“Nosso papel é fazer com que as pessoas saiam do intelecto para o afeto e para a ação”

Escritora Eugênia Cavalcanti defende a literatura como instrumento de consciência ambiental, participação cidadã e mobilização diante das crises climáticas

A literatura pode desempenhar um papel decisivo na compreensão das crises climáticas ao aproximar os dados científicos da experiência humana e estimular mudanças de comportamento. Para a advogada e escritora Eugênia Cavalcanti, escrever sobre as transformações ambientais significa também registrar seus impactos sobre comunidades, identificar responsabilidades e convidar leitores a participar da construção de soluções.

A avaliação foi apresentada durante entrevista ao programa Café com Democracia, exibido pela TV Atitude Popular no dia 3 de julho. Em conversa com o apresentador Luiz Regadas, Eugênia falou sobre literatura climática, educação ambiental, políticas públicas e participação cidadã, além de apresentar obras nas quais aborda a relação entre sociedade e natureza.

Segundo a escritora, as informações científicas são fundamentais para compreender a dimensão da emergência climática, mas a literatura consegue alcançar o leitor por outros caminhos.

“A literatura tem justamente esse lugar onde ela vai sensibilizar as pessoas além dos dados científicos. Ela vai ser esse instrumento de conscientizar as pessoas, não só para uma informação, mas para uma mudança, para uma atitude”, afirmou.

Eugênia destacou que essa preocupação está presente em sua produção literária. No livro infantojuvenil Uma bela cidade, a autora apresenta a ideia de uma cidade sustentável e discute questões relacionadas ao urbanismo, à preservação e à educação ambiental.

A escritora também participou da coletânea Costurando Vivências, que reúne autores brasileiros e portugueses em torno das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.

Segundo Eugênia, a proposta da coletânea foi transformar a experiência da tragédia em registro e memória, além de estimular uma reflexão sobre a responsabilidade coletiva diante das mudanças climáticas.

“É um livro em que autores brasileiros e portugueses escrevem sobre a crise climática que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 para fazer daquela dor uma memória e sensibilizar para uma ação, uma atitude”, explicou.

A participação de escritores portugueses também demonstra, segundo a autora, o caráter global das mudanças ambientais. Ondas de calor, incêndios florestais, enchentes e outros eventos extremos atingem diferentes países e exigem uma compreensão internacional do problema.

Para Eugênia, a literatura pode contribuir especialmente na formação ambiental das crianças. A escritora considera que o contato com histórias sobre cidades, natureza e cidadania ajuda a formar uma relação diferente com o espaço em que se vive.

“Nós somos natureza. Precisamos nos reconectar com essa natureza e cuidar dela”, afirmou.

Durante a entrevista, Eugênia explicou que a educação ambiental não deve se limitar à transmissão de informações sobre efeito estufa, poluição, lixo ou saneamento. Para ela, o conhecimento precisa produzir envolvimento e participação.

“O papel da literatura é sensibilizar as pessoas para uma mudança de atitude em relação ao meio ambiente”, disse.

Ao falar sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, a escritora recitou o poema Povo Riograndense, publicado em Costurando Vivências. O texto trata das perdas provocadas pela tragédia e associa o sofrimento das populações atingidas às responsabilidades políticas e econômicas relacionadas à destruição ambiental.

A entrevista também recuperou a presença da questão ambiental em obras clássicas da literatura brasileira. A partir de uma participação de um espectador do programa, Eugênia comentou Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Para a escritora, a obra consegue fazer algo que as estatísticas isoladamente não realizam: apresentar as consequências da seca por meio das vidas das pessoas submetidas às suas condições.

“Graciliano já trazia essa temática da seca do Nordeste e trazia ali o recorte de um povo, de um tipo humano, que seriam os retirantes”, explicou.

Segundo Eugênia, Vidas Secas localiza geograficamente e socialmente o impacto da seca. O romance acompanha pessoas obrigadas a deixar o lugar onde vivem e, por meio de suas experiências, aproxima o leitor de uma realidade que também poderia ser apresentada em números e relatórios.

“Ele vai trazendo toda aquela trajetória triste daquele povo do sertão, dos retirantes que deixam sua terra natal. Vai trazendo sensibilidade e empatia através da literatura”, afirmou.

Para a escritora, a produção contemporânea tem ampliado essa abordagem ao discutir conceitos como violência ambiental e racismo ambiental. As consequências dos eventos extremos não atingem todos os grupos sociais da mesma maneira.

Eugênia citou comunidades quilombolas, povos indígenas, populações ribeirinhas, pessoas negras e famílias de baixa renda entre os grupos frequentemente mais expostos aos impactos ambientais.

“As crises climáticas acontecem em um espaço e atingem um tipo humano que sofre. Não é por acaso”, observou.

Nesse ponto, a escritora também mencionou a contribuição de Josué de Castro para a compreensão da fome. Segundo ela, a análise do autor permite observar tanto a fome permanente, relacionada às estruturas sociais e econômicas, quanto situações agravadas por catástrofes e crises.

A discussão foi relacionada a enchentes recentes em diferentes regiões brasileiras. Para Eugênia, eventos que se repetem nos mesmos territórios exigem políticas públicas permanentes, especialmente em saneamento, planejamento urbano e prevenção.

Outro tema abordado foi o crescimento da chamada literatura climática. Eugênia explicou que o gênero reúne produções voltadas às questões ambientais e às consequências das mudanças no clima.

Para ela, a literatura climática não deve apenas descrever os problemas.

“O papel desse gênero literário é dialogar com o leitor, trazer os dados, porque a gente só atua e só cuida daquilo que conhece, mas também convidar os leitores a assumir uma atitude relacionada ao meio ambiente”, afirmou.

Entre essas atitudes estão a redução da produção de resíduos, a reciclagem, a reutilização de materiais e o consumo mais consciente.

A escritora contou que procurou incorporar essas preocupações ao lançamento de Uma bela cidade. Além da obra literária, apresentou objetos reutilizáveis como forma de relacionar a leitura a práticas cotidianas de redução do consumo de plástico.

Para Eugênia, iniciativas de educação ambiental desenvolvidas em parques, escolas e outros espaços públicos ajudam a aproximar o debate climático da vida cotidiana. Ela citou experiências de núcleos de educação ambiental que combinam atividades lúdicas, literatura e informação.

“A temática literária não é isolada. Esse gênero vem cumprir um papel muito importante. Não é só sensibilizar ou romantizar, mas convidar as pessoas a uma atitude de preservação ambiental”, afirmou.

A circulação dessas obras nas escolas e bibliotecas também foi discutida durante a entrevista. Eugênia reconheceu que escritores independentes ainda encontram dificuldades para levar seus livros a novos leitores, embora tenha observado um interesse crescente por obras relacionadas ao meio ambiente.

A autora lembrou que a educação ambiental deve atravessar diferentes áreas da formação escolar e não permanecer isolada em uma única disciplina.

Ela também defendeu a recuperação e ampliação das bibliotecas públicas, escolares e comunitárias.

“Ler é um direito humano. O acesso à leitura é um direito humano”, afirmou.

Para Eugênia, a leitura amplia a capacidade de compreensão do lugar onde se vive e fortalece a participação nas decisões coletivas. Essa dimensão cidadã aparece também em sua literatura infantil.

Durante a entrevista, a autora leu uma passagem de Uma bela cidade em que crianças escrevem uma carta à prefeita e ao vice-prefeito. No texto, os personagens cobram segurança nos parques e praças, melhorias nas escolas, ampliação das áreas verdes e melhor atendimento nos postos de saúde.

Segundo a escritora, a proposta é mostrar às crianças que a cidadania envolve acompanhar o funcionamento da cidade e dialogar com as instituições públicas.

“Eu trago essa questão cidadã porque a gente também não pode só estar criticando os governos e os nossos representantes. Nós os elegemos. Então existe esse lugar de participar da vida da cidade e exercer a cidadania”, afirmou.

A relação entre literatura, direito e políticas públicas também esteve presente na conversa. Advogada, Eugênia destacou que a legislação ambiental criou instrumentos para avaliar e controlar os impactos de empreendimentos.

Ela mencionou os estudos de impacto ambiental, os processos de licenciamento e as medidas de compensação como mecanismos necessários para avaliar as consequências de atividades econômicas sobre os territórios.

“O direito conversa com a literatura, conversa com a arte e conversa com a vida”, resumiu.

A escritora também citou a ativista climática Greta Thunberg para abordar a capacidade de crianças e jovens de influenciar o debate público. Eugênia relacionou a mobilização climática juvenil à importância da educação e do contato com informações ambientais desde a escola.

Em Uma bela cidade, a escritora utiliza essa perspectiva para incentivar as crianças a perceberem que podem participar da transformação dos espaços onde vivem.

Para Eugênia, escritores, educadores e formadores de opinião possuem responsabilidade específica diante da emergência climática. O trabalho não termina na apresentação dos problemas, mas deve contribuir para que a informação produza compromisso.

“Nosso papel é continuar educando pessoas, sensibilizando, gerando empatia, ação, compromisso e construindo cidadania”, afirmou.

Na parte final da entrevista, a autora mencionou a encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, ao falar sobre a relação entre seres humanos e natureza. Para Eugênia, a literatura pode contribuir para restabelecer uma percepção de pertencimento ao ambiente natural.

“Nosso papel é fazer com que as pessoas saiam do intelecto para o afeto e para a ação”, declarou.

Ao concluir sua participação, a escritora defendeu que a preocupação ambiental seja compreendida como compromisso com as gerações futuras.

“A natureza somos nós e precisamos cuidar da natureza porque queremos construir um futuro para as futuras gerações do nosso país, um futuro que garanta um meio ambiente equilibrado e uma sociedade mais justa e fraterna para todos”, afirmou.

Referências

Uma bela cidade
Autora: Eugênia Cavalcanti
Literatura infantojuvenil sobre cidade sustentável, cidadania e educação ambiental
Ano de publicação não informado no programa

Costurando Vivências
Coletânea de autores brasileiros e portugueses sobre as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024
Autores e ano de publicação não informados integralmente no programa

Povo Riograndense
Autora: Eugênia Cavalcanti
Poema publicado na coletânea Costurando Vivências

Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Ano: 1938

Geografia da Fome
Autor: Josué de Castro
Ano: 1946

Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum
Autor: Papa Francisco
Ano: 2015

Assista ao programa completo:

https://www.youtube.com/watch?v=iYsr48bYcOA

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