“Ninguém consegue ascensão sem um professor”

No Dia do Professor, Leunam Gomes revisita memórias da educação no Ceará e defende valorização docente, gestão comprometida e método Paulo Freire como chaves para transformar cidades

No Café com Democracia desta quarta-feira (15.out.2025), o professor universitário aposentado da UVA, radialista e escritor Leunam Gomes traçou um panorama contundente sobre “a realidade dos professores no passado e nos dias atuais”. Em diálogo com o apresentador Luiz Regadas, ele combinou relatos pessoais, diagnósticos de gestão e uma defesa sem ambiguidade do papel do docente na vida pública: “Ninguém consegue ascensão sem um professor”.

A entrevista foi ao ar pela TV Atitude Popular e serve de base para esta matéria. Ao longo do programa, Leunam alternou lembranças de sala de aula e bastidores de secretarias municipais com propostas para alfabetização de adultos, melhoria da carreira e fortalecimento das redes de ensino no interior do Ceará.

Do “mestre” itinerante ao FUNDEF: a linha do tempo da profissão

Nascido em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba, Leunam recuperou um passado recente em que a zona rural mal dispunha de escolas e famílias contratavam um “mestre” para alfabetizar as crianças em casa. Quando assumiu a Secretaria de Educação de Croatá, recém-emancipado, ele encontrou uma realidade extrema: “O professor ganhava o equivalente a 10% do salário mínimo”. À época, segundo contou, o mínimo era de R$ 120; muitos docentes rurais recebiam R$ 12 por mês, esperavam três meses para sacar R$ 36 e saíam da prefeitura com pouco mais de R$ 10 depois de pagar transporte e um lanche.

Leunam condicionou sua posse a duas medidas: “valorização do professor como pessoa e trabalhador” e “blindagem da educação contra ingerência político-eleitoral”. Com apoio do prefeito, Croatá se tornou, segundo ele, o primeiro município do Ceará — e possivelmente do Nordeste — a pagar um salário mínimo aos docentes e realizar concurso público. “A professora passou a ser vista como a pessoa mais ‘rica’ da comunidade, com estabilidade e carreira”, celebrou. Mais adiante, a criação do FUNDEF profissionalizou a distribuição dos recursos e consolidou a valorização, ainda que “longe do ideal”.

A escola reflete o gestor

“O professor retrata muito o gestor que ele tem”, disse Leunam, numa síntese que virou mote do programa. Para ele, quando a secretaria é técnica, com projeto pedagógico e acompanhamento formativo, “a ação do professor na sala de aula é uma”; se vira apêndice burocrático, “vira outra”. A mudança que ele implementou começava ouvindo a ponta: “Antes de levar palestrantes, é preciso escutar o professor sobre as dificuldades reais em português, matemática, história, geografia”, descreveu.

Piso, carreira e formação continuada

O programa registrou no ar que, em 2025, o piso nacional do magistério foi reajustado para R$ 4.867,77 (para 48 horas semanais) e que 98,1% dos municípios cearenses cumprem o piso — informação celebrada por Leunam como sinal de sensibilidade crescente. Mas o professor alertou que carreira e formação são indissociáveis do salário: “Hoje vemos mestres e doutores nos pequenos municípios; quando a rede valoriza titulação, a escola melhora e a cidade muda junto”.

Paulo Freire além do slogan: alfabetizar para libertar

Com seu exemplar de “Educação como prática da liberdade” à mão, Leunam explicou na prática o método de Paulo Freire: partir do universo vocabular dos estudantes, problematizar a realidade e colocar o aluno como sujeito do conhecimento. “O aluno não é alguém que apenas escuta; é o construtor do próprio saber”, resumiu. E foi taxativo sobre a potência da alfabetização de jovens e adultos: “Se o prefeito quiser, em um ano ou no máximo dois, dá para erradicar o analfabetismo no município”, desde que a metodologia seja aplicada “com competência e profundidade”.

Para romper com a “educação bancária” — aquela em que o professor “deposita” conteúdos para o aluno decorar —, ele defendeu capacitação permanente, bibliotecas vivas e metas de leitura. Em suas gestões municipais, instituiu um livro por mês como prática de sala e articulou bibliotecas, papelarias e até fotocopiadoras. O efeito, diz, é visível: “Quando alguém da família começa a estudar, até a bodega muda de cara”.

UVA como política pública de interiorização

Como pró-reitor de extensão da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Leunam levou cursos de licenciatura para Guaraciaba e São Benedito, antes de espalhar o modelo por outras cidades. O impacto foi econômico e simbólico: “Mudou a conversa de calçada — de cachaça e política para Vigotski, Piaget e Paulo Freire”. Em Guaraciaba, onde “de cada 100 crianças só 16 chegavam à 4ª série”, a combinação de diagnóstico, seminários comunitários, formação docente e cursos superiores reverteu a evasão e movimentou comércio, serviços e autoestima local.

Gestão, participação e sala de aula como centro

Leunam insistiu que “tudo existe em função da sala de aula”. Políticas que desconsideram o cotidiano do professor fracassam; as que integram a comunidade, ouvem as equipes e apostam na formação dão resultado. A receita é conhecida — mas exige liderança e continuidade: “Sem estudar, a gente não faz educação”.

Um recado no Dia do Professor

A mensagem final foi dirigida aos gestores e à própria categoria. Aos secretários e prefeitos: ouvir os professores, priorizar acompanhamento pedagógico sobre eventos protocolares e assegurar condições dignas de trabalho (salas climatizadas, materiais, bibliotecas ativas). Aos docentes: transformar a data em exercício de autoconsciência profissional. “Pense: o que posso fazer para a minha sala ser a melhor do meu colégio?”, desafiou.

Entre memórias e propostas, a defesa de Leunam é simples e radical na mesma medida: o professor é a infraestrutura invisível do desenvolvimento. Onde há carreira, formação e gestão comprometida, há menos evasão, mais leitura, comércio aquecido, cidadania em alta. E uma lição que atravessa gerações: educação liberta — e isso começa com quem abre a porta da sala.


https://www.youtube.com/watch?v=KdDzsHqDABo&t=251s

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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“Ninguém consegue ascensão sem um professor”

No Dia do Professor, Leunam Gomes revisita memórias da educação no Ceará e defende valorização docente, gestão comprometida e método Paulo Freire como chaves para transformar cidades

No Café com Democracia desta quarta-feira (15.out.2025), o professor universitário aposentado da UVA, radialista e escritor Leunam Gomes traçou um panorama contundente sobre “a realidade dos professores no passado e nos dias atuais”. Em diálogo com o apresentador Luiz Regadas, ele combinou relatos pessoais, diagnósticos de gestão e uma defesa sem ambiguidade do papel do docente na vida pública: “Ninguém consegue ascensão sem um professor”.

A entrevista foi ao ar pela TV Atitude Popular e serve de base para esta matéria. Ao longo do programa, Leunam alternou lembranças de sala de aula e bastidores de secretarias municipais com propostas para alfabetização de adultos, melhoria da carreira e fortalecimento das redes de ensino no interior do Ceará.

Do “mestre” itinerante ao FUNDEF: a linha do tempo da profissão

Nascido em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba, Leunam recuperou um passado recente em que a zona rural mal dispunha de escolas e famílias contratavam um “mestre” para alfabetizar as crianças em casa. Quando assumiu a Secretaria de Educação de Croatá, recém-emancipado, ele encontrou uma realidade extrema: “O professor ganhava o equivalente a 10% do salário mínimo”. À época, segundo contou, o mínimo era de R$ 120; muitos docentes rurais recebiam R$ 12 por mês, esperavam três meses para sacar R$ 36 e saíam da prefeitura com pouco mais de R$ 10 depois de pagar transporte e um lanche.

Leunam condicionou sua posse a duas medidas: “valorização do professor como pessoa e trabalhador” e “blindagem da educação contra ingerência político-eleitoral”. Com apoio do prefeito, Croatá se tornou, segundo ele, o primeiro município do Ceará — e possivelmente do Nordeste — a pagar um salário mínimo aos docentes e realizar concurso público. “A professora passou a ser vista como a pessoa mais ‘rica’ da comunidade, com estabilidade e carreira”, celebrou. Mais adiante, a criação do FUNDEF profissionalizou a distribuição dos recursos e consolidou a valorização, ainda que “longe do ideal”.

A escola reflete o gestor

“O professor retrata muito o gestor que ele tem”, disse Leunam, numa síntese que virou mote do programa. Para ele, quando a secretaria é técnica, com projeto pedagógico e acompanhamento formativo, “a ação do professor na sala de aula é uma”; se vira apêndice burocrático, “vira outra”. A mudança que ele implementou começava ouvindo a ponta: “Antes de levar palestrantes, é preciso escutar o professor sobre as dificuldades reais em português, matemática, história, geografia”, descreveu.

Piso, carreira e formação continuada

O programa registrou no ar que, em 2025, o piso nacional do magistério foi reajustado para R$ 4.867,77 (para 48 horas semanais) e que 98,1% dos municípios cearenses cumprem o piso — informação celebrada por Leunam como sinal de sensibilidade crescente. Mas o professor alertou que carreira e formação são indissociáveis do salário: “Hoje vemos mestres e doutores nos pequenos municípios; quando a rede valoriza titulação, a escola melhora e a cidade muda junto”.

Paulo Freire além do slogan: alfabetizar para libertar

Com seu exemplar de “Educação como prática da liberdade” à mão, Leunam explicou na prática o método de Paulo Freire: partir do universo vocabular dos estudantes, problematizar a realidade e colocar o aluno como sujeito do conhecimento. “O aluno não é alguém que apenas escuta; é o construtor do próprio saber”, resumiu. E foi taxativo sobre a potência da alfabetização de jovens e adultos: “Se o prefeito quiser, em um ano ou no máximo dois, dá para erradicar o analfabetismo no município”, desde que a metodologia seja aplicada “com competência e profundidade”.

Para romper com a “educação bancária” — aquela em que o professor “deposita” conteúdos para o aluno decorar —, ele defendeu capacitação permanente, bibliotecas vivas e metas de leitura. Em suas gestões municipais, instituiu um livro por mês como prática de sala e articulou bibliotecas, papelarias e até fotocopiadoras. O efeito, diz, é visível: “Quando alguém da família começa a estudar, até a bodega muda de cara”.

UVA como política pública de interiorização

Como pró-reitor de extensão da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Leunam levou cursos de licenciatura para Guaraciaba e São Benedito, antes de espalhar o modelo por outras cidades. O impacto foi econômico e simbólico: “Mudou a conversa de calçada — de cachaça e política para Vigotski, Piaget e Paulo Freire”. Em Guaraciaba, onde “de cada 100 crianças só 16 chegavam à 4ª série”, a combinação de diagnóstico, seminários comunitários, formação docente e cursos superiores reverteu a evasão e movimentou comércio, serviços e autoestima local.

Gestão, participação e sala de aula como centro

Leunam insistiu que “tudo existe em função da sala de aula”. Políticas que desconsideram o cotidiano do professor fracassam; as que integram a comunidade, ouvem as equipes e apostam na formação dão resultado. A receita é conhecida — mas exige liderança e continuidade: “Sem estudar, a gente não faz educação”.

Um recado no Dia do Professor

A mensagem final foi dirigida aos gestores e à própria categoria. Aos secretários e prefeitos: ouvir os professores, priorizar acompanhamento pedagógico sobre eventos protocolares e assegurar condições dignas de trabalho (salas climatizadas, materiais, bibliotecas ativas). Aos docentes: transformar a data em exercício de autoconsciência profissional. “Pense: o que posso fazer para a minha sala ser a melhor do meu colégio?”, desafiou.

Entre memórias e propostas, a defesa de Leunam é simples e radical na mesma medida: o professor é a infraestrutura invisível do desenvolvimento. Onde há carreira, formação e gestão comprometida, há menos evasão, mais leitura, comércio aquecido, cidadania em alta. E uma lição que atravessa gerações: educação liberta — e isso começa com quem abre a porta da sala.


https://www.youtube.com/watch?v=KdDzsHqDABo&t=251s

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