Construções históricas do Açude Cedro deverão receber empresas de tecnologia, museu interativo de arte digital e atividades científicas; projeto avança após dois anos de negociações entre UFC e Dnocs
Da Redação
Galpões construídos no século XIX para dar suporte às obras do Açude Cedro, em Quixadá, deverão ganhar uma nova função mais de um século depois. A Universidade Federal do Ceará (UFC) pretende transformar as edificações históricas em um complexo dedicado à tecnologia, inovação, cultura e empreendedorismo, aproveitando a consolidação do município como um dos principais centros de formação em Tecnologia da Informação e Comunicação do interior cearense.
Segundo informações publicadas neste domingo (17) pelo O POVO, o projeto avançou após dois anos de negociações para que o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) ceda os imóveis à universidade. As construções pertencem ao conjunto histórico do Açude Cedro e são protegidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Tecnologia ocupará construções do século XIX
Os galpões de pedra foram erguidos entre 1890 e 1906 e serviram como estruturas de apoio e usina durante a construção do Açude Cedro. A obra havia sido autorizada ainda durante o Império, por Dom Pedro II, e tornou-se uma referência da política de enfrentamento às secas no Nordeste.
O projeto da UFC prevê restaurar as edificações e adaptar os espaços às novas atividades sem descaracterizar o patrimônio histórico. O galpão principal possui aproximadamente 400 metros quadrados e deverá receber um espaço cultural interativo dedicado à arte digital e à cultura regional.
O complexo também deverá contar com experiências imersivas sobre a construção do Açude Cedro, simulações relacionadas aos monólitos característicos da paisagem de Quixadá e recriações inspiradas na obra da escritora cearense Rachel de Queiroz. Um auditório receberá atividades científicas, culturais e de formação.
Empresas de tecnologia terão espaço no complexo
Uma parte considerável do projeto será destinada diretamente ao setor tecnológico. O conjunto de oito pequenas casas existentes na área, com aproximadamente 600 metros quadrados, e um anexo de cerca de 168 metros quadrados deverão receber empresas e empreendimentos de Tecnologia da Informação e Comunicação.
A ocupação ficará sob responsabilidade do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo do Campus da UFC em Quixadá, o Inove, integrado ao Parque Tecnológico da universidade. A proposta busca aproximar estudantes e pesquisadores das empresas e estimular a criação de novos negócios tecnológicos no Sertão Central.
Também estão previstas áreas de alimentação, praça, estacionamento e espaços reservados para futuras ampliações. A proximidade com o Açude Cedro deverá permitir que o complexo dialogue com o turismo, uma das atividades econômicas importantes de Quixadá.
Quixadá já construiu vocação para tecnologia
A criação do polo aproveita uma transformação iniciada há duas décadas. O Campus da UFC em Quixadá foi criado em 2006 e inaugurado no ano seguinte com uma proposta acadêmica concentrada em Tecnologia da Informação e Comunicação.
Desde então, a presença da universidade contribuiu para formar profissionais, pesquisadores e empresas no município. Atualmente, o campus oferece oito graduações na área tecnológica: Ciência da Computação, Design Digital, Engenharia de Computação, Engenharia de Software, Redes de Computadores, Sistemas de Informação, Inteligência Artificial e Cibersegurança. Há também pós-graduação em Computação.
A formação especializada permite inclusive que profissionais permaneçam no Sertão Central trabalhando remotamente para empresas localizadas em outras regiões do Brasil e no exterior. Estudos acadêmicos realizados pela própria UFC já identificaram essa capacidade da tecnologia de gerar empregos sem exigir necessariamente a migração dos profissionais para grandes centros urbanos.
Projeto pode aproximar universidade, empresas e turismo
A expectativa da UFC é que o novo complexo amplie o ambiente de inovação existente em Quixadá e ajude a atrair pesquisadores, estudantes, investimentos e empresas. A universidade pretende utilizar a localização junto ao Açude Cedro para integrar as atividades tecnológicas à cultura e ao turismo.
A proposta também cria uma possibilidade pouco comum de reutilização do patrimônio histórico. Em vez de manter as construções exclusivamente como espaços de visitação, o projeto prevê ocupação permanente por atividades acadêmicas, culturais e empresariais.
O secretário de Assuntos Federativos do Governo Federal, Ilário Marques, participou das articulações para a cessão e informou que o Dnocs deu sinalização positiva ao projeto. Uma reunião de alinhamento reuniu o diretor-geral do departamento, Fernando Leão, o reitor da UFC, Custódio Almeida, a diretora do campus de Quixadá, Andréia Libório, e servidores das duas instituições.
Cessão ainda precisa ser formalizada
Apesar do avanço das negociações, a implantação ainda depende da conclusão de etapas administrativas. O processo de cessão dos imóveis permanece em tramitação no Dnocs e será necessário elaborar o projeto executivo antes do início das intervenções.
A UFC informou que o valor necessário para restaurar e adaptar as edificações, as fontes de financiamento e o cronograma das obras serão definidos após a formalização do acordo. Como o conjunto é tombado pelo Iphan desde 1977, as intervenções também deverão respeitar as normas de preservação do patrimônio.
As construções já abrigaram o Museu do Açude, posteriormente transferido para Fortaleza, e funcionaram como base operacional do Dnocs. Sem utilização regular nos últimos anos, poderão agora receber uma atividade relacionada a uma vocação que Quixadá desenvolveu mais de um século depois de sua construção: a formação e produção de tecnologia.
