Giovanni Sampaio acusa Ciro Gomes de confundir diárias com internações em UTI e pede auditoria para esclarecer acusação feita no debate da Band
Da Redação
O ex-diretor-geral do Hospital Regional do Cariri, Giovanni Sampaio, reagiu às acusações feitas por Ciro Gomes durante o primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará, realizado pela Band no domingo (9). Em vídeo gravado diante da unidade, em Juazeiro do Norte, o médico negou a existência de internações fictícias em leitos de UTI e desafiou Ciro a formalizar a denúncia perante os órgãos de fiscalização.
Segundo informações publicadas nesta terça-feira (11) pelo jornal O Estado, Giovanni afirmou ter encaminhado interpelações ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Ceará para que as contas da UTI sejam auditadas. O ex-diretor deixou o comando do hospital para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa pelo PRD.
“Se você sabe que tem roubo, não vá dizer em rádio, não. Faça uma queixa por escrito”, cobrou Giovanni. “Eu fui diretor por dois anos e meio. Se houve roubo, eu sou o responsável. Manda fazer uma auditoria, chama o Ministério Público, a Polícia Civil e a Polícia Federal para ver se tem internamento falsificado.”
Durante o debate, Ciro afirmou que o Hospital Regional do Cariri teria registrado 11 mil internações em UTI e concluiu, a partir da divisão desse número pela quantidade de leitos, que a média seria de uma internação por dia. Em seguida, acusou a unidade de “fraudar internações de UTI”. O candidato não apresentou, durante a discussão, documento, relatório de auditoria ou investigação que sustentasse a acusação.
Giovanni respondeu que o cálculo confundiria internações com diárias hospitalares. Cada paciente internado em uma UTI gera uma diária por dia de permanência. Um único paciente que passe dez dias no setor, portanto, representa uma internação, mas dez diárias.
O Hospital Regional do Cariri possui atualmente 50 leitos de UTI para adultos. Caso 40 deles permaneçam ocupados diariamente, como estimou Giovanni, seriam registradas cerca de 1.200 diárias por mês e 14.400 ao longo de um ano. O número supera as 11 mil ocorrências mencionadas por Ciro sem exigir que cada registro corresponda a um paciente diferente.
“Você está colocando diária de leito de UTI como internamento”, disse o ex-diretor. “Aqui tem 50 leitos de UTI, praticamente lotados.”
Sem acesso ao documento utilizado por Ciro, não é possível saber se os 11 mil registros citados pelo candidato correspondem a pacientes admitidos, autorizações de internação hospitalar, procedimentos ou diárias de UTI. A distinção é necessária para avaliar qualquer suspeita. O número isolado não comprova fraude.
Unidade atende 1,5 milhão de habitantes
Inaugurado em abril de 2011, o Hospital Regional do Cariri foi o primeiro hospital público da rede estadual construído no interior do Ceará. Dados atualizados do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar, responsável pela administração da unidade, informam que o HRC possui 300 leitos, dos quais 50 são destinados à UTI adulta.
A estrutura inclui ainda 174 leitos de enfermaria, 54 de observação na emergência, dez na unidade de AVC e 12 na sala de recuperação pós-anestésica. O hospital atende aproximadamente 1,5 milhão de habitantes dos 45 municípios que formam a macrorregião de saúde do Cariri, abrangendo as regiões de Juazeiro do Norte, Crato, Brejo Santo, Iguatu e Icó.
O HRC mantém emergência durante 24 horas e é referência regional no atendimento a vítimas de AVC e de traumas de média e alta complexidade. Também oferece centro cirúrgico, clínica médica, clínica cirúrgica, traumato-ortopedia, unidade de cuidados especiais e atendimento ambulatorial.
Em 15 anos de funcionamento, a unidade contabilizou mais de 535 mil atendimentos de emergência, 90 mil internações, 115 mil cirurgias, 140 mil atendimentos ambulatoriais e 8 milhões de exames laboratoriais e de imagem, conforme balanço divulgado em 2026 pelo próprio hospital e reproduzido pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde.
O hospital mantém atendimento integralmente vinculado ao Sistema Único de Saúde. Giovanni contestou a comparação feita por Ciro entre os custos do HRC e os de hospitais filantrópicos de Barbalha, que também podem contar com outras fontes de receita, como planos de saúde, convênios e atendimentos particulares.
“Aqui é 100% de financiamento SUS”, afirmou. “Se não fosse esse hospital, o que seria da saúde da região do Cariri, especificamente de Juazeiro?”
Certificações contrariam retrato apresentado por Ciro
Os dados institucionais disponíveis também mostram que o hospital recebeu, em novembro de 2025, pela nona vez consecutiva, a acreditação de excelência da Organização Nacional de Acreditação. O reconhecimento corresponde ao nível mais elevado da certificação e considera critérios de segurança, integração dos processos e gestão de qualidade.
Em 2025, a UTI do HRC recebeu o selo UTI Eficiente, concedido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira e pela plataforma Epimed. Segundo o Conass, foi o único hospital público do Ceará contemplado com o reconhecimento naquele ano. Em 2022, a unidade apareceu na 14ª posição de um levantamento nacional sobre hospitais públicos, baseado em eficiência, avaliação dos usuários, qualidade e segurança assistencial.
As certificações não substituem a fiscalização das contas nem impedem a apuração de eventuais irregularidades. Elas, porém, entram em conflito com a apresentação do HRC como uma unidade sem qualificação administrativa e exigem que uma acusação de fraude seja acompanhada de elementos verificáveis.
Giovanni também rebateu a declaração de Ciro de que o hospital teria sido entregue a um “cabo eleitoral” de Fernando Santana sem qualificação profissional. Médico há quase quatro décadas, o ex-diretor comandou a unidade durante aproximadamente dois anos e meio. O próprio Giovanni mantém atuação política e atualmente concorre a deputado estadual, circunstância que também situa sua resposta no confronto eleitoral.
A troca de ataques entre os dois não começou no debate. Ciro já havia questionado publicamente a qualificação de Giovanni para dirigir o hospital. O médico, por sua vez, passou a acusá-lo de divulgar informações falsas sobre a unidade e chegou a anunciar uma pré-candidatura ao Governo do Ceará, posteriormente retirada por decisão da federação partidária.
Ao responder à nova acusação, Giovanni insistiu que a discussão deve sair do terreno das declarações eleitorais e chegar aos órgãos com competência para examinar contratos, prontuários e pagamentos.
“Responsabilize o diretor, que eu vou junto com você saber se houve desvio ou não”, declarou. “Se você sabe que tem roubo, faça uma queixa por escrito. Senão, você está prevaricando.”
