Organização criada por Julian Assange publicou milhões de documentos sobre conflitos, espionagem e diplomacia; duas décadas depois, caso ainda influencia debate sobre sigilo de Estado e liberdade de imprensa
Da Redação
Vinte anos depois do registro do domínio WikiLeaks.org, o projeto criado por Julian Assange permanece como um dos experimentos jornalísticos mais controversos da era da internet. Suas publicações revelaram documentos militares, operações de inteligência e comunicações diplomáticas que governos pretendiam manter em segredo, ao mesmo tempo em que provocaram disputas sobre proteção de fontes, segurança nacional e os limites legais impostos a quem publica informações classificadas.
Em 4 de outubro de 2006, o domínio WikiLeaks.org foi registrado. Naquele momento, ainda não existia o fenômeno internacional que alguns anos depois colocaria documentos secretos de governos, Forças Armadas, serviços de inteligência, bancos e empresas ao alcance de qualquer pessoa conectada à internet. A proposta era criar uma estrutura capaz de receber informações de denunciantes de forma protegida e publicar documentos originais para que o público pudesse examiná-los diretamente. WikiLeaks
A primeira publicação registrada na cronologia da organização ocorreu em dezembro de 2006. Nos anos seguintes, apareceram documentos sobre a prisão de Guantánamo, relatórios corporativos, materiais de serviços de segurança e arquivos relacionados a conflitos internacionais. Mas foi em 2010 que o WikiLeaks passou definitivamente de uma organização conhecida em círculos de ativismo digital para um ator central do debate político e jornalístico mundial. WikiLeaks
Em abril daquele ano, o site divulgou o vídeo que chamou de “Collateral Murder”. As imagens haviam sido registradas em 2007 pela câmera de um helicóptero Apache das Forças Armadas dos Estados Unidos durante uma operação em Bagdá. O ataque matou cerca de uma dúzia de pessoas, entre elas dois funcionários da agência Reuters. A gravação mostrou o ataque a partir da própria perspectiva dos militares que disparavam. Reuters
Poucos meses depois vieram os chamados Afghan War Diaries, com mais de 91 mil documentos militares sobre a guerra no Afeganistão. Em outubro de 2010, o WikiLeaks publicou cerca de 391 mil relatórios militares referentes à guerra e à ocupação do Iraque. Os arquivos permitiram reconstruir milhares de ocorrências envolvendo mortes de civis, detenções, operações militares e denúncias de abusos que não haviam sido conhecidas pelo público com aquele nível de detalhamento. WikiLeaks
No fim do mesmo ano começou o Cablegate, publicação de aproximadamente 250 mil telegramas diplomáticos norte-americanos. Os documentos expuseram avaliações reservadas feitas por diplomatas sobre governos aliados e adversários, negociações internacionais, conflitos regionais e relações entre Washington e dezenas de países. Jornais como The Guardian, The New York Times, Le Monde, Der Spiegel e El País trabalharam inicialmente em parceria com o WikiLeaks para analisar parte do material. Reuters
O método alterava uma relação tradicional do jornalismo com os documentos vazados. Em vez de apenas publicar reportagens baseadas em fontes confidenciais, o WikiLeaks colocava grandes bases documentais à disposição do público e de outras redações. A escala era inédita. Em sua retrospectiva de dez anos, a própria organização afirmava ter publicado mais de 10 milhões de documentos até 2016. WikiLeaks
De Guantánamo à espionagem de aliados
As divulgações continuaram nos anos seguintes. Em 2011, o WikiLeaks publicou arquivos relacionados a 767 dos 779 presos que haviam passado pela prisão norte-americana de Guantánamo. Em 2012 vieram milhões de mensagens internas da empresa privada de inteligência Stratfor. Outros documentos trataram da indústria internacional de vigilância e das estruturas utilizadas por governos e empresas para monitorar comunicações. WikiLeaks
Em 2015, documentos divulgados pelo WikiLeaks mostraram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos havia monitorado comunicações de autoridades francesas, inclusive dos presidentes Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande. Outros materiais indicaram espionagem econômica e acompanhamento de empresas e autoridades de países aliados. WikiLeaks
Dois anos depois surgiu o Vault 7, uma grande coleção de documentos internos atribuídos à CIA. Os arquivos descreviam ferramentas e métodos empregados para comprometer computadores, smartphones e outros dispositivos eletrônicos. Entre os equipamentos mencionados estavam aparelhos com Android e iOS, computadores Windows e até televisores inteligentes que poderiam ser transformados em instrumentos de monitoramento. Especialistas independentes consultados à época consideraram autênticos pelo menos parte dos documentos. Gadgets 360
Essa sucessão de publicações transformou o WikiLeaks em objeto simultâneo de admiração e hostilidade. Seus defensores passaram a tratá-lo como uma infraestrutura destinada a ampliar a capacidade de jornalistas e denunciantes de fiscalizar estruturas de poder. Governos, sobretudo o norte-americano, argumentaram que determinadas publicações poderiam colocar pessoas em risco e prejudicar operações de segurança nacional. Reuters
A própria trajetória da organização contém episódios que alimentaram esse debate. Em 2011, o WikiLeaks publicou integralmente um arquivo contendo mais de 250 mil telegramas diplomáticos sem as supressões anteriormente feitas para proteger pessoas mencionadas nos documentos. Antigos parceiros jornalísticos, entre eles The Guardian, The New York Times, Le Monde, El País e Der Spiegel, condenaram a decisão e afirmaram que informações não editadas poderiam colocar fontes em risco. The Guardian
Outro capítulo particularmente controverso ocorreu durante a eleição presidencial norte-americana de 2016, quando o WikiLeaks publicou dezenas de milhares de mensagens roubadas do Partido Democrata e da conta de John Podesta, chefe da campanha de Hillary Clinton. Posteriormente, a investigação conduzida pelo procurador especial Robert Mueller atribuiu a invasão dos sistemas democratas à inteligência militar russa e afirmou que o WikiLeaks publicou os documentos obtidos pelos invasores. Assange e a organização negaram que o governo russo fosse sua fonte. Departamento de Justiça
O confronto que terminou na prisão de Assange
A história do WikiLeaks acabou se confundindo progressivamente com a própria trajetória de Julian Assange. Em 2012, o australiano entrou na Embaixada do Equador em Londres e recebeu asilo político. Permaneceu no edifício durante quase sete anos. Em abril de 2019, depois que o governo equatoriano retirou sua proteção, a polícia britânica entrou na embaixada e o prendeu. AP News
Assange foi levado para a prisão de segurança máxima de Belmarsh, onde permaneceria por mais de cinco anos enquanto os Estados Unidos buscavam sua extradição. Washington apresentou acusações relacionadas à obtenção e divulgação de documentos militares e diplomáticos classificados. Pela primeira vez, a Lei de Espionagem norte-americana estava sendo usada dessa maneira contra alguém cuja atividade envolvia publicação de informações recebidas de uma fonte. Reuters
O processo gerou preocupação entre entidades de defesa da liberdade de imprensa porque práticas mencionadas na acusação — receber documentos confidenciais, manter contato com uma fonte e publicar material de interesse público — também fazem parte do trabalho cotidiano de jornalistas investigativos.
Em junho de 2024, a longa disputa terminou com um acordo. Assange aceitou declarar-se culpado de uma acusação de conspiração para obter e divulgar informações classificadas relacionadas à defesa nacional. Uma corte norte-americana nas Ilhas Marianas do Norte aplicou uma pena de 62 meses, correspondente ao período que ele já havia permanecido preso na Grã-Bretanha. O acordo permitiu que deixasse imediatamente o tribunal e retornasse à Austrália. Departamento de Justiça
Poucos meses depois, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa aprovou uma resolução que classificou como desproporcionais a prisão e a acusação movida contra Assange e afirmou que sua condenação poderia produzir um efeito intimidatório sobre jornalistas. O órgão considerou que sua situação atendia aos critérios utilizados para definir um preso político e pediu maior proteção jurídica para jornalistas e denunciantes que revelem informações de interesse público. Parlamento Europeu
A resolução também estabeleceu uma distinção relevante para a história do caso. Não declarou que toda publicação feita pelo WikiLeaks estivesse acima de críticas ou responsabilidades, mas afirmou que criminalizar atividades essenciais de obtenção e publicação de informações poderia produzir consequências para o jornalismo como um todo. Parlamento Europeu
Vinte anos depois, a questão permanece
O aniversário ocorre num momento em que Assange começa novamente a aparecer publicamente. Em setembro, depois de um longo período de silêncio em suas próprias redes, publicou a frase “I’m back” acompanhando uma fotografia feita em Sydney. Sua esposa, Stella Assange, também confirmou o retorno da conta pessoal do fundador do WikiLeaks. Swissinfo
A dimensão histórica do WikiLeaks, entretanto, vai além da situação pessoal de seu fundador. A organização surgiu num período em que grandes volumes de informações governamentais estavam começando a ser digitalizados. A combinação entre documentos eletrônicos, criptografia, redes de anonimato e publicação global permitiu que um único denunciante retirasse de uma instituição volumes de informação que, décadas antes, exigiriam caminhões de papel.
Esse modelo transformou também a própria lógica do segredo. Os Pentagon Papers, publicados durante a Guerra do Vietnã, tinham cerca de milhares de páginas. Quatro décadas depois, Chelsea Manning conseguiu copiar centenas de milhares de registros militares e diplomáticos que seriam posteriormente disponibilizados pelo WikiLeaks. The Guardian
O dilema colocado por aquela mudança tecnológica permanece atual. Estados continuam classificando enormes quantidades de documentos. Serviços de inteligência ampliaram suas capacidades digitais. Sistemas governamentais passaram a armazenar volumes cada vez maiores de informações. Ao mesmo tempo, ferramentas de criptografia, plataformas de denúncia e novas formas de jornalismo de dados tornaram mais difícil garantir que segredos permaneçam confinados às instituições que os produziram.
É nesse terreno que os 20 anos do WikiLeaks ganham significado maior do que uma simples comemoração de aniversário. A organização revelou informações cuja publicação produziu consequências diplomáticas, militares e políticas concretas; cometeu decisões editoriais que foram duramente criticadas; tornou-se parte de uma disputa eleitoral nos Estados Unidos; e viu seu fundador passar anos privado de liberdade antes de resolver o processo norte-americano por meio de um acordo judicial.
Mas o problema que deu origem ao projeto continua intacto: quem controla as informações produzidas pelo poder e quem decide quando o interesse público é suficiente para romper o segredo?
Duas décadas depois do registro de seu domínio, essa pergunta ainda está longe de receber uma resposta definitiva.
