Professor afirma que Elmano demonstrou domínio sobre a administração estadual, defende checagem de fatos nos debates e considera positiva a entrada de Luizianne Lins na chapa governista
Da Redação
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará expôs diferenças na abordagem dos principais concorrentes, revelou fragilidades no uso de dados por Ciro Gomes e mostrou um Elmano de Freitas preparado para defender as ações de sua gestão. A avaliação é de Martônio Mont’Alverne, doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt, professor titular da Universidade de Fortaleza (Unifor) e procurador do Município de Fortaleza.
Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes e com comentários de Antonio Ibiapino, o professor analisou o encontro realizado pela Band no domingo, 9 de agosto. O debate reuniu Elmano e Ciro, enquanto Pedro Brito, candidato do Novo, não compareceu.
A ausência do terceiro concorrente reduziu o número de participantes, mas permitiu que os dois candidatos presentes tivessem mais tempo para confrontar informações e apresentar suas posições. Segurança pública, saúde e desenvolvimento econômico estiveram entre os assuntos que dominaram a transmissão.
Para Martônio, a postura adotada por Ciro chamou atenção por se afastar, ao menos naquela noite, do comportamento agressivo que marcou outras participações do ex-governador em disputas eleitorais.
“O candidato Ciro Gomes parece que resolveu, pelo menos naquele debate, deixar de lado a figura enraivecida, de proferir impropérios, que é, digamos assim, a aposta política dele. O Ciro sempre foi muito agressivo. Naquele debate estava bem longe disso”, afirmou.
A mudança de comportamento, entretanto, não foi acompanhada pelo domínio das informações que o professor esperava de um político com a experiência administrativa de Ciro. Martônio recordou que o candidato já exerceu os cargos de deputado estadual, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, deputado federal e ministro, além de ter disputado a Presidência da República em quatro ocasiões.
“Ele tem um acúmulo muito grande nesse sentido e tropeçou e escorregou em diversos momentos quando foi citar determinados dados”, avaliou.
Informações contestadas após o debate
Entre os pontos mencionados pelo professor está a discussão sobre a presença de organizações criminosas no Ceará. Durante o confronto, Elmano declarou que o Comando Vermelho já atuava no estado desde 1993, informação apresentada como resposta à tentativa de atribuir exclusivamente aos governos mais recentes a expansão das facções.
Outro episódio envolveu o Hospital Regional do Cariri. Ciro fez acusações sobre o funcionamento da unidade e apresentou cálculos relacionados às internações em leitos de terapia intensiva. No dia seguinte, o ex-diretor do hospital e vice-prefeito de Juazeiro do Norte, Giovanni Sampaio, contestou as declarações.
Sampaio afirmou que a unidade possui 50 leitos de UTI, atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde e tem importância regional para dezenas de municípios. Também desafiou Ciro a formalizar suas suspeitas e solicitar uma auditoria, em vez de apresentar a denúncia apenas durante o debate eleitoral.
Martônio considerou que as respostas posteriores reforçaram a percepção de que Ciro utilizou informações equivocadas. “Depois apareceu gente do hospital de Juazeiro do Norte para dizer que está funcionando muito diferente do que ele falou”, observou.
O professor também contestou a insinuação de que pacientes poderiam passar à frente nas filas do SUS por interferência política. Como procurador municipal, Martônio trabalha diretamente com questões relacionadas à saúde pública e explicou que o atendimento é regulado por estados e municípios.
“A fila de consultas, a fila de cirurgias, a fila de tudo do SUS, que é um sistema fantástico, é regulada pelo estado e pelo município”, declarou.
Segundo ele, eventuais alterações na ordem do atendimento ficam registradas. Isso ocorre, por exemplo, quando uma decisão judicial determina prioridade para um paciente em razão da gravidade ou da urgência do caso.
“Se houver um atendimento fora daquela fila, isso fica registrado. A não ser que tenha uma ordem, uma decisão judicial, o que é muito comum, em que alguém realmente passa na frente dos outros. Mas esse caso fica lá registrado também”, explicou.
Elmano demonstrou segurança
Na avaliação de Martônio, Elmano apresentou desenvoltura para responder às acusações, formular perguntas e contestar números apresentados pelo adversário. O professor conhece o governador desde o período em que ambos integraram a administração da então prefeita Luizianne Lins. Elmano era secretário municipal da Educação, enquanto Martônio exerceu o cargo de procurador-geral de Fortaleza.
A postura firme do governador, portanto, não foi uma surpresa para o convidado. O desempenho diante das câmeras, no entanto, mostrou uma preparação específica para o confronto.
“O que me chamou atenção foi a desenvoltura dele em responder as perguntas, em formular as perguntas. E, a cada afirmação que o Ciro fazia, uma afirmação que não era verdadeira, ele sabia perfeitamente contestar”, disse.
Martônio destacou as respostas de Elmano sobre os concursos e a incorporação de novos profissionais às forças de segurança, assim como os esclarecimentos sobre a construção e o funcionamento das unidades de saúde.
Embora tenha considerado o debate positivo, o professor apontou as limitações do formato. Temas complexos, como a organização da saúde pública estadual, não podem ser explicados adequadamente em intervenções de dois ou três minutos. A repetição de alguns assuntos durante a noite, contudo, permitiu que os candidatos aprofundassem parte das respostas.
Antonio Ibiapino também avaliou que o debate foi equilibrado e lembrou que Elmano explorou a permanência no PT como elemento de contraste com a trajetória partidária de Ciro. O ex-governador passou por diferentes legendas ao longo de sua carreira e retornou ao PSDB para disputar a eleição estadual.
Martônio afirmou que divergências e disputas internas fazem parte da vida partidária. Segundo ele, o problema na trajetória de Ciro está na dificuldade de permanecer nas organizações políticas quando deixa de ocupar uma posição central.
“Ele nunca construiu uma vida partidária nos seus quase 40 anos, nos seus quase 50 anos de vida como político”, analisou. “Se ele eventualmente não é ungido como a máxima figura de um determinado partido, ele sai e vai para outro. Assim tem sido a sua trajetória.”
Checagem ainda chega tarde
A repercussão imediata do debate nas plataformas digitais também foi discutida no programa. Os próprios candidatos demonstraram estar atentos à circulação de cortes e respostas nas redes. Em determinado momento, Ciro informou que sua equipe publicaria material para contestar uma declaração de Elmano.
O problema, segundo os participantes, é que uma informação falsa apresentada durante a transmissão pode alcançar milhares de eleitores antes da divulgação de qualquer correção. As respostas sobre o Hospital Regional do Cariri, por exemplo, só ganharam circulação expressiva no dia seguinte.
Durante o programa, um espectador sugeriu que as emissoras realizassem checagem em tempo real e, ao final de cada debate, informassem quantas declarações falsas foram apresentadas por cada candidato.
Martônio considerou a proposta importante. Para ele, as emissoras poderiam formar equipes especializadas para verificar as informações e oferecer respostas durante a própria transmissão, assim como já mantêm bancas jurídicas responsáveis pela análise dos pedidos de direito de resposta.
A medida reduziria a vantagem de quem lança um dado falso ou distorcido sabendo que a correção será mais lenta e poderá alcançar um público menor. Também contribuiria para recuperar a utilidade dos debates como instrumentos de esclarecimento eleitoral.
A entrada de Luizianne Lins na campanha
A participação de Luizianne Lins como candidata ao Senado também esteve no centro da entrevista. Martônio considerou sua presença na chapa governista positiva para a campanha e para a representação das mulheres na política cearense.
Ele observou que a chapa encabeçada por Ciro não apresenta uma mulher entre seus principais candidatos. No campo governista, Gabriella Aguiar disputa a Vice-Governadoria e Luizianne ocupa a segunda candidatura ao Senado, ao lado de Cid Gomes.
“Eu acho extremamente revigorante a presença da ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, na chapa ao Senado”, afirmou.
O professor destacou a trajetória de Luizianne como vereadora, deputada estadual, prefeita de Fortaleza e deputada federal. Também recordou sua atuação durante o processo que resultou no impeachment de Dilma Rousseff, na mobilização contra a prisão do Presidente Lula e nas campanhas presidenciais do petista.
“É uma verdadeira representante da emancipação das mulheres e da defesa do Estado democrático de direito”, declarou.
Martônio também mencionou políticas implantadas durante os oito anos da gestão de Luizianne em Fortaleza. Para ele, os Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte, os Cucas, representaram uma mudança na relação do poder público com a juventude das áreas mais pobres da cidade.
A Vila do Mar foi citada como exemplo de intervenção que ultrapassou a urbanização. O projeto incluiu saneamento, moradia, requalificação urbana e medidas destinadas às famílias que viviam em condições precárias no litoral oeste de Fortaleza.
“Foi uma percepção humanista do desafio civilizatório que era mudar aquela realidade. Isso foi o que moveu a então prefeita Luizianne Lins”, afirmou Martônio.
Ele ressaltou que o projeto habitacional contemplou unidades adaptadas para pessoas com deficiência e procurou manter os moradores na região, em oposição à retirada das famílias pobres para locais distantes. “O espaço da cidade é para todos. Se o rico passeia na beira-mar, o pobre também vai passear”, defendeu.
Na avaliação do professor, a trajetória administrativa e política de Luizianne a credencia para uma campanha competitiva ao Senado. “Será uma merecida vitória pelo esforço que ela sempre fez”, declarou.
Debate presidencial oferece riscos a Lula
Na parte final da entrevista, Martônio comentou a decisão anunciada pelo Presidente Lula de não participar dos debates do primeiro turno da eleição presidencial. Para o professor, a ausência pode ser uma escolha correta diante do formato atual dos programas e da quantidade de candidatos de direita interessados em concentrar ataques no petista.
“O que o Presidente Lula tem a ganhar com aqueles candidatos? Com Flávio Bolsonaro, que vai mentir, com Ronaldo Caiado, com Renan Santos, que mente também, e com Zema, que não tem ideia da realidade deste país?”, questionou.
Segundo Martônio, Lula teria pouco espaço para explicar temas complexos, como a política externa brasileira, e correria o risco de ver sua imagem explorada em recortes produzidos para as redes sociais. A diferença de idade entre o presidente e alguns adversários também poderia ser utilizada de maneira desfavorável.
“Eu acho acertadíssima a decisão do Presidente Lula de não aparecer nos debates”, afirmou.
O professor ponderou que o cenário poderia ser diferente se houvesse checagem imediata das declarações e se cada encontro fosse dedicado a um assunto específico. Um debate sobre saúde, educação ou política externa permitiria respostas mais consistentes do que as intervenções curtas previstas no modelo atual.
“Se eu tivesse uma checagem de mentiras na hora e se fizesse um debate sobre política externa, educação ou saúde, aí sim um debate desse poderia valer mais a pena para a sociedade”, disse.
Para Martônio, a experiência do primeiro confronto eleitoral do Ceará mostrou que os debates ainda podem oferecer informações relevantes, especialmente quando permitem o enfrentamento direto entre os candidatos. Também deixou evidente, porém, que a contribuição democrática desses encontros depende da verificação dos dados apresentados e de regras capazes de impedir que a falsidade produza vantagem eleitoral antes da chegada do desmentido.
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