Da Redação
Primeiro-ministro israelense levou um pager ao púlpito da Assembleia Geral e evocou a operação de 2024 que fez milhares de aparelhos explodirem simultaneamente no Líbano. Netanyahu afirmou que o Hezbollah “se lembra dos pagers”, defendeu as guerras conduzidas por Israel e disse que atacar instalações nucleares iranianas foi uma das decisões mais fáceis de seu governo. Dezenas de representantes deixaram o plenário quando ele começou a falar, numa demonstração pública da forte contestação internacional à política israelense.
Benjamin Netanyahu transformou nesta quinta-feira, 24 de setembro, o púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas numa vitrine da estratégia militar de Israel nos últimos três anos. Diante de um plenário esvaziado pela saída de dezenas de delegados, o primeiro-ministro retirou um pequeno pager e o mostrou à audiência. O objeto remetia a uma das operações mais incomuns e controversas da guerra regional iniciada depois de 7 de outubro de 2023: as explosões coordenadas de pagers e walkie-talkies utilizados por integrantes do Hezbollah no Líbano, em setembro de 2024.
“Israel golpeou o Hezbollah. Lembram dos pagers? O Hezbollah se lembra dos pagers”, afirmou Netanyahu, segundo a transcrição e relatos do pronunciamento. Em seguida, declarou que grande parte do arsenal de aproximadamente 150 mil foguetes atribuído ao grupo havia sido destruída, que seus dirigentes estavam mortos e que seu “espírito” havia sido quebrado. Essas últimas afirmações representam a avaliação apresentada pelo próprio primeiro-ministro israelense sobre os resultados da campanha militar e não uma auditoria independente do arsenal atual do Hezbollah.
A cena do pager sintetizou o tom de toda a apresentação. Netanyahu não compareceu à ONU para anunciar uma mudança de política ou oferecer uma proposta diplomática abrangente. Usou a tribuna para defender a atuação militar israelense, confrontar seus críticos e apresentar as campanhas contra Hamas, Hezbollah e Irã como partes de uma única guerra pela sobrevivência de Israel.
E encontrou uma Assembleia profundamente dividida.
Quando Netanyahu chegou ao púlpito, dezenas de diplomatas se levantaram e abandonaram o salão. Houve simultaneamente vaias e manifestações de apoio. A presidência da Assembleia precisou pedir ordem repetidamente. Reuters registrou a saída em massa e observou que ela ocorreu num momento de forte pressão internacional sobre Israel pela guerra em Gaza.
Netanyahu respondeu imediatamente.
“Se houver outros covardes morais que ainda não tenham deixado este salão, por favor, façam isso agora”, disse na abertura de seu pronunciamento.
A frase deixou claro que o discurso seria dirigido tanto aos países que permaneciam no plenário quanto aos que haviam decidido sair.
O pager como símbolo de uma nova forma de guerra
A escolha daquele pequeno aparelho como adereço político não foi casual.
Em 17 e 18 de setembro de 2024, milhares de pagers e, posteriormente, aparelhos de comunicação usados por integrantes do Hezbollah explodiram no Líbano. As detonações atingiram simultaneamente numerosos usuários e produziram mortos e milhares de feridos. Civis também estiveram entre as vítimas. A operação foi amplamente atribuída a Israel e tornou-se um dos episódios mais conhecidos da confrontação com o Hezbollah.
Ao erguer um pager dois anos depois, Netanyahu transformou a operação clandestina em elemento explícito de sua narrativa política.
O significado estratégico ultrapassa o objeto.
A operação demonstrou como cadeias de fornecimento, componentes eletrônicos e dispositivos de comunicação podem ser transformados em instrumentos de ação militar. Em vez de destruir uma rede de comunicações externamente, o ataque explorou os próprios equipamentos utilizados por seus integrantes.
Por isso, o episódio se tornou também referência nos debates internacionais sobre segurança de cadeias de suprimentos, vulnerabilidade tecnológica e limites jurídicos de operações que transformam dispositivos aparentemente civis em mecanismos letais.
Netanyahu apresentou o episódio sob outra perspectiva: como demonstração da capacidade de Israel de atingir seus adversários de maneiras inesperadas.
E o pager foi apenas um dos símbolos usados no discurso.
O primeiro-ministro enquadrou os conflitos enfrentados por Israel como uma guerra em sete frentes, citando Hamas, Hezbollah, houthis, Irã, grupos no Iraque, Síria e Cisjordânia. A mensagem central era que esses diferentes teatros deveriam ser compreendidos como partes de uma mesma arquitetura regional de ameaça.
Essa é a interpretação estratégica do governo israelense. Cada uma dessas frentes possui atores, estruturas políticas e circunstâncias próprias, embora vários dos grupos citados mantenham ou tenham mantido relações com Teerã.
A narrativa permite a Netanyahu colocar o Irã no centro de praticamente todos os conflitos.
Foi exatamente o que fez na ONU.
Irã ocupa o centro do discurso
Netanyahu começou recordando outro pronunciamento feito por ele próprio na Assembleia Geral, 14 anos antes, quando exibiu o famoso desenho de uma bomba e traçou uma linha vermelha para representar o ponto que Israel não permitiria que o programa nuclear iraniano ultrapassasse.
Nesta quinta-feira, afirmou que aquela promessa havia sido cumprida.
“Devastar as instalações nucleares do Irã foi difícil. Foi muito difícil de fazer. Mas, para mim, foi uma das decisões mais fáceis que já tive de tomar como primeiro-ministro”, declarou. Sua justificativa foi igualmente categórica: “Se não tivéssemos feito isso, estaríamos todos mortos.”
Essa afirmação sobre a consequência inevitável de não atacar o Irã é uma avaliação de Netanyahu, não um fato demonstrável.
O primeiro-ministro também afirmou que dirigentes de países cujos representantes deixaram o plenário teriam agradecido privadamente a Israel pela destruição do programa nuclear iraniano. Não apresentou nomes ou documentação que permitissem verificar publicamente essa alegação.
Netanyahu projetou ainda uma mudança futura de regime em Teerã. Disse acreditar que o povo iraniano será livre e que o governo atual cairá em consequência de suas próprias “mentiras”, “corrupção” e “crueldade”.
O discurso ocorre enquanto Israel e Estados Unidos permanecem envolvidos numa guerra aberta com o Irã. Netanyahu utilizou esse contexto para apresentar as operações israelenses não apenas como defesa de seu país, mas como proteção indireta de outros Estados.
Essa formulação é contestada por Teerã, que caracteriza os ataques israelenses e americanos como agressão e sustenta que seu programa nuclear tinha objetivos pacíficos.
A fala de Netanyahu não tentou conciliar essas versões.
Foi uma defesa frontal da opção militar.
Gaza voltou ao centro do confronto diplomático
O outro grande campo de disputa foi Gaza.
Netanyahu rejeitou categoricamente as acusações de genocídio contra Israel. Ao falar sobre o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani — que havia chamado Netanyahu de criminoso de guerra e “arquiteto de um genocídio horrível do povo palestino” —, o primeiro-ministro declarou que Israel não cometeu genocídio, mas o impediu.
Essa é a posição do governo israelense e deve ser apresentada como tal.
As acusações relacionadas a genocídio e outras violações graves do direito internacional são objeto de disputas jurídicas e investigações internacionais. Israel rejeita as acusações e afirma que sua guerra é dirigida ao Hamas, não à população palestina.
O custo humano, entretanto, é enorme. Reuters registrava nesta semana mais de 73 mil palestinos mortos, segundo autoridades de saúde de Gaza, cujo levantamento não separa combatentes de civis. O conflito começou após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e resultou no sequestro de 251, segundo autoridades israelenses.
Netanyahu utilizou justamente o massacre de 7 de outubro como ponto de partida para justificar a política militar posterior de Israel.
Mas o ambiente dentro da ONU mostrou até que ponto essa justificativa encontra resistência internacional.
As imagens do plenário parcialmente vazio provavelmente serão uma das marcas visuais da 81ª Assembleia Geral.
Reuters descreveu dezenas de representantes deixando seus lugares assim que Netanyahu subiu à tribuna. A Associated Press relatou vaias, aplausos e uma saída em massa que deixou a maior parte das cadeiras vazia durante parte do pronunciamento.
A debandada não representa uma resolução formal das Nações Unidas nem permite afirmar que todos os Estados participantes compartilham uma mesma posição sobre Israel. Foi um ato político de protesto realizado por numerosas delegações.
Ainda assim, sua dimensão visual foi inequívoca: enquanto Netanyahu apresentava Israel como defensor de outros países contra ameaças regionais, representantes de vários desses países abandonavam o salão.
Um discurso para a ONU — e também para Israel
Existe ainda uma dimensão doméstica impossível de separar da apresentação.
Israel terá eleições em 27 de outubro, pouco mais de um mês depois do discurso. Reuters observa que Netanyahu enfrenta uma campanha eleitoral competitiva e utilizou a Assembleia Geral para destacar aquilo que considera conquistas militares de seu governo.
Isso ajuda a explicar a linguagem, os símbolos e a teatralidade.
O pager não precisava ser mostrado para que Netanyahu explicasse a operação contra o Hezbollah. Sua função era visual. Assim como o desenho da bomba nuclear utilizado por ele na ONU em 2012, o pequeno dispositivo condensava uma narrativa complexa numa imagem imediatamente reconhecível.
A mensagem era simples: Israel foi atacado, respondeu, atingiu seus inimigos e continuará fazendo isso.
Netanyahu encerrou reiterando que seu país continuará lutando porque, segundo suas palavras, “não temos outra escolha”.
A oposição internacional apareceu diante dele fisicamente, na forma das cadeiras abandonadas.
E essa talvez tenha sido a contradição central do pronunciamento desta quinta-feira.
Netanyahu apresentou uma Israel militarmente poderosa, capaz de penetrar redes de comunicação do Hezbollah, destruir instalações nucleares iranianas e combater simultaneamente em múltiplas frentes. Ao mesmo tempo, a reação dentro da Assembleia mostrou o tamanho do conflito diplomático produzido pelas guerras conduzidas por seu governo.
O pager erguido diante das câmeras simbolizava a primeira realidade.
O plenário esvaziado atrás dele simbolizava a segunda.
Na ONU, nesta quinta-feira, as duas apareceram na mesma imagem.

