Da Redação
Acordo de defesa firmado por Arábia Saudita, Turquia e Paquistão estabelece que um ataque contra um dos integrantes será considerado uma agressão contra todos. A possível aproximação do Irã, ainda sem convite formal confirmado por Teerã, poderia transformar o pacto de uma articulação militar entre três potências em embrião de um sistema regional de segurança relativamente autônomo dos Estados Unidos.
Uma transformação silenciosa, mas potencialmente histórica, começa a tomar forma no Oriente Médio. Três países com enorme peso militar, econômico e geopolítico — Arábia Saudita, Turquia e Paquistão — assinaram em 7 de agosto o chamado Acordo Conjunto de Defesa de Meca, estabelecendo um princípio simples e poderoso: uma agressão armada contra qualquer integrante será considerada um ataque contra todos. Menos de um mês depois, porém, a discussão já ultrapassa os três fundadores. A possibilidade de participação do Irã abre um cenário muito mais ambicioso: a formação de uma arquitetura regional de segurança construída prioritariamente pelas próprias potências da região, e não organizada em torno da proteção militar dos Estados Unidos.
É necessário separar, desde o início, o que está confirmado do que ainda está sendo negociado. Mehdi Rahimi, responsável pela agência de notícias do Parlamento iraniano, afirmou que uma proposta estaria sendo analisada pela liderança do país e avaliou que a construção de um sistema regional de segurança representaria uma vitória estratégica para Teerã. Pouco depois, entretanto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, esclareceu que o Irã não recebeu um convite formal para ingressar no Pacto de Meca. Ele confirmou, contudo, que propostas para um diálogo sobre segurança coletiva entre Teerã e os integrantes do acordo foram apresentadas.
A diferença é importante. Não existe, neste momento, um processo formal confirmado de adesão iraniana. Existe uma aproximação política e uma discussão sobre a possibilidade de integrar o Irã a uma arquitetura coletiva de segurança. Mesmo assim, o movimento possui grande significado porque altera uma questão que acompanhava o pacto desde seu nascimento: saber se ele poderia evoluir para uma espécie de aliança militar sunita destinada, direta ou indiretamente, a conter Teerã.
A presença iraniana mudaria completamente essa interpretação.
O acordo original já reúne capacidades consideráveis. A Arábia Saudita acrescenta enorme poder financeiro, influência sobre os mercados mundiais de energia e capacidade de investimento militar. A Turquia possui uma das maiores forças armadas da região, integra a OTAN e desenvolveu nas últimas décadas uma poderosa indústria de defesa, particularmente em drones, sistemas eletrônicos, mísseis, veículos blindados e equipamentos militares. O Paquistão, por sua vez, acrescenta experiência militar, uma população superior a 250 milhões de habitantes e, sobretudo, uma característica inexistente nos outros dois integrantes: é uma potência nuclear.
O resultado é uma combinação que não pode ser desprezada.
Mas seria precipitado chamar o Pacto de Meca, neste momento, de uma “OTAN islâmica”. As informações públicas disponíveis não apresentam ainda uma estrutura comparável à Aliança Atlântica. Não há clareza sobre comando militar integrado, regras de decisão, mobilização automática de forças, planejamento conjunto permanente ou exatamente qual obrigação caberia a cada integrante em caso de guerra. A RT observa corretamente que, na configuração atual, o pacto se aproxima mais de uma declaração política de dissuasão coletiva do que de uma aliança militar plenamente institucionalizada.
É justamente por estar ainda em formação que sua evolução merece tanta atenção.
Uma região que começa a procurar segurança sem depender exclusivamente de Washington
Donald Trump recebeu publicamente o acordo de maneira positiva. A posição é coerente com uma bandeira antiga do presidente norte-americano: aliados dos Estados Unidos deveriam gastar mais com sua própria defesa e reduzir a parcela da conta militar sustentada por Washington. Sob essa perspectiva, três parceiros importantes dos EUA construindo um mecanismo próprio de segurança poderia ser interpretado como uma vitória da estratégia trumpista.
Mas existe uma contradição.
Quanto mais os países do Oriente Médio desenvolvem mecanismos autônomos capazes de administrar sua própria segurança, menor tende a ser a dependência absoluta da proteção norte-americana.
Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar externa presente na região. Mantêm bases, sistemas de defesa, estruturas de inteligência, acordos bilaterais e relações profundas com diferentes governos. Nada indica uma retirada norte-americana imediata ou o desaparecimento dessa influência.
O que começa a mudar é outra coisa: o monopólio de Washington sobre a organização da segurança regional.
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã acelerou essa reflexão. Para os países do Golfo, a presença militar norte-americana apresenta uma contradição estrutural. De um lado, oferece proteção e capacidade de dissuasão. De outro, pode arrastar países da região para crises determinadas por decisões tomadas em Washington ou Tel Aviv.
A própria experiência recente mostrou que bases militares, instalações energéticas, rotas marítimas e infraestruturas estratégicas do Golfo podem tornar-se vulneráveis quando ocorre uma confrontação direta entre grandes atores regionais. Dessa maneira, a questão para Riad e outros governos deixou de ser simplesmente escolher entre “Estados Unidos ou não Estados Unidos”. Passou a ser como manter relações com Washington enquanto simultaneamente constroem margem própria de decisão estratégica.
É nesse contexto que o Pacto de Meca adquire importância.
A entrada do Irã mudaria a natureza do acordo
Se permanecer restrito a Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, o pacto pode evoluir como uma poderosa articulação entre três grandes Estados de maioria sunita. A entrada do Irã, principal potência xiita da região, produziria algo qualitativamente diferente.
Deixaria de ser simplesmente uma coalizão entre países com interesses relativamente convergentes e poderia começar a funcionar como mecanismo de administração das próprias rivalidades regionais.
Essa diferença é enorme.
Durante décadas, uma das principais fraturas geopolíticas do Oriente Médio foi justamente a rivalidade entre Arábia Saudita e Irã. Os dois países disputaram influência direta e indiretamente no Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e em outras áreas. A reaproximação diplomática mediada pela China em 2023 começou a modificar esse ambiente, mas não eliminou as diferenças estratégicas.
Incorporar Teerã a um mecanismo de defesa coletiva junto de Riad significaria avançar vários passos além da simples normalização diplomática.
A pergunta deixaria de ser “contra quem essa aliança existe?” para se tornar “quais regras seus integrantes aceitam para impedir que suas diferenças provoquem uma nova guerra?”.
Esse seria o verdadeiro salto histórico.
O Paquistão teria também uma posição particularmente interessante. Islamabad mantém uma relação estratégica profunda com a Arábia Saudita, mas compartilha uma extensa fronteira com o Irã e possui razões próprias para preservar estabilidade com Teerã. A Turquia, por sua vez, apesar de competir com o Irã em diferentes teatros, mantém relações econômicas e diplomáticas importantes com o país e procura consolidar-se como potência capaz de dialogar com diferentes polos regionais.
A entrada iraniana poderia, portanto, produzir uma estrutura em que Riad fornece capital e peso energético; Ancara, capacidade industrial e militar; Islamabad, poder nuclear e profundidade estratégica; e Teerã, energia, posição geográfica e capacidade militar regional.
Isso não significaria o desaparecimento das contradições entre esses países. Pelo contrário. Significaria tentar administrá-las institucionalmente.
Para funcionar, o pacto precisaria deixar de ser apenas uma declaração
O problema é que uma arquitetura de segurança não nasce apenas de uma assinatura.
Se o Irã efetivamente avançar para uma integração, os países terão de enfrentar questões extremamente difíceis. Seriam necessários canais permanentes de comunicação militar para situações de emergência, mecanismos destinados a impedir incidentes, compartilhamento de determinadas informações sobre lançamentos de mísseis, regras para proteção da navegação e compromissos claros de não participação em ataques contra outros integrantes.
O ponto mais complexo provavelmente envolveria os grupos armados não estatais ligados a Teerã.
O Irã construiu durante décadas uma rede de relações com organizações e forças políticas armadas em diferentes países. Uma integração profunda numa arquitetura coletiva de segurança inevitavelmente produziria discussões sobre até onde se estenderia a responsabilidade iraniana pelas ações desses grupos. Em contrapartida, Teerã exigiria garantias de que outros integrantes não apoiariam operações destinadas a desestabilizar o Estado iraniano.
Sem algum grau de reciprocidade, o pacto poderia permanecer apenas uma declaração política.
Com ela, poderia se transformar em algo muito maior.
Existe também uma enorme dimensão econômica
A consequência potencial não é exclusivamente militar.
Uma região permanentemente ameaçada pela guerra paga um preço econômico gigantesco. Seguros marítimos ficam mais caros, investimentos de longo prazo são adiados, governos desviam recursos para gastos militares, corredores logísticos tornam-se vulneráveis e infraestruturas energéticas precisam operar sob constante risco de ataque.
Uma redução estrutural dessas tensões poderia liberar recursos para outra forma de integração.
A complementaridade econômica entre os países envolvidos é considerável. A Arábia Saudita dispõe de capital e energia; a Turquia possui uma base industrial diversificada e localização estratégica entre Ásia e Europa; o Paquistão oferece um enorme mercado e acesso ao Oceano Índico; o Irã reúne reservas gigantescas de petróleo e gás e ocupa uma posição geográfica fundamental entre o Golfo Pérsico, Ásia Central, Cáucaso e Sul da Ásia.
Uma articulação entre esses territórios poderia fortalecer corredores conectando Ásia Central, Golfo Pérsico, Mediterrâneo e Oceano Índico.
O Estreito de Ormuz também ganharia outra dimensão. Em vez de funcionar ciclicamente como ponto de pressão geopolítica — por onde passa parcela significativa do petróleo transportado mundialmente — sua segurança poderia tornar-se interesse compartilhado de uma estrutura regional.
É justamente nesse ponto que segurança e multipolaridade econômica começam a se encontrar.
Mas nada disso está garantido. As sanções contra o Irã continuam sendo um obstáculo enorme. Turquia e Arábia Saudita possuem ambições próprias e por vezes concorrentes. O Paquistão carrega sua histórica rivalidade com a Índia. E todos mantêm relações diferentes com Estados Unidos, China e Rússia.
O Pacto de Meca não elimina essas contradições.
Ele tenta criar um espaço no qual elas possam ser administradas.
Israel é a grande incógnita
A possível participação iraniana coloca inevitavelmente Israel no centro da equação.
Uma estrutura militar que reúna Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e Irã teria um peso estratégico completamente diferente de qualquer combinação regional existente hoje. Para Israel, especialmente sob um governo que identifica Teerã como sua principal ameaça estratégica, uma integração dessa natureza poderia ser interpretada como risco de cerco ou formação de um polo regional hostil.
Mas essa consequência não é inevitável.
Existe outra possibilidade: o pacto assumir formalmente um caráter defensivo e estabelecer mecanismos de prevenção de conflitos inclusive com Israel. Nesse cenário, sua função seria menos preparar uma guerra coletiva e mais estabelecer limites ao emprego unilateral da força.
A diferença entre esses dois caminhos será decisiva.
Se o pacto evoluir como instrumento de contenção de Israel, o Oriente Médio poderá entrar numa nova corrida de blocos militares. Se conseguir transformar-se num mecanismo mais amplo de segurança regional, poderá produzir justamente o contrário: um sistema de equilíbrio no qual nenhum Estado consiga estabelecer sua segurança através da insegurança permanente dos demais.
As eleições israelenses previstas para 27 de outubro serão, nesse sentido, um ponto importante para observar a direção dessa transformação. A permanência de Benjamin Netanyahu e da direita israelense ou a formação de outro governo não determinará sozinha o futuro do pacto, mas influenciará profundamente a maneira como Israel responderá à nova arquitetura regional.
O que está em disputa é quem organiza o Oriente Médio
É justamente aí que está a dimensão mais profunda do Pacto de Meca.
Durante grande parte da história contemporânea, a segurança do Oriente Médio foi organizada direta ou indiretamente por potências externas. O Império Britânico desempenhou esse papel durante uma longa etapa. Depois da Segunda Guerra Mundial, e principalmente após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos tornaram-se o principal garantidor externo da ordem regional.
Washington construiu bases, armou aliados, garantiu rotas marítimas, organizou coalizões e estabeleceu relações militares bilaterais que lhe deram influência extraordinária sobre a arquitetura de segurança do Golfo.
O que começa a surgir agora não significa necessariamente a expulsão dos Estados Unidos.
Pode significar algo historicamente diferente: os próprios Estados regionais começando a construir mecanismos capazes de funcionar mesmo quando seus interesses não coincidem com os de Washington.
É por isso que a eventual aproximação iraniana é tão importante.
Arábia Saudita, Turquia e Paquistão possuem relações importantes com os Estados Unidos. O Irã está no extremo oposto dessa estrutura e mantém uma relação de confronto com Washington. Colocar esses quatro países dentro de um mesmo mecanismo significaria que o critério organizador deixaria de ser simplesmente a proximidade com uma grande potência externa.
Passaria a ser a necessidade de construir alguma forma de equilíbrio regional.
O Pacto de Meca ainda está muito distante disso. Sua institucionalidade é embrionária, suas obrigações militares não estão suficientemente claras e o próprio ingresso iraniano permanece apenas no terreno das possibilidades. Além disso, outros países já observam a iniciativa: Bangladesh manifestou interesse e o Egito estaria analisando a perspectiva de participação, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira pelo The Media Line.
Mas é justamente a direção do movimento que merece atenção.
Se o pacto permanecer uma declaração defensiva entre três governos, será importante, porém limitado.
Se incorporar novas potências e construir comando, protocolos, mecanismos de prevenção de conflitos e regras coletivas, poderá tornar-se uma das maiores transformações geopolíticas do Oriente Médio nas últimas décadas.
E se o Irã entrar, a mudança será ainda mais profunda.
Porque nesse momento o acordo deixaria de representar simplesmente a união militar de parceiros e passaria a reunir alguns dos principais rivais históricos da própria região.
Esse é o verdadeiro significado do que está acontecendo em Meca: não necessariamente o nascimento de uma nova OTAN, mas a possibilidade de algo que talvez seja ainda mais relevante para o mundo multipolar — um Oriente Médio tentando construir sua própria arquitetura de segurança, reduzir a dependência de um hegemon externo e estabelecer regras regionais para administrar suas próprias contradições.
Ainda é uma possibilidade.
Mas, se Teerã atravessar essa porta, o equilíbrio de poder do Oriente Médio poderá não voltar a ser o mesmo.
