Presidenta da Fenaj e representante da Repórteres Sem Fronteiras analisam os impactos da inteligência artificial, a demora da Justiça Eleitoral e os ataques contra comunicadores na campanha de 2026
Da Redação
A velocidade de produção e distribuição de conteúdos manipulados por inteligência artificial impõe ao jornalismo um desafio decisivo nas eleições de 2026. Enquanto notícias falsas circulam em escala industrial e imitam a aparência de reportagens, as instituições responsáveis pela fiscalização eleitoral demonstram dificuldades para acompanhar as infrações e oferecer respostas antes que seus efeitos alcancem milhões de eleitores.
O tema foi debatido no programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, o FNDC, com produção da Atitude Popular. A edição recebeu as jornalistas Samira Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas, a Fenaj, e integrante do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, e Bia Barbosa, coordenadora de Advocacy para a América Latina da Repórteres Sem Fronteiras e integrante da Coalizão em Defesa do Jornalismo. A apresentação foi de Sousa Júnior.
Durante a entrevista, as convidadas discutiram a responsabilidade das empresas jornalísticas, o uso eleitoral da inteligência artificial, as limitações da legislação, a atuação das plataformas digitais e as condições de trabalho dos profissionais responsáveis pela apuração das informações.
Jornalismo ganha importância em ambiente sem regras
Samira Castro afirmou que todas as eleições realizadas desde a ascensão da extrema direita no Brasil foram apresentadas como decisivas. Em 2026, porém, o aperfeiçoamento das tecnologias de manipulação e a utilização das redes sociais como principal espaço do debate político ampliam a responsabilidade dos jornalistas.
“O jornalismo profissional é parte da resposta à desinformação que a gente vive hoje”
Na avaliação da presidenta da Fenaj, o ambiente digital tornou-se uma arena de circulação de conteúdos que nem sempre aprofundam as questões públicas ou apresentam informações verificáveis. As regras aplicadas pelas plataformas são insuficientes, enquanto as normas eleitorais não conseguem acompanhar a velocidade das novas tecnologias.
Nesse cenário, procedimentos básicos da profissão passam a ter importância ainda maior. Samira citou a apuração, a checagem, a contextualização, a identificação das fontes e a correção pública de erros como elementos necessários para diferenciar o conteúdo jornalístico de peças produzidas para manipular a percepção dos eleitores.
“O diferencial do jornalismo é o compromisso com a verificação dos fatos, o compromisso ético com a realidade imediata”
A jornalista observou que a comunicação sempre foi um espaço de disputas políticas e econômicas. Durante as eleições, essas divergências ficam mais visíveis porque diferentes grupos tentam influenciar a interpretação dos acontecimentos e a escolha dos eleitores.
Para Samira, o jornalismo não deve decidir em lugar dos cidadãos, mas oferecer informações que permitam compreender os projetos apresentados pelas candidaturas. Essa função somente pode ser cumprida por profissionais que disponham de condições para investigar, confrontar versões e apresentar os contextos omitidos na propaganda política.
“O nosso papel é qualificar o debate público e fazer com que a população tenha condições de escolher entre projetos”
Inteligência artificial interfere na produção e no consumo
Bia Barbosa explicou que a inteligência artificial afeta o ambiente informacional por pelo menos dois caminhos. O primeiro é a produção de imagens, vídeos e áudios sintéticos em grande escala. O segundo está nos sistemas de recomendação das plataformas, que selecionam o conteúdo exibido a cada usuário com base em dados pessoais, hábitos e preferências.
Isso significa que a tecnologia não é utilizada apenas para fabricar uma imagem falsa de uma candidatura. Ela também interfere na distribuição, identifica públicos mais propensos a acreditar na mensagem e direciona conteúdos de maneira individualizada.
“A inteligência artificial mudou completamente a forma como cada um consome informação”
Bia citou como exemplo a utilização de um vídeo produzido por inteligência artificial durante uma convenção partidária. Ainda que o material completo apresentasse a indicação de que havia sido criado artificialmente, pequenos recortes poderiam circular sem o aviso e levar o público a acreditar que se tratava de uma gravação verdadeira.
“Se qualquer pessoa pega uma parte do vídeo que não tem a informação de que ele foi produzido por inteligência artificial, acha que é verdadeiro”
A possibilidade de separar o conteúdo de sua identificação original demonstra a insuficiência das marcações aplicadas apenas no início ou no fim de uma peça. Depois de publicado, um vídeo pode ser cortado, remontado, receber uma nova legenda e circular em grupos fechados, longe da fiscalização pública.
Para a representante da Repórteres Sem Fronteiras, o jornalismo precisa acompanhar essa produção, verificar a autenticidade dos materiais e informar claramente quando determinada imagem ou declaração foi criada ou alterada por inteligência artificial.
Direito à informação orienta a proteção aos jornalistas
Bia explicou que a Repórteres Sem Fronteiras atua há quatro décadas na proteção do trabalho jornalístico. O objetivo central da organização, contudo, não se limita aos profissionais da imprensa. A defesa dos jornalistas está relacionada ao direito da sociedade de receber informação plural, diversa e independente.
“A gente defende o trabalho jornalístico dos jornalistas em todo o mundo, mas o nosso objetivo central é que a população tenha seu direito à informação garantido”
Durante uma eleição, esse direito torna-se indispensável porque a decisão sobre o voto depende do conhecimento disponível sobre candidaturas, propostas, alianças e acontecimentos políticos. Quando jornalistas são impedidos de trabalhar ou quando conteúdos falsos ocupam o espaço das informações apuradas, a liberdade de escolha também é comprometida.
Bia informou que a Repórteres Sem Fronteiras acompanha eleições em diversos países. No caso brasileiro, a organização demonstra preocupação tanto com a inteligência artificial quanto com os ataques dirigidos a jornalistas durante a cobertura.
Essas agressões acontecem nas redes sociais e fora delas. Incluem intimidações, campanhas para desqualificar profissionais e episódios de violência durante atividades externas. O objetivo pode ser impedir uma cobertura específica ou produzir desconfiança contra o jornalismo de maneira generalizada.
“É um cenário bastante complexo para os trabalhadores da imprensa, e por isso a gente tem que ficar vigilante”
Desinformação tem método e financiamento
Samira relatou que, ao abrir uma rede social para acompanhar as publicações de uma candidata, encontrou grande quantidade de respostas com informações falsas. Havia imagens manipuladas e peças que reproduziam manchetes e formatos visuais associados ao jornalismo.
“A desinformação mimetiza o conteúdo e a perspectiva visual de uma notícia, só que não tem lastro nenhum de realidade”
A semelhança não é acidental. Ao reproduzir tipografia, cores, logotipos e formatos usados por veículos conhecidos, os responsáveis pelas falsificações tentam transferir credibilidade jornalística para uma mensagem enganosa. Um conteúdo pode circular como se tivesse sido publicado por um portal sem que o eleitor confira sua origem.
Samira rejeitou a ideia de que a desinformação eleitoral seja resultado apenas de ações espontâneas de apoiadores. Segundo ela, a circulação das peças ocorre de forma organizada e pretende interferir diretamente na escolha dos eleitores.
“A gente não está falando de uma coisa artesanal. Isso tem objetivo, tem método e tem financiamento”
Enquanto grupos políticos dispõem de recursos para produzir e distribuir conteúdos falsos, iniciativas jornalísticas independentes enfrentam dificuldades para financiar reportagens, manter equipes e alcançar o público nas plataformas. Para Samira, essa desigualdade dificulta a reação do jornalismo diante de campanhas estruturadas de manipulação.
Tribunais não conseguem acompanhar a escala
Questionada sobre a capacidade da Justiça Eleitoral de fiscalizar o ambiente digital, Samira afirmou que os tribunais não dispõem de condições para acompanhar todo o material publicado. O volume é elevado, a distribuição ocorre em diferentes plataformas e parte considerável circula em grupos privados.
As próprias candidaturas tendem a concentrar seus departamentos jurídicos nos debates televisionados, na propaganda oficial e em ataques considerados mais graves. O eleitor comum, por sua vez, nem sempre possui formação ou tempo para verificar a origem das mensagens recebidas.
Samira relatou que ela própria compartilhou, durante a pandemia, um vídeo falso que parecia plausível. O material mostrava um líder religioso supostamente vendendo álcool em gel por um preço exorbitante. A publicação somente foi apagada depois que outra pessoa informou que se tratava de uma montagem.
A experiência demonstra que mesmo profissionais acostumados a verificar informações podem ser enganados. Com o avanço da inteligência artificial generativa, as falsificações ganharam maior qualidade e passaram a ser produzidas com mais rapidez.
“Imagina agora. Essas ferramentas vêm se aprimorando cada vez mais, e o uso nas eleições acontece de forma mais rápida, mais orquestrada e com mais tecnologia”
Na avaliação da jornalista, as medidas adotadas pelos tribunais têm alcance limitado diante dessa estrutura. Ela também considera a legislação eleitoral atrasada porque parte de suas regras ainda está concentrada em formas tradicionais de propaganda, embora a disputa política tenha migrado para plataformas digitais.
“Qualquer medida hoje dos tribunais, do Tribunal Superior Eleitoral e dos Ministérios Públicos é um paliativo”
Bia cobra resposta mais rápida do TSE
Bia Barbosa também demonstrou preocupação com a capacidade de reação das instituições. Ela citou o adiamento, pelo Tribunal Superior Eleitoral, de um julgamento sobre o uso de vídeo produzido por inteligência artificial em uma convenção partidária.
A análise do caso, segundo a jornalista, poderia estabelecer uma referência para toda a campanha. Sem uma decisão antes do início oficial da propaganda eleitoral, candidaturas e produtores de conteúdo permanecem sem uma resposta clara sobre a aplicação prática das normas já aprovadas pela Corte.
“Que recado a Corte Eleitoral passa para quem está produzindo conteúdo com inteligência artificial e vai distribuí-lo em desacordo com a resolução eleitoral?”
Para Bia, o problema não está apenas na existência de uma rede financiada de desinformação. Também envolve a lentidão das instituições responsáveis por interpretar e aplicar as regras. No ambiente digital, uma decisão tomada semanas depois pode chegar quando o conteúdo falso já produziu seus principais efeitos.
“A gente tem as instituições brasileiras muito reticentes e muito lentas para dar resposta a esse problema”
Eleitores também podem ser responsabilizados
A legislação eleitoral não impõe obrigações somente às candidaturas e aos partidos. Segundo Bia, cidadãos que produzirem conteúdos eleitorais com inteligência artificial e omitirem essa informação também podem ser responsabilizados.
A regra alcança materiais sobre urnas e candidaturas. A identificação deve permitir que o público saiba que a imagem, o áudio ou o vídeo não corresponde integralmente a uma situação real.
“A gente também não pode utilizar inteligência artificial para produzir conteúdo num contexto eleitoral e não informar que esse conteúdo foi produzido artificialmente”
A jornalista recomendou que os eleitores verifiquem se uma informação foi publicada por fontes confiáveis e procurem confirmar o conteúdo em outros veículos antes de compartilhá-lo. Essa precaução deve ser aplicada tanto às produções artificiais quanto às notícias falsas elaboradas por meios tradicionais.
Para Bia, o público também pode fortalecer o jornalismo divulgando reportagens verificadas e apoiando comunicadores comprometidos com a ética. Essa participação ganha importância em um período no qual ataques procuram descredibilizar toda a atividade jornalística.
Quando ninguém sabe em que acreditar
As campanhas contra jornalistas não pretendem apenas contestar uma reportagem. Bia explicou que a repetição de ataques pode fazer com que a sociedade deixe de confiar em qualquer fonte de informação.
Quando todas as versões são apresentadas como igualmente duvidosas, fatos comprovados passam a competir com opiniões sem evidências. Nesse ambiente, a escolha política deixa de ser orientada por informações verificáveis.
“Quando a sociedade não sabe no que pode acreditar, ela desconfia de tudo”
A destruição das referências beneficia grupos capazes de produzir grandes quantidades de conteúdo e repetir a mesma mensagem em diferentes canais. Mesmo que uma informação seja posteriormente desmentida, sua presença constante pode influenciar a percepção do eleitorado.
“A tomada de decisão não é mais baseada em fatos. As pessoas tomam suas decisões baseadas em opiniões e achismos”
Por isso, a representante da Repórteres Sem Fronteiras considera fundamental defender os profissionais que realizam uma cobertura ética, divulgar informações verificadas e denunciar ataques destinados a intimidar jornalistas.
Coalizão monitorará agressões durante a campanha
Bia anunciou que a Coalizão em Defesa do Jornalismo acompanhará ataques digitais e presenciais contra jornalistas e comunicadores durante todo o processo eleitoral. A iniciativa reúne Repórteres Sem Fronteiras, Fenaj e outras oito organizações.
Os resultados serão divulgados nas redes da coalizão. O monitoramento pretende documentar as agressões e cobrar do Estado brasileiro respostas mais efetivas para proteger os profissionais envolvidos na cobertura eleitoral.
“Se esses comunicadores e jornalistas estão sendo atacados, somos nós, enquanto cidadãos, que perdemos no nosso direito à informação”
O levantamento poderá mostrar quais tipos de violência são mais frequentes, contra quais profissionais e em quais plataformas. A documentação também ajudará a demonstrar que ataques apresentados como casos isolados podem integrar campanhas coordenadas.
Não existe bom jornalismo sem valorização profissional
Nas considerações finais, Samira Castro relacionou a qualidade da informação às condições de trabalho dos jornalistas. Equipes reduzidas, salários baixos, jornadas excessivas e vínculos precários diminuem o tempo disponível para apuração e ampliam a vulnerabilidade dos profissionais.
“Não existe um jornalismo capaz de dar conta das necessidades de informação da população se os jornalistas não forem bem remunerados, respeitados em seu trabalho e em seus direitos”
A defesa abstrata da liberdade de imprensa, portanto, não é suficiente. Para que a sociedade tenha acesso a informações verificadas, as empresas jornalísticas precisam garantir condições materiais para o exercício da profissão.
Em uma eleição atravessada pela inteligência artificial, pela desinformação organizada e pela disputa sobre a própria democracia, a credibilidade não será preservada apenas com declarações institucionais. Ela dependerá da transparência dos veículos, da correção pública de erros, da identificação das fontes e do respeito aos profissionais encarregados de apurar os fatos.
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