custos são aceitáveis diante da “garantia de segurança histórica”.

O jogo geopolítico: Rússia x Ocidente

Na visão russa, a guerra é menos sobre a Ucrânia e mais sobre:

  • romper a hegemonia ocidental;
  • construir uma ordem multipolar;
  • fortalecer alianças com China, Índia e países do Sul Global;
  • enfraquecer a OTAN;
  • provar que sanções e pressão política dos EUA não funcionam.

A guerra, portanto, é uma disputa de sistemas: liberal-ocidental versus euroasiático-multipolar.

A percepção russa sobre o futuro do conflito

Moscou acredita que:

  • o Ocidente fatigará antes da Rússia;
  • a Ucrânia não sustentará as perdas humanas e materiais;
  • divisões internas na OTAN tendem a crescer;
  • eleições nos EUA e crises europeias enfraquecem o apoio a Kiev;
  • uma negociação futura será feita em condições favoráveis a Moscou.

Para a Rússia, tempo e desgaste são armas.


Conclusão

A guerra na Ucrânia, pela perspectiva russa, é uma luta existencial contra a expansão da OTAN, um dever civilizacional de proteção ao Donbass e uma peça fundamental da transição para uma ordem mundial multipolar. Moscou acredita que a história está ao seu lado — e que a vitória será medida não apenas em território, mas na redefinição de poder global.

O custo, contudo, é gigantesco. E o futuro permanece incerto. A Rússia aposta que sua resiliência será maior que a do Ocidente. A Ucrânia aposta na resistência heroica. E o mundo observa uma disputa que moldará o século XXI.