IA impulsiona na China uma nova economia de pequenos criadores e negócios de uma pessoa só

Do Global Times

Ferramentas de inteligência artificial estão permitindo que trabalhadores sem grandes equipes, capital elevado ou formação em programação criem vídeos, aplicativos e pequenos negócios. Fenômeno chinês mostra como a IA pode reduzir barreiras de entrada, mas também traz novos desafios para trabalho, propriedade intelectual e concentração tecnológica.

Uma loja de óculos e um computador foram suficientes para produzir um vídeo que alcançou milhões de pessoas fora da China. O responsável não era um grande estúdio de cinema, uma agência de publicidade ou uma empresa de tecnologia. Era Qiguang, comerciante nascido em 1991, que administra uma ótica em Chengdu e utiliza as horas vagas para aprender a trabalhar com ferramentas de inteligência artificial.

Seu caso está no centro de uma reportagem publicada nesta quarta-feira (12) pelo Global Times sobre um fenômeno que começa a ganhar força na economia chinesa: a chamada shoucuo economy, expressão que pode ser entendida como uma “economia artesanal” ou “economia da criação individual”. A ideia é simples: pessoas ou equipes minúsculas utilizam inteligência artificial e ferramentas digitais relativamente baratas para realizar trabalhos que anteriormente exigiriam empresas, grandes equipes e investimentos consideráveis.

O vídeo criado por Qiguang apresenta uma representação do “Tribunal Celestial” da mitologia chinesa, com palácios suspensos sobre nuvens, arquitetura tradicional e enormes paisagens fantásticas. Sem diálogos e praticamente sem necessidade de tradução, a produção ultrapassou 5 milhões de visualizações em plataformas internacionais em menos de quatro dias. Muitos espectadores imaginaram que as imagens haviam sido produzidas por um estúdio profissional de animação ou por uma grande equipe especializada em computação gráfica.

Por trás das imagens estavam essencialmente duas pessoas: Qiguang e outro criador conhecido pelo nome digital Xueli Xianzong.

A experiência ajuda a mostrar uma das transformações econômicas provocadas pela inteligência artificial. Durante décadas, transformar uma ideia visual sofisticada em filme ou animação exigia câmeras, cenários, profissionais especializados, softwares caros e capacidade financeira. Hoje, uma parcela crescente desse aparato produtivo pode ser substituída por acesso a modelos de geração de imagens e vídeos, um computador e conhecimento acumulado pelo próprio trabalhador.

Isso não significa que a máquina simplesmente faça todo o trabalho.

Qiguang descreve um processo bastante diferente da imagem popular segundo a qual basta escrever algumas palavras para a inteligência artificial produzir imediatamente uma obra pronta. Primeiro, é necessário imaginar o ambiente e planejar os movimentos de câmera. Depois são geradas imagens estáticas, com sucessivas modificações dos comandos para controlar arquitetura, iluminação, cores e composição. As melhores imagens são então submetidas a modelos de geração de vídeo, acrescentando movimento de câmera, nuvens, tecidos e outros elementos. Finalmente, o material precisa ser selecionado, descartado, montado e sonorizado. Muitas tentativas produzem figuras deformadas, movimentos artificiais ou construções incoerentes e acabam eliminadas.

A IA, portanto, reduz determinadas barreiras técnicas e financeiras, mas não elimina o trabalho humano. Ela reorganiza esse trabalho.

Essa distinção é importante porque ajuda a compreender o que pode estar surgindo na China. Em vez de apenas substituir trabalhadores dentro das empresas existentes, a inteligência artificial também começa a permitir que indivíduos assumam funções que anteriormente estavam distribuídas entre diversos profissionais.

Uma única pessoa pode pesquisar mercado, desenvolver um protótipo, produzir imagens, escrever textos, programar partes de um aplicativo, testar o produto e divulgá-lo.

O resultado pode ser uma redução radical do capital necessário para experimentar uma ideia.

A reportagem apresenta outro exemplo revelador. Xu Ting, de 34 anos, trabalhava no setor energético e não possuía experiência em programação. Em janeiro de 2025, publicou na rede Xiaohongshu a ideia de criar um aplicativo baseado em IA que conversasse com idosos e os ajudasse a organizar suas memórias e produzir relatos autobiográficos.

Poucos anos antes, uma iniciativa desse tipo provavelmente exigiria programadores, designers, gestores de produto e recursos para desenvolver um protótipo. Xu utilizou modelos chineses de inteligência artificial, entre eles o DeepSeek, e conseguiu montar pessoalmente uma primeira versão funcional.

O fenômeno começa a aparecer também nos números. Segundo dados da Alibaba Cloud citados pelo Global Times, quase 23 mil aplicações de inteligência artificial haviam sido construídas até novembro de 2025 na área de inovação da plataforma aberta ModelScope. Aproximadamente 95% teriam sido desenvolvidas por criadores individuais.

Outro dado apresentado pela reportagem dimensiona a transformação: documentos setoriais sobre as chamadas One Person Companies (OPCs) indicavam mais de 16 milhões de empresas de uma única pessoa registradas na China em abril de 2026. O número abrange um universo empresarial mais amplo e não significa que todas sejam companhias de inteligência artificial, mas ajuda a revelar a dimensão adquirida pelo trabalho empresarial individual no país.

A mudança está começando a produzir inclusive políticas públicas. Mais de 20 cidades chinesas já adotaram iniciativas direcionadas às OPCs. Na área de desenvolvimento econômico e tecnológico de Pequim, existem procedimentos simplificados para registro de empreendedores individuais. Qingdao criou uma plataforma voltada a pequenos inovadores de IA, oferecendo suporte desde o desenvolvimento tecnológico até a monetização dos produtos.

Também começa a surgir uma infraestrutura coletiva para trabalhadores que, paradoxalmente, operam individualmente. Em maio deste ano, existiam 426 comunidades voltadas às OPCs espalhadas por 65 cidades e 28 regiões administrativas chinesas. Esses espaços oferecem locais de trabalho, orientação, encontros entre empreendedores e conexão com recursos e possíveis parceiros.

O movimento revela uma característica importante da atual corrida tecnológica chinesa. A disputa pela inteligência artificial não acontece apenas entre gigantes como Alibaba, Tencent, Baidu, Huawei ou grandes laboratórios de pesquisa. Existe uma tentativa de espalhar essas tecnologias para camadas menores da estrutura produtiva.

Isso pode produzir consequências econômicas profundas.

Durante a primeira fase da economia digital, plataformas gigantescas concentraram capital, dados e mercados. A inteligência artificial pode aprofundar essa concentração, especialmente porque os modelos mais avançados exigem chips, centros de dados e investimentos bilionários. Mas, simultaneamente, as ferramentas construídas sobre essa infraestrutura podem reduzir dramaticamente o custo necessário para indivíduos produzirem determinados bens e serviços.

Há aí uma contradição central da economia da IA: uma infraestrutura extremamente concentrada pode permitir uma produção extraordinariamente descentralizada.

Quem controla a infraestrutura e quem captura o valor produzido sobre ela será uma das grandes disputas dos próximos anos.

A experiência chinesa também ajuda a colocar em perspectiva a narrativa de que a inteligência artificial representa apenas substituição de empregos. Essa possibilidade existe e já provoca preocupação em diversos setores. Entretanto, tecnologias que reduzem custos de produção também podem criar novas formas de trabalho e permitir que trabalhadores produzam diretamente aquilo que antes dependia de uma estrutura empresarial.

O professor Li Ning, da Escola de Economia e Administração da Universidade Tsinghua, argumenta que empresas tradicionais precisam investir pesadamente em pesquisa, funcionários, cadeias produtivas e testes de mercado. A IA comprime parte desses custos e permite que pequenas equipes alcancem resultados que anteriormente poderiam exigir centenas de trabalhadores.

Isso não significa necessariamente democratização automática da economia.

Os riscos são consideráveis. Um dos principais é a propriedade intelectual. As mesmas ferramentas que permitem criar rapidamente também permitem copiar rapidamente. Criadores individuais possuem poucos recursos para enfrentar grandes empresas ou imitadores em disputas judiciais. Quando copiar custa quase nada e defender juridicamente uma criação custa muito, o incentivo econômico para produzir trabalhos originais pode diminuir.

Outro problema é a dependência dos algoritmos das plataformas. Qiguang observa que conteúdos rápidos, conflitivos e produzidos para capturar imediatamente a atenção costumam receber maior impulso algorítmico, enquanto trabalhos culturais mais lentos ou sofisticados enfrentam dificuldade para alcançar o mesmo público.

Existe ainda o risco de que a prometida “empresa de uma pessoa” se transforme simplesmente em intensificação do trabalho individual.

Se uma única pessoa precisa ser simultaneamente programador, designer, vendedor, administrador, produtor de conteúdo e responsável pelo atendimento, a redução do tamanho da empresa não necessariamente significa maior liberdade. Pode significar que funções anteriormente divididas entre vários trabalhadores sejam concentradas sobre um único indivíduo auxiliado por máquinas.

Xu Ting identifica exatamente essa tensão. Se cada projeto continuar dependendo de enorme quantidade de trabalho artesanal individual, o empreendedor corre o risco de ficar preso em uma atividade de alta intensidade e baixa rentabilidade. Para que o modelo seja sustentável, determinadas tarefas precisam ser automatizadas enquanto capacidades humanas como julgamento crítico, criatividade e empatia permanecem centrais.

Por isso, a experiência chinesa merece ser acompanhada também pelo Brasil.

Um país periférico na produção das tecnologias fundamentais da inteligência artificial corre o risco de se tornar apenas consumidor de ferramentas criadas e controladas no exterior. Mas um país capaz de desenvolver modelos próprios, infraestrutura computacional, formação profissional e ecossistemas de inovação pode utilizar a mesma tecnologia para reduzir barreiras de entrada e aumentar a capacidade produtiva de pequenos negócios, cooperativas, trabalhadores autônomos e empreendedores.

A discussão sobre soberania tecnológica passa exatamente por esse ponto. Não basta perguntar quem possui o melhor chatbot. É necessário perguntar quem controla os modelos, onde estão os centros de dados, quem possui os chips, quem define as regras das plataformas e, principalmente, quem fica com a riqueza criada pelo aumento da produtividade.

O caso de Qiguang oferece uma pequena imagem dessa transformação. Durante o dia, ele continua trabalhando em sua ótica. Nas horas vagas, com um computador e ferramentas de inteligência artificial, produz mundos imaginários capazes de alcançar milhões de pessoas do outro lado do planeta.

Ele próprio reconhece que ainda não existe renda suficiente para abandonar sua atividade principal. A chamada economia artesanal da IA está longe de representar uma fórmula de enriquecimento fácil. Há tentativa, erro, trabalho prolongado, dificuldade de monetização e enorme competição.

Mas alguma coisa importante já mudou.

Durante boa parte da era industrial, controlar os meios necessários para transformar uma ideia complexa em produto exigia capital significativo. A inteligência artificial começa a reduzir essa distância em determinados setores. Se essa capacidade será apropriada principalmente pelas grandes plataformas ou se também poderá fortalecer milhões de pequenos produtores é uma disputa ainda em aberto.

A experiência chinesa sugere que Pequim pretende fazer dessa segunda possibilidade uma política de desenvolvimento.

E talvez esteja aí uma das questões econômicas mais importantes da revolução da inteligência artificial: não apenas quantos empregos a máquina poderá substituir, mas quantas pessoas passarão a ter capacidade produtiva que antes estava reservada às grandes empresas.