Lavrov acusa militares ucranianos de atuar com grupos armados no Sahel e leva guerra Rússia-Ucrânia ao coração da África

Da Redação

Chanceler russo afirma que integrantes das Forças Armadas da Ucrânia participam de ações contra Mali, Burkina Faso e Níger; acusações se somam a evidências anteriores de cooperação de Kiev com rebeldes tuaregues, mas não comprovam que tropas ucranianas estejam atuando diretamente ao lado de organizações jihadistas

A guerra entre Rússia e Ucrânia continua produzindo efeitos muito além das fronteiras europeias. Nesta segunda-feira (17), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, acusou militares ucranianos de envolvimento em ações que Moscou classifica como terroristas contra países do Sahel africano. Segundo o chanceler, integrantes das Forças Armadas da Ucrânia estariam atuando ao lado de grupos que combatem os governos de Mali, Burkina Faso e Níger, três países que nos últimos anos romperam ou reduziram profundamente sua cooperação militar com antigas potências ocidentais e se aproximaram da Rússia. A declaração, divulgada pela RT, acrescenta uma acusação particularmente grave a uma disputa que começou a ganhar força em 2024, quando autoridades ucranianas reconheceram contatos e apoio a forças rebeldes que enfrentavam militares malineses e combatentes russos no norte do Mali.

A afirmação de Lavrov precisa, entretanto, ser separada em duas partes. Existem informações independentes indicando cooperação entre estruturas ucranianas e rebeldes tuaregues que combatem o governo do Mali. O jornal francês Le Monde relatou, com base em fontes corroborantes, que a cooperação operacional entre a inteligência militar ucraniana e rebeldes malineses começou em 2024 e incluiu treinamento no emprego e na fabricação de pequenos drones carregados com explosivos. Isso representa uma intervenção indireta de Kiev numa guerra africana e demonstra como o confronto com Moscou passou a alcançar territórios nos quais forças russas estavam presentes. Não há, porém, nas informações independentes disponíveis até agora, comprovação equivalente para a alegação mais ampla de Lavrov de que unidades das Forças Armadas ucranianas estejam atualmente participando diretamente de operações terroristas contra os três países da Aliança dos Estados do Sahel.

Essa distinção é essencial porque o Sahel abriga conflitos diferentes que frequentemente se sobrepõem. No Mali, o governo enfrenta tanto movimentos separatistas predominantemente tuaregues quanto organizações jihadistas vinculadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Tratar automaticamente todos esses atores como integrantes de uma única estrutura terrorista apagaria diferenças políticas e militares importantes. Ao mesmo tempo, a situação tornou-se ainda mais confusa em 2026 porque rebeldes separatistas e forças jihadistas chegaram a participar de ofensivas simultâneas contra posições do governo malinês. Em abril, uma série de ataques coordenados atingiu diferentes regiões do país, aprofundando a percepção de que Bamako enfrenta uma ameaça militar cada vez mais complexa.

A origem imediata da crise entre Ucrânia e os governos do Sahel está numa batalha ocorrida em julho de 2024 perto de Tinzaouaten, no norte do Mali, próximo à fronteira com a Argélia. Rebeldes tuaregues infligiram uma pesada derrota às forças malinesas e aos combatentes do então Grupo Wagner. Depois do ataque, declarações de autoridades ucranianas foram interpretadas por Bamako como reconhecimento de que Kiev havia fornecido informações aos responsáveis pela emboscada. O governo do Mali rompeu relações diplomáticas com a Ucrânia. O Níger tomou decisão semelhante, e Mali, Burkina Faso e Níger posteriormente enviaram uma carta ao Conselho de Segurança das Nações Unidas denunciando aquilo que classificaram como apoio ucraniano a grupos armados na região.

Desde então, a disputa deixou de ser exclusivamente diplomática. A presença russa no Sahel cresceu, enquanto os três países passaram a construir uma estrutura própria de cooperação política e militar por meio da Aliança dos Estados do Sahel, a AES. Mali, Burkina Faso e Níger romperam com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental e procuraram reduzir a dependência das antigas estruturas de segurança dominadas por França e Estados Unidos. Em julho deste ano, Rússia e os três integrantes da AES anunciaram o aprofundamento de sua cooperação militar num momento em que ataques jihadistas continuam pressionando os governos da região.

É justamente essa presença russa que ajuda a explicar o interesse ucraniano pelo Sahel. Para Kiev, qualquer lugar onde forças russas estejam posicionadas pode potencialmente se transformar numa extensão do confronto travado na Europa. Essa lógica já apareceu em outras regiões africanas e significa que a guerra iniciada em território ucraniano adquiriu progressivamente características de uma disputa global por influência, recursos, alianças e capacidade militar.

O problema para os países africanos é evidente: quando potências externas transformam conflitos locais em extensões de suas próprias guerras, sociedades que já enfrentam crises internas acabam pagando o preço de confrontos geopolíticos que não começaram ali.

No Sahel, esse risco é especialmente grave. A região enfrenta há mais de uma década uma combinação explosiva de pobreza, fragilidade institucional, disputas territoriais, mudanças climáticas, golpes militares e expansão de organizações jihadistas. A violência iniciada no Mali em 2012 espalhou-se progressivamente por Burkina Faso e Níger e começou a pressionar também países costeiros da África Ocidental. A retirada de forças francesas e norte-americanas alterou profundamente o equilíbrio regional, enquanto a Rússia ampliou sua presença como parceira de segurança dos novos governos militares.

O cenário de 2026 demonstra que a ameaça jihadista permanece extremamente poderosa. Um relatório recente das Nações Unidas revelou que um pagamento de aproximadamente US$ 50 milhões realizado para libertar um refém no final de 2025 ajudou a financiar uma ofensiva da coalizão Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, o JNIM, ligada à Al-Qaeda. Segundo informações obtidas pela Reuters, o grupo possui atualmente entre 7 mil e 8 mil combatentes e ampliou suas operações não apenas no Mali, mas também em Burkina Faso, Níger, Benin e Togo. Parte dos recursos do resgate teria chegado inclusive a estruturas internacionais da Al-Qaeda.

Esse dado ajuda a dimensionar por que qualquer apoio estrangeiro a grupos armados no Sahel provoca enorme reação política. Os governos da região consideram que sua própria sobrevivência está em disputa. Para Bamako, Ouagadougou e Niamey, permitir que uma potência externa ofereça treinamento, inteligência, drones ou qualquer outro tipo de assistência a organizações que enfrentam suas forças significa ultrapassar uma linha vermelha relacionada diretamente à soberania nacional.

Ao mesmo tempo, as acusações precisam ser examinadas individualmente. Há evidências jornalísticas de cooperação ucraniana com setores da rebelião tuaregue. Isso não permite concluir automaticamente que Kiev esteja financiando ou treinando organizações vinculadas à Al-Qaeda ou ao Estado Islâmico. A declaração de Lavrov amplia significativamente a acusação e, até que Moscou apresente evidências verificáveis da presença direta de militares ucranianos nas operações mencionadas, essa parte precisa permanecer caracterizada como uma alegação do governo russo.

Essa cautela não diminui a gravidade daquilo que já está documentado. O simples fato de uma estrutura vinculada à Ucrânia ter cooperado com forças rebeldes africanas para atingir combatentes russos demonstra que a guerra europeia atravessou fronteiras e encontrou um novo teatro de operações. O cálculo de Kiev parece relativamente claro: enfraquecer forças russas onde quer que elas estejam. Para os governos africanos, porém, essa estratégia significa transformar seus territórios numa extensão de um conflito entre potências estrangeiras.

A Rússia também possui interesses próprios e profundos na região. Moscou ganhou espaço justamente após a deterioração das relações entre os governos militares do Sahel e as antigas potências ocidentais. Além da cooperação de segurança, existem interesses econômicos, diplomáticos e relacionados a recursos naturais. A substituição gradual do Grupo Wagner por estruturas mais diretamente subordinadas ao Estado russo, especialmente o Africa Corps, consolidou essa presença. Por isso, as acusações de Lavrov contra Kiev também fazem parte da disputa de Moscou para apresentar a Rússia como parceira da soberania africana e a Ucrânia como instrumento de uma tentativa ocidental de desestabilização.

Para Mali, Burkina Faso e Níger, a questão central é evitar que a região volte a funcionar como território de competição entre poderes externos. Durante décadas, a França exerceu influência política, econômica e militar extraordinária sobre suas antigas colônias africanas. A rejeição a esse modelo foi uma das forças políticas que acompanharam os golpes e a ascensão dos atuais governos militares. Substituir uma dependência por outra, entretanto, não resolveria o problema estrutural da soberania regional.

O Sahel está se tornando um dos espaços mais claros da reorganização da ordem internacional. França e Estados Unidos perderam posições. Rússia ampliou presença. China mantém interesses econômicos crescentes. Turquia fortalece relações militares e comerciais. Países do Golfo expandem investimentos. Ucrânia passou a enxergar a região também pela lente de sua guerra contra Moscou. E, no meio dessa competição, milhões de africanos continuam enfrentando deslocamentos, ataques jihadistas, pobreza e Estados incapazes de controlar integralmente seus territórios.

É justamente aí que a acusação feita por Lavrov ganha significado maior. Independentemente de Moscou conseguir comprovar a presença direta de tropas ucranianas nas ações que denuncia, já existe evidência suficiente para afirmar que o confronto Rússia-Ucrânia alcançou o campo de batalha africano por meio de relações estabelecidas com atores locais. A questão agora é saber até onde essa internacionalização poderá avançar.

Para os países do Sahel, a resposta deveria partir de um princípio elementar: nenhuma potência estrangeira — ocidental, russa, ucraniana ou de qualquer outra origem — deveria transformar sociedades africanas em peças descartáveis de uma guerra travada por interesses externos.

A África conhece profundamente o preço desse tipo de disputa. Durante a Guerra Fria, conflitos internos foram repetidamente convertidos em guerras por procuração entre grandes potências, prolongando confrontos e multiplicando mortes. O risco de repetição existe agora sob novas bandeiras.

Se a guerra entre Rússia e Ucrânia continuar sendo exportada para territórios onde Moscou e Kiev identificam oportunidades de atingir uma à outra, o Sahel poderá deixar de enfrentar apenas suas próprias crises e passar a carregar também uma guerra que começou a milhares de quilômetros dali.

E talvez essa seja a dimensão mais preocupante das declarações de Lavrov: a possibilidade de que a África volte a ser tratada não como sujeito de sua própria história, mas como território onde outros países decidem acertar suas contas.