Presidente abriu neste sábado um novo giro nacional com caminhada em Natal, depois de passar por Ceilândia na sexta-feira. Enquanto Lula prepara agendas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estudantes, trabalhadores, movimentos sociais e comitês organizam atos em diferentes estados para as duas semanas decisivas da eleição
Da Redação
O bairro do Alecrim, uma das regiões comerciais mais tradicionais de Natal, foi tomado na manhã deste sábado (10) por bandeiras, carros de som e apoiadores que acompanharam Luiz Inácio Lula da Silva em sua primeira viagem de campanha fora de Brasília desde o início do segundo turno. O presidente percorreu as ruas ao lado de Cadu de Lula, candidato do PT ao governo do Rio Grande do Norte, cercado por governadores e lideranças nordestinas. Do alto do carro de som, retomou temas que pretende carregar pelo país nas próximas duas semanas: soberania nacional, proteção aos programas sociais, educação, emprego, investimentos públicos e mobilização do eleitorado que não compareceu no primeiro turno. Poder360
A cena de Natal marca uma mudança visível na campanha. Depois de uma primeira semana de segundo turno consumida por reorganização interna, definição da comunicação, negociações partidárias e respostas à ofensiva do adversário, Lula voltou ao terreno onde construiu grande parte de sua trajetória política: caminhada, contato direto e discurso diante de gente reunida na rua. O plano agora é fazer uma campanha mais territorial, combinando a presença física do presidente com centenas de ações descentralizadas organizadas por militantes, sindicatos, estudantes e movimentos populares.
Em Natal, Lula procurou transformar o ato regional numa mensagem nacional. Disse que a eleição definirá “que tipo de educação”, “que cultura”, “que saúde” e “que emprego” o Brasil pretende oferecer aos jovens. Também voltou a falar sobre soberania e utilizou a bandeira brasileira como símbolo da campanha, numa tentativa de disputar politicamente o verde e amarelo que, durante anos, ficou associado às manifestações bolsonaristas. Ao criticar seus adversários, afirmou que seu campo “beija a bandeira do Brasil” e voltou a dizer que não aceitará que riquezas nacionais sejam submetidas a interesses estrangeiros. Poder360
O discurso também voltou-se diretamente ao comparecimento eleitoral. Lula pediu aos apoiadores que conversem com familiares, vizinhos e especialmente com pessoas mais velhas que possam estar desmotivadas a votar. A campanha considera os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno uma das maiores reservas de votos ainda em disputa. A orientação transmitida pela direção petista nos últimos dias tem sido insistir menos em grandes atos isolados e mais numa rede permanente de conversas, visitas, panfletagens, pequenas caminhadas e mobilizações de bairro.
O Rio Grande do Norte possui um significado particular nesse desenho. Lula venceu amplamente no estado no primeiro turno, enquanto a disputa estadual entre Cadu e Allyson Bezerra ficou separada por apenas 15.509 votos. A presença do presidente neste sábado serviu, portanto, para duas campanhas simultâneas: consolidar sua vantagem regional na eleição nacional e tentar impulsionar o candidato petista ao governo estadual. O ato reuniu, entre outros, Fátima Bezerra, Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles, numa demonstração da força que o campo governista ainda possui no Nordeste. TMC
Antes de Natal, Ceilândia já havia recolocado Lula na rua
O movimento começou na sexta-feira (9), em Ceilândia, no Distrito Federal. Lula caminhou ao lado de Leandro Grass e Dora Gomes e procurou apresentar a mobilização como uma defesa da soberania e da presença popular na política. A bandeira nacional voltou a ser um dos elementos centrais do ato. O presidente afirmou que aquela seria uma caminhada de pessoas que “amam a bandeira verde e amarela do Brasil” e pediu aos apoiadores que buscassem o diálogo com indecisos e eleitores que não participaram do primeiro turno. PT Brasil
Ceilândia e Natal formam, assim, uma espécie de abertura da campanha de rua do segundo turno. A primeira é uma grande periferia urbana do Centro-Oeste, marcada por trabalhadores, comércio popular e forte deslocamento diário para Brasília. A segunda está no coração do Nordeste, região onde Lula mantém seu desempenho eleitoral mais forte. A partir de agora, entretanto, a campanha pretende mudar o eixo geográfico e dirigir boa parte da energia para o Sudeste.
Essa escolha não é casual. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente nacionalmente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país, estão no centro das contas do segundo turno. Em São Paulo, por exemplo, a vantagem de Flávio sobre Lula ultrapassou a diferença registrada entre os dois no resultado nacional. CNN Brasil
O desafio da campanha petista não é abandonar as regiões onde Lula venceu, mas combinar duas operações diferentes. No Nordeste, o objetivo é preservar vantagem, reduzir abstenção e ampliar comparecimento. No Sudeste, será necessário conquistar novos eleitores, recuperar votos perdidos, falar com quem escolheu candidatos eliminados no primeiro turno e penetrar em regiões onde a candidatura governista terminou atrás.
É por isso que as próximas viagens ganham importância especial.
Segundo a coordenação da campanha, Lula deverá permanecer em Brasília depois do ato deste sábado e retomar as viagens na terça-feira (13) e quarta-feira (14), com compromissos em São Paulo. Na sequência, a previsão é de atividades no Rio de Janeiro nos dias 15 e 16. Minas Gerais também está incluída entre as prioridades, embora a cidade e a data ainda estejam sendo definidas; integrantes da campanha avaliam inclusive uma passagem pelo Vale do Jequitinhonha. CNN Brasil
Até a tarde deste sábado, os detalhes públicos de horários e trajetos desses compromissos ainda não haviam sido integralmente divulgados. O desenho político, contudo, está estabelecido: São Paulo, Rio e Minas serão os principais territórios de circulação presidencial nesta etapa.
As ruas começaram a se mover antes da campanha oficial
Uma das características mais interessantes do segundo turno é que a mobilização de rua não esperou a máquina nacional da campanha se reorganizar.
Desde segunda-feira, universidades começaram a realizar assembleias, caminhadas e plenárias. Segundo a União Nacional dos Estudantes, mais de 70 atividades estudantis foram anunciadas nos primeiros dias, envolvendo instituições de todas as regiões do país. Houve reuniões na UEPA, UnB, UFBA, UFRGS, UFPR, UFMG, UFPE, UFAM, UFG, UFES e várias outras universidades, além de institutos federais e instituições privadas. site
No Rio de Janeiro, estudantes saíram da Candelária e caminharam até a Cinelândia. Em Fortaleza, uma manifestação de jovens e entidades ligadas às universidades tomou a região da Avenida 13 de Maio. Em Belo Horizonte, apoiadores voltaram às ruas na sexta-feira. Em Goiânia, estudantes fizeram uma caminhada da Praça Universitária até a Praça Cívica e aprovaram um calendário de mobilização para permanecer ativo até a votação de 25 de outubro. Agência Brasil
Esses atos têm componentes diferentes. Parte é organizada formalmente por entidades estudantis, sindicatos e movimentos sociais. Outra parte nasce de grupos locais, coletivos de bairro e redes formadas depois do primeiro turno. Há mobilizações voltadas principalmente para educação pública, outras centradas no fim da escala 6×1, algumas com forte discurso em defesa da democracia e outras que tratam diretamente da disputa eleitoral.
Para a campanha, essa capilaridade é importante porque permite ocupar territórios onde o presidente não conseguirá estar pessoalmente. Restam apenas duas semanas até a votação, e nenhum candidato consegue percorrer fisicamente um país com dimensões continentais nesse intervalo. A estratégia passa, portanto, por multiplicar pequenos núcleos capazes de conversar com eleitores onde eles vivem, trabalham e estudam.
O próprio PT formalizou essa orientação. Um guia nacional divulgado nesta semana determina que a mobilização seja permanente e pede atenção especial aos indecisos, aos eleitores que pensam em se abster e aos que votaram em candidaturas eliminadas no primeiro turno. O documento sugere ações em bairros, estações de transporte, universidades, feiras e locais de trabalho. PT Brasil
Essa estrutura é diferente de um grande comício tradicional. Um ato com dezenas de milhares de pessoas produz uma imagem poderosa e demonstra força política, mas normalmente reúne quem já possui preferência estabelecida. Uma conversa numa feira, numa estação ou numa porta de universidade pode atingir justamente o eleitor ainda distante da campanha.
É essa lógica que passa a orientar boa parte da reta final.
Domingo será uma primeira demonstração nacional da nova mobilização
O próximo teste acontecerá já neste domingo (11). A campanha organizou uma nova jornada do chamado Bora Lula, mobilização descentralizada em que comitês e grupos locais definem suas próprias atividades. Não existe um único ato nacional nem está prevista, até o momento, presença de Lula em todas essas iniciativas. A proposta é exatamente o contrário: produzir várias ações simultâneas espalhadas pelo país. PT Brasil
Em São Paulo, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil anunciou concentração às 13h na Avenida Paulista. Sindicatos de petroleiros também organizaram presença na região e marcaram um ponto de encontro anterior em frente ao Masp. A expectativa das entidades é reunir trabalhadores, jovens e movimentos populares ao longo da avenida durante o domingo. CTB
Em Goiânia, estudantes e movimentos sociais marcaram concentração para as 15h na Praça Universitária, de onde está prevista uma caminhada até a Praça Cívica. O percurso repete simbolicamente aquele realizado durante a semana e tenta manter uma mobilização permanente num estado onde Lula terminou o primeiro turno em desvantagem e onde Ronaldo Caiado declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Brasil de Fato
Alagoas também possui uma programação própria para o fim de semana. Foram anunciadas atividades em Maceió, Delmiro Gouveia, Arapiraca e outras cidades. Para domingo, entre os eventos divulgados pelos organizadores estão um encontro da juventude pela manhã em Maceió e uma caminhada em Arapiraca no fim da tarde. Folha de Alagoas
A lista nacional continua sendo atualizada porque parte das ações é cadastrada por comitês municipais poucas horas antes de acontecer. Essa característica dificulta produzir uma agenda completamente fechada para o país, mas revela também o modelo escolhido: em vez de esperar uma ordem central, sindicatos, centros acadêmicos, diretórios partidários e grupos de apoiadores organizam atividades segundo a realidade de cada território.
Dentro das universidades, algumas agendas já ultrapassam o fim de semana. A UNE registra atividades previstas na UFRJ, no Fundão, para o dia 13, e novas assembleias em instituições do Maranhão, Pernambuco e São Paulo no dia 14. O calendário estudantil deve continuar até a véspera do segundo turno. site
O dado político relevante não é apenas quantas pessoas cada ato conseguirá reunir. É saber se essa energia conseguirá sair dos círculos já convencidos e alcançar quem não votou, quem está indeciso ou quem escolheu outra candidatura no primeiro turno.
Lula tenta reconstruir a campanha pelo contato direto
A volta de Lula às ruas acontece depois de uma semana de autocrítica dentro da campanha. O resultado do primeiro turno obrigou o PT a rever comunicação, coordenação política e estratégia digital. Integrantes da direção admitiram problemas no primeiro turno e incorporaram novos nomes ao comando da campanha. A prioridade declarada agora é combinar uma presença digital muito mais intensa com o retorno do presidente aos territórios.
Essa combinação já começa a aparecer. Enquanto Lula viaja, apoiadores ampliam grupos de WhatsApp, produtores de conteúdo criam materiais para redes sociais e movimentos sociais organizam atividades presenciais. A campanha tenta fazer essas duas dimensões se alimentarem: o vídeo de uma caminhada vira material digital; uma mobilização iniciada na internet termina em atividade de rua.
Ao mesmo tempo, Lula começou a reorganizar seu discurso em torno de temas mais concretos. O fim da escala 6×1 foi colocado no centro do segundo turno. Segurança pública entrou com mais força na comunicação. A defesa das aposentadorias, do salário mínimo, do Pé-de-Meia, do Minha Casa Minha Vida, do Farmácia Popular e dos investimentos em universidades passou a ser apresentada como contraponto às propostas de redução de gastos discutidas no campo adversário.
Em Natal, essa linha apareceu repetidamente. Lula afirmou que cortes não poderiam atingir Bolsa Família, habitação, institutos federais ou programas educacionais e tentou transformar a eleição numa escolha sobre a preservação ou mudança dessas políticas. Também prometeu apoiar a construção de uma terceira ponte em Natal, reivindicação apresentada durante o ato pelo candidato Cadu. Poder360
Mas talvez a parte mais importante do discurso deste sábado tenha sido a insistência na participação eleitoral.
Lula voltou a pedir que as pessoas procurem quem deixou de votar. A campanha lançou inclusive uma rede direcionada especificamente a eleitores com mais de 70 anos, grupo para o qual o voto é facultativo, na tentativa de ampliar sua presença nas urnas.
A estratégia nasce de um cálculo evidente. Uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos separou os dois candidatos no primeiro turno, enquanto dezenas de milhões de brasileiros se abstiveram. Nenhuma campanha precisa convencer todos os ausentes a retornar. Uma mudança relativamente pequena de comparecimento, dependendo de onde e entre quais grupos ocorrer, pode modificar profundamente a composição dos votos válidos.
Isso explica por que a palavra “mobilização” passou a aparecer tanto nos discursos desta semana.
O Sudeste será a grande prova
Depois de Natal, o desafio ficará mais difícil.
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais possuem dimensões eleitorais muito maiores e realidades políticas bastante diferentes. Em São Paulo, a campanha terá de entrar em regiões onde Flávio terminou o primeiro turno com vantagem importante. No Rio, Lula precisa ampliar sua votação num estado fortemente marcado pelo bolsonarismo. Minas aparece novamente como território intermediário, com municípios onde o presidente possui grande votação e outros onde foi derrotado com margem considerável.
A coordenação afirma que o roteiro exato será definido a partir de dados municipais de votação e abstenção. A ideia é evitar viagens meramente simbólicas e levar Lula a regiões onde sua presença possa ampliar comparecimento ou disputar eleitorado. Camilo Santana confirmou que esses três estados serão tratados como prioridades porque não existe tempo para o presidente percorrer todo o país antes do dia 25. Metrópoles
A viagem a São Paulo está prevista para terça e quarta. Depois, Lula segue para o Rio, onde também terá compromissos ligados à cobertura televisiva do segundo turno. A Globo confirmou uma entrevista com o presidente para o dia 15. Minas Gerais deverá entrar no roteiro seguinte, possivelmente com uma passagem por uma região do interior. CNN Brasil
Nada impede que a programação seja modificada. Campanhas presidenciais alteram rotas rapidamente de acordo com pesquisas, negociações regionais, disponibilidade de aliados e fatos políticos. Por isso, horários e locais de atos que ainda não foram oficialmente detalhados precisam ser confirmados quando forem anunciados pelas respectivas organizações.
O quadro disponível neste sábado, contudo, é claro: a campanha de Lula decidiu voltar com força às ruas.
Não será uma campanha formada apenas pelos atos do presidente. A aposta é que, enquanto Lula estiver em Natal, São Paulo ou Rio, existam ao mesmo tempo pequenas caminhadas em Goiânia, assembleias em universidades, bandeiraços em cidades do interior, panfletagens em terminais, encontros de trabalhadores e atividades culturais em bairros populares.
Essa rede já começou a existir sem esperar que toda a estrutura partidária estivesse pronta.
Agora o comando nacional tenta colocá-la dentro de uma estratégia comum.
A eleição de 25 de outubro será decidida na urna, não na quantidade de bandeiras exibidas numa avenida. Manifestações não substituem votos, e multidões em atos políticos não permitem prever resultados eleitorais.
Mas campanhas são também processos de criação de confiança, presença e disposição para participar.
Foi essa mensagem que Lula tentou transmitir em Natal neste sábado ao pedir que seus apoiadores não tratem nenhum voto como perdido e conversem inclusive com pessoas que desistiram de participar da eleição.
Da Ceilândia ao Alecrim, das universidades à Avenida Paulista, o segundo turno começa a sair dos comitês e ocupar novamente o espaço público. Nas próximas duas semanas será possível saber até onde essa mobilização consegue alcançar pessoas fora de suas próprias fileiras.
Por enquanto, a agenda aponta uma campanha cada vez mais apoiada na combinação entre um presidente percorrendo estados estratégicos e milhares de pequenas ações acontecendo longe do palanque principal.
E esse talvez seja o principal traço desta nova fase: Lula voltou à estrada, mas a campanha tenta fazer com que a disputa continue também onde ele não estará.

