Bombardeios israelenses mataram palestinos na Cidade de Gaza justamente quando o acordo mediado pelos Estados Unidos completou um ano. Trégua reduziu a escala da guerra e permitiu libertação de reféns, mas retirada israelense, desarmamento do Hamas, reconstrução e normalização da ajuda humanitária continuam travados
Da Redação
Um ano depois de o cessar-fogo destinado a encerrar a guerra na Faixa de Gaza entrar em vigor, aviões e drones israelenses voltaram a atacar o território palestino neste sábado (10). Pelo menos cinco palestinos foram mortos em dois ataques na Cidade de Gaza, segundo autoridades médicas, enquanto fontes palestinas divulgaram posteriormente números mais altos para o conjunto das operações realizadas ao longo do dia. Quatro pessoas morreram nas proximidades do Panda Mall e outra foi atingida no bairro de Tuffah. As Forças de Defesa de Israel afirmaram que os alvos eram integrantes do Hamas e da Jihad Islâmica e disseram ter atacado uma reunião de membros da força de elite Nukhba, além de um comandante ligado à estrutura antitanque da Jihad Islâmica.
A data deu aos ataques um significado particular. Em 10 de outubro de 2025 entrou em vigor o acordo negociado com participação dos Estados Unidos, Egito, Qatar e Turquia que deveria interromper as grandes operações militares, permitir a libertação dos reféns israelenses ainda mantidos em Gaza e abrir caminho para uma reorganização política e para a reconstrução do território. A primeira etapa produziu resultados concretos, sobretudo na troca de reféns e prisioneiros e no aumento da entrada de ajuda humanitária. O que deveria vir depois, porém, praticamente parou. Um ano mais tarde, forças israelenses continuam ocupando extensas áreas da Faixa de Gaza, o Hamas permanece armado, a força internacional prevista no acordo não foi plenamente implantada e a reconstrução das cidades destruídas mal começou.
Israel sustenta que suas operações atuais são necessárias porque o Hamas estaria utilizando o período de trégua para recompor forças, reorganizar unidades e manter armamentos. O governo de Benjamin Netanyahu afirma que a retirada militar completa só poderá ocorrer depois do desarmamento efetivo do grupo palestino. O Hamas rejeita essa versão, acusa Israel de descumprir o acordo por meio de ataques quase diários e afirma aceitar discutir a entrega de armas dentro de uma solução política mais ampla e sob mecanismos internacionais. A divergência sobre quem deve dar o próximo passo transformou um cessar-fogo concebido como início de uma transição numa espécie de equilíbrio armado permanente.
Os números ajudam a mostrar a distância entre a promessa e a realidade. Mais de 1,4 mil palestinos morreram em ataques e confrontos desde o início da trégua, segundo autoridades de saúde de Gaza citadas por agências internacionais, enquanto quatro soldados israelenses foram mortos no mesmo período. A ONU já havia verificado centenas das mortes palestinas ocorridas somente nos primeiros meses do acordo. Embora a intensidade da guerra tenha caído drasticamente em comparação aos dois primeiros anos do conflito, a violência nunca desapareceu. Ataques aéreos, disparos, operações junto às linhas de controle militar e mortes de civis continuaram ocorrendo durante praticamente todo o período.
Uma trégua que interrompeu a guerra total, mas não trouxe a paz
O acordo de 2025 nasceu de um plano de vinte pontos promovido pelo governo Donald Trump depois de dois anos de uma guerra que havia transformado grande parte de Gaza em ruínas. Sua arquitetura previa muito mais do que simplesmente suspender os bombardeios. Havia um projeto de retirada gradual das tropas israelenses, desarmamento do Hamas e das demais organizações armadas palestinas, implantação de uma força internacional de estabilização e transferência da administração cotidiana para uma estrutura palestina de caráter tecnocrático. A reconstrução econômica e urbana deveria avançar paralelamente.
A libertação dos reféns israelenses sequestrados durante os ataques de 7 de outubro de 2023 foi um dos poucos capítulos praticamente concluídos. A troca por prisioneiros palestinos permitiu que o governo israelense apresentasse o acordo inicialmente como uma vitória política importante e abriu espaço para uma redução das grandes operações militares. Esse alívio, contudo, não se transformou na retirada prevista.
Hoje, Israel mantém controle militar sobre aproximadamente dois terços da Faixa de Gaza, segundo levantamentos de agências internacionais. O Hamas conserva presença política e armada principalmente na parte costeira densamente povoada, onde vive a maior parte da população deslocada. Na prática, o território permanece dividido entre áreas diretamente controladas pelas forças israelenses e regiões onde estruturas palestinas continuam funcionando sob permanente pressão militar.
Esse mapa é uma das principais razões para a paralisação do acordo. Netanyahu sustenta que retirar as tropas enquanto o Hamas mantém capacidade armada significaria permitir sua reconstrução militar. O movimento palestino argumenta que entregar suas armas antes de uma retirada israelense e de garantias políticas deixaria Gaza indefesa e consolidaria a ocupação. Entre as duas posições, o mecanismo internacional que deveria organizar a transição nunca adquiriu força suficiente para romper o impasse.
A Força Internacional de Estabilização prevista no plano não alcançou a dimensão necessária. Países que haviam sinalizado participação reduziram ou adiaram compromissos. A administração palestina planejada para assumir serviços públicos foi formalmente estruturada, mas permanece limitada e não exerce controle efetivo sobre a maior parte do território. Fundos internacionais foram anunciados, porém o dinheiro mobilizado está muito abaixo das necessidades estimadas para reconstruir Gaza.
O resultado aparece de forma brutal na paisagem. Imagens de satélite divulgadas ao longo deste ano mostram bairros inteiros ainda destruídos e antigas cidades praticamente apagadas. Rafah, que antes da guerra abrigava centenas de milhares de habitantes, encontra-se profundamente modificada pela destruição e pela presença militar. Estradas, sistemas de água, redes de esgoto, hospitais, escolas e moradias continuam danificados ou completamente inutilizados.
A reconstrução é travada não apenas pela ausência de dinheiro, mas pelas restrições à entrada de materiais. Israel argumenta que cimento, metais, equipamentos eletrônicos e determinadas máquinas podem ser desviados para a recuperação de túneis e estruturas militares do Hamas. Organizações humanitárias afirmam que o mesmo controle impede a recuperação de casas, hospitais, sistemas sanitários e abrigos indispensáveis à população civil.
Mais de cem organizações humanitárias e de direitos humanos divulgaram nesta semana uma declaração afirmando que o cessar-fogo existe apenas nominalmente, diante da continuidade das mortes e das dificuldades impostas à recuperação de Gaza. A caracterização é contestada por Israel, que sustenta ter reduzido drasticamente as operações militares e permitido um volume muito maior de assistência do que durante a guerra aberta.
Os dois aspectos podem coexistir. O acordo efetivamente interrompeu a fase mais intensa do conflito, permitiu trocas de reféns e prisioneiros e expandiu a atividade humanitária. Ao mesmo tempo, não produziu aquilo que sua própria denominação sugeria: o fim das mortes provocadas por operações militares e a passagem definitiva da guerra para uma solução política.
Dois milhões de pessoas continuam vivendo entre ruínas e acampamentos
É entre a população civil que o fracasso da transição aparece de maneira mais concreta. Quase dois milhões de palestinos precisam atualmente de algum tipo de assistência para abrigo, segundo a Organização Internacional para as Migrações. Aproximadamente 1,8 milhão vivem em locais de deslocamento, muitos deles constituídos por barracas improvisadas e estruturas que deveriam ter funcionado apenas durante uma emergência temporária.
A chegada de um novo período de chuvas transformou essa precariedade em risco adicional. Grande número desses acampamentos está instalado em regiões sujeitas a alagamentos. Sistemas de drenagem foram destruídos durante a guerra, milhares de edifícios permanecem estruturalmente inseguros e as organizações humanitárias receberam apenas uma fração dos recursos e materiais necessários para preparar a população para o inverno.
A situação alimentar também permanece grave. Mais de um milhão de habitantes continuam enfrentando níveis severos de insegurança alimentar. A fome extrema observada em determinados momentos da guerra diminuiu depois da ampliação da entrada de ajuda, mas não desapareceu a dependência quase absoluta de assistência humanitária para grande parte das famílias. Hospitais voltaram a oferecer alguns serviços, porém nenhuma unidade de saúde opera nas condições existentes antes do conflito, segundo relatórios das Nações Unidas.
O quadro é ainda mais duro quando colocado diante do balanço completo da guerra iniciada depois dos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Cerca de 1.200 pessoas foram mortas em Israel naquele dia e 251 foram sequestradas. A ofensiva israelense que se seguiu matou mais de 74 mil palestinos, segundo as autoridades de saúde de Gaza, e deixou mais de 175 mil feridos. Grande parte da infraestrutura urbana foi destruída, praticamente toda a população foi deslocada pelo menos uma vez e milhares de corpos ainda podem permanecer sob os escombros.
Esses números fazem do aniversário do cessar-fogo uma data difícil de apresentar como celebração. Para famílias israelenses que recuperaram parentes sequestrados, o acordo representou uma conquista real. Para palestinos que sobreviveram às grandes ofensivas, significou o fim da fase de bombardeios na escala observada entre 2023 e 2025. Mas o caminho anunciado para transformar essa interrupção em paz, retirada militar e reconstrução não avançou como previsto.
Os ataques deste sábado sintetizam essa contradição. Israel afirma ter atingido combatentes de organizações armadas e considera as operações compatíveis com seu direito de responder a violações e ameaças. Para os palestinos, cada novo bombardeio confirma que a guerra nunca terminou de fato. Entre uma interpretação e outra, continuam surgindo mortos numa Faixa de Gaza oficialmente submetida a um cessar-fogo.
O problema agora é também político. O plano de 2025 apostava que o fim das grandes operações criaria condições para uma nova administração de Gaza e para negociações capazes de produzir uma solução de longo prazo. Um ano depois, Netanyahu e o Hamas continuam separados pelas mesmas questões fundamentais: quem controlará o território, quem ficará armado, até onde Israel recuará e que garantia política será oferecida aos palestinos.
Sem respostas para essas perguntas, o cessar-fogo acabou se tornando um mecanismo de contenção da guerra, não de resolução do conflito.
Essa diferença explica por que Gaza chega ao primeiro aniversário da trégua ainda coberta por acampamentos, ruínas e posições militares. As armas disparam menos do que antes, mas continuam disparando. A ajuda entra em maior volume, mas permanece insuficiente. Os reféns foram libertados, mas a população palestina ainda não recebeu a reconstrução prometida. Israel reduziu as grandes ofensivas, mas não completou a retirada. O Hamas sobreviveu, mas não entregou suas armas.
Um ano depois, aquilo que deveria ser uma passagem da guerra para a paz tornou-se uma longa espera entre as duas coisas.
E neste sábado, enquanto autoridades internacionais lembravam a assinatura do acordo, novos mortos voltaram a chegar aos hospitais de Gaza.






