Presidente do PSD afirma confiar na estabilidade da democracia, mas vê risco na combinação entre um eventual governo do PL e uma bancada conservadora fortalecida no Senado; dirigente defende que impeachment não seja transformado em bandeira política
Da Redação
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, manifestou preocupação com a possibilidade de um novo período de tensão entre os Poderes caso Flávio Bolsonaro vença Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial. Em entrevista divulgada nesta sexta-feira (9), Kassab afirmou confiar na capacidade das instituições brasileiras de preservar a estabilidade democrática, mas reconheceu que a nova composição do Congresso, especialmente do Senado, cria um ambiente delicado para a relação entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. Folha de S.Paulo
A preocupação está concentrada sobretudo na disposição de setores bolsonaristas de transformar pedidos de impeachment de ministros do STF em uma das prioridades da próxima legislatura. Questionado sobre um eventual cenário de conflito institucional sob Flávio, Kassab disse torcer para que não haja “caos institucional” e ressaltou que não acredita que esse seja um desfecho inevitável. Para ele, a saída deve estar no funcionamento regular das instituições, com investigação, fiscalização e transparência.
“Impeachment não pode ser uma bandeira”, afirmou o dirigente. Na avaliação de Kassab, mecanismos constitucionais de responsabilização existem e podem ser utilizados quando houver fundamentos concretos, mas não deveriam funcionar como instrumento permanente de pressão política contra integrantes do Judiciário. Folha de S.Paulo
A declaração adquire peso porque o novo Senado terá uma presença expressiva de parlamentares críticos ao Supremo. Levantamento publicado pela Folha após o primeiro turno apontou ao menos 49 senadores favoráveis ao afastamento de ministros da Corte, enquanto a abertura formal de um processo exige 54 votos. Dentro do próprio STF, ministros e auxiliares já discutem como manter canais de diálogo com setores considerados menos radicalizados do PL e de outros partidos de direita. Folha de S.Paulo
Esse cenário não significa que um processo de impeachment esteja automaticamente colocado nem que ministros sejam afastados simplesmente pela existência de uma maioria conservadora. O presidente do Senado continua tendo papel central na abertura dos procedimentos, e cada caso depende de tramitação própria. O que mudou depois das eleições foi o equilíbrio político no Congresso e, com ele, a percepção sobre a possibilidade de essas iniciativas avançarem.
Kassab vê Congresso mais favorável a Flávio do que foi a Jair Bolsonaro
Ao comparar um eventual governo Flávio com os quatro anos da Presidência de Jair Bolsonaro, Kassab chamou atenção para uma diferença essencial: a composição do Congresso.
Segundo o presidente do PSD, Flávio poderia encontrar um ambiente parlamentar mais favorável do que aquele enfrentado pelo pai. O PL ampliou significativamente sua presença na Câmara e no Senado, enquanto a direita como um todo ganhou espaço nas eleições deste ano.
Na avaliação de Kassab, esse fortalecimento parlamentar pode aumentar a capacidade de um futuro governo de aprovar mudanças institucionais, mas também pode intensificar conflitos caso pautas direcionadas ao Supremo sejam colocadas no centro da agenda política.
Flávio já apresentou propostas de mudanças relacionadas ao Judiciário durante a campanha. Entre elas estão alterações no funcionamento do STF e a defesa de reformas que seus aliados apresentam como parte de uma “redemocratização” institucional.
Kassab não rejeita todas essas discussões. Pelo contrário, afirmou que algumas mudanças mencionadas pelo candidato coincidem com ideias que ele próprio defende há anos, como mandato de dez anos para ministros do Supremo, idade mínima para ingresso na Corte e regras de quarentena para magistrados depois de deixarem o cargo.
A posição do dirigente, portanto, não é de oposição a reformas do Judiciário. Sua advertência é sobre o método e sobre a possibilidade de uma agenda de mudanças se transformar numa disputa permanente entre os Poderes.
Ele também ressaltou que qualquer alteração constitucional dependeria de uma maioria qualificada no Congresso. Mesmo com o crescimento do PL, nenhum partido isoladamente possui os 308 votos necessários na Câmara para aprovar uma emenda à Constituição.
Isso obrigaria qualquer presidente a construir acordos mais amplos.
PSD mantém neutralidade no segundo turno
A manifestação de Kassab não representa apoio a Lula.
Depois da eliminação de Ronaldo Caiado no primeiro turno, o PSD decidiu oficialmente permanecer neutro na disputa presidencial e liberou seus integrantes para apoiar individualmente qualquer um dos dois candidatos.
Essa decisão criou um cenário em que importantes lideranças do partido estão em campos diferentes. Caiado declarou apoio intenso a Flávio Bolsonaro. Em São Paulo, setores próximos ao governador Tarcísio de Freitas também se alinharam ao candidato do PL. Em sentido contrário, dirigentes como Otto Alencar, Antonio Brito e Eduardo Paes apoiam Lula.
Kassab procura permanecer no meio dessa divisão. Perguntado sobre sua posição pessoal, respondeu que está “vestido de presidente do partido” e afirmou que pretende preservar a unidade interna.
O dirigente disse que o PSD deverá manter independência qualquer que seja o vencedor. Sua proposta é apoiar medidas que considere positivas e preservar capacidade própria de negociação no Congresso, sem compromisso automático com Lula ou Flávio.
Essa posição ajuda a entender por que sua advertência sobre o risco institucional não equivale a uma adesão ao campo governista. Kassab também fez críticas à esquerda, afirmou que ela saiu enfraquecida das eleições e reconheceu que o eleitorado brasileiro se deslocou para a direita.
Ao mesmo tempo, evita tratar esse deslocamento como autorização para uma ruptura nas relações entre os Poderes.
STF também acompanha nova correlação de forças
A preocupação manifestada pelo presidente do PSD encontra paralelo dentro do Supremo.
Ministros da Corte avaliam que a nova composição do Senado cria condições políticas mais favoráveis a propostas destinadas a limitar decisões individuais, modificar regras do tribunal e facilitar processos contra magistrados. A própria eleição da próxima presidência do Senado, no início de 2027, é considerada decisiva para determinar até onde essas iniciativas poderão avançar. Folha de S.Paulo
Alexandre de Moraes e Flávio Dino aparecem entre os ministros mais frequentemente citados por parlamentares que defendem afastamentos. Esse movimento se desenvolve ao mesmo tempo em que a Corte enfrenta desgastes decorrentes de investigações de grande repercussão, divergências internas e críticas sobre o alcance de algumas de suas decisões.
Há, portanto, um conflito político concreto em formação, mas seu resultado não está determinado.
Kassab procura colocar sua posição justamente nesse espaço. Ele reconhece que o Judiciário pode e deve ser reformado e fiscalizado, mas rejeita a ideia de fazer do afastamento de ministros um programa político permanente.
Ao dizer que confia na democracia e, simultaneamente, torce para que um eventual governo Flávio não produza “caos institucional”, o presidente do PSD expressa uma preocupação que começa a aparecer também em outros setores do centro político: como administrar uma nova correlação de forças no Congresso sem transformar divergências sobre o Supremo numa confrontação entre instituições.
A resposta dependerá tanto de quem ocupar o Palácio do Planalto quanto da forma como Senado, Câmara e STF decidirem utilizar os poderes que a Constituição lhes atribui.
O alerta de Kassab não é uma previsão de ruptura. É precisamente o contrário: uma defesa de que a disputa política, mesmo num Congresso mais conservador e diante de um eventual governo Flávio Bolsonaro, continue submetida às regras institucionais.

