Da Redação
A nova rodada de sanções anunciada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, escancara mais uma vez a lógica histórica da política externa norte-americana para a América Latina: sufocar economicamente qualquer país que tente preservar algum grau de autonomia diante de Washington. Ao afirmar publicamente que “o governo Trump não ficará parado enquanto o regime comunista cubano ameaça nossa segurança nacional no hemisfério”, Rubio recicla uma retórica típica da Guerra Fria para justificar medidas coercitivas contra Cuba.
As novas sanções atingem entidades econômicas estratégicas da ilha. Na prática, trata-se de mais um capítulo de uma política de bloqueio que dura mais de seis décadas e que já foi amplamente denunciada internacionalmente como uma forma de punição coletiva contra a população cubana.
O discurso de “ameaça à segurança nacional” soa particularmente absurdo quando aplicado a um pequeno país insular submetido a embargo econômico, financeiro e tecnológico desde os anos 1960. A insistência dos EUA em tratar Cuba como risco hemisférico revela menos uma preocupação real com segurança e muito mais uma obsessão geopolítica em impedir experiências políticas independentes no quintal estratégico de Washington.
A fala de Rubio também precisa ser compreendida dentro do atual contexto de reorganização da extrema-direita global e do endurecimento do trumpismo em política externa. O governo de Donald Trump tem retomado uma diplomacia baseada em coerção econômica, guerra híbrida, sanções unilaterais e pressão permanente sobre países considerados desalinhados aos interesses estratégicos norte-americanos. Cuba aparece novamente como alvo simbólico e operacional dessa lógica.
Existe ainda uma dimensão profundamente econômica nessa ofensiva. As sanções não atingem apenas o governo cubano. Elas atingem cadeias produtivas, turismo, importações, acesso a crédito, circulação financeira e capacidade de investimento. Em outras palavras, aprofundam deliberadamente dificuldades sociais para produzir desgaste interno e instabilidade política. É a velha fórmula da asfixia econômica convertida em instrumento de engenharia política.
O mais contraditório é que os Estados Unidos seguem defendendo “liberdade” e “democracia” enquanto aplicam medidas extraterritoriais que tentam impedir até que terceiros países mantenham relações normais com Cuba. Trata-se de uma política amplamente condenada pela comunidade internacional. Ano após ano, a Assembleia Geral da ONU vota quase unanimemente contra o embargo norte-americano. Ainda assim, Washington mantém o bloqueio como instrumento central de pressão geopolítica.
A retórica utilizada por Rubio também dialoga diretamente com a disputa ideológica hemisférica. Ao insistir no fantasma do “comunismo” em 2026, o trumpismo tenta reconstruir uma narrativa mobilizadora para setores conservadores da Flórida e da diáspora cubana anticastrista, transformando Cuba novamente em peça simbólica de guerra cultural continental.
Mas existe algo ainda mais profundo em jogo: soberania. Cuba representa, para setores estratégicos de Washington, um exemplo histórico perigoso de resistência prolongada à submissão total aos interesses norte-americanos. Independentemente das críticas internas legítimas ao regime cubano, o que incomoda estruturalmente os EUA é a persistência de um país que, mesmo sob bloqueio brutal, insiste em manter autonomia política e diplomática.
No fundo, as sanções anunciadas por Rubio revelam menos força do que ansiedade geopolítica. Em um mundo cada vez mais multipolar, com fortalecimento de alianças alternativas e crescente desgaste da hegemonia unilateral dos EUA, Washington parece recorrer novamente às ferramentas clássicas de coerção econômica para tentar preservar sua influência histórica sobre a América Latina e o Caribe.






