Da Redação
Presidente brasileiro e prefeito de Nova York discutiram pobreza, moradia, custo de vida, democracia e desinformação em reunião de cerca de uma hora. Mamdani afirmou que Lula inspira sua defesa dos trabalhadores. Por trás da afinidade política, a situação nova-iorquina é concreta: quase 2 milhões de pessoas vivem na pobreza e a prefeitura tenta combinar congelamento de aluguéis, expansão de creches e investimento em habitação acessível.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, transformaram uma reunião inicialmente inserida na agenda diplomática da Assembleia Geral das Nações Unidas em uma conversa concentrada num problema que atravessa cidades e países com estruturas econômicas muito diferentes: quanto custa viver, criar filhos, pagar moradia e permanecer numa grande metrópole quando salários e políticas públicas não acompanham integralmente a elevação das despesas básicas.
Os dois se encontraram nesta segunda-feira, 21 de setembro, na residência do representante permanente do Brasil nas Nações Unidas, em Nova York. Foi a primeira reunião entre Lula e Mamdani. O encontro havia sido solicitado pelo prefeito e durou aproximadamente uma hora, segundo a cobertura feita em Nova York.
Ao deixar a reunião, Mamdani chamou Lula de inspiração para sua atuação política em defesa de trabalhadores e pessoas em dificuldades econômicas. O prefeito também afirmou que o custo de vida constitui sua principal preocupação administrativa e declarou que aproximadamente um em cada quatro moradores da cidade vive na pobreza.
A dimensão desse problema encontra respaldo em dados produzidos pela própria cidade. O controlador municipal de Nova York estimou neste ano que quase 2 milhões de nova-iorquinos, entre eles cerca de 420 mil crianças, vivem em situação de pobreza. O documento descreve uma cidade marcada por forte contraste: grande concentração de riqueza, recuperação do mercado imobiliário comercial e, simultaneamente, aumento dos custos de aluguel e dificuldades de contratação em segmentos do mercado de trabalho.
Uma medição ainda mais ampla divulgada pela Prefeitura procura calcular não apenas a linha tradicional de pobreza, mas o chamado “custo real de vida”, considerando habitação, alimentação, saúde, cuidado infantil, transporte e diferenças territoriais dentro da própria cidade. Segundo esse estudo, baseado em dados de 2022, 62% dos nova-iorquinos não possuíam recursos suficientes para atingir integralmente esse padrão de segurança econômica. O resultado não deve ser confundido com uma taxa oficial de pobreza: trata-se de uma metodologia diferente, construída justamente para medir o custo elevado de sobreviver em Nova York.
Foi essa realidade que dominou boa parte da conversa com Lula.
O presidente brasileiro disse ter perguntado inicialmente se Nova York enfrentava problemas sociais semelhantes aos encontrados em outras grandes cidades e chegou a questionar como a desigualdade territorial se manifesta numa metrópole cuja organização urbana não reproduz exatamente a estrutura das periferias brasileiras. Mamdani respondeu colocando o custo de vida no centro de sua avaliação sobre a cidade.
Segundo a Agência Brasil, os dois também conversaram sobre defesa da democracia, extremismo político e desinformação. Lula convidou Mamdani a visitar o Brasil.
A aproximação possui evidente conteúdo político, mas não deve ser confundida com a criação de uma aliança institucional entre os governos. Lula é chefe de Estado e de governo de um país com mais de 200 milhões de habitantes; Mamdani administra uma cidade submetida à legislação e às estruturas orçamentárias do estado de Nova York e do governo federal americano. As capacidades de cada cargo são incomparáveis.
O que aproxima os dois, neste momento, é principalmente uma concepção declarada de política pública: a ideia de que governos devem atuar diretamente sobre renda, moradia, alimentação, transporte e outros custos que comprimem a vida econômica dos trabalhadores.
Mamdani declarou à Reuters que programas sociais desenvolvidos no Brasil sob governos Lula contribuíram para sua própria formação política e que pretende aplicar em Nova York políticas destinadas a aliviar a pressão econômica sobre famílias de menor renda.
Essa influência, porém, não significa simplesmente transplantar políticas brasileiras para os Estados Unidos. Nova York possui sistemas tributário, habitacional, trabalhista e de transporte próprios, além de uma divisão de competências em que várias das promessas feitas pelo prefeito dependem do governo estadual em Albany.
Mamdani chegou à prefeitura prometendo atacar diretamente o custo de vida
Desde sua posse, em janeiro, Mamdani colocou três propostas no centro de sua administração: ampliar o acesso gratuito a creches, congelar aluguéis dos imóveis submetidos ao sistema de estabilização e tornar os ônibus mais rápidos e, posteriormente, gratuitos. Em seu discurso inaugural, apresentou essas medidas como instrumentos para reduzir despesas que pesam sobre as famílias trabalhadoras.
Oito meses depois, os resultados são diferentes em cada área.
Na habitação, o Rent Guidelines Board — órgão independente responsável pela definição dos reajustes das unidades estabilizadas — aprovou em junho o congelamento dos aluguéis para contratos de um e dois anos. Mamdani comemorou a decisão, mas a atribuição formal pertence ao conselho, e não unilateralmente ao prefeito.
A prefeitura afirma também ter financiado a criação ou preservação de 12.491 moradias acessíveis nos primeiros seis meses de 2026, incluindo mais de 2 mil destinadas a pessoas anteriormente sem moradia. O primeiro orçamento elaborado pela administração prevê aproximadamente US$ 22 bilhões em investimentos de capital em habitação acessível durante cinco anos. São compromissos orçamentários e projetos distribuídos ao longo do período, não 22 bilhões já desembolsados.
Na área de cuidados infantis, Mamdani e a governadora Kathy Hochul chegaram a um acordo para iniciar atendimento gratuito de crianças de dois anos. O planejamento anunciado prevê 2 mil vagas neste ano, 12 mil no próximo e expansão progressiva para todas as crianças dessa idade até o final do mandato municipal.
Em agosto, a Prefeitura anunciou ainda que passaria a assumir os custos pagos diretamente pelas cerca de 22 mil famílias de baixa renda que já utilizam programas municipais subsidiados de assistência infantil. O custo anual estimado dessa medida é de aproximadamente US$ 5,2 milhões.
O transporte apresenta obstáculos maiores. Mamdani ainda não conseguiu tornar os ônibus municipais universalmente gratuitos, promessa que depende de negociações com o estado e com a estrutura de transporte metropolitana. Sua administração afirma ter acelerado linhas utilizadas por mais de 1 milhão de passageiros, enquanto o orçamento negociado com o Conselho Municipal ampliou o acesso ao programa Fair Fares, que concede descontos no transporte público, para pessoas com renda de até 200% da linha federal de pobreza. A Prefeitura calcula que cerca de 1,3 milhão de trabalhadores poderão se enquadrar nos novos critérios.
Esses detalhes ajudam a compreender por que o encontro com Lula interessou a Mamdani.
Governar uma cidade de enorme riqueza não elimina as restrições produzidas por propriedade imobiliária cara, desigualdade de renda, legislação estadual, orçamento e relações com o setor privado. A administração municipal pode interferir em parte desses fatores, mas não possui controle sobre todos.
O mesmo vale para a comparação com a experiência brasileira.
Programas federais como Bolsa Família operam mediante instrumentos tributários, orçamentários e administrativos disponíveis ao governo nacional e alcançam dezenas de milhões de pessoas espalhadas por milhares de municípios. Uma prefeitura americana não dispõe da mesma arquitetura institucional.
O elemento comum é menos o mecanismo específico e mais a tentativa de tratar a redução da pobreza e das despesas básicas como objeto central da ação governamental.
É nesse terreno que Mamdani afirma enxergar Lula como referência.
Encontro também possui dimensão política internacional
A reunião ocorreu num momento particularmente carregado para os dois países.
Lula está em Nova York para participar da 81ª Assembleia Geral da ONU e fará nesta terça-feira o tradicional primeiro pronunciamento nacional do Debate Geral, imediatamente antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Entre os temas anunciados pela diplomacia brasileira estão soberania, multilateralismo, combate à fome, conflitos internacionais e reforma das instituições multilaterais.
No Brasil, o primeiro turno das eleições gerais está marcado para 4 de outubro. Nos Estados Unidos, as eleições legislativas de meio de mandato serão realizadas em novembro. O encontro ocorre, portanto, dentro de um ambiente político intenso nos dois países, embora não tenha produzido anúncio de participação de Mamdani na campanha brasileira nem de envolvimento de Lula nas eleições americanas.
A identidade política de Mamdani também ajuda a explicar a repercussão.
O prefeito se define como socialista democrático e chegou à prefeitura depois de construir sua campanha principalmente em torno de moradia, transporte, creches e custo de vida. Tornou-se, aos 34 anos, um dos políticos mais jovens a comandar Nova York e o primeiro muçulmano eleito prefeito da cidade.
Sua relação com o governo federal americano, entretanto, mostra que afinidade ideológica não determina sozinha a atuação institucional.
Horas depois de encontrar Lula, Mamdani tinha programada uma reunião com Donald Trump na Gracie Mansion, residência oficial do prefeito. Os dois possuem diferenças públicas em matérias como imigração, tributação, direitos sociais e política urbana, mas o gabinete de Mamdani informou que o encontro com o presidente americano seria dedicado a questões diretamente relacionadas à cidade e aos seus moradores.
O episódio é relevante porque impede uma leitura simplista da agenda desta segunda-feira como formação de um campo internacional homogêneo. Mamdani pode identificar Lula como inspiração política e, no mesmo dia, negociar com um presidente americano situado em posição ideológica muito diferente porque Nova York depende do governo federal em segurança, infraestrutura, habitação, transportes e financiamento de diferentes políticas.
Da mesma forma, o governo brasileiro mantém divergências abertas com a administração Trump em temas comerciais e políticos, mas continua negociando com Washington. Lula afirmou nesta segunda-feira que não pretende aplicar neste momento as medidas brasileiras de reciprocidade comercial enquanto permanecer em andamento o diálogo sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Esse cruzamento de relações ajuda a colocar o encontro entre Lula e Mamdani em perspectiva.
Seu significado mais concreto não está na formação de um novo eixo diplomático, mas na circulação internacional de experiências políticas sobre desigualdade e custo de vida.
A trajetória de Lula é mencionada por Mamdani porque o Brasil desenvolveu, sobretudo a partir dos anos 2000, políticas de transferência de renda, ampliação de acesso a serviços públicos e aumento do poder de consumo de parcelas pobres da população. Os resultados, limites e custos dessas políticas permanecem objeto de disputa política e econômica no Brasil, mas constituem parte da experiência governamental que o prefeito afirma observar.
Mamdani enfrenta agora sua própria prova administrativa.
Prometer congelamento de aluguel, creches gratuitas, transporte mais barato e habitação acessível mobilizou eleitores. Transformar essas propostas em políticas permanentes exige orçamento, negociação com Albany, cooperação do Conselho Municipal e administração de uma cidade cujo orçamento aprovado para o ano fiscal de 2027 chega a aproximadamente US$ 125,8 bilhões.
A situação social ajuda a explicar por que esse debate possui força política em uma das cidades mais ricas do planeta.
O controlador municipal estima quase 2 milhões de pessoas vivendo em pobreza. A própria Prefeitura calcula que, quando o custo efetivo de habitação, saúde, transporte e cuidado infantil é considerado, uma parcela muito maior da população vive abaixo do patamar necessário para sustentar suas despesas básicas.
Foi sobre essa contradição — riqueza concentrada ao lado de dificuldades cotidianas para pagar despesas essenciais — que Lula e Mamdani concentraram sua conversa.
No final, os dois trocaram presentes. Lula entregou ao prefeito uma camisa do Corinthians, enquanto Mamdani presenteou o presidente com uma camisa de Nova York preparada para a Copa do Mundo.
O gesto forneceu a imagem pública do encontro. A parte politicamente mais relevante, contudo, estava na conversa que o antecedeu.
Um prefeito de Nova York procurou um presidente brasileiro não para discutir comércio bilateral, defesa ou grandes acordos diplomáticos, mas para falar sobre pobreza, aluguel, custo de vida e trabalhadores.
Ao chamar Lula de inspiração, Mamdani transformou essa agenda social brasileira numa referência explícita dentro da política municipal da maior cidade dos Estados Unidos.
O alcance dessa influência só poderá ser medido pelas políticas que Nova York efetivamente conseguir implementar — e pelos resultados concretos que elas produzirem sobre a vida de seus moradores.
