Em entrevista ao Café com Democracia, advogada e coordenadora do Setorial Inter-religioso do PT de Fortaleza critica o uso eleitoral da religião, alerta para a intolerância contra comunidades de matriz africana e defende políticas públicas que respeitem a diversidade religiosa e a população sem religião
A defesa da laicidade do Estado e o combate à instrumentalização política da fé foram os eixos da entrevista concedida pela advogada Thaís Gonçalves, coordenadora do Setorial Inter-religioso do PT de Fortaleza, ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. Na conversa com o apresentador Luiz Regadas, exibida na quarta-feira, 21 de outubro, a convidada argumentou que o diálogo entre diferentes tradições religiosas é uma condição para o fortalecimento da democracia e para a construção de políticas públicas que respeitem a diversidade da sociedade brasileira.
Ao longo da entrevista, Thaís criticou a utilização de convicções religiosas como instrumento de disputa eleitoral e chamou a atenção para a invisibilidade de comunidades muçulmanas, espíritas e de povos de terreiro e de matriz africana no debate público. Para ela, a polarização política tem estimulado a apresentação de determinadas crenças como verdades absolutas, em prejuízo da liberdade religiosa e da convivência democrática.
“A laicidade, ela é a guardiã de todas as fés”, afirmou a advogada ao sintetizar sua posição. A declaração expressa o argumento central desenvolvido durante o programa: um Estado laico não precisa eliminar a presença das religiões na sociedade, mas deve assegurar que nenhuma delas seja privilegiada na definição dos direitos e das políticas públicas.
A fé como instrumento de disputa eleitoral
Thaís avaliou que a utilização da religião na campanha eleitoral ganhou maior visibilidade a partir de 2018, quando, segundo sua análise, a fé cristã passou a ser mobilizada de maneira mais sistemática em disputas por votos e em projetos de poder.
A advogada reconheceu que a participação política de pessoas religiosas e a presença de candidatos ligados a igrejas são anteriores a esse período. Sua crítica se dirige à transformação da identidade religiosa em critério para estabelecer quem representa os valores legítimos da sociedade brasileira, como se outras crenças não tivessem o mesmo direito de participação.
“Essas crenças não podem ser invisibilizadas”, afirmou, ao destacar a diversidade religiosa do país. Para ela, a concentração do debate eleitoral nas disputas entre católicos e evangélicos deixa em segundo plano outras comunidades que também integram a vida social e política brasileira.
Durante a entrevista, Thaís comentou a declaração atribuída ao candidato Flávio Bolsonaro de que sua primeira medida seria decretar o Brasil como país do Senhor Jesus. Na avaliação da advogada, esse tipo de proposta pode alimentar a percepção de que uma determinada expressão religiosa deve prevalecer sobre as demais, especialmente em um ambiente eleitoral marcado pela polarização.
Ela ressaltou que o Brasil possui uma formação cultural influenciada por diferentes tradições e que a presença histórica do catolicismo não transforma o país em uma sociedade de religião única. A diversidade religiosa inclui comunidades cristãs de diferentes denominações, religiões de matriz africana, islamismo, espiritismo e pessoas que não professam nenhuma fé.
A convidada também relacionou a intensificação de discursos religiosos excludentes a episódios de violência contra símbolos e espaços de culto. Ao mencionar ataques a igrejas e a quebra de imagens religiosas, alertou para os riscos de uma disputa em que a afirmação de uma crença seja acompanhada pelo desrespeito às demais.
Para Thaís, a liberdade de professar uma religião não concede a ninguém o direito de desqualificar ou agredir quem segue outra tradição. A democracia depende do reconhecimento de que diferentes convicções podem coexistir sob as mesmas garantias legais.
Laicidade não significa afastar as religiões da vida pública
Um dos pontos enfatizados pela advogada foi a distinção entre a defesa do Estado laico e a tentativa de excluir as religiões do espaço público.
Thaís argumentou que as convicções religiosas fazem parte da identidade de muitos brasileiros e influenciam suas experiências sociais, culturais e políticas. Por isso, o diálogo inter-religioso deve considerar essa realidade sem permitir que uma crença determine as regras aplicáveis a toda a população.
“A gente cresceu dentro de um país ouvindo que política e religião não se misturam. Mas, na verdade, as nossas convicções pessoais não precisam estar distantes da política”, afirmou. Em seguida, estabeleceu o limite que considera essencial para a convivência democrática: “O que não pode é que aquilo que a gente crê determine o que deve ser correto ou não dentro de um país”.
A distinção é importante porque a laicidade não exige que pessoas religiosas abandonem suas convicções ao participar da vida política. O princípio impede que o Estado adote uma religião oficial ou transforme as crenças particulares de determinados grupos em obrigação para os demais cidadãos.
Na entrevista, Thaís defendeu que as políticas públicas sejam formuladas a partir das necessidades da população, sem discriminação por identidade religiosa ou ausência de religião. Uma pessoa pode defender suas convicções pessoais, mas o acesso a direitos não deve depender da concordância de terceiros com essas crenças.
A advogada também observou que a laicidade prevista na Constituição Federal precisa ser efetivada nas instituições e nas decisões judiciais. Embora reconheça avanços na proteção da liberdade religiosa, avaliou que ainda há dificuldades para garantir esse princípio em situações concretas de intolerância.
Setorial inter-religioso busca construir pontes entre diferentes comunidades
Como coordenadora do Setorial Inter-religioso do PT de Fortaleza, Thaís explicou que o trabalho do grupo está voltado à articulação política entre pessoas de diferentes crenças e também entre aquelas que não professam uma religião.
A proposta, segundo ela, não é promover uma tradição religiosa específica nem convencer os participantes a aderir a determinada fé. O objetivo é criar espaços de diálogo sobre a democracia, a intolerância religiosa e as demandas sociais presentes nas comunidades.
Ao descrever a experiência do setorial, a advogada citou uma frase de uma integrante do grupo, Socorro Carvalho: “A gente conversa sobre tudo, menos sobre religião”. A afirmação foi apresentada como uma maneira de explicar que o trabalho conjunto não exige uniformidade de crenças nem a discussão de uma religião como verdade absoluta.
A partir dessa perspectiva, o diálogo se concentra em questões que podem mobilizar pessoas com experiências distintas, como o acesso à saúde, à educação, a proteção social e o respeito à dignidade humana.
Thaís relatou que o grupo realizou um seminário em maio com participantes de diferentes tradições e posições filosóficas. Entre os convidados citados estavam o psiquiatra Walton de Miranda, que se identifica como ateu; representantes de comunidades de terreiro; o pastor Felipe Gibran; Lídia Valesca, ligada ao coletivo Giraçóis e à tradição espírita; e o cantor e compositor Zé Vicente.
A diversidade dos participantes, explicou, foi importante para demonstrar que o debate democrático pode reunir pessoas com convicções diferentes em torno de preocupações comuns.
A advogada também mencionou atividades em outros estados, incluindo encontros relacionados à ancestralidade e à cultura dos povos de terreiro. Como integrante da coordenação regional Nordeste do movimento Brasil Laico, afirmou que participa de iniciativas voltadas à defesa do direito à crença e da laicidade estatal.
Durante o período eleitoral, o setorial intensificou o contato com comunidades católicas, evangélicas, muçulmanas e de matriz africana. O trabalho, segundo Thaís, busca ampliar a participação desses grupos na discussão política e evitar que o diálogo seja restrito às comunidades religiosas com maior presença no debate público.
Comunidades invisibilizadas também fazem parte da democracia
Thaís chamou a atenção para o fato de que a disputa política entre setores católicos e evangélicos pode reduzir ainda mais a visibilidade de outras tradições religiosas.
Ao comentar os dados do Censo Demográfico de 2022, ela observou que as mudanças na composição religiosa do país precisam ser analisadas com cuidado. A advogada também levantou a possibilidade de subnotificação de pessoas ligadas às religiões de matriz africana, em razão do preconceito e do receio de declarar publicamente sua identidade religiosa.
Para ela, a liberdade de crença precisa ser garantida a todas as comunidades, independentemente de sua dimensão numérica ou influência política.
A entrevistada mencionou a recorrência de invasões, destruição de espaços de culto e outras formas de violência contra terreiros. Esses episódios, argumentou, demonstram que a intolerância religiosa não se distribui de maneira uniforme e atinge de modo particular grupos historicamente discriminados.
Thaís citou ainda um dado apresentado durante o programa: segundo sua fala, 91% dos casos de intolerância religiosa mencionados no debate atingiriam religiões de matriz africana. O percentual foi atribuído à discussão sobre o tema, sem detalhamento da base estatística durante a transmissão.
A advogada defendeu que o enfrentamento dessa realidade exige a presença do poder público nos territórios, o reconhecimento das demandas das comunidades e a aplicação dos mecanismos legais de proteção.
Ela também destacou a importância do protocolo de julgamento com perspectiva racial do Conselho Nacional de Justiça, mencionado na entrevista como uma iniciativa que contempla questões relacionadas à intolerância religiosa. Para Thaís, instrumentos institucionais desse tipo podem contribuir para que as violações sejam examinadas considerando o contexto de discriminação em que ocorrem.
Políticas públicas não podem depender da religião de cada cidadão
A defesa de políticas públicas universais foi outro ponto central da entrevista. Thaís argumentou que o Estado deve ouvir as necessidades das comunidades sem condicionar o atendimento à religião de seus integrantes.
Ela relatou que o setorial apresentou 13 propostas voltadas às comunidades de fé e às pessoas sem religião para contribuir com o programa de governo de Elmano de Freitas, governador reeleito do Ceará. Segundo a advogada, as sugestões não tinham caráter de proselitismo religioso nem buscavam favorecer uma tradição específica.
A ideia, explicou, é identificar problemas concretos nos territórios e formular respostas que atendam a todos. Uma comunidade pode reivindicar uma escola ou um posto de saúde, por exemplo, sem que a solução dependa da identidade religiosa de quem apresenta a demanda.
“São políticas públicas”, resumiu Thaís ao explicar a natureza das propostas. A participação das comunidades religiosas, nessa perspectiva, pode ajudar o poder público a conhecer necessidades locais e desenvolver ações mais adequadas, desde que seja preservada a igualdade entre os cidadãos.
A advogada afirmou que a presença do Estado nesses espaços não deve servir para instrumentalizar as religiões, mas para reconhecer as condições de vida de seus integrantes e garantir direitos.
Ela também alertou que a atuação política de grupos religiosos não pode ser confundida com a concessão de privilégios institucionais. O diálogo democrático pressupõe que diferentes comunidades possam apresentar suas demandas, sem que uma delas adquira autoridade para definir os direitos das demais.
Igrejas inclusivas e combate à discriminação contra pessoas LGBTQIA+
A entrevista também abordou a relação entre conservadorismo religioso, diversidade sexual e políticas de proteção à população LGBTQIA+.
Thaís afirmou que o diálogo inter-religioso precisa incluir comunidades que acolhem pessoas LGBTQIA+ e reconhecem sua participação na vida religiosa. Segundo ela, existem igrejas católicas e evangélicas inclusivas que oferecem espaços de pertencimento a pessoas frequentemente afastadas de ambientes religiosos pelo preconceito.
A advogada relatou a participação do setorial em um encontro com a deputada federal Erika Hilton, em Fortaleza, acompanhado por representantes de uma comunidade cristã inclusiva. A atividade buscou apresentar uma experiência religiosa que combina a prática da fé com o acolhimento de pessoas LGBTQIA+.
Para Thaís, o encontro demonstrou que não há uma única posição possível dentro do cristianismo sobre a diversidade sexual e de gênero. A existência de comunidades inclusivas contraria a ideia de que todas as pessoas religiosas necessariamente apoiam posições discriminatórias.
A convidada defendeu que convicções individuais não podem impedir a criação de políticas de saúde ou de proteção social destinadas a pessoas cuja identidade de gênero ou orientação sexual seja diferente daquela considerada adequada por determinados grupos religiosos.
“Os meus valores, os valores que eu acredito, eles não podem ser determinantes para a criação de políticas públicas”, afirmou.
A declaração sintetiza sua defesa de um Estado que respeite as convicções pessoais sem transformar essas convicções em critérios para restringir direitos. Na avaliação da advogada, o compromisso com a democracia exige que as instituições públicas atendam a população em sua diversidade.
Thaís também criticou discursos que, em sua interpretação, contribuem para a estigmatização de pessoas trans e de outras minorias sexuais. Para ela, quando a religião é utilizada para legitimar a exclusão, seus valores passam a ser mobilizados em favor de um projeto político particular, em vez de contribuir para a proteção da vida e da dignidade humana.
A defesa da dignidade humana como ponto de encontro
Ao tratar da relação entre diferentes tradições religiosas, Thaís sustentou que a defesa da justiça social pode constituir um ponto de aproximação entre comunidades com crenças distintas.
“Se a gente promove a democracia, consequentemente todas as religiosidades têm um ponto em comum, que é a defesa da justiça social, a defesa do bem comum e da dignidade humana”, afirmou.
A advogada reconheceu que as tradições religiosas possuem diferenças teológicas e práticas. Para ela, essas divergências não impedem a construção de agendas comuns em torno de direitos e necessidades sociais.
A entrevistada também criticou o uso de discursos religiosos para justificar violência, discriminação e conflitos. Ao mencionar guerras e a perseguição de grupos identificados por sua religião ou identidade de gênero, argumentou que a fé não deve ser transformada em justificativa para retirar a dignidade de outras pessoas.
Nesse contexto, Thaís utilizou uma referência à condenação de Jesus Cristo para questionar a distância entre a profissão pública de uma fé e as atitudes de quem rejeita princípios de proteção e solidariedade.
“Se Jesus viesse hoje, eu tinha certeza […] que esse mesmo povo religioso, se Jesus Cristo voltasse novamente, o assassinaria novamente”, declarou.
A fala foi apresentada como uma crítica à contradição entre a adesão declarada ao cristianismo e práticas políticas que, na interpretação da entrevistada, estimulam o ódio e a exclusão. O argumento não se dirige a todos os cristãos, mas a comportamentos que utilizam símbolos e discursos religiosos para legitimar posições incompatíveis com o respeito à vida e à dignidade humana.
Thaís também relacionou a defesa da laicidade ao combate à violência contra pessoas trans e à necessidade de enfrentar a intolerância contra comunidades muçulmanas e de matriz africana. Para ela, o diálogo precisa alcançar os territórios e produzir mudanças nas relações cotidianas, com participação do poder público e das organizações sociais.
Democracia exige diálogo para além do período eleitoral
Na avaliação de Thaís, a participação das comunidades religiosas na democracia não pode se limitar às campanhas eleitorais. Ela defendeu que o diálogo seja mantido durante todo o mandato dos representantes eleitos, de modo que as necessidades dos territórios sejam consideradas na formulação e na execução das políticas públicas.
A advogada observou que grupos políticos com presença frequente nas comunidades religiosas conseguem estabelecer vínculos de pertencimento e interlocução. Por isso, considera importante que iniciativas comprometidas com a laicidade também desenvolvam um trabalho contínuo de escuta e participação.
A entrevistada citou um encontro inter-religioso realizado no sábado, 17 de outubro, como exemplo da presença de diferentes tradições em atividades políticas. Segundo seu relato, participantes de comunidades que costumam ter pouca visibilidade no debate eleitoral manifestaram apoio ao Presidente Lula.
Para Thaís, a experiência reforça a necessidade de não reduzir a relação entre religião e política às disputas entre católicos e evangélicos. A participação de outras comunidades amplia a compreensão sobre a diversidade da sociedade e permite que diferentes grupos apresentem suas próprias demandas.
Ela também ressaltou que a defesa da laicidade precisa ser acompanhada por medidas concretas contra a discriminação. A existência de garantias constitucionais é fundamental, mas sua efetivação depende da atuação das instituições e da possibilidade de responsabilizar violações.
Ao encerrar a entrevista, Thaís voltou a defender a presença do Estado nas comunidades de fé e nos espaços frequentados por pessoas sem religião. O objetivo, afirmou, é assegurar que todos se reconheçam como integrantes da democracia brasileira, independentemente de suas convicções.
A mensagem final da advogada foi que o diálogo inter-religioso precisa ultrapassar as declarações de tolerância e se traduzir em participação política, proteção de direitos e políticas públicas que não estabeleçam hierarquias entre crenças.
A laicidade, em sua interpretação, constitui uma garantia coletiva: permite que diferentes tradições religiosas existam e se expressem livremente, ao mesmo tempo que impede que uma delas determine as condições de cidadania das demais.
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