Por Sara Goes
Achei um livrinho fino no banheiro enquanto vigiava meu filho tomar um banho cheio de aventuras, balões, embalagens vazias e, no meio do chão molhado do box, uma cuscuzeira que ele trouxe da cozinha em algum momento que me distraí. Quando tudo acabou, o banheiro estava fora de controle, com pegadas molhadas que iam e viam até a cozinha e eu estava completamente absorvida pelas semelhanças que começavam a se desenhar nas páginas amareladas daquele texto esquecido entre aromatizadores e edições antigas de Casa Claudia.
Na peça A Casa de Bernarda Alba, Federico García Lorca constrói uma casa onde cinco filhas adultas são submetidas ao luto de 8 anos imposto pela mãe após a morte do pai. Bernarda, a matriarca, vigia cada gesto para garantir que nada rompa a ordem. Ali, o desejo e a autonomia feminina são tratados como ameaça à honra, enquanto o mundo exterior, onde circulam os homens, permanece interditado.
Em certo momento, Poncia, a criada que observa tudo, enuncia a regra que sustenta aquela casa: “os homens se protegem entre eles nessas coisas e ninguém é capaz de delatar”. Mas aquela casa não termina nas suas paredes.
A forma como aquele mundo se organiza, onde o erro masculino encontra abrigo e continuidade enquanto as mulheres, mesmo quando não erram, permanecem sob vigilância constante, reaparece na trajetória das mulheres na política cearense e se torna mais visível na reta final da janela partidária, quando a reorganização do campo governista desloca aquela que, por décadas, foi uma de suas principais lideranças.
Há uma linha de continuidade na política cearense que se estabelece entre padrinhos e herdeiros políticos, entre quem forma e quem sucede. Tasso Jereissati estrutura um campo que projeta Ciro Gomes; Ciro, por sua vez, organiza um ciclo que desemboca em Camilo Santana. As disputas existem, mas se dão dentro de um espaço previamente delimitado, onde as figuras centrais não surgem de fora desse circuito.
Luizianne não pertence a essa linhagem. Sua história não começa nos gabinetes. Começa na universidade, nos movimentos estudantis, na construção de base, no enfrentamento direto. Sua entrada na política institucional não foi resultado de um acordo entre lideranças já estabelecidas, mas de um acúmulo que se fez na disputa. Foi assim que chegou à Câmara Municipal de Fortaleza, foi assim que se projetou nacionalmente e foi assim que, em 2004, venceu uma eleição improvável para a Prefeitura, panfletando com bicicletas e seu fusca vermelho, enfrentando estruturas que não a tinham como candidata natural.
Entre 2005 e 2012, , no auge do escândalo do mensalão, à frente da prefeitura, Lins reorganizou prioridades de forma que se tornou, à época, objeto de crítica recorrente: governar de frente para a periferia e de costas para a orla. A formulação, repetida por adversários, traduzia um rearranjo real. A cidade passou a ser pensada a partir de outras centralidades, com expansão de políticas sociais e culturais, programas habitacionais e a criação de equipamentos como o Hospital da Mulher, frequentemente citados em reportagens daquele período.
Nas eleições municipais seguintes, especialmente em 2012, quando Luizianne indicou Elmano de Freitas (hoje governador) como seu sucessor, o partido que nela encontrou sustentação em seu período mais pressionado não ofereceu o mesmo respaldo, preferindo reafirmar a lógica que organiza o poder no estado ao eleger mais um homem parido pela estrutura masculina que, naquele momento, atendia pelo nome de cirismo.
A eleição de Camilo Santana ao governo do estado, em 2014, não apenas ampliou esse movimento, como o estabilizou. Sua capacidade de articulação entre o PT e o grupo dos Ferreira Gomes reorganizou o campo político cearense em torno de uma lógica que
privilegiava continuidade e proteção. O partido cresceu, ocupou o governo estadual, ampliou sua presença institucional, mas passou a concentrar decisões fora das instâncias tradicionais de debate, deslocando o centro da política para um espaço cada vez mais fechado.
O cirismo, que já havia produzido dois prefeitos em Fortaleza a partir de sua própria lógica de sucessão, consolidou ali um ciclo mais amplo. Foi nesse percurso que Camilo Santana foi parido, formado e embalado como liderança capaz de atravessar campos e estabilizar alianças. Sua ascensão não rompeu com essa estrutura. A confirmou. Esse ciclo encontrou um limite quando, em 2018, o apoio a Lula reconfigurou o cenário nacional e tensionou essa conexão. Foi nesse momento que Camilo se insurgiu, não contra a lógica que o formou, mas pela necessidade de assumir centralidade própria. É daí que emerge o que passaria a ser reconhecido como camilismo.
Nesse ambiente, onde homens podem se enfrentar sem deixar de se proteger, o trabalho parlamentar de Luizianne deixou de encontrar eco. A relação com o campo dominante no estado passou a ser marcada pelo isolamento.
Filhas da mesma casa
Se a trajetória de Luizianne mostrou o preço cobrado de uma mulher que se formou na disputa, a história começa antes dela. Maria Luiza Fontenele, primeira prefeita de Fortaleza e primeira mulher a governar uma capital pelo PT, já havia experimentado o que significa ocupar o poder sem ser reconhecida por ele. Sua gestão, ancorada em movimentos sociais e em um projeto popular, foi atravessada por perseguição política, isolamento institucional e um desgaste contínuo que produziu, ao final, mais desalento do que continuidade. Um dos episódios mais emblemáticos desse cerco foi a crise do lixo: segundo a própria Maria Luiza, mesmo após a coleta, havia um esquema de redistribuição de sujeira nas ruas para acionar a imprensa e produzir a imagem de caos administrativo, convertendo a cidade em palco de desgaste permanente. A experiência, que ela própria descreveu como traumática, não foi assimilada como aprendizado coletivo, mas devolvida como estigma, ajudando a construir a ideia de que sua gestão havia sido um erro a ser corrigido, e não uma disputa política a ser compreendida. Não deixa de ser significativo que esse retrato tenha sido registrado por Kamila Fernandes, então repórter da Folha há 26 anos, hoje integrante do podcast As Cunhãs, o que revela como certas leituras sobre mulheres no poder atravessam o tempo não apenas como memória, mas como narrativa reiterada. A cidade que a elegeu não construiu, a partir dela, uma linhagem. Construiu um aviso para todas as mulheres.
Ainda assim, outras chegaram capazes de sustentar políticas, organizar governos e produzir resultados concretos, contidas dentro de um limite rígido, sempre atravessado por uma promessa de ruptura. Izolda Cela talvez seja o caso mais evidente desse limite.
Responsável por estruturar a política educacional que projetou o Ceará nacionalmente, Izolda produziu resultados que, ao longo dos anos, foram convertidos em capital político por lideranças masculinas. Saiu de Sobral para a Secretaria de Educação, tornou-se vice-governadora e, em 2022, assumiu o governo do estado com uma gestão bem avaliada e apoio suficiente para dar continuidade ao ciclo que ajudou a construir, sem alarde.
Até poucos dias antes da definição, Izolda era tratada como candidata natural à reeleição, com apoio interno e continuidade praticamente assegurada. A virada foi abrupta: seu nome foi esvaziado dentro do partido e a decisão se impôs em uma reunião marcada por claque e encenação, articulada por Ciro Gomes, o mesmo que construiu parte de sua própria sustentação política a partir dos resultados produzidos por ela. O nome apoiado foi Roberto Cláudio, repetindo o movimento que havia interrompido a continuidade do projeto de Luizianne em Fortaleza. Não foi derrotada em uma disputa política. Foi golpeada com as mesmas armas usadas contra Luizianne 10 anos antes.
Depois disso, deixou o governo, passou um período sem partido e recusou permanecer na engrenagem que a havia afastado. Voltou à sala de aula, na Universidade Estadual Vale do Acaraú como destino possível depois de ter sido retirada de um espaço que ajudou a construir e que seguiu funcionando sem ela. Como na casa de Bernarda, “tudo é uma terrível repetição.”
Com Jade Romero, o limite apareceu de outra forma. Vice-governadora do Ceará e então filiada ao MDB, Jade atravessou a reta final da janela partidária em meio a uma agenda intensa e a um ambiente de instabilidade, inclusive durante a gravidez, tendo sua autonomia constantemente colocada sob suspeita. Ao tentar se reposicionar, viu sua movimentação ser tratada publicamente como articulação conduzida por homens, o que a levou a reagir de forma direta, classificando a leitura como misógina e afirmando que não era “ponto de referência de homem nenhum”.
Como registrou o jornalista Érico Firmo, sua tentativa de ingressar na federação União Progressista, condicionada ao apoio ao governador Elmano de Freitas, não se consolidou, expondo a dificuldade de garantir espaço fora do arranjo central do poder. Dias depois, no desfecho da janela, Jade retornou ao PT para disputar vaga na Câmara Federal, ocupando o espaço deixado por Luizianne.
No Ceará, o que se viu não foi apenas uma movimentação partidária, mas a imposição de um enquadramento constrangedor sobre Luizianne Lins e Jade Romero, como se ambas devessem caber num mesmo espaço estreito, previamente delimitado por homens. A violência não está apenas no gesto político, mas na forma como ele é apresentado, porque naturaliza a ideia de que uma mulher precisa sair para que outra exista.
Chamou atenção a imagem da filiação: Jade ao lado de Camilo Santana, Elmano de Freitas e Evandro Leitão, no dia seguinte à saída de Luizianne. A fotografia não registra apenas uma adesão partidária. Registra a reorganização imediata de um espaço que não admite vazio e expõe o constrangimento de um arranjo em que mulheres são tratadas como peças ajustáveis, administradas dentro de limites que não foram elas que definiram.
As paredes grossas da casa
Na leitura das Cunhãs, a política cearense não apenas dificulta a presença feminin, ela impõe um tipo específico de sobrevivência. Como sintetizam no episódio, “mulher na política, se não for assim, não sobrevive não”, indicando que o ambiente exige dureza como condição básica de permanência. Não se trata de estilo, mas de adaptação a um espaço onde o ataque é regra. Quando mulheres ocupam posições de poder, relatam elas, “a primeira coisa que eles fazem é piada sexual”, deslocando o debate político para um campo de desqualificação simbólica.
Esse padrão ajuda a explicar por que o Ceará ainda aparece como um ambiente hostil às mulheres na política. Não é apenas a agressão direta, mas também o rebaixamento constante e a tentativa de deslegitimação. As jornalistas observam que lideranças femininas são frequentemente tratadas a partir de critérios que não se aplicam aos homens, seja pelo deboche, seja pela tentativa de reduzir sua atuação a traços pessoais. Nesse contexto, endurecer é um mecanismo de defesa diante de um sistema que, como elas apontam, continua operando para constranger, testar e, muitas vezes, expulsar mulheres do espaço público.
Nesse terreno a saída de Luizianne Lins do Partido dos Trabalhadores, em abril de 2026, precisa ser compreendida: ela não começa no momento em que atravessa a porta em direção à Rede Sustentabilidade. Começa antes, no momento em que sua presença deixa de ser assimilável, e isso se explicita na entrevista do presidente Lula à TV Cidade Fortaleza. Diante da possibilidade de saída de Luizianne, Lula afirmou “eu acho que não” houve injustiça e acrescentou que “tem gente que acha que tem o direito de ser tudo a toda hora”. Ao justificar a exclusão de sua candidatura ao Senado, reforçou que “é normal que uma vaga […] seja de outros partidos” e que é preciso “fazer sacrifício para que a gente possa construir uma aliança”. Não é apenas uma leitura circunstancial. É a definição de um papel. O sacrifício, nesse tipo de arranjo, nunca aparece como exceção, mas como regra dirigida sempre às mesmas. Não são os homens que precisam abrir mão de seus projetos para garantir a estabilidade do grupo. Não são eles que são chamados a recuar para que o equilíbrio se mantenha. O que se naturaliza é a ideia de que mulheres devem compreender o jogo, aceitar o limite, reconhecer o momento de sair.
Essa exigência convive com outra assimetria menos explícita, mas igualmente estruturante. No cenário político cearense, a expressividade emocional dos homens é não apenas tolerada, mas incorporada como linguagem de poder. Eles choram em público, se abraçam, trocam elogios, rompem e se reconciliam diante das câmeras, e tudo isso é lido como autenticidade, como força, como liderança. A emoção masculina não compromete a autoridade, ela a reforça. Já às mulheres não é concedido esse mesmo campo de liberdade. Quando elevam o tom, são vistas como descontroladas. Quando se mostram firmes, são taxadas de duras. Quando expressam indignação, são enquadradas como problema. A elas não é permitido o mesmo espectro de humanidade que sustenta o jogo político masculino. Esse duplo padrão opera como mecanismo de contenção permanente, reduzindo sua margem de ação e convertendo qualquer gesto em motivo de deslegitimação. É nesse ambiente que o sacrifício deixa de ser apenas uma negociação política e passa a ser uma expectativa estrutural.
Em Lorca, a consciência dessa condição aparece como cansaço. Uma das filhas, Madalena, marcada pela lucidez, é quem melhor enxerga o que está em jogo dentro da casa. Não é a que se rebela nem a que se adapta, mas a que compreende, com uma clareza dolorosa, os limites impostos àquelas mulheres. Sua fala, “malditas sejam as mulheres”, não expressa rejeição, mas exaustão diante de uma condição que ela sabe que não pode alterar.
No Ceará, não há luto de oito anos nem portas trancadas. Há outra forma de contenção. Luizianne não foi expulsa como Maria Luiza, foi escanteada até que permanecer deixasse de ser possível. A casa de Bernarda Alba não ficou em Federico García Lorca. Ela continua de pé no Ceará, rearranjando seus lugares para que nenhuma mulher ocupe muito espaço.






