Atitude Popular

“O estudante não está perdendo aula, está ganhando dignidade”, diz Alberto Mendes sobre greve nas universidades

Historiador e militante sindical afirma que paralisação nas universidades do Rio de Janeiro é reação ao arrocho salarial, à precarização do serviço público e ao avanço do neoliberalismo

Durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibido em 6 de maio e apresentado por Luiz Regadas, o historiador e militante sindical Alberto Mendes analisou a greve nas universidades do Rio de Janeiro e relacionou o movimento à deterioração histórica das condições de trabalho no ensino público superior. Segundo ele, a paralisação representa não apenas uma reivindicação salarial, mas também uma reação política contra o que classificou como “asfixia neoliberal” das universidades públicas brasileiras.

Alberto Mendes, que atua na militância sindical da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirmou que os trabalhadores da UERJ acumulam perdas salariais superiores a 50% ao longo dos últimos anos. Ele lembrou que a universidade ficou mais de uma década sem realizar uma greve ampla, em parte pelos efeitos da pandemia, mas também pela fragmentação política provocada pelo desgaste contínuo das condições de trabalho.

“A universidade pública e os servidores públicos vêm sofrendo um ataque direto do sistema neoliberal”, afirmou. Para o historiador, o neoliberalismo atua como uma etapa mais agressiva do capitalismo contemporâneo, marcada pela retirada de direitos trabalhistas, pela compressão salarial e pela tentativa de enfraquecimento das organizações sindicais.

Segundo Alberto, a greve alcançou um “patamar muito bom” tanto na UERJ quanto em universidades federais organizadas pela Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil, a Fasubra. Ele destacou que o movimento já obteve avanços nas negociações e conseguiu abrir canais institucionais de diálogo com o governo estadual.

Ao longo da entrevista, o sindicalista relembrou a crise financeira que atingiu o Rio de Janeiro em 2017, quando servidores chegaram a passar meses sem receber salários. “Nós precisamos vender coisas que tínhamos para sobreviver”, relatou. Segundo ele, a solidariedade popular naquele período foi decisiva para a manutenção da mobilização.

A precarização das universidades públicas, segundo Alberto Mendes, interessa diretamente a setores políticos e econômicos comprometidos com a privatização dos serviços públicos. Ele afirmou que a estratégia neoliberal consiste em desmontar gradualmente as estruturas estatais para justificar posteriormente sua substituição por modelos privados.

“O projeto neoliberal busca sufocar e acabar com o que tem de melhor no serviço público”, declarou.

Durante a conversa, Luiz Regadas questionou a narrativa frequentemente difundida sobre os chamados “marajás” do funcionalismo público. Alberto rebateu dizendo que a propaganda política e midiática cria a falsa percepção de que todos os servidores possuem altos salários, quando a realidade da maioria dos trabalhadores das universidades é marcada por perdas salariais acumuladas e dificuldade econômica.

“Eles convencem muita gente que todos ganham igual a eles, e não é verdade”, afirmou.

O entrevistado também ressaltou que a greve possui apoio expressivo do movimento estudantil. Segundo ele, estudantes têm participado das assembleias e compreendido que a deterioração das condições de trabalho impacta diretamente a qualidade da formação acadêmica.

“O estudante não está perdendo aula. O estudante está ganhando dignidade”, afirmou.

A entrevista também abordou a situação fiscal do Rio de Janeiro. Alberto Mendes comentou a decisão do Presidente Lula de autorizar a adesão do estado ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag, permitindo a saída do regime de recuperação fiscal. Para ele, a medida amplia a margem de negociação do governo estadual com os servidores públicos.

O sindicalista destacou ainda a expectativa em torno do julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre a distribuição dos royalties do petróleo. Segundo ele, uma eventual ampliação da arrecadação do Rio de Janeiro poderia fortalecer financeiramente o estado e abrir espaço para avanços nas negociações salariais.

Ao analisar a conjuntura nacional, Alberto Mendes afirmou que o capitalismo brasileiro mantém uma relação histórica de dependência internacional e argumentou que governos neoliberais aprofundaram esse processo ao longo das últimas décadas. Apesar das críticas, ele avaliou que o governo do Presidente Lula tenta ampliar a autonomia econômica do Brasil por meio da aproximação com os BRICS e da diversificação das relações internacionais.

“O governo Lula busca uma independência em relação à economia mundial, embora ainda esteja dentro dos marcos do capitalismo neoliberal”, disse.

A entrevista também entrou no debate sobre soberania nacional, mineração estratégica e disputa geopolítica internacional. Questionado sobre possíveis pressões dos Estados Unidos sobre os recursos minerais brasileiros, Alberto classificou o governo de Donald Trump como “decadente” e afirmou que o Brasil precisa equilibrar relações internacionais sem abrir mão da soberania.

Segundo ele, há dentro do governo brasileiro uma disputa entre setores mais alinhados à lógica entreguista e correntes que defendem um projeto democrático popular de desenvolvimento.

No encerramento da entrevista, Alberto Mendes defendeu mecanismos de gestão participativa nas universidades públicas, incluindo orçamento participativo, descentralização das decisões administrativas e maior transparência sobre os recursos públicos.

“Quanto mais transparência a gente tem, menos as pessoas vão conseguir meter a mão no dinheiro”, afirmou.

A conversa terminou com um chamado à mobilização popular em defesa das universidades públicas, dos serviços estatais e da valorização dos trabalhadores da educação.

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