Médica e professora da UFC relembrou a resistência à ditadura, a construção do SUS e defendeu a participação eleitoral como instrumento de defesa da democracia e dos direitos sociais**
Da Redação
A importância do voto, a defesa da democracia e o conceito de soberania nacional foram os principais temas da entrevista concedida pela médica, professora titular e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Helena Serra Azul Monteiro ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, em 24 de setembro. Na conversa conduzida por Luiz Regadas, Helena também revisitou sua experiência de militância durante a ditadura militar, a trajetória do movimento sanitário e a construção do Sistema Único de Saúde (SUS).
Ao tratar da conjuntura eleitoral, Helena relacionou a participação política à própria experiência de uma geração que viveu durante o regime militar e passou anos sem poder escolher diretamente o presidente da República, governadores e prefeitos. Ela contou que só votou pela primeira vez em uma eleição presidencial em 1989, após a redemocratização e a Constituição de 1988.
“Eu sou da época que a gente teve uma ditadura militar e que a gente não tinha condição nem de escolher o presidente da República, nem os prefeitos, nem governador”, afirmou. Para a professora, essa experiência histórica ajuda a compreender por que a participação eleitoral não deveria ser tratada como algo secundário.
A defesa do processo democrático apareceu também quando Helena comentou uma controvérsia envolvendo uma declaração atribuída ao então governador do Ceará Ciro Gomes durante uma greve de médicos em 1992. Segundo seu relato, durante as negociações com a categoria, Ciro teria afirmado que médico seria “como sal, branco, barato e se encontra em qualquer local”. Helena afirmou que estava envolvida naquele movimento e que a frase permaneceu na memória de integrantes da categoria.
Ela também relatou que, recentemente, Ciro negou ter feito a declaração e atribuiu a frase ao então presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Chico Monteiro, conhecido como Chico Passeata, que já morreu. Helena afirmou que médicos que participaram daquele episódio se mobilizaram para contestar essa versão, por meio de notas, manifestações e um abaixo-assinado.
“Ele não só nega, como ele imputa a frase ao Chico, que era o presidente do sindicato na época, e não tem nem condição de se defender”, declarou.
A lembrança de Chico Monteiro conduziu a entrevista para outro capítulo da trajetória de Helena: sua participação no movimento estudantil durante a ditadura. Ela contou que ingressou na Faculdade de Medicina em 1967 e que, no ano seguinte, participou das mobilizações que marcaram o ambiente universitário brasileiro.
Foi nesse contexto que surgiu o apelido “Helena Concentração”, enquanto Chico Monteiro ficou conhecido como “Chico Passeata”. Os nomes, segundo ela, estavam relacionados à participação dos dois em atividades do movimento estudantil e nas discussões realizadas no Conselho Universitário.
Helena recordou que as reivindicações daquele período envolviam questões acadêmicas, qualidade do ensino e condições de formação, mas também estavam ligadas a uma discussão mais ampla sobre soberania e autonomia nacional. A entrevistada destacou que sua geração procurava levar essas discussões para além dos espaços universitários.
“Eu acho que era muito importante a gente falar pra população, não ficar só no nível da universidade”, afirmou, estabelecendo uma relação entre aquela experiência e sua participação atual em debates públicos.
Ao abordar a soberania, Helena sustentou que o conceito não deveria ser reduzido a uma questão diplomática ou militar. Para ela, as decisões tomadas sobre educação, saúde, desenvolvimento e políticas públicas também fazem parte da capacidade de um país definir seus próprios caminhos.
“A questão da soberania é muito grave”, disse. A professora relacionou essa discussão às experiências políticas que atravessaram sua juventude e às disputas sobre os rumos do Brasil durante a ditadura.
Ela também recuperou episódios ligados à saúde e à educação durante aquele período, mencionando projetos que, segundo sua lembrança, expressavam a influência estrangeira sobre políticas brasileiras. Em sua interpretação, a soberania deve estar vinculada à capacidade de o país construir políticas de acordo com as necessidades da população.
A defesa da soberania apareceu, ainda, associada à discussão sobre interferência estrangeira. Helena criticou o que considera pressões de outras potências sobre países soberanos e citou diferentes episódios internacionais como exemplos de disputas geopolíticas que, em sua avaliação, acabam produzindo consequências que chegam ao cotidiano das populações.
“Você vê que são exemplos que a gente tem no mundo. Você vê o bloqueio que tem, quer dizer, você viu a posição do Trump em relação à Groenlândia. Se é de interesse deles, eles vão lá, ficam ameaçando, não respeitam a soberania de nenhum país”, afirmou.
A professora ressaltou que decisões tomadas no cenário internacional podem repercutir diretamente na economia e nas condições de vida da população. Em sua análise, questões como petróleo, câmbio, salários e juros não estão isoladas das disputas entre países.
“Às vezes a gente fala que parece que é uma coisa distante, mas não é. Tem a ver com a nossa vida de todo dia”, afirmou.
A entrevista também retomou a experiência brasileira de construção do sistema público de saúde. Como médica e participante do movimento sanitário, Helena comparou a estrutura existente antes da criação do SUS com o modelo universal estabelecido pela Constituição de 1988.
Ela lembrou que, antes do SUS, o acesso à assistência médica estava fortemente vinculado à condição profissional e à contribuição para os institutos previdenciários. Trabalhadores com carteira assinada tinham acesso aos institutos de assistência vinculados à Previdência, enquanto pessoas sem vínculo formal dependiam de outras formas de atendimento.
Segundo Helena, a construção do SUS foi resultado de um longo processo de mobilização envolvendo profissionais de saúde, pesquisadores e movimentos sociais. Ela mencionou também a participação de Chico Monteiro em conferências e discussões relacionadas à reforma sanitária.
“Você vê com todas as dificuldades aqui no Ceará, você tem um avanço, porque você tem toda a hierarquização chamada do SUS, as portas de entrada, o posto de saúde, as UPAs, os hospitais regionais”, afirmou.
Para a professora, as dificuldades existentes no sistema não anulam a importância de sua existência. Ela defendeu o aumento do financiamento e a melhoria da qualidade dos serviços, ao mesmo tempo em que destacou áreas nas quais o SUS possui atuação nacional, como vacinação e transplantes.
“Tem problemas, tem, mas a gente tem que reforçar o SUS”, declarou.
A comparação com outros sistemas de saúde também fez parte da conversa. Helena citou os custos da assistência médica nos Estados Unidos para defender a importância de um sistema público de acesso amplo. A argumentação apresentada por ela partiu de sua experiência profissional e de sua avaliação sobre o modelo brasileiro de saúde.
A professora também relacionou a defesa do SUS à discussão sobre democracia. Em sua leitura, a possibilidade de acesso a políticas públicas integra o próprio conteúdo material da cidadania. Para além do direito formal de votar, ela defendeu uma democracia associada a direitos sociais e à redução das desigualdades.
Essa compreensão apareceu com maior força no encerramento da entrevista, quando Helena falou sobre sua relação pessoal com o voto. Mesmo afirmando que já está dispensada de votar, por sua idade, ela declarou que não abre mão do direito de participar das eleições.
“Eu já tô dispensada de votar, mas não abro mão desses direitos”, afirmou.
Helena defendeu a participação eleitoral e apresentou sua própria posição política favorável ao projeto que identifica como progressista e associado ao governo Lula. Como se tratava de uma declaração pessoal da entrevistada, sua defesa foi apresentada durante o programa como parte de sua avaliação sobre a disputa eleitoral.
“Eu acho que é importantíssimo que a gente tenha uma sociedade mais igualitária. Ela não é perfeita, os governos não são perfeitos, mas a gente tem que defender essa possibilidade das pessoas viverem melhor, serem felizes, usufruir da riqueza que é criada no país”, declarou.
A trajetória pessoal da professora atravessa, assim, diferentes momentos da história recente brasileira: a juventude durante a ditadura, a participação no movimento estudantil, a militância no campo da saúde, a construção do SUS e a redemocratização. Ao longo da entrevista, essas experiências foram utilizadas por Helena para defender a importância de preservar a memória política e de compreender o voto como parte de um processo histórico mais amplo.
Sua fala também estabeleceu uma relação entre soberania e direitos sociais. Na perspectiva apresentada durante o programa, um país soberano não seria apenas aquele capaz de defender seus interesses diante de outras nações, mas também aquele que consegue formular políticas públicas voltadas às necessidades de sua população.
A entrevista terminou com um apelo de Helena à participação política. Para ela, a experiência de ter vivido um período em que não havia eleições diretas para diversos cargos ajuda a compreender o valor do direito conquistado durante a redemocratização.
“Eu fiquei vários anos sem ter esse direito, então teve possibilidade de votar e eu ainda brinco com o pessoal em qualquer nível. Eu nunca me abstenho, sempre tô presente”, afirmou.
A participação eleitoral, na leitura apresentada pela professora, aparece vinculada à possibilidade de escolha sobre os rumos do Estado e às políticas que afetam diretamente a vida da população. A discussão realizada no Café com Democracia terminou, portanto, retomando a ligação entre memória histórica, soberania, direitos sociais e participação política.
Referências
1968: o ano que não terminou
Zuenir Ventura, 1988
Artistas e personalidades citados na entrevista: Ciro Gomes, Chico Monteiro, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
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