Da Redação
Edinho Silva anuncia diálogo com partidos que optaram pela neutralidade na eleição presidencial; estratégia busca aproveitar alianças estaduais com MDB, PSD, PP, União Brasil e Republicanos para ampliar a base política de Lula e reduzir o espaço de Flávio Bolsonaro
O PT decidiu abrir uma nova etapa na estratégia eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva e partir para uma negociação direta com partidos de centro e do chamado Centrão ainda no primeiro turno da eleição presidencial. O movimento foi anunciado nesta segunda-feira (17) pelo presidente nacional do partido, Edinho Silva, que afirmou que a legenda começará imediatamente a conversar com forças políticas que não integram formalmente a coligação de Lula, mas mantêm relações com o governo federal ou construíram alianças com o PT nas disputas estaduais. A ofensiva ocorre justamente na largada oficial da campanha e procura transformar a extensa rede de acordos regionais construída nos últimos meses em apoio nacional à reeleição do presidente.
“Nós vamos disputar o campo democrático já no primeiro turno”, afirmou Edinho em Brasília. Segundo o dirigente, o PT pretende conversar com diferentes forças independentemente das posições adotadas por elas no passado, inclusive do apoio que algumas deram ao bolsonarismo. A formulação revela uma estratégia essencialmente pragmática: em vez de estabelecer como condição uma identidade ideológica com o governo, Lula pretende construir uma frente eleitoral mais ampla em torno da defesa da democracia, da estabilidade institucional e de interesses políticos comuns.
O terreno para essa aproximação já existe nos estados. PSD e MDB estão entre os partidos de centro que mais construíram alianças regionais com a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. O PDT também aparece fortemente associado ao campo governista nas disputas estaduais, enquanto PP, União Brasil e Republicanos mantêm arranjos distintos dependendo de cada estado. Essa fragmentação produz uma situação curiosa: partidos que não apoiam formalmente Lula para presidente possuem candidatos locais sustentados pelo PT ou apoiam candidatos que também estão no palanque lulista.
Edinho destacou justamente essa realidade ao mencionar PSD, MDB, PP e União Brasil como legendas com as quais o PT já possui relações estaduais. O PSD é talvez o exemplo mais interessante. Nacionalmente, o partido apresenta Ronaldo Caiado como candidato à Presidência, mas mantém alianças com o PT em cinco estados. Segundo Edinho, é a segunda legenda fora da coligação presidencial com maior número de acordos estaduais com os petistas. A candidatura própria de Caiado estabelece um limite evidente para qualquer negociação imediata com a direção nacional do PSD, mas a capilaridade dessas alianças permite ao comando lulista manter pontes abertas com governadores, senadores, deputados, prefeitos e lideranças regionais da legenda.
A movimentação ocorre em um cenário particularmente favorável à tentativa de ampliar a frente. Diferentemente de outras eleições, parte importante do Centrão preferiu não se vincular formalmente à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. PP, União Brasil, Republicanos e MDB adotaram posições de neutralidade nacional, preservando liberdade para que seus dirigentes e estruturas regionais construam caminhos próprios. Essa decisão deixou Flávio com uma coligação presidencial mais estreita e obrigou o PL a escolher um candidato a vice dentro do próprio partido.
Para Lula, a neutralidade dessas siglas representa uma oportunidade. Uma coisa seria tentar retirar partidos formalmente comprometidos com Flávio Bolsonaro de uma coalizão eleitoral. Outra, muito diferente, é negociar com legendas que deliberadamente deixaram aberta a possibilidade de seus quadros apoiarem diferentes candidaturas. O PT pretende explorar justamente essa zona política intermediária.
A estratégia também ajuda a explicar movimentos recentes do próprio presidente. Lula vem reconstruindo relações com lideranças importantes do Congresso, inclusive políticos que não pertencem ao campo tradicional da esquerda. O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, já realizou gestos públicos de aproximação, enquanto Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil, restabeleceram o diálogo depois de um período de tensão. Alcolumbre teve participação importante na decisão para que a federação formada por União Brasil e PP permanecesse neutra na disputa presidencial.
Questionado sobre uma eventual contradição entre o discurso político do PT e a aproximação com lideranças do Centrão, Edinho respondeu recorrendo à própria necessidade institucional de governar. “Como é que um presidente da República não conversa com o presidente do Senado?”, afirmou. Para o dirigente, recusar esse diálogo significaria não compreender a dinâmica de um sistema político no qual qualquer governo depende do Congresso para aprovar leis, orçamento, reformas e políticas públicas.
Há também uma razão eleitoral bastante objetiva para o movimento. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira coloca Lula com 41% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 36% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado aparece com 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema possuem 4% cada. No segundo turno, Lula registra 47% contra 44% de Flávio, diferença que configura empate técnico dentro da margem de erro. Os números mostram uma eleição competitiva, mas também revelam que qualquer ampliação relevante da coalizão presidencial pode adquirir importância decisiva.
É justamente aí que a busca pelo Centrão pode produzir dois efeitos simultâneos. O primeiro é eleitoral: conquistar apoio de lideranças regionais, prefeitos, governadores, deputados e máquinas partidárias capazes de ampliar a presença de Lula em municípios onde o PT possui menor capilaridade. O segundo é político: impedir que Flávio Bolsonaro transforme a eleição numa recomposição integral do campo que sustentou Jair Bolsonaro. Quanto maior for o número de partidos de centro que permanecerem neutros ou migrarem para Lula, mais difícil será apresentar a disputa como uma divisão equilibrada entre duas grandes coalizões partidárias.
A estratégia, entretanto, exige cuidado. O Centrão não constitui um bloco ideológico homogêneo e tampouco oferece apoio sem contrapartidas políticas. São partidos que controlam bancadas expressivas no Congresso, governos estaduais, prefeituras e estruturas importantes do Estado. Uma aproximação pode fortalecer Lula eleitoralmente e ampliar sua governabilidade futura, mas também poderá aumentar a pressão por participação no governo, liberação de recursos, influência sobre políticas públicas e espaço institucional.
Essa é uma contradição que acompanha praticamente todos os governos brasileiros desde a redemocratização. O sistema político fragmentado obriga presidentes a construir maiorias parlamentares com partidos muito diferentes de sua própria base programática. Lula conhece profundamente essa realidade. Seus governos anteriores foram sustentados por coalizões amplas, e o terceiro mandato voltou a exigir negociações permanentes com um Congresso no qual as forças de centro e de direita possuem enorme peso.
A diferença em 2026 é que essa negociação começa a ser deslocada da governabilidade para a própria campanha presidencial.
Ao buscar esses partidos ainda no primeiro turno, o PT procura evitar que a ampliação ocorra apenas numa eventual segunda etapa da eleição. A aposta parece ser que uma coalizão maior desde agora possa criar uma percepção de maioria política, ampliar palanques regionais e talvez aproximar Lula dos votos necessários para tentar decidir a eleição antes do segundo turno.
Edinho, entretanto, tratou de conter qualquer triunfalismo. O presidente do PT afirmou que “não tem jogo ganho sem ser jogado”, uma advertência particularmente pertinente diante de uma pesquisa que mostra Lula liderando, mas enfrentando uma disputa apertada contra Flávio numa eventual segunda votação.
A abertura das negociações com o Centrão mostra, portanto, que o comando da campanha não pretende administrar a vantagem atual de maneira passiva. O PT quer ampliar seu campo, ocupar o espaço deixado pela neutralidade das grandes legendas de centro e transformar alianças estaduais em uma rede nacional de apoio.
A campanha de Lula começa formalmente sustentada por PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT, mas a arquitetura política que Edinho Silva pretende construir é maior. O objetivo agora é avançar sobre uma faixa decisiva do sistema político brasileiro que não aderiu a Flávio Bolsonaro e tampouco se comprometeu integralmente com Lula.
Se essa operação funcionar, a eleição poderá adquirir uma configuração diferente daquela inicialmente projetada: de um lado, um campo bolsonarista mais concentrado em torno do PL; do outro, uma frente liderada por Lula tentando avançar da esquerda ao centro e incorporar parcelas do Centrão.
A disputa das próximas semanas será justamente para saber até onde essa frente consegue chegar.
