Médico e ex-secretário da Saúde do Ceará defende a mobilização de profissionais da saúde em apoio ao Presidente Lula, relembra os impactos da pandemia de Covid-19 e alerta para os riscos de retrocessos no SUS
A mobilização de profissionais da saúde em defesa da democracia e da candidatura do Presidente Lula foi o tema da edição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que recebeu o médico oncologista Arruda Bastos, ex-secretário da Saúde do Ceará, professor universitário, comunicador e integrante do movimento Médicas e Médicos pela Democracia. Durante a entrevista, o convidado discutiu a participação política da categoria, os efeitos das políticas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro e a importância das eleições de 2026 para o futuro do Sistema Único de Saúde (SUS).
Apresentado por Sara Goes, com comentários de Antônio Ibiapino, o programa abordou a atuação da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia e de coletivos que organizam profissionais da saúde em diferentes estados. Arruda Bastos relatou que a mobilização tem alcançado novos participantes e que o trabalho de conscientização também ocorre por meio das redes sociais, com a divulgação de informações sobre políticas públicas e indicadores de saúde.
Ao explicar por que decidiu se envolver publicamente na campanha eleitoral, o médico afirmou que sua posição está relacionada à responsabilidade social de quem teve acesso à educação e à formação profissional. Para ele, a defesa da democracia exige que os profissionais considerem as condições de vida das pessoas que dependem dos serviços públicos.
“Eu sou privilegiado de ser assim, de estar na condição que eu tenho hoje, muito trabalho e tudo, mas foi privilegiado. E os outros e as outras populações que precisam realmente do governo, que precisam dos programas sociais, que precisam do SUS?”, questionou.
Arruda Bastos argumentou que a experiência pessoal de estabilidade econômica não pode ser o único parâmetro para avaliar as políticas de saúde. Em sua avaliação, a participação dos médicos no debate eleitoral deve levar em conta a realidade de quem depende do atendimento público, dos medicamentos distribuídos pelo Estado e dos programas de prevenção e assistência.
Médicos pela Democracia ampliam mobilização no segundo turno
O entrevistado destacou a realização de atividades públicas no Ceará e a articulação nacional do movimento. Segundo ele, profissionais da saúde têm se organizado para defender a democracia e apresentar à sociedade os efeitos das decisões governamentais sobre a assistência médica.
Arruda Bastos mencionou um encontro realizado no Parque do Cocó, em Fortaleza, com a participação de representantes políticos e profissionais vinculados à mobilização. Também citou a atuação do coletivo Rebento e de outros grupos estaduais que compartilham a defesa da saúde pública e da democracia.
A organização busca ampliar a participação de médicos que, segundo o entrevistado, ainda demonstram receio de manifestar suas posições políticas em ambientes profissionais e sociais. Para ele, a presença pública desses trabalhadores ajuda a combater a percepção de que a categoria médica tem uma posição política uniforme.
“Existem médicos com esse mesmo pensamento que votam no Lula. São muitos, muitos ainda acanhados que precisam deixar esse acanhamento”, afirmou.
O médico também chamou atenção para a entrada de novos profissionais no mercado de trabalho, especialmente aqueles que vivenciaram dificuldades socioeconômicas antes de ingressar na universidade. Na avaliação dele, a ampliação do acesso ao ensino superior contribuiu para diversificar a formação médica e pode fortalecer a compreensão das desigualdades que afetam a população brasileira.
Arruda Bastos defendeu ainda que os beneficiários de políticas de inclusão educacional e social compartilhem suas experiências. Para ele, relatos sobre as mudanças provocadas pela expansão das universidades e dos programas públicos ajudam a tornar mais concretos os efeitos dessas iniciativas na vida das famílias.
Pandemia de Covid-19 ocupa lugar central no debate eleitoral
A condução da pandemia durante o governo Jair Bolsonaro foi um dos principais pontos da entrevista. Arruda Bastos criticou as decisões tomadas pelo governo federal e afirmou que a memória dos mais de 700 mil mortos por Covid-19 no Brasil deve integrar a avaliação dos eleitores sobre os projetos políticos em disputa.
“A memória é a nossa principal ação contra o retrocesso, nossa principal arma contra o retrocesso”, declarou.
O médico questionou a afirmação de Flávio Bolsonaro, durante debate eleitoral, de que o governo de seu pai teria feito o melhor possível na área da saúde. Para Arruda Bastos, essa justificativa desconsidera decisões que, em sua avaliação, prejudicaram a resposta brasileira à emergência sanitária, como a resistência à vacinação, a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e a falta de incentivo adequado às medidas de prevenção.
Ele também mencionou os problemas enfrentados pelo país na cobertura vacinal e o agravamento de indicadores de saúde durante o período, incluindo a mortalidade materna e infantil.
Ao tratar do tema, o entrevistado ressaltou que suas críticas se baseiam em dados que procura verificar antes de publicar seus vídeos nas redes sociais. Segundo ele, a divulgação de informações conferíveis é essencial para enfrentar o negacionismo científico e permitir que os eleitores avaliem as consequências das decisões tomadas durante a pandemia.
Arruda Bastos também recordou sua participação na mobilização de profissionais e entidades em torno das denúncias examinadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19. Na entrevista, afirmou que considera necessário investigar responsabilidades políticas relacionadas à condução da crise sanitária.
As declarações sobre possíveis responsabilidades criminais foram apresentadas pelo médico como parte de sua avaliação política e jurídica. A atribuição de responsabilidade penal, contudo, depende de apuração e decisão das autoridades competentes.
Defesa do SUS e preocupação com propostas para a saúde
A discussão sobre o futuro do Sistema Único de Saúde ocupou outro trecho importante do programa. Arruda Bastos manifestou preocupação com propostas associadas à redução de recursos públicos e à ampliação do espaço dos planos privados de saúde.
O médico citou a Argentina como exemplo de um país cuja política econômica, sob o governo de Javier Milei, acompanha com preocupação. Na avaliação dele, a orientação política defendida por setores da direita brasileira pode colocar em risco programas de assistência e de acesso a medicamentos.
Ao mencionar a possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência da República, Arruda Bastos alertou para o que considera riscos de descontinuidade de políticas públicas. Entre as iniciativas que destacou estão o Mais Médicos, o Farmácia Popular, a ampliação da atenção primária e os programas de vacinação.
Ele defendeu que a avaliação eleitoral considere os efeitos de eventuais cortes orçamentários sobre os serviços oferecidos à população. Para o médico, a saúde pública depende de financiamento contínuo e de políticas que assegurem atendimento para pessoas que não podem pagar por serviços privados.
Arruda Bastos também relacionou a expansão do acesso à educação à formação de novos profissionais da saúde. Ao recordar seu ingresso na Faculdade de Medicina, em 1974, mencionou a quantidade limitada de vagas disponíveis no Ceará naquele período e as barreiras enfrentadas por estudantes de escolas públicas.
Na sua análise, a ampliação do ensino superior e a criação de novas oportunidades educacionais contribuíram para modificar esse cenário. Ele defendeu a continuidade de políticas que permitam a formação de profissionais de diferentes origens sociais.
O acesso à universidade como política de saúde pública
A entrevista também abordou a relação entre educação, desenvolvimento científico e capacidade de atendimento do SUS. Arruda Bastos argumentou que o país precisa ampliar a formação de profissionais e fortalecer a pesquisa para responder às necessidades da população.
O médico considera que a expansão das universidades e dos institutos federais tem importância que ultrapassa o ambiente acadêmico. Para ele, o investimento em educação contribui para formar profissionais capazes de atuar em diferentes regiões do país e de desenvolver soluções para problemas sanitários.
Ao comentar sua própria trajetória, reconheceu que teve condições favoráveis para estudar e construir a carreira. A partir dessa experiência, sustentou que o acesso à formação profissional deve ser tratado como uma oportunidade a ser ampliada, especialmente para quem enfrenta dificuldades econômicas.
O argumento reforçou a defesa de políticas públicas que combinem educação e saúde. Na avaliação do entrevistado, a continuidade dessas iniciativas depende das escolhas feitas nas eleições e da capacidade de mobilização de setores comprometidos com a redução das desigualdades.
Escala 6×1 e direitos dos trabalhadores entram na discussão
Outro tema abordado no programa foi a redução da jornada de trabalho e o debate sobre o fim da escala 6×1. Arruda Bastos apresentou um vídeo em que critica a posição atribuída a Flávio Bolsonaro sobre o assunto e questiona a possibilidade de mudanças de posicionamento motivadas pela disputa eleitoral.
Na gravação exibida durante a entrevista, o médico defendeu a jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial. Também alertou para o risco de que compromissos assumidos durante a campanha não sejam mantidos depois da eleição.
“A escala 6 por 1 é uma jornada da exaustão. Quem trabalha de verdade merece descansar”, afirmou no vídeo.
A discussão foi relacionada aos direitos trabalhistas e às condições de vida de quem precisa conciliar longas jornadas com responsabilidades familiares. O médico defendeu que os eleitores considerem o histórico dos candidatos ao avaliar suas posições sobre mudanças na legislação do trabalho.
O tema também foi associado à ampliação da licença-maternidade. Arruda Bastos criticou a posição que atribuiu a Flávio Bolsonaro em uma votação sobre o assunto quando ele exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro.
Para o entrevistado, as decisões sobre direitos das mulheres trabalhadoras precisam ser consideradas na avaliação das propostas apresentadas durante a campanha eleitoral.
Mobilização nas redes sociais para combater a desinformação
Arruda Bastos relatou que tem utilizado as redes sociais para divulgar vídeos curtos sobre saúde pública e temas relacionados à eleição. Segundo ele, a produção desse material é precedida pela consulta a informações que possam ser verificadas.
Durante o programa, o médico incentivou outros profissionais a publicar vídeos com seus nomes, profissões e estados de atuação, mostrando que existem integrantes da categoria comprometidos com a defesa do SUS e da democracia.
A iniciativa busca ampliar a visibilidade desses profissionais e contrapor a ideia de que a medicina constitui um grupo politicamente homogêneo. O entrevistado também ressaltou a importância de que pessoas beneficiadas por programas públicos relatem as mudanças ocorridas em suas vidas.
Na avaliação dele, a comunicação direta pode contribuir para esclarecer dúvidas de eleitores que não se identificam necessariamente com a militância partidária, mas que precisam avaliar as consequências das propostas em disputa.
O médico defendeu que a informação política seja acompanhada de dados e explicações acessíveis. Para ele, a divulgação responsável de informações é especialmente importante quando o debate envolve a saúde, área em que decisões governamentais podem produzir consequências concretas para a população.
Eleição de 2026 e o futuro das políticas públicas
Ao longo da conversa, Arruda Bastos sustentou que a escolha eleitoral deve considerar a continuidade das políticas sociais e o papel do Estado na garantia de direitos. O médico defendeu a reeleição do Presidente Lula e associou esse posicionamento à preservação de programas de saúde, educação e proteção social.
O entrevistado também argumentou que profissionais com maior estabilidade econômica precisam considerar as necessidades de quem depende dos serviços públicos. Para ele, a defesa da democracia envolve reconhecer que as decisões políticas afetam de maneira diferente os diversos grupos sociais.
A participação dos médicos no debate eleitoral, segundo Arruda Bastos, pode contribuir para que questões sanitárias tenham maior visibilidade durante a campanha. Ele defendeu que a discussão sobre a pandemia permaneça presente na memória coletiva e que as propostas para o SUS sejam examinadas à luz de seus possíveis efeitos sobre o atendimento.
A entrevista terminou com um apelo à participação pública e à divulgação de informações. Ao reafirmar seu compromisso com a mobilização, o médico destacou a importância de que os profissionais da saúde assumam posições diante das decisões que podem afetar o futuro do país.
A mensagem central de Arruda Bastos foi a de que a experiência da pandemia precisa continuar orientando o debate sobre saúde pública. Para ele, a avaliação das candidaturas deve considerar tanto as decisões já tomadas quanto os compromissos apresentados para os próximos anos.
Assista à entrevista completa:
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