Da Redação
Presidente dos Estados Unidos utilizou a Assembleia Geral das Nações Unidas para defender a guerra contra o Irã e colocou diante de chefes de Estado duas alternativas: um acordo que permita a reconstrução do país ou a “aniquilação” da República Islâmica. Trump disse acreditar que ainda haverá negociação, mas afirmou que Washington conseguirá seu objetivo “de uma forma ou de outra”. A ameaça foi pronunciada justamente no fórum criado, após a Segunda Guerra Mundial, para evitar novos conflitos entre Estados.
Donald Trump estava há cerca de 11 minutos na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas quando abandonou qualquer linguagem diplomática para descrever o futuro que imagina para o Irã. Diante de representantes de quase todos os países do mundo, o presidente dos Estados Unidos disse ter uma “grande decisão” pela frente: chegar a um acordo com Teerã ou “aniquilar a República Islâmica”.
A declaração foi confirmada pela Reuters, pela íntegra do pronunciamento e por outros veículos que acompanharam o discurso desta terça-feira, 22 de setembro, em Nova York. Trump foi além: perguntou se deveria mandar o adversário “para o inferno”, “sem chance de sobrevivência” e “sem esperança” para as gerações futuras.
Não foi um comentário feito fora dos microfones nem uma interpretação da imprensa. As palavras partiram do próprio presidente americano na tribuna da ONU, durante a sessão anual da Assembleia Geral.
A ameaça veio acompanhada, contudo, de uma segunda mensagem. Trump disse acreditar que americanos e iranianos ainda poderão chegar a um entendimento e previu que isso aconteceria depois das eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para novembro. Horas depois, surgiram informações de que representantes dos dois países haviam mantido contatos em Nova York. Assim, ameaça militar e negociação diplomática avançavam simultaneamente no mesmo dia.
Essa combinação é essencial para compreender o que ocorreu. Trump não anunciou na ONU uma nova operação militar específica, não apresentou alvos nem estabeleceu prazo para um ataque. O que fez foi colocar publicamente a possibilidade de uma escalada devastadora como alternativa caso Teerã não aceite um acordo.
“Os Estados Unidos e o Irã definitivamente vão resolver isso”, afirmou depois. “De uma forma ou de outra.”
Uma ameaça feita dentro da instituição criada para impedir novas guerras
A cena possui um peso que ultrapassa a disputa entre Washington e Teerã. A Organização das Nações Unidas nasceu em 1945, depois da destruição da Segunda Guerra Mundial, tendo entre seus princípios centrais a prevenção de novos conflitos internacionais e a proibição geral do uso ou da ameaça da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados.
O artigo 2º da Carta da ONU estabelece essa regra. O direito internacional admite exceções, entre elas a legítima defesa nas condições previstas pelo artigo 51 e ações autorizadas pelo Conselho de Segurança. A extensão dessas exceções e sua aplicação a conflitos concretos são frequentemente objeto de disputas jurídicas entre governos.
Foi dentro dessa instituição que o presidente da maior potência militar do planeta levantou publicamente a possibilidade de “aniquilar” outro Estado-membro.
O jornal britânico The Guardian, em análise publicada depois do pronunciamento, destacou exatamente esse paradoxo: a ameaça foi pronunciada no fórum criado após a Segunda Guerra para impedir a repetição de conflitos capazes de produzir destruição em escala internacional.
É importante, porém, não transformar a palavra “aniquilar” automaticamente em anúncio de ataque nuclear. Trump não declarou no discurso que pretende utilizar armas nucleares contra o Irã. A ameaça foi extraordinariamente ampla, mas atribuir a ela um método militar específico iria além do que o presidente efetivamente disse.
O contexto torna a declaração suficientemente grave sem necessidade de ampliá-la.
Estados Unidos e Irã já estão em guerra.
O conflito começou em fevereiro e atravessa seu sétimo mês. Washington sustenta que suas operações foram necessárias para impedir que Teerã obtivesse uma arma nuclear e para proteger forças e interesses americanos na região. O governo iraniano rejeita essa justificativa, caracteriza as ações americanas como agressão e afirma que seu programa nuclear não tinha o objetivo militar atribuído pelos Estados Unidos.
Trump dedicou parte importante de sua fala a defender sua decisão de iniciar a guerra. Disse que, desde que entrou na política, estabeleceu como princípio que jamais permitiria ao Irã possuir uma arma nuclear e afirmou que a chamada Operação Midnight Hammer havia “obliterado” instalações nucleares iranianas.
O presidente também apresentou a atual ofensiva como consequência do fracasso das negociações anteriores.
Segundo sua narrativa, Washington ofereceu cooperação econômica em troca do abandono do programa nuclear iraniano e do apoio de Teerã a grupos armados na região. O Irã teria rejeitado as condições e continuado desenvolvendo mísseis e drones.
É a versão apresentada pela Casa Branca para justificar a escalada. Teerã contesta aspectos centrais dessa narrativa e as partes continuam divergindo sobre sanções, enriquecimento de urânio, garantias de segurança e condições para um cessar-fogo.
Hormuz transformou a guerra numa crise mundial
A importância do conflito ultrapassa os dois países porque passa pelo Estreito de Hormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do planeta.
A guerra provocou forte perturbação na navegação e pressionou os mercados de petróleo e energia. Trump utilizou parte do discurso para afirmar que os Estados Unidos estão retirando petróleo retido na região e tentando ampliar o fluxo marítimo.
A questão de Hormuz está no centro das negociações que ocorrem paralelamente à Assembleia Geral. Segundo a Reuters, Teerã deu sinais de que a situação no estreito pode fazer parte de uma negociação mais ampla com Washington.
É nesse ponto que política externa e política doméstica americana se encontram.
A guerra passou a produzir custos econômicos e políticos dentro dos próprios Estados Unidos. Problemas no transporte de energia contribuíram para pressões sobre combustíveis e inflação, justamente quando pesquisas mostram crescente insatisfação dos americanos com o custo de vida.
A Reuters/Ipsos registrou nesta semana aprovação de 32% para Trump, o menor nível de sua série para os dois mandatos do presidente. Apenas 34% dos entrevistados disseram apoiar os ataques americanos contra o Irã. Pesquisa não determina isoladamente por que um presidente perde apoio e não permite prever o resultado das eleições de novembro, mas oferece uma fotografia do desgaste existente no momento.
É nesse cenário que Trump insiste que o calendário eleitoral não condicionará sua decisão sobre o Irã.
Na ONU, afirmou acreditar que Teerã está esperando as eleições legislativas para observar o desempenho republicano antes de fechar um acordo. Em seguida, lembrou que seu próprio nome não estará na cédula e disse que a eleição não entra em seus cálculos sobre a guerra.
A afirmação não pode ser verificada como descrição das motivações iranianas. Trata-se da interpretação apresentada por Trump sobre a estratégia de Teerã.
O fato verificável é que o presidente colocou publicamente a possibilidade de um acordo depois das eleições ao mesmo tempo em que ameaçou uma escalada caso ele não aconteça.
Negociação e ameaça caminham juntas em Nova York
A contradição aparente tornou-se ainda maior algumas horas depois do pronunciamento.
Segundo informações divulgadas nesta terça-feira, americanos e iranianos retomaram contato direto em Nova York, no primeiro movimento desse tipo confirmado desde o início da guerra em fevereiro.
Isso modifica a leitura imediata do discurso.
A fala de Trump não encerrou a diplomacia. Ao contrário: aconteceu enquanto os canais diplomáticos voltavam a funcionar.
A estratégia americana parece combinar pressão militar, isolamento econômico e negociação. Trump pediu maior pressão sobre Teerã, mas deixou aberta uma porta para que o país se reconstrua caso aceite um acordo.
Na própria formulação usada diante da ONU, as duas alternativas apareceram lado a lado: reconstrução ou destruição.
O conteúdo de um eventual acordo continua sendo o ponto decisivo. Washington quer impedir que o Irã desenvolva uma arma nuclear e exige mudanças adicionais no comportamento regional iraniano. Teerã procura alívio das sanções, garantias de segurança e condições que considera aceitáveis para qualquer limitação de seu programa nuclear.
Nenhum acordo definitivo foi anunciado nesta terça-feira.
Por isso, seria precipitado interpretar a retomada do diálogo como sinal de que a guerra está perto do fim.
Trump já previu anteriormente que o conflito terminaria rapidamente. A guerra atravessou sete meses e permanece aberta. A Reuters registra que o presidente voltou a dizer agora que acredita numa solução depois das eleições americanas.
Trump também apresentou números contestados sobre o Irã
O pronunciamento trouxe ainda afirmações factuais que precisam ser separadas das ameaças militares.
Trump declarou que o atual regime iraniano governa o país há 51 anos. A Revolução Islâmica ocorreu em 1979, há 47 anos. Também afirmou que mais de 72 mil iranianos teriam sido mortos pelo próprio regime neste ano.
Não existe até agora uma contagem independente consolidada que confirme esse número. Estimativas anteriores para as mortes decorrentes da repressão aos protestos eram significativamente menores, embora haja ampla documentação sobre violência estatal e graves violações de direitos humanos no país.
Isso não elimina as acusações contra o governo iraniano. Significa apenas que o número específico apresentado por Trump não deve ser reproduzido como fato estabelecido sem qualificação.
A distinção é especialmente necessária num discurso construído para justificar uma guerra.
Trump apresentou o Irã como responsável por décadas de violência no Oriente Médio, lembrou o financiamento iraniano a grupos armados e relacionou Teerã ao ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel. O Irã efetivamente mantém relações políticas, financeiras e militares com diferentes organizações armadas da região; a extensão de seu controle sobre decisões operacionais específicas desses grupos varia e é objeto de análise e disputa.
A argumentação presidencial procurou construir uma linha contínua entre essas ações, o programa nuclear iraniano e a atual guerra.
Foi a partir dessa construção que Trump apresentou a alternativa final: acordo ou aniquilação.
O discurso foi muito além do Irã
A ameaça a Teerã foi a passagem mais extrema, mas não apareceu isoladamente.
Trump utilizou a mesma intervenção para apresentar a força militar como elemento central da política externa americana. Falou da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, declarou que os Estados Unidos poderão utilizar seu “poderio militar inigualável” para proteger interesses considerados vitais no Hemisfério Ocidental e previu a queda do governo cubano.
Também atacou duramente o Tribunal Penal Internacional, classificando-o como uma instituição fora de controle, e rejeitou qualquer tentativa de submeter militares americanos à jurisdição que Washington não reconhece.
Na inteligência artificial, adotou outra linha: rejeitou esforços internacionais destinados a limitar o desenvolvimento da tecnologia e anunciou que o governo americano passará a utilizar a expressão “superinteligência” em vez de inteligência artificial.
O conjunto ajuda a compreender a concepção de política externa apresentada por Trump nesta terça-feira.
A ONU apareceu menos como instituição capaz de impor limites à ação das grandes potências e mais como tribuna diante da qual o presidente americano apresentou aquilo que considera interesses e linhas vermelhas dos Estados Unidos.
Foi nesse mesmo plenário, algumas horas antes, que Lula havia defendido o sentido oposto: fortalecimento do multilateralismo, soberania nacional, reforma do Conselho de Segurança e rejeição da ideia de que países possam ser tratados como “quintal” de potências estrangeiras.
A proximidade temporal entre os pronunciamentos tornou visível uma divergência concreta sobre a ordem internacional.
Não é necessário transformar a diferença num duelo pessoal entre Lula e Trump. As posições podem ser examinadas por aquilo que efetivamente propõem.
O governo brasileiro apresentou o direito internacional e as instituições multilaterais como instrumentos para conter a lógica da força. Trump apresentou a capacidade militar americana como instrumento que está disposto a empregar para alcançar objetivos que considera fundamentais para a segurança dos Estados Unidos.
No caso iraniano, ele foi excepcionalmente explícito.
Não falou apenas em derrotar forças militares ou destruir instalações nucleares. Perguntou, diante da Assembleia Geral, se deveria “aniquilar a República Islâmica” e mandá-la “para o inferno”.
Ao mesmo tempo, afirmou acreditar num acordo.
Essa combinação — negociação sob ameaça de destruição — talvez seja a imagem mais precisa do momento atual da guerra.
Enquanto diplomatas americanos e iranianos voltam a conversar em Nova York, os ataques continuam, Hormuz permanece no centro da crise energética e nenhuma das partes anunciou os termos capazes de encerrar o conflito.
A Assembleia Geral terminou o dia, portanto, com duas possibilidades abertas.
Uma mesa de negociação.
E, pronunciada da própria tribuna das Nações Unidas, a ameaça de uma escalada ainda maior.
