Filósofa cearense radicada na Alemanha analisa o crescimento da extrema direita, as disputas políticas no país europeu e as conexões com o cenário brasileiro
O avanço da extrema direita na Alemanha, as transformações políticas após a reunificação do país e a influência das disputas internacionais sobre a política brasileira foram temas de uma entrevista com a filósofa cearense Paola Jochimsen no programa Democracia no Ar, da Atitude Popular. Na conversa, conduzida pela jornalista Sara Goes, a pesquisadora discutiu as condições que favorecem o crescimento de partidos de direita radical, os limites das comparações com o nazismo e a necessidade de compreender as particularidades históricas de cada sociedade.
Doutoranda em Filosofia pela Universidade de Coimbra, membro colaboradora do Instituto de Estudos Filosóficos (IEF), integrante da equipe editorial da Revista Darandina, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e membro do Laboratório de Violência e Política (LABIPOL), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Paola falou a partir de sua experiência de vida na Alemanha. Radicada no país desde 2009, com períodos de retorno ao Brasil, ela relatou mudanças que percebeu na sociedade alemã e examinou os fatores que ajudam a explicar a expansão eleitoral da extrema direita.
A entrevista também abordou a política brasileira, a soberania nacional, as disputas em torno do Supremo Tribunal Federal e a atuação de brasileiros residentes no exterior durante as eleições. Ao longo da conversa, a filósofa insistiu que os fenômenos políticos precisam ser examinados a partir de suas condições concretas, sem que a análise seja substituída por generalizações ou comparações históricas simplificadas.
A Alemanha depois do nazismo
A conversa começou com uma questão recorrente no debate político brasileiro: a ideia de que a Alemanha teria desenvolvido mecanismos tão rigorosos de enfrentamento ao extremismo que a ascensão de uma força de extrema direita seria praticamente impossível. Sara Goes questionou Paola sobre a permanência dessa percepção diante do crescimento da Alternativa para a Alemanha, a AfD, sigla do partido de direita radical alemão.
A filósofa explicou que a legislação alemã estabelece restrições à propaganda nazista e a símbolos associados ao nazismo, mas que isso não significa a proibição automática de qualquer partido identificado com a extrema direita. Para que uma organização política seja banida, é necessário reunir elementos jurídicos e provas que sustentem a medida. A AfD, segundo a entrevistada, permanece inserida no sistema político legal do país.
Paola também contestou a ideia de que a população alemã seja, de maneira geral, altamente instruída ou imune a preconceitos. Ela relatou situações vividas durante sua formação acadêmica, incluindo perguntas que demonstravam desconhecimento sobre a América Latina e a política brasileira.
A experiência pessoal, segundo ela, precisa ser considerada quando se analisa a sociedade alemã. A pesquisadora afirmou que sua condição de mulher brasileira lida como branca pelos padrões locais, casada com um alemão e mãe de filhas nascidas no país, contribuiu para sua integração social. Ela participa da vida escolar das crianças e de atividades comunitárias, circunstâncias que, em sua avaliação, não são igualmente acessíveis a todos os imigrantes.
“Eu venho de um país do Brasil, vamos lá, que é visto como periférico, mas eu sigo determinados padrões dentro da sociedade”, afirmou Paola. A declaração apareceu no contexto de sua explicação sobre os privilégios que favoreceram sua inserção na Alemanha e sobre as diferenças entre sua experiência e a de outros estrangeiros.
A filósofa relatou ainda que, nos últimos anos, passou a perceber com maior clareza manifestações de preconceito e mudanças no comportamento de pessoas de seu convívio. Ela associou essas transformações ao ambiente político e social que observa no país, sem, contudo, apresentar a experiência individual como uma explicação suficiente para todo o fenômeno.
A imigração e a expansão da AfD
Ao discutir o crescimento da extrema direita, Paola destacou a crise migratória de 2015, quando o governo de Angela Merkel recebeu um grande número de refugiados, especialmente da Síria. Segundo a entrevistada, a chegada dessas pessoas expôs dificuldades relacionadas à moradia, à educação e à integração social.
Ela afirmou que parte da população alemã passou a interpretar os benefícios concedidos aos refugiados como uma concorrência pelos recursos públicos. Essa percepção, em sua avaliação, contribuiu para alimentar ressentimentos e foi explorada por forças políticas de direita radical.
A entrevistada também fez uma distinção entre os diferentes grupos de imigrantes que chegaram à Alemanha no pós-guerra. Ela lembrou que trabalhadores turcos, portugueses, espanhóis, italianos e de outras nacionalidades foram convidados a contribuir para a reconstrução do país. Segundo Paola, a integração dessas comunidades ocorreu de maneiras distintas e foi influenciada por fatores culturais, históricos e religiosos.
Ao abordar os imigrantes muçulmanos, a filósofa mencionou preconceitos existentes na sociedade alemã e a percepção de que determinados grupos não teriam se integrado completamente. A fala, entretanto, foi apresentada no contexto de uma análise sobre a forma como o ressentimento social é construído e mobilizado politicamente.
Para Paola, a discussão sobre imigração não pode ser separada das condições econômicas e das expectativas da população. Ela afirmou que parte dos alemães passou a questionar por que trabalhadores que pagam impostos deveriam aceitar que imigrantes recebessem benefícios do Estado.
A pesquisadora relacionou essa reação ao modo como discursos políticos simples podem transformar problemas complexos em explicações imediatas. A extrema direita, em sua avaliação, encontra espaço quando consegue apresentar determinados grupos como responsáveis pelas dificuldades enfrentadas pela população.
O ressentimento como instrumento político
A entrevista estabeleceu uma conexão entre a experiência alemã e a ascensão da extrema direita brasileira. Ao ser questionada sobre quando teria percebido sinais de mudança no Brasil, Paola mencionou o crescimento de figuras como Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro no debate público.
A filósofa afirmou que, inicialmente, não considerava esses personagens uma ameaça política de grande dimensão. A percepção, segundo seu relato, mudou à medida que suas ideias passaram a ocupar espaços mais amplos na sociedade e na política institucional.
“Eu acho que a palavra ressentimento, eu acho que ela cabe nisso”, declarou Paola ao explicar o processo que, em sua análise, favoreceu a mobilização de setores da sociedade brasileira contra o Partido dos Trabalhadores e a esquerda.
Para ela, o discurso da extrema direita brasileira se apoia na ideia de que determinados grupos estariam recebendo benefícios indevidos, enquanto outros seriam privados de oportunidades. A construção desse sentimento, segundo a entrevistada, permite que problemas sociais sejam atribuídos a adversários políticos, em vez de serem discutidos a partir de suas causas econômicas e históricas.
Paola também observou diferenças entre as regiões brasileiras. Na sua avaliação, o Nordeste apresenta uma relação distinta com políticas públicas de inclusão social, especialmente em razão da experiência de governos de esquerda na ampliação do acesso à educação e de programas de transferência de renda.
Ela relacionou essa diferença à percepção de que parte da população nordestina não teria interesse em substituir políticas que produziram mudanças concretas em suas condições de vida por alternativas consideradas incertas. A análise foi apresentada como uma interpretação das diferenças regionais no comportamento eleitoral.
A eleição alemã e o cuidado com as comparações
Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de distinguir o avanço eleitoral da extrema direita em determinadas regiões alemãs de uma tomada geral do poder no país. Paola criticou interpretações que tratam resultados estaduais como se representassem automaticamente uma mudança na direção de toda a Alemanha.
A filósofa explicou que o sistema eleitoral alemão possui características próprias e que a distribuição de cadeiras depende de diferentes mecanismos de votação. Ela destacou que a AfD obteve um resultado expressivo em uma região do leste alemão, mas que isso não significava, por si só, a formação de um governo nacional de extrema direita.
Ao abordar o caso da Saxônia, Paola relacionou o resultado eleitoral à história da antiga Alemanha Oriental. Segundo ela, após a queda do Muro de Berlim, muitas pessoas perderam empregos, status social e perspectivas econômicas, enquanto os investimentos não chegaram à região na proporção esperada.
A entrevistada afirmou que esse processo alimentou um sentimento de desvalorização entre os moradores. A extrema direita, em sua avaliação, aproveitou-se desse ressentimento para apresentar respostas políticas simples a problemas acumulados durante décadas.
Paola explicou que a AfD conseguiu conquistar uma quantidade expressiva de votos, mas não alcançou a maioria absoluta necessária para governar sem alianças. Ela também mencionou a existência de um compromisso informal entre partidos para não formar coalizões com a extrema direita, conhecido como cordão sanitário.
A filósofa ressaltou que o crescimento eleitoral da AfD é motivo de preocupação, mas não deve ser interpretado como uma reprodução automática do nazismo. “Não tem como você comparar o que aconteceu no nazismo há mais de 70 anos atrás com o que tá acontecendo aqui. É totalmente diferente”, afirmou.
A declaração foi apresentada como uma crítica às análises que utilizam o nazismo como referência única para compreender qualquer avanço da extrema direita na Alemanha. Para Paola, embora existam elementos históricos e políticos que mereçam comparação, os contextos precisam ser examinados em suas especificidades.
Ela também criticou a tendência de parte da imprensa brasileira de interpretar acontecimentos alemães sem considerar as particularidades do sistema político e da história do país. Na avaliação da entrevistada, é necessário consultar informações, acompanhar os fatos e evitar conclusões baseadas apenas em comentários ou repasses de terceiros.
Jovens, redes sociais e a disputa política
A participação da juventude na política alemã também foi discutida durante o programa. Paola afirmou que os jovens estão divididos entre diferentes forças políticas e que as redes sociais desempenham um papel importante na formação de suas preferências.
Segundo a filósofa, tanto a esquerda quanto a extrema direita alemã têm conseguido mobilizar setores jovens por meio da comunicação digital. Ela mencionou o partido Die Linke, de esquerda, e a AfD como organizações que disputam esse público.
Paola relatou que seu filho adolescente não demonstra interesse em se aproximar de grupos de extrema direita, mas ponderou que sua experiência familiar não pode ser generalizada para toda a juventude alemã.
A entrevistada também mencionou que partidos tradicionais, como a CDU e o SPD, enfrentam dificuldades para conquistar o apoio de parte dos jovens. Ela descreveu um cenário de divisão entre diferentes forças políticas, com a esquerda, os Verdes e a extrema direita disputando espaço.
A análise foi apresentada como um alerta sobre a importância de compreender os meios pelos quais os jovens recebem informações e formam suas opiniões. Para Paola, a ausência de uma comunicação política capaz de dialogar com esse público favorece o crescimento de organizações que investem mais intensamente nas redes sociais.
O Supremo Tribunal Federal e a disputa política no Brasil
A entrevista também abordou o cenário político brasileiro, especialmente as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Sara Goes questionou Paola sobre o que chamou de crise do STF e sobre os efeitos políticos dos ataques dirigidos à Corte.
A filósofa afirmou que, em sua avaliação, o desgaste da imagem do Supremo pode ser utilizado pela extrema direita para ampliar o ressentimento contra instituições públicas. Segundo ela, o discurso de que o STF seria responsável pelos problemas do país pode funcionar como uma forma de deslocar a insatisfação social para o Judiciário.
Paola também comentou a atuação da Polícia Federal e afirmou que a instituição possui uma trajetória histórica marcada por posições políticas à direita. Ela distinguiu esse passado da atuação atual da corporação, destacando que, em sua avaliação, a Polícia Federal passou a desempenhar um papel mais autônomo na investigação de autoridades.
A entrevistada mencionou ainda as disputas envolvendo ministros do Supremo e setores da Polícia Federal. No entanto, não apresentou elementos suficientes para comprovar as hipóteses levantadas durante a conversa sobre uma eventual interferência externa nas instituições brasileiras.
Ao tratar da política internacional, Paola afirmou que as tentativas de influenciar os rumos do Brasil não são recentes. Para ela, o país precisa compreender a importância da soberania nacional e evitar que interesses estrangeiros determinem suas decisões.
“Ser patriota é realmente ser a favor da soberania nacional”, declarou. A frase sintetizou sua posição sobre o significado do patriotismo e foi apresentada no contexto de uma crítica à ideia de que defender o Brasil seria entregar o país aos interesses de outra potência.
Alemanha, Estados Unidos e a memória da Segunda Guerra
Paola também analisou a relação histórica entre a Alemanha e os Estados Unidos. Ela lembrou que a reconstrução da Alemanha Ocidental no pós-guerra ocorreu em um contexto de dependência econômica e política em relação aos Estados Unidos.
A filósofa afirmou que parte da população alemã mantém uma percepção positiva da atuação norte-americana após a Segunda Guerra Mundial, mas que isso não impede críticas à política externa dos Estados Unidos. Ela mencionou o governo de Donald Trump e afirmou que muitos alemães rejeitam interferências externas em seus assuntos internos.
A entrevistada também questionou a ideia de que os Estados Unidos teriam sido os únicos responsáveis pela derrota do nazismo. Segundo Paola, essa interpretação ignora a participação decisiva da União Soviética na derrota da Alemanha nazista.
Ela explicou que a memória histórica da Segunda Guerra Mundial é influenciada por disputas políticas e por diferentes narrativas nacionais. Na sua avaliação, os interesses estratégicos dos Estados Unidos na Europa também precisam ser considerados ao analisar sua atuação no pós-guerra.
Paola afirmou que a Alemanha ocupou uma posição central nos principais acontecimentos do século XX, incluindo as duas guerras mundiais, a divisão do país e a queda do Muro de Berlim. Para ela, a compreensão desses processos é indispensável para analisar a política alemã contemporânea.
Brasileiros no exterior e a participação eleitoral
A entrevista abordou ainda a participação dos brasileiros residentes na Alemanha nas eleições presidenciais. Paola afirmou que, em 2022, o Presidente Lula venceu em todas as regiões de votação no país, segundo sua observação sobre os resultados daquele pleito.
A filósofa também relatou as dificuldades enfrentadas por brasileiros que precisam viajar longas distâncias para votar. Ela contou que, em uma eleição anterior, chegou a esperar várias horas na fila e que o deslocamento até o local de votação exigia tempo e recursos financeiros.
Paola afirmou que muitos brasileiros residentes no exterior mantêm vínculos com o país de origem e acompanham as disputas políticas brasileiras. Ela criticou o que chamou de “viralatação”, expressão utilizada para descrever a postura de pessoas que passam a viver na Europa e deixam de se reconhecer como brasileiras.
A entrevistada declarou que, apesar de viver na Alemanha e ter filhas nascidas no país, continua se identificando como cearense. “Eu sou cearense. Eu não consigo me desvincular dessa imagem”, afirmou.
A discussão sobre identidade também levou Paola a falar sobre o Nordeste. Ela destacou a importância da experiência histórica da região e afirmou que os estados nordestinos compartilham uma trajetória de exclusão e desigualdade.
Segundo a filósofa, esse passado contribuiu para a formação de uma identidade regional que não se confunde com a identidade nacional. Ela lembrou que, durante sua infância, o Nordeste era frequentemente tratado como uma região apartada do restante do Brasil.
A entrevistada também criticou o preconceito linguístico contra os nordestinos. Ao comentar sua formação em Letras, mencionou a relação entre o português falado no Ceará e o galego, língua tradicional da Galícia, na Espanha.
Paola contou que, durante uma viagem à Galícia, conseguiu compreender grande parte do que as pessoas diziam. A experiência, segundo ela, mostrou que algumas peculiaridades linguísticas do Ceará possuem relações históricas com variedades do português e com o galego.
Críticas a Ciro Gomes e a disputa política no Ceará
Na parte final da entrevista, Sara Goes pediu que Paola comentasse a trajetória política de Ciro Gomes. A filósofa fez críticas à atuação do político cearense e afirmou que, em sua avaliação, ele deixou de contribuir para o estado e para o país.
Paola mencionou a decisão de Ciro Gomes de não apoiar Lula no segundo turno das eleições de 2022 e afirmou que o episódio marcou sua percepção sobre a trajetória política do ex-ministro. Ela também criticou a postura de Ciro em relação à composição partidária e à construção de alianças.
A entrevistada afirmou que a política exige capacidade de diálogo, negociação e disposição para lidar com divergências. Segundo ela, Ciro não teria conseguido desenvolver uma relação saudável com os partidos dos quais participou.
“Ele nunca conseguiu fazer isso. Ele nunca, assim, uma pessoa da idade dele que nunca conseguiu compor um partido de maneira saudável, é, é um sinal”, declarou.
A crítica foi apresentada como uma avaliação pessoal da entrevistada sobre a trajetória política de Ciro Gomes. Paola também afirmou que está envolvida em atividades de apoio a candidaturas de esquerda no Ceará e que pretende continuar acompanhando as disputas eleitorais no estado.
Ao encerrar a entrevista, a filósofa reiterou sua preocupação com o avanço da extrema direita e com a necessidade de compreender os processos históricos que favorecem sua expansão. A conversa também reforçou a importância de analisar as relações entre política nacional, disputas internacionais e experiências sociais concretas.
A participação de Paola Jochimsen no Democracia no Ar apresentou uma leitura que combina experiência pessoal, formação filosófica e observação da política alemã. Ao longo da entrevista, a pesquisadora defendeu que a compreensão dos fenômenos políticos exige atenção às particularidades históricas e sociais de cada país, além de cuidado com interpretações baseadas em generalizações.
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